Rick
Afonso-Rocha: A escola-prisão
Comecei
minha vida docente na educação básica em Pernambuco dentro de uma escola
prisional. Foram quase dois anos percorrendo corredores estreitos, acompanhando
rotinas rígidas, negociando dignidade em meio a grades, protocolos, vigilâncias
e silêncios forçados. Quando, em 2024, fui transferido para uma escola de tempo
integral, a mudança parecia anunciar uma ruptura. Eu esperava atravessar um
limiar. Sair de um espaço estruturado pela contenção para outro orientado pela
formação; deixar para trás a coerção como princípio organizador e encontrar,
enfim, a aprendizagem como horizonte. Foi justamente essa expectativa;
legítima, quase óbvia, mas ingênua; que produzi o estranhamento. A experiência
não foi a de uma passagem entre paradigmas distintos, mas a de um inquietante
reconhecimento. Não me senti em outra instituição. Ao contrário, o que se
revelou foi um choque de continuidade. Na escola de tempo integral, havia uma
presença excessiva de prisão no interior da própria escola e um espaço cada vez
mais rarefeito para a educação. O que se impunha ali não era a aprendizagem,
tal qual idealizamos, o que se impunha ali era instituição em sua forma mais
dura: rotinas exaustivas, controle permanente dos corpos, gestão minuciosa do
tempo e uma pedagogia da ansiedade. Havia, em excesso, prisão na escola
integral. E em ambas: religião cristã-protestante.
Paradoxalmente,
tanto na escola prisional quanto na escola integral, reiterava-se um mesmo
regime de funcionamento, com poucas desarticulações. A educação aparecia
atravessada pela lógica capitalista da produtividade, da eficiência e do
desempenho, na qual formar cede lugar a administrar, e ensinar se confunde com
manter em operação um dispositivo. A rotina, a administração milimétrica do
espaço e do tempo, a arquitetura funcional ao controle, a discursividade da
vigilância, a sedução punitivista travestida de “protagonismo”, a moral
cristã-protestante apresentada como “projeto de vida” compunham uma engrenagem
familiar demais. O que se impunha era a transposição ampliada, refinada e
legitimada de tecnologias carcerárias para dentro da escola pública, agora sob
o nome de “progresso”.
Essa
familiaridade não era acidental, tampouco resultado de uma má implementação
local. O que se apresentava como continuidade indicava algo mais profundo. Isto
é, a operação de uma mesma racionalidade governamental atravessando
instituições distintas e reorganizando seus fins. A escola de tempo integral
não surgia, assim, como antídoto aos problemas sociais, mas sim como um de seus
principais laboratórios. Um espaço privilegiado de atualização e intensificação
das tecnologias de poder revestidas de léxico pedagógico, gerencial e moral. É
nessa atmosfera que a expansão da escola em tempo integral, frequentemente
apresentada como política de equidade, passa a operar, na prática, como
dispositivo central de fabricação da subjetividade neoliberal. O aluno de tempo
integral é convocado a habitar um tempo deformado, estendido e permanentemente
invadido, no qual a distinção entre estudo, cuidado de si, exploração e
produtividade se dissolvem. A instituição amplia o turno, sobretudo, pela
fragmentação do dia em microatividades, sessões, rotinas, projetos, oficinas,
círculos e avaliações contínuas. Uma cadência que remete menos ao espaço
educacional e mais à gestão carcerária do cotidiano, na qual cada minuto deve
ser contabilizável, justificável e monitorável. Como na prisão, o tempo deixa
de ser vivido e passa a ser administrado. Não há ócio, não há respiro, não há
suspensão. Há movimento contínuo, programação incessante, mensuração
permanente. Cada minuto torna-se unidade de rendimento. E, nesse processo, a
experiência subjetiva é corroída. Produz-se a exaustão.
