Condenar
líderes como Bolsonaro pode provocar 'efeito rebote': o que dizem estudos de
Harvard
O
Congresso Nacional deve avaliar no início deste ano se mantém ou derruba o veto
do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao Projeto de Lei da dosimetria,
que reduz a pena de condenados por crimes relacionados aos atos de 8 de
Janeiro, incluindo o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Críticos
do projeto da dosimetria veem o texto como um retrocesso institucional e um
golpe para a democracia brasileira, que teria emergido mais forte da tentativa
de golpe de Estado protagonizada em 2022.
Analistas
e veículos da imprensa internacional chegaram a afirmar, inclusive, que o
Supremo Tribunal Federal (STF) deu bom exemplo para o mundo ao confirmar a
condenação de Bolsonaro e outros envolvidos, em meio ao avanço de populistas
autoritários em diversos países.
Mas
condenar líderes por ações tomadas durante o governo — e garantir o cumprimento
integral das penas decretadas — é sempre garantia de fortalecimento da
democracia?
Um
grupo de estudiosos da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, desenvolveu
uma série de pesquisas que têm indicado que, em muitos casos, líderes
antidemocráticos levados à Justiça mantiveram seu apoio popular, ao mesmo tempo
em que os processos abertos contra eles desencadearam reações negativas.
Por um
lado, essa responsabilização é um pilar indispensável do Estado de Direito, diz
Andrew O'Donohue, do Departamento de Governo de Harvard.
Deixar
sem consequências ações que fragilizam instituições, atacam o sistema eleitoral
ou incentivam práticas autoritárias criaria um precedente perigoso.
Mas há
também um lado "negativo" em fazer isso: segundo O'Donohue, processar
líderes políticos também pode diminuir a confiança de parte da população no
Judiciário e gerar reações contrárias às normas democráticas.
O
cientista político e seus colegas batizaram esse impasse como accountability
dilemma, ou "dilema da responsabilização". Em inglês, accountability
é um termo usado para descrever práticas relacionadas a transparência e
prestação de contas.
"Cada
vez mais, as democracias se deparam com líderes políticos, inclusive eleitos,
que ameaçam a democracia. Isso cria um desafio muito difícil para o sistema
jurídico, que se vê diante da escolha entre punir essas violações legais e
correr o risco de sofrer represálias", aponta O'Donohue, em entrevista à
BBC News Brasil.
"Nosso
argumento é que não há respostas fáceis para as democracias depois que líderes
políticos ameaçam as instituições democráticas, e que as escolhas são
especialmente difíceis em democracias polarizadas como o Brasil, os Estados
Unidos e Israel, onde estes líderes têm bases de apoio muito fortes, e ações
judiciais podem levar a graves represálias por parte dessas bases."
Segundo
O'Donohue, a forma como instituições democráticas e as elites políticas reagem
após um líder político ser processado pode ser determinante para o futuro da
saúde democrática e jurídica de uma nação.
Segundo
o especialista, pesquisas desenvolvidas por ele e seus colegas mostram que a
ação do Judiciário contra líderes políticos pode "minar o apoio aos
tribunais como instituições de salvaguarda" e ampliar as possibilidades de
um efeito rebote contra as normas democráticas.
"Os
eleitores muitas vezes passam a associar os tribunais a uma causa partidária
específica e muitas vezes priorizam as suas lealdades partidárias em detrimento
dos princípios democráticos", explica.
O
cientista político aponta ainda que, apesar dos benefícios em termos de
manutenção do Estado de Direito, as ações também podem abrir as portas para
ataques das próprias lideranças contra os tribunais.
"Também
podemos ver efeitos negativos para o Judiciário como instituição, pois líderes
políticos, uma vez indiciados, têm incentivos renovados para atacá-lo como
instituição democrática."
Para
O'Donohue, foi exatamente isso que aconteceu nos Estados Unidos com Donald
Trump, que foi alvo de diversas ações criminais por ações cometidas durante seu
primeiro mandato como presidente, mas retornou à Casa Branca no início deste
ano.
