Mesmo
com pouca chance de vitória, ida do Chega a 2º turno em Portugal é trunfo da
direita radical
A
passagem do candidato André Ventura para o segundo turno das eleições
presidenciais portuguesas, previsto para 8 de fevereiro, é considerada um
trunfo estratégico para o seu partido, o Chega, de direita radical, ainda que
suas chances de vitória sejam pequenas.
Entre a
comunidade brasileira no país, cresce o temor de que esse fortalecimento se
traduza em políticas migratórias mais duras e em um ambiente mais hostil, com
maior tolerância à xenofobia.
O
primeiro turno da votação presidencial aconteceu no domingo (18/1). Foi a
primeira vez em 40 anos que nenhum candidato conseguiu os mais de 50% dos votos
necessários para evitar um segundo turno.
António
José Seguro, ex-secretário-geral do Partido Socialista (PS), de
centro-esquerda, ficou em primeiro lugar, com 31,1% dos votos. Ventura foi o
segundo mais votado, com 23,5% — ligeiramente acima dos 22,8% obtidos pelo
Chega nas eleições legislativas do ano passado.
O
fortalecimento da direita radical tem sido um dos fenômenos de maior impacto na
política portuguesa nos últimos anos.
As
chances de vitória de Ventura no segundo turno das eleições presidenciais,
porém, são consideradas pequenas por analistas políticos consultados pela BBC
Brasil, em função de seus altos índices de rejeição.
Segundo
uma sondagem da Universidade Católica Portuguesa divulgada na última
quarta-feira, 64% dos eleitores afirmam que jamais votariam no candidato do
Chega em um segundo turno, enquanto a porcentagem dos que não votariam em
Seguro era a menor entre todos os candidatos: 41%.
Ainda
assim, analistas fazem a ressalva de que um fato novo sempre pode alterar o
cenário eleitoral. O próprio Seguro, por exemplo, não estava entre os favoritos
para chegar ao segundo turno em dezembro — e conseguiu crescer rapidamente nas
pesquisas com a ajuda do voto útil da esquerda.
Mesmo
com poucas chances de vitória, a presença do Chega no segundo turno representa
um trunfo para a direita radical portuguesa por ao menos duas razões, segundo
analistas ouvidos pela BBC Brasil.
Para
começar, ao longo do restante da campanha, Ventura contará com um grande palco
de exposição nacional, o que amplia sua visibilidade e pode contribuir para a
"normalização" de seus discursos e propostas.
Além
disso, no segundo turno, os eleitores escolhem apenas entre dois nomes, então é
provável que Ventura saia da disputa com a melhor votação de sua carreira
política, mesmo em um cenário de derrota.
Neste
primeiro-turno, excluídos os votos de Ventura e de Seguro, os candidatos
derrotados de centro e centro-direita somaram cerca de 40% dos votos, enquanto
o campo da esquerda não ultrapassou 5% do total restante.
Como
observa António Costa Pinto, professor da Universidade Lusófona de Lisboa, se
Ventura conquistar parte desse robusto eleitorado de centro e centro-direita,
alcançando entre 30% e 35% dos votos, a agenda do Chega ganhará peso também
entre as classes políticas, consolidando a ideia de que o partido é "um
movimento em ascensão".
Nesse
cenário, alianças hoje vistas como improváveis podem tornar-se politicamente
mais aceitáveis. "Mesmo sem vencer, um Chega fortalecido tende a empurrar
o debate político para a direita e a pressionar por leis mais duras sobre
imigração e ordem pública", afirma Marco Lisi, da Universidade Nova de
Lisboa.
·
O
Chega e o sistema político português
Criado
em 2019, o Chega ampliou sua base de apoio para mais de 20% do eleitorado com
um discurso focado na rejeição à corrupção das "elites" políticas
tradicionais, na defesa de políticas mais rígidas de segurança e no combate ao
que classifica como imigração "descontrolada".
Nas
eleições legislativas do ano passado, o partido conquistou 60 cadeiras no
Parlamento, tornando-se a segunda maior força política do país, atrás do
governista Partido Social Democrata (PSD), de centro-direita.
Seu
fortalecimento ocorre em meio a uma forte instabilidade do sistema político
português. Desde 2021, Portugal realizou três eleições legislativas, sendo duas
delas antecipadas. Em 2025, embora a coligação de centro-direita liderada pelo
PSD tenha sido a mais votada, não obteve maioria parlamentar.
Como
resultado, o equilíbrio do atual governo é precário, já que, para aprovar seus
projetos, depende ora do apoio da direita radical, ora do PS.
Em um
cenário como esse, o papel do presidente — que tem um mandato de cinco anos e
pode ser reeleito uma vez — tende a ser especialmente relevante.
O
regime político português é um semipresidencialismo de matriz parlamentar e,
embora o Poder Executivo caiba ao primeiro-ministro, o presidente exerce uma
espécie de "poder moderador", como explica Joana Ricarte, professora
da Universidade de Coimbra.
"Ele
pode vetar leis caso identifique disposições inconstitucionais, devolvendo o
texto ao Parlamento. Também é quem dá posse ao primeiro-ministro e, em
situações extremas, pode dissolver o Parlamento e convocar eleições
antecipadas."
O
presidente que será eleito em fevereiro vai substituir Marcelo Rebelo de Sousa,
ex-dirigente do PSD, no cargo desde 2016. E a expectativa para o segundo turno
é de uma campanha altamente polarizada.
Seguro
deve continuar a buscar o voto dos eleitores moderados, que impulsionam os
índices de rejeição do Chega.