Na
escola contemporânea, a vigilância já não se organiza em torno de um olhar
centralizado, contínuo e ameaçador. As câmeras existem, só que perderam parte
de sua eficácia disciplinar direta. Tornaram-se paisagem, ruído de fundo. O
aluno sabe que elas estão ali, só que raramente associa sua presença a uma
punição imediata. O controle não se exerce mais prioritariamente pela sanção,
se exerce pela fragmentação do olhar e pela diluição da responsabilidade
punitiva. Ninguém vigia totalmente. Ninguém pune diretamente. E é, justamente
por isso, que a vigilância se torna mais eficiente. O eixo do controle
desloca-se, então, para o autocontrole. O aluno permanece conectado, com o
celular sempre ligado. O celular surge como uma espécie de extensão permanente
do dispositivo escolar no neoliberalismo. A vigilância passa a operar por
comparação, por visibilidade lateral, por antecipação do julgamento. O medo já
não é da punição formal, o medo é da inadequação, da exposição, da reprovação
do outro. Ao mesmo tempo, os professores também passam a se perceber como
observados por alunos, famílias, coordenações. O olhar deixa de ter direção
única e se converte em campo de tensão contínua. Todos se sentem vigiados. É a
expressão máxima do panóptico penal sonhado por Jeremy Bentham. Esse regime
produz sujeitos treinados para ajustar-se sem ordem explícita. O controle não
exige intervenção. Ele se realiza pela internalização das expectativas.
Aprende-se a moderar gestos, falas, afetos e posturas não porque alguém está
olhando, mas porque alguém pode estar olhando. Arrisco dizer que se trata de
uma vigilância sem centro e sem rosto, que governa por antecipação e
conformidade. O sujeito que emerge desse dispositivo não é rebelde nem
submisso. É um sujeito cauteloso, calculado, permanentemente atento à própria
imagem, não para se expressar, mas para não destoar. É preciso, contudo,
reconhecer que esse regime de controle difuso não elimina, ao contrário,
reconfigura a presença de uma vigilância explícita, agora legitimada pelo discurso
da proteção e da segurança. As escolas contemporâneas, especialmente as de
tempo integral, passaram a operar com uma rede densa e ostensiva de controle
visual. Câmeras em todos os corredores e pátios, vigilantes privados, guardas
patrimoniais e, em alguns casos, rondas policiais regulares. Essa
intensificação é frequentemente justificada pela retórica da prevenção,
sobretudo após episódios de violência em escolas. Só que seus efeitos
extrapolam, em muito, a promessa de segurança.
Concluí
o ensino médio em 2013, em uma escola da Polícia Militar, e, paradoxalmente, o
aparato de vigilância à época era menos intrusivo do que aquele que encontro
hoje ao retornar à educação básica. Naquela época, havia porteiros; hoje, há
olhos mecânicos distribuídos por todos os espaços, sem exceção. E há, agora, os
guardas e vigilantes. Após quase uma década afastado das escolas, período em
que emendei graduação, mestrado e doutorado, meu ingresso na rede de Pernambuco
foi acompanhado de espanto diante dessa multiplicação desses dispositivos.
Cheguei, inclusive, a comentar que na Bahia não havia tal nível de controle,
apenas para ser interpelado por uma colega que trabalhava na educação baiana
que observou que esse processo já se consolidara há anos. Eu que não tinha esse
conhecimento. O que mais chama atenção, em relação a isso tudo, é a
naturalidade com que os alunos convivem com essa vigilância total. Agem como se
as câmeras fossem parte orgânica do ambiente. Como se o olhar mecânico já
estivesse inscrito no próprio funcionamento do espaço escolar. Há,
evidentemente, uma diferença etária entre mim, com trinta anos, e meus alunos,
que têm entre quinze e dezessete anos. O que está em jogo, nessa diferença, é a
velocidade com que as tecnologias de vigilância se disseminaram e se tornaram
banais em um intervalo de tempo extremamente curto. Reformatando, mesmo entre
gerações próximas, ou no interior de uma mesma geração ampliada, modos inteiros
de percepção e de subjetivação. Em contraste, meu próprio desconforto persiste.
Não há um dia em que eu não levante os olhos em direção às câmeras como se
alguém estivesse me observando. A assimetria sensível que se produz decorre da
rapidez com que novos regimes de visibilidade se impuseram, reconfigurando
profundamente a experiência escolar.
