Evolução
ou terapia de choque?
Leprechaum
é um duende do folclore irlandês. É um sapateiro que guarda um pote de ouro no
final do arco-íris. Se você consegue capturá-lo, nosso duende concede três
desejos em troca da liberdade. Efeito-substituição, desejo por liberdade.
Nossos duendes da escola das expectativas racionais, adoram causa-efeito, no
pote dos modelos estocásticos de equilíbrio geral, os desejos são reais, não
imaginários: Taxa natural de desemprego, taxa neutra de juros e PIB (Produto
Interno Bruto) potencial.
“Um
fator-chave na organização da economia é o conjunto de crenças que cada pessoa
tem sobre os outros. As pessoas mudam suas crenças por meio de pesquisas,
cálculos e análises, e quando se analisa a questão adequadamente, isso dá
origem a anomalias consideráveis em comparação com as teorias padrão que eu e
muitos outros desenvolvemos. Portanto, em certo sentido, me sinto perdido em
relação ao que fiz no passado”. (Keneth Arrow)
Aqui
cabe um comentário do craque Tostão, tricampeão mundial de 1970, gente que
jogou dentro de campo: aí, os sábios explicam tudo, com várias teorias. Isso me
faz lembrar da medicina. Muitos estudantes, perto da formatura, não têm dúvidas
de nada e acham que sabem tudo. Após vários anos de trabalho e de estudo,
percebem que a medicina é complexa e que há muitas incertezas. No esplendor
técnico da carreira, descobrem, principalmente, os mais bem preparados, que
sabem muito pouco.
“Resultados
matemáticos sólidos devem, portanto, ser encarados pelo praticante com
sentimentos um tanto contraditórios. Na melhor das hipóteses, representam uma
revelação relevante sobre o seu problema; na pior, podem lançar dúvidas sobre a
adequação de suas suposições”. (William Baumol)
Nossos
Leprechaum econométricos transformam lendas em realidade. Usando convenções e
conceitos como verdades, travestidas pelo véu da econometria. Nesse mundo do
folclore científico, matemática virou estatística e vice-versa. Os números, os
dados e os conceitos servem não a economia e a sociedade, mas como muleta de
apoio para se justificarem a si mesmos. O importante não é entender as
relações, mas sim, estar certo! Os modelos existem para si mesmos! E para os
duendes economistas!
“Modelos
macroeconômicos padrão postulam agentes maximizadores intertemporais e
desenvolvem equações dinâmicas que vinculam variáveis econômicas como consumo,
renda, investimento, taxas de juros e emprego. Em seguida, analisam
propriedades dessas equações, como cointegração, causalidade de Granger e
restrições de parâmetros. A suposição de agentes idênticos ou homogêneos leva
os teóricos macroeconômicos a analisarem essas propriedades diretamente em
dados agregados. Mas isso representa um enorme problema, como fica claro quando
a suposição de homogeneidade é analisada em dados desagregados. O abandono da
suposição de homogeneidade mostra que, exceto em casos aleatórios, a
causalidade granular unidirecional da cointegração e as restrições de
parâmetros entram em colapso”. (Heinz D.Kurz e Neri Salvadori)
Modelos
são importantes na tentativa de através de testes de hipóteses de explicar a
realidade. Não negamos sua importância, muito menos dos dados e da matemática,
desde que produzam algo de útil para a sociedade, e não apenas para satisfazer
o ego do economista leprechaum! O poder de transformação depende do foco e a
distração é a maneira de impedir esse poder. A informação que parece lógica
demais é uma fuga para assumir suas responsabilidades. Entender as relações
econômicas! E não apenas relações de causa-efeito!
Diria o
grande Freud: e, finalmente, os grupos nunca ansiaram pela verdade, exigem
ilusões e não podem passar sem elas.
Os
economistas mainstream, vivem de ilusões que parecem verdades. Os grupos se
defendem, onde a discussão permeia a casa decimal. Exemplo, não se discute o
regime de meta de inflação e a regra de Taylor, mas a meta. Como acentua o pai
da psicanálise, as ilusões algébricas, distraem o foco, e parecem verdades.