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Efeito rebote x impacto na democracia
No caso
específico do Brasil, os pesquisadores avaliaram como a condenação de Jair
Bolsonaro (PL) pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em junho de 2023 por
abuso de poder e uso indevido dos meios de comunicação, quando o ex-presidente
se tornou inelegível por oito anos, impactou seu apoio político e provocou
reações negativas contra o Judiciário e a democracia em si.
Posteriormente,
quando foi condenado pelo STF por tentativa de abolição violenta do Estado
Democrático de Direito, golpe de Estado, organização criminosa armada, dano
qualificado pela violência e grave ameaça e deterioração de patrimônio tombado,
Bolsonaro se tornou inelegível até 2060.
A
pesquisa de Harvard entrevistou mais de 5,7 mil pessoas no Brasil, no segundo
semestre de 2024. Elas foram apresentadas de forma aleatória a informações e
comentários reais de aliados e especialistas sobre a condenação judicial de
Bolsonaro. Em seguida, foram medidas suas opiniões sobre voto, confiança
institucional e normas democráticas.
A
conclusão foi que o processo contra Bolsonaro reduziu ligeiramente o apoio ao
ex-presidente, mas diminuiu significativamente a confiança nos tribunais e o
apoio às normas democráticas entre seus eleitores.
Outras
pesquisas também mostraram oscilações na percepção dos brasileiros sobre o
trabalho dos ministros do Supremo ao longo do processo por tentativa de golpe
de Estado.
Um
levantamento Genial/Quaest divulgado em setembro de 2025 mostrou que a
confiança dos brasileiros nas instituições vive um processo de desgaste
acelerado nos últimos quatro anos. Enquanto 73% da população disse confiar na
Igreja católica, por exemplo, apenas 50% confiava no STF naquele momento.
Outra
pesquisa, da Atlas/Bloomberg, apontou que 51,3% dos brasileiros diziam
desconfiar do Supremo em agosto do ano passado.
Já um
levantamento mais recente Genial/Quaest, de dezembro do ano passado, analisou o
parecer da população em relação ao trabalho do STF. Segundo a pesquisa, a
avaliação positiva subiu 10 pontos, de 23% em julho para 33% em dezembro,
indicando uma melhora ao longo do segundo semestre de 2025.
Fernando
Bizzarro, pesquisador que participou da porção brasileira do estudo e hoje é
professor da Boston College, explica que, em sociedades altamente polarizadas,
como a brasileira, a condenação de um líder que exibe discurso anti-democrático
pode tornar sua base de apoio ainda mais avessa a ideias e instituições
democráticas.
Ao
mesmo tempo, diz Bizarro, há um efeito positivo em termos de prestação de
contas e justiça entre os eleitores mais de centro ou indecisos. Esse impacto,
porém, é pequeno.
"Isso
vai acontecer sempre em uma sociedade polarizada que responsabiliza seus
líderes, e os políticos e as instituições têm que entender que não vão ser
capazes de agradar todo mundo", afirma o pesquisador.
"Por
isso, é preciso avaliar qual vai ser o tamanho do efeito rebote versus o
tamanho do apoio gerado na democracia."
Bizzarro
argumenta ainda que, no caso envolvendo o ex-presidente Jair Bolsonaro e a
tentativa de golpe, a democracia brasileira saiu fortalecida.
Segundo
ele, o processo demonstrou que as instituições democráticas não estão blefando
e que levarão as consequências até o fim, o que serve como uma mensagem para
aqueles que poderiam ter a intenção de atacar a democracia no futuro, diz.
"A
democracia saiu fortalecida pela mensagem que a condenação passa para os
políticos e para o eleitor."
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O futuro do Judiciário brasileiro
Parte
da pesquisa desenvolvida por O'Donohue, Bizzarro e outros colegas foca na perda
de confiança e nos ataques sofridos pelos tribunais superiores e outras cortes
após processos criminais contra chefes de Estado e governo.
