terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Marcio Ferreira: Democracias frágeis, quintais disputados e o retorno dos xerifes do mundo

A captura de Nicolás Maduro por forças militares dos Estados Unidos provocou reações profundamente divergentes na América Latina e escancarou uma realidade incômoda: a democracia na região é frágil não apenas por seus déficits internos, mas porque está permanentemente submetida às lógicas de poder de um sistema internacional cada vez mais regido por zonas de influência e decisões unilaterais.

Cinco países – México, Chile, Brasil, Cuba e Colômbia – condenaram a operação e criticaram a captura de Maduro. Em sentido oposto, Equador e Argentina aplaudiram a ação. Essa divisão não é episódica. Ela revela projetos distintos de inserção internacional e diferentes compreensões sobre soberania, legalidade e democracia.

A operação norte-americana não contou com autorização da ONU, tampouco com aval do Congresso dos EUA, configurando uma intervenção à margem do direito internacional. Mais do que um fato isolado, trata-se da aplicação prática do que pode ser chamado de Corolário Trump da Doutrina Monroe: a ideia de que o continente americano constitui um espaço sob tutela direta de Washington.

Formulada originalmente em 1823 pelo presidente James Monroe, a Doutrina Monroe pretendia afastar as potências europeias do continente. Reformulada em 1904 por Theodore Roosevelt, passou a legitimar o intervencionismo direto dos Estados Unidos na América Latina ao longo do século XX, como nos casos da Nicarágua, Haiti, Cuba, República Dominicana e no apoio a golpes militares no Chile e na Argentina.

A novidade agora não está apenas na ação em si, mas no contexto global em que ela ocorre. A derrubada rápida de um regime vizinho, sem capacidade de dissuasão militar, envia um recado universal: governos economicamente frágeis, isolados diplomaticamente e sem base social consistente tornam-se alvos potenciais. A Venezuela funciona como laboratório.

Esse movimento tem consequências que extrapolam a América Latina. Ao agir como “xerife” incontestável no seu entorno, Donald Trump estabelece um precedente perigoso: legitima, ainda que indiretamente, que outras potências façam o mesmo em suas áreas de influência. O silêncio – ou a neutralidade estratégica – da Rússia e da China não é acidental.

Ao reconhecer, na prática, os respectivos espaços de hegemonia de Vladimir Putin e Xi Jinping, Washington envia um sinal claro: “cada um cuida do seu quintal”. Nesse cenário, Taiwan e a Ucrânia têm razões concretas para preocupação. A regionalização do imperialismo transforma conflitos locais em peças de uma negociação maior entre superpotências.

O silêncio de Rússia e China não deve ser interpretado como indiferença, mas como parte de uma lógica clássica de acomodação entre potências. A divisão do mundo em zonas de influência, típica da Guerra Fria, retorna agora sem os freios ideológicos daquele período. Cada “xerife” patrulha sua região, tolerando ações semelhantes dos demais, desde que seus interesses vitais não sejam afetados. Esse arranjo informal corrói a ideia de ordem internacional compartilhada e substitui a cooperação por um equilíbrio instável baseado no medo, na força e na barganha permanente.

O encontro recente entre Trump e Putin, oficialmente voltado à guerra na Ucrânia, dificilmente ignorou a Venezuela. Em geopolítica, acordos tácitos e silêncios estratégicos costumam valer mais do que declarações públicas. A própria Rússia sinalizou solidariedade ao povo venezuelano, mas deixou claro que não pretende se envolver.

A reação europeia foi distinta. Espanha classificou a intervenção como imprópria e afirmou que não a reconhecerá. A União Europeia evocou o direito internacional e a soberania nacional, mesmo reconhecendo que o governo Maduro carece de legitimidade democrática. O ponto central, contudo, permanece: o direito do povo venezuelano foi atropelado, substituído por uma solução externa, unilateral e militarizada.

Quando Trump declara abertamente que seu interesse na Venezuela é o petróleo, o discurso se desnuda. Como afirmou o presidente Lula, trata-se de uma grave afronta à soberania. O temor latino-americano não é abstrato. Hoje é a Venezuela; amanhã pode ser qualquer país que detenha recursos estratégicos, reservas energéticas, minerais ou extensas terras produtivas.