Incontestáveis! Contra números não há argumentos!
“As
estatísticas são importantes, mas os números não podem ser tão prepotentes
quantos os humanos”. (Tostão)
Nos
modelos não são humanos, muito menos gente comum, somos agentes econômicos
racionais. Alguém pode me dizer o que seria isso?
“A
verdade é que os modelos econômicos são um pouco como crianças: em certo ponto,
eles assumem uma personalidade própria, em muitos aspectos independente das
aspirações de seus pais”. (Emiliano Branccacio)
Permitam
me aqui citar uma frase do grande técnico português de futebol José Mourinho,
muito provavelmente, será desqualificado, por viver no mundo real e de não ter
frequentado a academia, menos ainda, a de economia. Talvez por isso seu senso
de observação não esteja preso a crenças, a números a conceitos.
Disse
ele: “uma coisa é o conhecimento que está ao alcance de todos e outra coisa é a
capacidade de produzires o próprio conhecimento”. O fato de o conhecimento
estar ao alcance de todos é uma enorme contribuição para a preguiça mental. Nas
nossas academias brasileiras de economia, qual conhecimento está ao alcance de
todos? A linha dos leprechaum e seu pote de ouro de convenções? O dogma do
equilíbrio? A ditadura da econometria? Visão única ou preguiça mental?
“Uma
Universidade é um lugar em que o conhecimento é ensinado acima de todas as
diferenças religiosas e nacionais, onde a investigação é realizada a fim de
mostrar aos homens até que ponto compreendem o mundo ao seu redor e até que
ponto podem controlá-lo”. (Freud)
Pelo
menos deveria ser, não?
“Se os
agentes têm incentivos e preferências diferentes, e especialmente se enfrentam
restrições diferentes nos diversos mercados em que operam, eles tipicamente se
comportam de maneira diferente dependendo, entre outras coisas, da distribuição
de renda e riqueza. Tudo isso é excluído na maioria dos modelos dominantes da
macroeconomia moderna. Portanto, o agente em questão é erroneamente chamado de
“representativo”: ele não representa uma variedade de agentes diferentes, mas
um único”. (Heinz D.Kurz e Neri Salvadori)
“Mas o
desenvolvimento dinâmico, em contraste com a fotografia instantânea, ficava
incompleto e extremamente confuso”. (John Maynard Keynes, Prefácio da Teoria
Geral)
“Em
economia, são desenvolvidos modelos matemáticos que descrevem o sistema como se
fosse linear, e o rigor matemático baseado em axiomas e linearidade é
preferível à validade empírica. O individualismo metodológico e a hipótese da
linearidade são considerados válidos. No entanto, um modelo matemático linear é
uma função polinomial, cujos coeficientes são independentes uns dos outros ou
tão fracamente dependentes que as interações podem ser negligenciadas”. (M.
Gallegati)
O
truque é como realçamos anteriormente nesse texto, é desviar o foco da
discussão. Os economistas maistream leprechaum, mudam o pote de ouro. Discutir
conceitos e convenções como certezas algébricas, passa a percepção de ser
científico, exato, como a química e a física. A retórica de usar a matemática,
como um sonho de exatidão e uso de conexões de funções lineares, esconde a
realidade dinâmica das relações econômicas para uma certeza aparente. Quem não
conhece matemática, estatística e econometria, está fora do debate econômico,
pois não tem conhecimento científico para debater com os experts. Assim, o
mundo universal econômico dos modelos de equilíbrio geral reduz a vida
econômica e um possível saber em: quanto acha que deve ser a taxa natural de
desemprego, tana neutra de juros, PIB Potencial? Uns acham 2%, outros 2,2% e,
assim vai. Ex ante siga a receita da bula e de índices, que assim, consertamos
essa tal realidade, o equilíbrio. E ex post? Se a previsão errar, sempre tem
uma explicação algébrica e gráficos!