A
arquitetura da escola integral tampouco é meramente funcional. Observem-se os
padrões adotados pelos estados federados – da Bahia a Pernambuco, de São Paulo
ao Pará – todos mantêm notável similitude com a estética industrial-carcerária
(não é irrelevante, aliás, a consolidação de uma estética industrial também no
desenho dos presídios). A arquitetura opera, aqui, como tecnologia silenciosa
de disciplina, ao organizar minuciosamente a circulação dos corpos e reduzir
drasticamente os espaços de indeterminação. Corredores longos e retilíneos,
iluminados por luz branca e uniforme, salas padronizadas dispostas em série,
portas permanentemente abertas, pátios pequenos e visíveis, ausência deliberada
de cantos mortos, frestas, nichos ou zonas de refúgio compõem um espaço
calculado para suprimir o improviso, a permanência aparentemente sem função e a
convivência não programada. Cada ambiente parece antecipar o corpo que o
atravessa, orientando trajetórias, regulando ritmos, inibindo desvios. Não há
lugares para se perder, para hesitar ou simplesmente permanecer. O espaço não
acolhe o estar. Ele exige o passar.
Essa
organização espacial ensina antes mesmo de qualquer conteúdo. O aluno aprende
onde pode estar, por quanto tempo, com quem e fazendo o quê. Aprende que não há
lugar para o ócio, para a pausa ou para a errância. A circulação é sempre
finalizada, orientada, justificada. Como na prisão, o espaço não precisa falar;
ele conduz. A obediência é incorporada como hábito corporal, como postura
naturalizada, produzindo sujeitos que se deslocam com eficiência, sem, contudo,
possibilitar a apropriação efetiva do espaço que ocupam. Não há, entre as redes
integrais públicas, uma arquitetura pensada a partir da vivência do espaço ou
da convivência como valor formativo. Quando não estão marcadas pelo
sucateamento material, como ocorre de modo recorrente em Pernambuco, operam sob
uma chave estritamente utilitarista de aproveitamento espacial, em que a
educação se reduz a horas mensuráveis de estudo e o espaço funciona apenas como
suporte para o cumprimento de métricas, como se observa na rede integral da
Bahia. A arquitetura, nesse modelo, não dialoga; ela apenas administra. A
educação como forma de vida, desprovida de pretensão produtivista imediata, não
encontra morada possível numa administração espacial que lê o espaço apenas em
termos de rendimento, controle e eficiência.
Nisso,
o aluno permanece quase sempre confinado à sala de aula, sob vigilância
constante e submetido a um regime de produção contínua. Os olhares se
multiplicam nos corredores. Cada professor funciona como fiscal; os alunos se
observam mutuamente e, frequentemente, se deduram. São eles igualmente fiscais.
A conversa, a interação, o contato entre pares são tolerados apenas nos
intervalos, como se a sociabilidade dependesse de autorização explícita.
Supostamente, o trabalho pedagógico ocorre apenas nas salas lotadas e abafadas.
A circulação pelo espaço é interpretada como transgressão, e a permanência fora
da sala se traduz em rótulos de “mau aluno” ou de desrespeito às normas.
Curiosamente, em minha experiência docente, foram justamente nos corredores,
com estudantes “filando” aulas ou buscando um espaço para respirar e conviver,
que observei o pedagógico florescer de maneira mais vívida. Ali, longe da
programação rígida e da vigilância hierárquica, vi surgirem cores, ritmos e
interações que não couberam nas salas monitoradas e nos cronogramas
milimétricos.
A
despersonalização ou mortificação do “eu”, por sua vez, não se dá por
apagamento explícito da identidade. Ela se dá por sua tradução contínua em
dados. O aluno é convocado a narrar-se o tempo todo em projetos de vida,
autoavaliações, relatórios socioemocionais, sendo que essa narrativa é
imediatamente convertida em indicadores, perfis e competências mensuráveis. A
singularidade só é reconhecida na medida em que pode ser categorizada,
comparada e administrada. O sujeito fala de si, só que é ouvido como número. É
um procedimento que não nasce na escola, nasce do universo penal. A redução do
indivíduo a prontuário, ficha, tipologia de risco, histórico comportamental. A
escola neoliberal herda essa tecnologia e a reinscreve em linguagem pedagógica.
A
escola integral funciona como o paradigma mais explícito da escola neoliberal.