Segundo
O'Donohue, a análise mostra que, muitas vezes, processos judiciais contra
políticos fazem com que a população associe os tribunais a um partido ou lado
político.
"Nos
Estados Unidos, por exemplo, as políticas liberais da Suprema Corte de Warren
levaram a uma reação conservadora de uma década contra a Corte e a um esforço
conservador para assumir o controle do Tribunal", diz, em referência ao
período entre 1953 e 1969, quando o Supremo americano, liderado pelo juiz Earl
Warren, tomou decisões históricas que expandiram os direitos civis, as
liberdades e o processo penal.
Por
isso, afirma O'Donohue, um dos maiores desafios da democracia brasileira para o
futuro é alcançar um cenário em que "o poder do Judiciário seja respeitado
por todos os lados do espectro político brasileiro e não seja associado
fortemente a um dos lados da polarização política".
No caso
do STF, diz o pesquisador, o desafio é particularmente grande, porque alguns
dos integrantes da Corte, entre eles o ministro Alexandre de Moraes, se
tornaram extremamente poderosos.
"Uma
vez que uma instituição política detém grande poder, os atores políticos quase
nunca optam por abrir mão desse poder", diz O'Donohue.
"Portanto,
um dos desafios que a democracia brasileira precisa responder é: quais
incentivos esses juízes têm, tendo acumulado um poder tão significativo, para
abrir mão dele?", prossegue.
"É
claro que o argumento desses juízes, dos ministros do STF, será que seu poder é
essencial para salvaguardar a democracia brasileira. Isso é verdade em casos
como o do 8 de Janeiro, em que a democracia esteve em jogo. Mas é muito menos
claro se esses juízes devam ter poder sobre questões como saúde pública e
tributação, temas que podem ser reivindicados pelos políticos eleitos."
Questionado
sobre o futuro da política brasileira e as eleições presidenciais de 2026,
O'Donohue afirma que, no curto prazo, a condenação de Bolsonaro pode afastar
alguns dos candidatos mais viáveis de sua retórica antidemocrática.
Entre
eles, diz o especialista, está o atual governador de São Paulo, Tarcísio de
Freitas (Republicanos), apontado como um dos potenciais 'herdeiros políticos'
do ex-presidente.
As
implicações de mais longo prazo do processo contra Bolsonaro, porém,
"ainda estão por vir", diz o pesquisador. A condenação pode
"estabilizar a democracia, dissuadindo os políticos de se envolverem nesse
tipo de comportamento".
"Ou
poderiam gerar uma reação partidária na qual eleitores de direita e de centro
considerariam que a instituição do Judiciário se tornou excessivamente
poderosa, e essa intervenção judicial levaria a um movimento político de longo
prazo e à pressão eleitoral para limitar o poder dos tribunais", avalia
O'Donohue.
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E como foi nos EUA de Trump?
Os
estudos desenvolvidos por O'Donohue e outros pesquisadores de Harvard analisam
outros casos além do brasileiro, entre eles processos contra líderes nos
Estados Unidos, Israel e Turquia.
O
cenário vivido pelos EUA há alguns anos é frequentemente comparado ao
brasileiro. As similaridades apontadas por muitos especialistas se debruçam
especialmente no fato de tanto Bolsonaro quanto o presidente americano Donald
Trump terem sido acusados de agir para reverter o resultado de uma eleição,
divulgar informações falsas sobre fraude e incitar seus apoiadores a invadirem
prédios públicos para impedir a posse de seus adversários políticos.
No caso
americano, Trump se tornou réu em ações estaduais e federais por suas ações
após sua derrota na eleição presidencial de 2020 para o democrata Joe Biden.
Segundo
uma das acusações, ele teria espalhado "mentiras de que houve fraude"
e conspirado para mudar ilegalmente a eleição a seu favor, levando
eventualmente à invasão da sede do Congresso americano em 6 de janeiro de 2021.