“Suponha
que alguém se sentasse ao meu lado e anunciasse que era Napoleão Bonaparte. A
última coisa que quero é entrar em uma discussão técnica sobre táticas de
cavalaria na Batalha de Austerlitz. Se eu fizer isso, tacitamente me deixarei
levar para o jogo em que ele é Napoleão. Ora, Bob Lucas e Tom Sargent adoram
discussões técnicas, porque aí você aceita tacitamente suas premissas básicas;
sua atenção é desviada da fraqueza fundamental da história geral. Como acho a
abordagem geral ridícula, respondo tratando-a como ridícula, rindo dela — para
não cair na armadilha de tratá-la com seriedade e passar para questões
técnicas”. (Bob Solow, em Klamer, 1984, p. 146).
“Nenhum
cientista é mais fervoroso do que os economistas em apregoar seu rigor como um
sinal de superioridade sobre outras ciências sociais, provavelmente equiparando
o rigor à construção de um modelo matemático ou estatístico. Você nunca ouviu
um físico ou matemático se gabar de ser “rigoroso”. E o que mais um cientista
pode ser?” (Annalisa Rosselli)
A
discussão técnica é uma espécie de abracadabra para o economista encobrir o
pote de ouro e os três desejos da discussão e debate. Tem que ter qualificação
técnica para isso. Matemática, estatística, econometria e gráficos deveriam ser
ferramentas, não muletas para satisfazer o ego de ter razão dos economistas.
Arrogância e certeza têm grande correlação, quase perfeita.
“De
fato, a macroeconomia neokeynesiana se assemelha à homeopatia: imperfeições e
atritos mínimos são adicionados ao modelo padrão para mitigar seus resultados
mais absurdos e alcançar algo que faça sentido econômico. Mas a homeopatia não
derrotou a infecção que se transformou em sepse com a Nova Síntese Neoclássica
baseada em modelos de Equilíbrio Geral Estocástico Dinâmico (EDGE)…”. (Giovanni
Dosi e Andrea Roventini).
“Alguém
voaria em um avião projetado por um economista de Chicago?” (Giovanni Dosi e
Andrea Roventini). Você voaria? Num avião construído a base de taxas naturais e
neutras? Será que se levantaria do chão? Nos modelos sim, na realidade só
“Deus” sabe, se é que ele existe! Mas as pessoas acreditam em tantas coisas que
os economistas criam!
“O
escopo de investigação da economia e sua metodologia foram significativamente
reduzidos. Investigações qualitativas foram substituídas (“Onde está o
modelo?”, frequentemente se perguntam autores que estudam um fenômeno econômico
complexo demais para ser formalizado), enquanto invasões em outras disciplinas
das ciências sociais foram feitas, exceto para exportar seus próprios axiomas
de escolha racional ou métodos de análise quantitativa (ouvir o próprio
trabalho ser descrito como “sociológico” soa como uma condenação irremediável
para um economista)”.
Segundo
a economista Annalisa Rosselli: nos últimos vinte anos, disciplinas inteiras
foram progressivamente marginalizadas. A história do pensamento econômico, na
qual a Itália se destacou, quase abandonou o campo para encontrar refúgio nas
humanidades. A história econômica sobrevive ao custo de se disfarçar como uma
economia que utiliza dados “antigos”.
Os
grandes pensadores econômicos tinham uma característica em comum, a
autocrítica, o inconformismo, e a procura do conhecimento. Economistas como
Keynes e Schumpeter, em suas grandes obras, a todo momento se questionavam, não
tinham certezas, só incertezas. Mudaram de ideia! Lembrando que ambos eram
exímios matemáticos e estatísticos, inclusive Schumpeter um dos pais da
econometria!
“Humilde
é uma pessoa grande que trata todas as outras como se fossem maiores”. (Isaías)
De vez
o PIB Potencial deveríamos medir o ego potencial dos economistas mainstream,
principalmente os leprechaum brasileiros, oráculos, deuses da certeza e do
destino.