O contraste retórico ajuda a compreender o momento. Javier Milei, ao comemorar a intervenção, celebrou a ação em nome da “liberdade”, enquanto tentava associar Lula a Maduro, ignorando o distanciamento já existente entre o governo brasileiro e o regime venezuelano. Trata-se menos de análise política e mais de guerra cultural, onde slogans substituem argumentos.

No fundo, o episódio revela uma verdade desconfortável: a democracia latino-americana é duplamente vulnerável. Internamente, sofre com instituições frágeis, desigualdade social e lideranças autoritárias. Externamente, é tratada como variável ajustável em um tabuleiro global dominado por potências que se comportam como polícias regionais.

O “xerife do mundo” não desapareceu. Ele se multiplicou. Cada potência patrulha seu espaço, redefine regras, escolhe aliados e inimigos. Nesse jogo, a democracia torna-se retórica conveniente, a soberania vira obstáculo e os povos, figurantes de decisões tomadas muito acima de suas vontades.

Para o Brasil e para a América Latina, o episódio venezuelano funciona como um alerta estratégico. Em um mundo marcado pela disputa por recursos naturais, energia e alimentos, países detentores de vastos territórios e riquezas tornam-se alvos potenciais de pressões externas. Defender a democracia, nesse contexto, significa também defender a soberania, o multilateralismo e a capacidade de decidir os próprios rumos. Caso contrário, a região corre o risco de voltar a ser tratada não como sujeito político, mas como espaço disponível à ação dos novos xerifes do mundo.

Pensar a América Latina a partir da Venezuela exige abandonar ilusões. O desafio não é apenas derrubar ditaduras ou denunciar fraudes eleitorais, mas defender a democracia contra sua instrumentalização pelas grandes potências. Caso contrário, o risco é claro: em nome da ordem, da liberdade ou do mercado, o lobo seguirá liderando e julgando o rebanho.

•        América Latina – ausência de lucidez e tempo bloqueado. Por João dos Reis Silva Júnior

A América Latina não está silenciosa por falta de pensamento, mas porque o tempo necessário à maturação da lucidez é administrado de modo a impedir que a reflexão se estabilize como forma pública.

O que se entende como crise é, na verdade, a administração do tempo como instrumento de interrupção que impede que a lucidez se estabeleça.

A lucidez aqui entendida não é introspecção, mas categoria histórica cuja formulação exige a compreensão da totalidade e do tempo, como já indicaram Karl Marx, György Lukács e, no diagnóstico contemporâneo, Paulo Arantes.

O tempo bloqueado não é efeito colateral; é elemento estruturante da dependência contemporânea. A razão é acelerada antes de ser formada, a urgência substitui o juízo, e a velocidade ocupa o espaço que antes era destinado à reflexão lenta.

O pesquisador não é impedido de pensar; é conduzido a desejar apenas aquilo que o Norte valida, e esse desejo opera como forma superior de dominação. A universidade não está em colapso; está ajustada a uma lógica que transforma a precariedade em método e a produtividade em critério de sobrevivência institucional. A subjetividade acadêmica é reorganizada por métricas e plataformas que substituem a formação pelo cumprimento de tarefas, e esse deslocamento altera a própria forma do juízo.

A universidade funciona como dispositivo não apenas porque organiza práticas, mas porque captura ritmos, regula expectativas e administra a forma como o tempo é percebido pelo pesquisador. A dependência aparece menos no que se produz e mais no modo como se produz, no ritmo que se impõe, no tempo que se retira e na forma como a razão é treinada para reconhecer valor.

O silêncio da América Latina não é ausência de voz; é imposição de velocidade. O que não encontra tempo não encontra forma, e o que não encontra forma não pode existir como pensamento público.

A história desse silêncio começa quando a América Latina ousou criar sua própria episteme com a Teoria Marxista da Dependência. Ruy Mauro Marini, Vânia Bambirra e Theotônio dos Santos formularam com precisão o subdesenvolvimento como determinação estrutural e revelaram a transferência permanente de valor e a superexploração como condição de reprodução do capitalismo dependente.

Essa formulação não era espelho do Norte; era nome próprio, categoria nascida da terra e da violência histórica que conforma a região. Mas sua força dependia do tempo histórico, e o tempo histórico se transformou.