Ventura,
por sua vez, deve retratar a esquerda como uma ameaça a Portugal e responsável
por muitos dos problemas que o país enfrenta hoje.
Ainda
não está claro se ele vai redobrar a aposta em discursos que têm causado
controvérsia pública — como cartazes com mensagens ofensivas a populações
imigrantes do Sul da Ásia — ou se adotará um tom mais moderado e pragmático
para conquistar eleitores de centro.
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Pano de fundo da ascensão da direita
Para o
cientista político Riccardo Marchi, pesquisador do Instituto Universitário de
Lisboa, o avanço da extrema-direita em Portugal está ligado a uma crise
estrutural de expectativas. Após a entrada na União Europeia, em 1986, o país
viveu um ciclo de crescimento acelerado, impulsionado por fundos europeus,
melhoria da infraestrutura e ascensão da classe média.
"Esse
ciclo, porém, se esgotou. E a classe média, que havia experimentado ascensão no
final do século 20, vê hoje seus filhos, mesmo com formação superior, incapazes
de manter um padrão de vida estável, muitas vezes tendo de emigrar",
afirma Marchi.
Desde a
pandemia, a economia portuguesa tem crescido mais do que a média da União
Europeia (UE). Nos últimos cinco anos o PIB do país se expandiu a uma média de
3,8% ao ano, contra 2,6% na UE, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI).
Para 2026, a previsão do FMI é que Portugal cresça 2,1% e a EU, 1,4%.
O
problema é que os salários no país continuam relativamente baixos para os
padrões europeus. O salário mínimo é hoje de pouco mais de 1.000 euros por mês
(em 12 meses), quase 30% inferior ao da vizinha Espanha e menos da metade do da
Alemanha.
Ao
mesmo tempo, o custo de vida em Portugal continua a subir. No ano passado, por
exemplo, o preço das casas aumentou cerca de 17%, contra uma média de pouco
mais de 5% na UE. "Ou seja, Portugal deixou de ser um país barato, mas
continuou a pagar salários baixos", diz Marchi.
O
aumento acelerado da imigração — impulsionado pelo crescimento da economia e,
em menor medida, por esquemas de trabalho remoto — é outro fenômeno recente de
grande impacto na vida do país.
O
número de estrangeiros em Portugal saltou de 592 mil em 2019 para mais de 1,5
milhão hoje (cerca de 500 mil brasileiros), em um país com menos de 11 milhões
de habitantes.
"A
sociedade portuguesa, do ponto de vista cultural, administrativo e social,
ainda não conseguiu processar esse aumento tão grande e rápido no número de
imigrantes", diz Lisi, da Universidade Nova de Lisboa.
"Isso
criou divisões dentro da opinião pública e da esfera política, que a
extrema-direita está aproveitando politicamente."
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Impacto sobre comunidade brasileira
Em
2025, a coligação governista (PSD/CDS-PP), a Iniciativa Liberal e o Chega
aprovaram no Parlamento um endurecimento da legislação migratória por meio de
mudanças na Lei de Estrangeiros.
Entre
outras medidas, a nova lei restringiu o visto de trabalho a profissionais
qualificados, eliminou a possibilidade de imigrantes solicitarem residência
após entrarem no país como turistas e endureceu as regras de reagrupamento
familiar.
Para
este ano, o Parlamento deve tentar aprovar pela segunda vez uma reforma da Lei
da Nacionalidade, que deverá tornar mais rigorosos os critérios de acesso à
nacionalidade portuguesa (a primeira versão da proposta foi vetada pelo
presidente).
A
cientista política Ana Paula Costa, presidente da Casa do Brasil de Lisboa — a
mais antiga associação de imigrantes brasileiros no país — afirma que, com o
fortalecimento da direita radical, a comunidade brasileira teme não apenas um
aperto das leis migratórias, mas também um aumento da discriminação e
xenofobia, "com a normalização do discurso contra estrangeiros na esfera
pública".
Alguns
analistas ressaltam que Ventura não tem atacado diretamente a comunidade
brasileira, a maior entre os imigrantes em Portugal.
Ele
afirma que brasileiros que "contribuem" para a sociedade portuguesa
são bem-vindos e que o principal problema seria a imigração do Sul da Ásia, por
envolver culturas muito diferentes da portuguesa.
Para
Ana Paula Costa, porém, "a partir do momento em que o discurso de exclusão
e discriminação contra determinados grupos passa a ser politizado e normalizado
no debate público, as pessoas sentem-se autorizadas a adotar comportamentos
antes socialmente impensáveis, e ataques xenófobos e racistas tornam-se mais
frequentes — contra todos".
Segundo
ela, já haveria, inclusive, um aumento no número e na violência de ataques
xenófobos contra membros da comunidade brasileira, como o caso do menino que
teve os dedos decepados na escola.
Para
Costa Pinto, da Universidade Lusófona de Lisboa, o fortalecimento da
extrema-direita não deve ser visto como uma anomalia portuguesa, mas como parte
de uma tendência europeia e global mais ampla, na qual o Chega se apoia.
O
partido mantém relações políticas e ideológicas com outras agremiações
representantes da direita radical europeia, como o Vox, na Espanha, a Reunião
Nacional, de Marine Le Pen, na França, e a AfD, na Alemanha.
O
ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro (PL) também já manifestou apoio a
Ventura no passado.
"A
questão é que a extrema-direita não precisa vencer eleições para ser
bem-sucedida", afirma Costa Pinto.
"Resultados
expressivos já são suficientes para legitimar temas, deslocar o centro do
debate e pressionar partidos tradicionais a adotar posições mais duras."
Fonte:
BBC News Mundo

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