“Desde
então, a física mecânica do século XVII tem governado a economia. Entre os
possíveis caminhos alternativos tomados por todas as outras disciplinas, da
biologia à sociologia e à física, a economia optou por adotar apenas a
ferramenta matemática, desacompanhada de hipóteses verificáveis, o que deu
origem à deriva axiomática e à infalsificabilidade dessas hipóteses. Assim, se
no capítulo final de sua Teoria Geral, Keynes pôde argumentar que os políticos
são escravos de teorias econômicas ultrapassadas, podemos dizer que, por sua
vez, os economistas ainda são escravos da física newtoniana”. (M. Gallegati)
Em 2017
na cidade de Milão foi realizado um simpósio entre Olivier Blanchard e Emiliano
Brancaccio, que havia escrito o livro O anti-Blanchard. O simpósio destacava o
potencial de uma comunicação renovada entre paradigmas concorrentes e de uma
crítica construtiva da abordagem atualmente dominante com o propósito de um
progresso renovado do conhecimento na área econômica.
Um
simpósio inspirado em um diálogo entre Olivier Blanchard e Emiliano Brancaccio
sobre crises e possíveis futuras “revoluções” na teoria e política econômica.
Os debates entre eles e as observações dos economistas italianos convidados
foram publicados na revista italiana Moneta e Credito. Esta edição especial da
Moneta e Credito reúne os anais de um simpósio inspirado em um diálogo entre
Olivier Blanchard e Emiliano Brancaccio, dedicado às crises e possíveis
“revoluções” futuras da teoria e da política econômica. O simpósio destaca os
benefícios da comunicação renovada entre paradigmas concorrentes e da crítica
construtiva ao mainstream atual, com o objetivo de um progresso renovado do
conhecimento econômico.
Esse
texto se propõe a uma reflexão, sem querer respostas prontas e soberba, sobre
qual o tipo de formação as escolas de economia brasileiras estão dando e
ensinando aos alunos e futuros economistas. A imagem que me vem à mente é a do
filme The Wall, um monte de estudantes com seus uniformes escolares entrando
numa máquina de moer carne, e todos saindo rigorosamente iguais na forma de
salsichas. O que teremos? Salsichas graduadas como agentes representativos
racionais? Todos iguais, discutindo casa decimais? Mesmos conceitos e
convenções?
Precisamos
de simpósios como o de Milão. Precisamos de discussão e debate. Precisamos de
economistas para debater. Temos?
Taxa é
qualquer valor percentual em relação a dois números. Natural é o ar, a água, e
a certeza que ao nascer, vamos morrer. Neutra é água não industrial ou gasosa,
o que chamamos de PH igual a 7,00 ou a Suíça na segunda guerra que não foi para
lado nenhum. Potencial refere-se a uma capacidade ou possibilidade de realizar,
na física, temos a energia potencial. Atrás do pote de ouro do equilíbrio de
variáveis no arco-irís, os economistas leprechaum criam seus três desejos ao
duende, que gostariam que existissem, além dos modelos, a taxa natural de
desemprego, que equilibra o mercado de trabalho sem inflação, a taxa neutra de
juros que mantém constante os preços e a roda da economia, e o PIB potencial
que diz o que a economia poderia produzir mas não produziu.
Essa
variáveis universais poderiam ser a chave do comunismo, porque – segundo elas –
todos somos iguais, empresas e famílias, e do mesmo tamanho e riqueza,
otimizadores e alocadores eficientes de recursos. Somos todos racionais, somos
homus economicus.
“O
estilo que chamo de “matemática” permite que a política acadêmica se disfarce
de ciência. Assim como a teoria matemática, a “matemática” utiliza uma mistura
de palavras e símbolos, mas, em vez de estabelecer vínculos estreitos, deixa
amplo espaço para deslizes entre afirmações em linguagem natural e formal, e
entre afirmações com conteúdo teórico e não empírico”. (Paul Romer)
“Não há
vestígios de debates e abordagens diferentes. Isso parece confirmar a máxima de
Maffeo Pantaleoni de que existem apenas duas escolas de pensamento em economia:
a dos que a conhecem e a dos outros”. (M. Gallegati)
Fonte:
Por Manfred Back, em A Terra é Redonda

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