A Teoria Marxista da Dependência foi escrita no terreno da produção material direta, no ciclo industrial da fábrica, na extração visível da mais-valia e na transferência objetiva de valor. Não era possível, naquela época, antecipar um capitalismo financeirizado, digitalizado e administrado por métricas que moldam comportamentos. Se a Teoria Marxista da Dependência não tratou dessas mutações, não foi insuficiência teórica, mas limite histórico: a época ainda não havia gerado as condições que hoje organizam a dominação.

Francisco de Oliveira percebeu antes de todos que moderno e arcaico não são etapas sucessivas, mas convivência estrutural. A dualidade não é falha cultural da modernização; é sua própria lógica de funcionamento. E, no entanto, o próprio Chico intuía que essa chave explicativa teria prazo, porque o capitalismo caminhava para dentro da subjetividade, reorganizando o tempo, o trabalho e a forma da consciência.

A dualidade não é defeito da modernização; é seu modo de funcionamento.

E, no entanto, o próprio Francisco de Oliveira intuía que essa racionalidade dualista não explicaria para sempre a forma da dominação. Ele percebia que o capitalismo preparava uma inflexão mais profunda, que deslocaria a dominação do plano institucional para o plano da subjetividade, mas não escreveu sobre isso porque a realidade ainda não havia se consolidado.

Hoje essa mutação é visível: o capitalismo dependente se reorganizou como captura do tempo e como administração da interrupção. O que era crítica tornou-se procedimento, o que era denúncia tornou-se técnica e o que era análise estrutural tornou-se método de governo. A dualidade permanece, mas agora a serviço do Estado financeirizado, que administra escassez como normalidade e transforma precariedade em política.

É nesse cenário que a dependência exige ampliação conceitual. Não porque os clássicos tenham perdido validade, mas porque a época produziu novas formas de dominação que eles não poderiam ter visto. A dependência contemporânea atravessa simultaneamente economia, Estado, universidade, subjetividade e tempo. Ela não está apenas fora; está dentro. Ela não estrutura apenas relações materiais; estrutura também relações cognitivas.

Ela define o que se pergunta antes de definir como se responde e ocupa o tempo antes de ocupar o espaço.

A dominação se dá pela imposição de urgência, pela mutilação da maturação e pela impossibilidade de formar consciência sob pressão permanente.

É por isso que denomino “arquitetura da dependência” a forma atual da dominação. Arquitetura não como metáfora, mas como categoria que revela distribuição interna, articulação total e funcionamento transversal da dependência. Ela atravessa a economia que financeiriza o Estado, o Estado que precariza a universidade, a universidade que acelera o pesquisador e o pesquisador que internaliza a validação externa como critério único.

A dependência se desloca da estrutura para a razão, do horizonte material para o horizonte temporal, e esse deslocamento exige novo nome e novo método. A arquitetura da dependência prolonga a Teoria Marxista da Dependência e a razão dualista, não as substitui; integra dimensões que a história acrescentou. É síntese amadurecida e forma necessária de interpretação da época.

A América Latina, vista por essa arquitetura, revela uma condição silenciosa que não decorre de falta de pensamento, mas da expropriação do tempo necessário para que o pensamento amadureça. O México sustenta uma modernidade teatralizada, o Chile transforma a universidade em mercado, a Argentina luta para manter a democratização sem conseguir financiar sua continuidade e o Brasil opera excelência concentrada e precariedade difusa.

Superfícies diferentes, fundo comum. Histórias específicas, racionalidade operativa uniforme. Cada país vive a sua variante da mesma arquitetura: a administração do tempo como forma de bloquear lucidez.

Nesse contexto, romper o silêncio não exige grito; exige recompor o tempo histórico que foi interrompido, devolver maturação ao pensamento, restaurar o ritmo da crítica e resgatar a universidade como lugar de formação da consciência e não como máquina de indicadores.

Compreender esse regime temporal não é exercício acadêmico, mas necessidade histórica: sem recuperar o tempo para a crítica, a América Latina continuará a existir como ausência de lucidez produzida e não como impossibilidade real.

 

Fonte: Le Monde/ A Terra é Redonda

 

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