Ela é a forma mais visível e concentrada de uma lógica que atravessa todo o
sistema educacional no capitalismo de plataformas. Sua promessa de “ampliação
de oportunidades” serve para legitimar uma reorganização profunda do tempo, do
corpo e da subjetividade. A escola integral é, portanto, a vitrificação
institucional dessa nova forma de governo dos corpos. Ali, tudo se intensifica,
se acelera, se torna mais explícito. No sistema prisional, a despersonalização
opera como condição de governabilidade. O preso deixa de ser sujeito histórico
para tornar-se caso, processo, corpo classificável. Na escola, essa mesma
lógica reaparece sob o signo da inclusão e do cuidado. O aluno é excessivamente
descrito, avaliado e monitorado, até que sua experiência concreta seja
absorvida por categorias institucionais. A diferença é apenas de tonalidade
moral. Onde a prisão nomeia periculosidade, a escola nomeia
competência/deficiência; onde a prisão fala em risco, a escola fala em
potencial/fracasso. Em ambos os casos, a singularidade é neutralizada pela
gestão.
O
efeito subjetivo é profundamente ambíguo. O aluno é interpelado como
protagonista, contudo, aprende a se perceber como projeto permanentemente
insuficiente. Aprende a suportar o fracasso prometido. Cada dificuldade é
reinterpretada como falha individual de gestão de si. Cada desvio, como déficit
de competência. Tal como no campo penal, a responsabilidade é deslocada para o
indivíduo, enquanto as condições estruturais desaparecem do horizonte.
O que
se impõe, portanto, não é uma analogia entre escola e prisão, o que se impõe é
a circulação de uma mesma tecnologia de governo. A escola de tempo integral não
copia a prisão; ela herda sua racionalidade disciplinar e a reinscreve em chave
pedagógica. Configura-se a mesma gramática institucional aplicada a corpos
distintos. Em um caso, sob o signo da punição; no outro, sob o signo do
cuidado. A coerção não desaparece quando se torna educativa, ela somente muda
de nome e amplia seu alcance.
A
prisão aparece como matriz. É nela que se consolidam os procedimentos de gestão
total do tempo, de neutralização do ócio e de produção de corpos previsíveis. A
escola integral atualiza esses procedimentos ao deslocá-los para o campo da
normalidade social. O que antes era justificado pela periculosidade do preso
passa a ser legitimado pela vulnerabilidade do aluno. Em ambos os casos, o
efeito é o mesmo. Uma vida administrada integralmente por dispositivos que não
toleram interrupção, improdutividade ou desvio. Mas essa administração opera
sob a lógica da gestão individual do fracasso, transferindo para o sujeito a
responsabilidade por sua própria exaustão, enquanto as condições materiais da
exploração capitalista permanecem intactas. É desse cruzamento que emerge o
sujeito exausto do neoliberalismo. Não o sujeito dócil do disciplinamento
clássico. É o sujeito funcional ao capitalismo contemporâneo, capaz de suportar
longas jornadas, múltiplas tarefas e a invasão permanente do tempo
institucional sobre a vida. A escola integral participa dessa fabricação não
por falhar enquanto escola, mas por cumprir com eficiência uma função
classista, enquanto instituição do aparato burguês. Isto é, participa dessa
fabricação exatamente por funcionar enquanto escola, produzindo sujeitos
adaptados a um regime que exige movimento contínuo, disponibilidade permanente
e aceitação silenciosa do desgaste. Essa reorganização do tempo, que parece
oferecer “mais educação”, na verdade opera uma dilaceração da experiência. O
tempo integral não aumenta o mundo do aluno. Ele o fragmenta e o mantém
ocupado, evitando que o corpo encontre a pausa, o silêncio, o encontro e o
não-fazer que a vida demanda para produzir pensamento próprio. A escola
transforma o tempo em recurso. Um ativo a ser preenchido, performado,
consumido. E ao fazer isso, ela antecipa a subjetividade do trabalhador de
plataforma, que vive sob a tirania da produtividade total.
Assim,
a escola integral funciona como um ensaio geral da exaustão. Para isso,
incorpora tecnologias carcerárias, a saber: o controle minucioso do tempo, a
vigilância distribuída, a arquitetura de controle, a despersonalização do
indivíduo. É por essa razão que, ao compararmos a escola integral à escola
prisional, identificamos continuidades não apenas no discurso pedagógico ou na
atmosfera educacional, mas sim na disciplina que as organiza e atravessa. A
escola integral, ao contrário do que promete, não protege o aluno da lógica
neoliberal, o introduz nela. Ao emprenhar-se da gramática empresarial, opera
uma atualização do dispositivo de alienação para atender às demandas de um
capitalismo que já não quer corpos imóveis, de um capitalismo que quer corpos exaustos.