Trump refuta as alegações.
O
republicano também foi processado pelo manejo de documentos confidenciais após
ele sair da Casa Branca em 2021. Ele foi acusado de obter materiais
confidenciais de defesa nacional da Casa Branca após deixar o cargo e de
resistir às tentativas do governo de recuperá-los.
Quando
os casos foram abertos, o republicano já se preparava para ser candidato às
eleições de 2024, e os processos não chegaram a ser concluídos antes de ele
voltar à Casa Branca no início deste ano, após derrotar a democrata Kamala
Harris nas urnas.
Uma
decisão da Suprema Corte garantiu a Trump (e a demais presidentes americanos)
imunidade criminal em relação a atos oficiais cometidos durante o mandato.
Na
pesquisa realizada pelos especialistas de Harvard nos EUA, 3 mil eleitores que
se identificam como republicanos ou independentes foram expostos a mensagens
que detalham ou avaliavam as acusações abertas contra Donald Trump no caso dos
documentos.
O
objetivo era entender o quanto as informações poderiam alterar a visão dos
entrevistados sobre as normas democráticas, assim como avaliar sua
predisposição em votar por Trump nas primárias republicanas, realizadas entre
fevereiro e junho de 2024. As respostas foram colhidas no final de 2023.
Assim
como no caso brasileiro, os pesquisadores observaram um efeito modesto do
processo judicial no apoio a Trump. As informações sobre o caso levaram a uma
redução na intenção de voto apenas entre eleitores republicanos que já tinham
algumas reservas em relação ao presidente — e, mesmo assim, a diminuição foi
pequena.
Também
houve efeito negativo na visão dos entrevistados sobre os tribunais e os
magistrados que comandavam a ação.
A
grande diferença em relação aos resultados observados na pesquisa feita no
Brasil vem dos resultados em torno do apoio às normas democráticas. Nos EUA, os
pesquisadores identificaram que as informações jurídicas sobre o progresso
criminal de Trump aumentaram o apoio às normas democráticas entre alguns
subgrupos.
"De
forma geral, em ambos os casos, encontramos evidências empíricas muito
consistentes do 'dilema de responsabilização': a redução do apoio a esses
líderes entre uma pequena parcela do eleitorado e uma reação negativa
significativa contra as instituições jurídicas", diz O'Donohue sobre as
pesquisas conduzidas no Brasil e nos EUA.
"Mas,
no Brasil, o que constatamos é que o processo judicial contra Bolsonaro causou
uma reação significativa contra as normas democráticas, entre elas a ideia de
que o candidato perdedor da eleição deveria aceitar pacificamente a vitória do
seu oponente."
Segundo
o cientista político, a explicação para isso pode estar nas perguntas
específicas feitas aos entrevistados brasileiros e americanos, que foram
diferentes e podem ter despertado respostas e reações também distintas.
O'Donohue
afirma ter observado uma resposta muito mais partidária dos apoiadores de
Bolsonaro, que viram as normas democráticas como um referendo sobre o
ex-presidente e as rejeitaram porque as consideraram desvantajosas para ele.
Bizzarro
lembra ainda que na tradição política brasileira, o indivíduo na liderança
ganha muito mais ênfase do que seu partido ou as ideologias que representa,
enquanto nos Estados Unidos a rivalidade histórica entre democratas e
republicanos ainda tem grande peso.
"Trump
é claramente uma figura muito polarizadora, mas, nos EUA, o partido está
relativamente separado do líder. Quando a Justiça pune o líder, sem punir o
partido, algumas pessoas reconhecem os erros cometidos", diz.
"No
caso brasileiro, não existe essa mediação por parte dos partidos. Ou seja, as
pessoas que votaram em Bolsonaro votaram porque gostavam dele como
indivíduo."
Fonte:
BBC News Brasil

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