Não se trata mais de ensinar a permanecer sentado; mas de ensinar a estar
sempre engajado, sempre ativo, sempre disponível; à semelhança do trabalhador
que cumpre CLT no horário comercial, roda como Uber nos intervalos e, à noite,
trabalha informalmente em seu carrinho de cachorro-quente. O aluno da escola
integral é, assim, o protótipo do sujeito de plataforma, preparado para existir
numa temporalidade ilimitada, com fronteiras borradas entre vida, trabalho e
formação. Aprende-se cedo que o valor de si não está no saber, o valor está na
performance, no quanto se produz, no quanto se movimenta, no quanto se entrega.
Essa mutação, para além de pedagógica, é histórica. Se, na sociedade
disciplinar, a escola produzia o sujeito “chapliniano” (imóvel, dócil,
adestrado ao ritmo da linha de montagem), na racionalidade neoliberal sua
função se reconfigura. Já não se busca um aluno silencioso e obediente,
busca-se um sujeito hiperperformático, autogerido, empreendedor de si, treinado
desde cedo para a lógica da plataforma. A disciplina clássica não desaparece;
ela é internalizada, convertendo-se em autoexigência permanente.
É nessa
direção que arrisco a afirmar que o filme Você não estava aqui (Ken Loach,
2019) se impõe como imagem exemplar da subjetividade neoliberal. Ricky (Kris
Hitchen) encarna o trabalhador ideal do capitalismo de plataformas. Sempre
disponível, “incansável”, autogerido. Ele dirige o dia inteiro, entrega
encomendas sem pausa e administra a própria exaustão como se fosse parte
natural da vida. Não é vigiado por um capataz. É, sim, governado por um
algoritmo. Seu fracasso é sempre individualizado; seu cansaço, moralizado; sua
dor, reinterpretada como prova de empenho. Ricky é, em minha leitura, o
anti-Chaplin. Não como superação, mas como mutação sistêmica. Onde antes havia
contenção, há, agora, movimento frenético; onde havia disciplina externa, há,
então, autoexploração; onde havia obediência, há, hoje, responsabilização
individual. O neoliberalismo opera essa inflexão decisiva ao transformar o
trabalhador em empresário de si mesmo, culpado por cada falha, compelido a se
reinventar continuamente, governado menos pela coerção do que pela culpa. Ele
não é punido pela empresa; “pune-se” (aceita as mazelas como culpa/castigo) por
não alcançar as metas que o algoritmo impõe. Embora sua vida se dissolva em
trabalho, o discurso insiste em chamá-lo de “livre”, “empreendedor”,
“protagonista”. É precisamente esse sujeito que a escola passa a formar. Ela
ensina a responsabilizar-se por tudo, inclusive pelo que é estrutural;
naturaliza o cansaço; transforma a falha em déficit de esforço. A disciplina do
século XX cede lugar à culpabilização neoliberal do século XXI. A escola já não
prepara para a fábrica; prepara para o aplicativo. Prepara para a escravidão
voluntária. Nesse sentido, o arco Chaplin-Ricky, para além de uma comparação
cinematográfica, constitui a síntese de duas formas históricas de governo da
vida. Chaplin encarna o sujeito disciplinado da modernidade industrial; Ricky,
o sujeito exausto da era das plataformas. A escola, antes aparelho de
docilização, converte-se em aparelho de exaustão moral. Forma alunos que
aprendem cedo a se vigiar, a se cobrar, a se culpar e, sobretudo, a aceitar a
lógica de que a vida é uma corrida sem fim. Ensina igualmente a sonhar com
mudanças milagrosas, a esperar planos divinos. Ensina a aceitar desigualdade,
exploração e injustiça como provações de fé, como veremos na segunda parte
dessa reflexão.
Assim,
o aluno vai sendo moldado para tornar-se o “Ricky”, isto é, o empreendedor de
si, o trabalhador ideal da era das Big Techs. Alguém cuja jornada nunca termina
porque o próprio tempo se torna infinito; alguém sempre em atividade, sempre em
movimento, sempre respondendo a demandas. A escola integral, nesse sentido,
para além de preparar para o mundo do trabalho, ensaia a forma de vida que o
capitalismo contemporâneo exige. Por isso, o novo vocabulário escolar
(“protagonismo”, “autonomia”, “gestão do tempo”, “projeto de vida”,
“empreendedorismo”, “educação financeira”) antecipa e naturaliza, no espaço
pedagógico, a retórica empresarial da responsabilização individual, convertendo
desigualdade em deficiência pessoal e fracasso estrutural em falha de competência.
É justamente essa forma de vida que se expressa, em escala ampliada, na cultura
contemporânea da agitação. O imperativo de estar sempre em movimento, sempre
ocupado, sempre “fazendo algo” não constitui um desvio patológico do
capitalismo, constitui seu produto mais funcional. Há quem sustente que a
ansiedade, o burnout e a exaustão generalizada estariam causando prejuízo ao
sistema, como se o Capital sofresse com a fadiga dos corpos que explora. Ledo
engano. Essa leitura ignora a economia política da exaustão. O sujeito
permanentemente acelerado, que administra a própria fadiga como parte da
rotina, é o sujeito ideal para um regime que necessita, para além de
produtividade, de controle afetivo, espiritual, físico e cognitivo.
A
exaustão, portanto, não ameaça o capitalismo; ela o fortalece. Um corpo cansado
não questiona. Uma mente saturada não imagina alternativas. A energia restante
é tão escassa que só consegue se apegar ao sonho de uma vida melhor, justamente
o sonho que o próprio sistema fabrica e jamais entrega. A cultura da agitação
opera, assim, como tecnologia de governo. Ela impede a pausa (onde nasce a
crítica), destrói a interioridade (onde germina a imaginação política),
mecaniza relações (inviabilizando solidariedades) e transforma o desgaste em
fidelidade (tornando a revolta mera utopia). O saldo político da exaustão é
inequívoco. Um sujeito distraído demais para revoltar-se, culpado demais para
exigir direitos e esperançoso demais, paradoxalmente, para abandonar o barco
que o afoga. O movimento incessante, longe de emancipar, aprisiona. O corpo
moído é o corpo radicalmente governável. A agitação é o novo cárcere. Do ponto
de vista materialista, a escola integral não pode ser analisada apenas como uma
ampliação benevolente do tempo pedagógico ou como um avanço civilizatório em
direção à chamada “formação humana integral”. A escolarização obrigatória,
desde sua constituição moderna, responde a necessidades materiais do Capital.
Ela surge como tecnologia de organização do tempo social, disciplinamento dos
corpos e produção de subjetividades compatíveis com o trabalho assalariado. A
escola regula ritmos, internaliza hierarquias, naturaliza a avaliação e desloca
para o indivíduo a responsabilidade pelo fracasso, funcionando como peça
central na reprodução da força de trabalho e na estabilização da ordem social.
Nesse sentido, a ampliação do tempo escolar não representa uma ruptura com essa
lógica, representa, ao contrário, um aprofundamento de sua função histórica.
Isto é, quanto mais tempo sob tutela institucional, maior a capacidade de
conformação da vida ao regime produtivo.
Tudo
isso, no entanto, ainda não esgota o funcionamento da escola integral. O
controle do tempo, do espaço e dos corpos, herdado da racionalidade prisional,
explica como a instituição produz exaustão, só que não explica inteiramente por
que essa exaustão é aceita, naturalizada e, muitas vezes, desejada. Para que o
sujeito permaneça engajado num regime que o desgasta continuamente, é preciso
algo além da disciplina. É preciso adesão subjetiva, culpa internalizada e
sentido moral atribuído ao sacrifício. Não me parece exagero afirmar que a
escola deixa de operar apenas como prisão e passa a funcionar também como
igreja, mobilizando uma gramática religiosa, aparentemente laicizada, para
governar afetos, justificar o sofrimento e converter a exaustão em virtude. É
essa outra face do dispositivo, menos visível, porém mais profunda, que se
torna central na segunda parte dessa reflexão: a Escola-Igreja.
Fonte:
Le Monde

Nenhum comentário:
Postar um comentário