O
mito da força de vontade — e por que algumas pessoas têm mais dificuldade para
perder peso
"Pessoas
gordas só precisam de mais autocontrole." "É uma questão de
responsabilidade pessoal." "É simples, basta comer menos."
Esses
foram alguns dos 1.946 comentários publicados por leitores, abaixo de um artigo
que escrevi em 2025 sobre injeções para perda de peso.
A ideia
de que a obesidade é apenas uma questão de força de vontade é defendida por
muitas pessoas, inclusive por alguns profissionais de saúde.
De
acordo com um estudo realizado com pessoas do Reino Unido, Austrália, Nova
Zelândia e Estados Unidos, publicado na revista médica The Lancet, 8 em cada 10
pessoas afirmaram que a obesidade poderia ser totalmente impedida apenas por
meio de escolhas de estilo de vida.
Mas
Bini Suresh, nutricionista com 20 anos de experiência com pacientes obesos e
com sobrepeso, diz ficar indignada com essa ideia.
Isso,
acredita ela, é apenas uma fração do quadro completo.
"Vejo
com frequência pacientes altamente motivados, bem informados e que se esforçam
de forma consistente, mas ainda assim enfrentam dificuldades para controlar o
peso", afirma.
"Termos
como 'força de vontade' e 'autocontrole' são inadequados", concorda a
médica Kim Boyd, diretora médica do Vigilantes do Peso. "Durante décadas,
as pessoas ouviram que bastava comer menos e se exercitar mais para emagrecer…
[Mas] a obesidade é muito mais complexa."
Ela e
outros especialistas ouvidos pela reportagem apontam que há inúmeras razões
pelas quais uma pessoa pode ser obesa; algumas ainda não totalmente
compreendidas. O que já está claro, porém, é que não se trata de um jogo com
condições iguais para todos.
O
governo do Reino Unido recorreu à regulação para tentar enfrentar o problema.
A
medida mais recente, a proibição de publicidade de alimentos não saudáveis (com
alto teor de açúcar, sal ou gordura, por exemplo) na televisão antes das 21h e,
de forma integral, em plataformas online, entrou em vigor nesta semana.
Ainda
assim, muitos acreditam que isso não será suficiente para combater o que hoje é
um problema de obesidade de grandes proporções no Reino Unido — um problema que
afeta mais de 1 em cada 4 adultos.
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Uma batalha contra a biologia
"A
quantidade de peso que as pessoas ganham é significativamente influenciada
pelos genes, e esses genes são relevantes para todos", explica a
professora Sadaf Farooqi, endocrinologista que trata pacientes com obesidade
mórbida e distúrbios endócrinos e lidera o Estudo Genético da Obesidade, da
Universidade de Cambridge (Reino Unido).
Ela
afirma que determinados genes afetam os circuitos cerebrais que regulam a fome
e a saciedade em resposta aos sinais enviados pelo estômago ao cérebro.
"Variantes
ou alterações nesses genes são encontradas em pessoas com obesidade, o que faz
com que sintam mais fome e tenham menor probabilidade de se sentirem saciadas
após comer."
Talvez
o mais importante desses genes — ao menos entre os que são conhecidos até agora
— seja o MC4R. Uma mutação nesse gene, que estimula a alimentação excessiva e
reduz a sensação de saciedade, está presente em cerca de um quinto (20%) da
população mundial.
"Outros
genes afetam o metabolismo — a velocidade com que queimamos energia",
acrescenta Farooqi, da Universidade de Cambridge.
"Isso
significa que algumas pessoas ganham mais peso e armazenam mais gordura ao
consumir a mesma quantidade de alimento do que outras, ou queimam menos
calorias quando se exercitam."
Farooqi
estima que provavelmente existam milhares de genes que influenciam o peso
corporal e que apenas cerca de 30 a 40 deles são atualmente conhecidos em
detalhe.
"É
por isso que os medicamentos para perda de peso que estão chegando ao mercado
são tão eficazes e tão importantes: eles ajudam a combater esse
mecanismo", afirma.
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A ciência por trás do efeito sanfona
Ainda
assim, isso é apenas parte da história.
Andrew
Jenkinson, cirurgião bariátrico e autor de Why We Eat Too Much (Por que Comemos
Demais, em tradução livre), explica que cada pessoa tem um peso determinado que
o cérebro reconhece ou considera ideal, independentemente de ser um peso
saudável ou não.
Esse
conceito é conhecido como teoria do set point.
"Esse
[peso corporal determinado] é definido pela genética, mas também por outros
fatores, como o ambiente alimentar, o nível de estresse e o padrão de
sono", afirma.
Segundo
a teoria, o peso corporal funciona como um termostato: o organismo tenta
manter-se dentro dessa faixa determinada, considerada a ideal. Se o peso cai
abaixo desse "ponto de ajuste" (set point), a fome aumenta e o
metabolismo desacelera, da mesma forma que um termostato eleva a temperatura
quando o ambiente esfria.
Uma vez
estabelecido esse peso determinado, argumenta Jenkinson, é muito difícil
alterá-lo apenas com força de vontade.
Isso
também ajuda a explicar o chamado efeito sanfona das dietas. "Por exemplo,
se você pesa cerca de 127 kg e o seu cérebro entende que esse é seu peso ideal,
ao iniciar uma dieta de baixas calorias e perder cerca de 12 kg, a reação do
seu corpo é exatamente a mesma de quando você passa fome", diz.
"Ela
vai provocar uma reação de apetite voraz, comportamento de busca por comida e
metabolismo lento", acrescenta. "Esses sinais de fome são
extremamente fortes. São tão fortes quanto o sinal de sede, existem para nos
ajudar a sobreviver. Um apetite voraz é algo realmente muito difícil de
ignorar."
Quanto
à base científica desse processo, Jenkinson aponta para o papel da leptina, um
hormônio produzido pelas células de gordura. "Ela funciona como um sinal
para o hipotálamo, a parte do cérebro que basicamente controla o ponto de
ajuste do seu peso, para dizer quanta energia o corpo tem armazenada.
"O
hipotálamo analisa o nível de leptina e, se parecer que estamos armazenando
energia ou gordura em excesso, ele altera automaticamente nosso comportamento,
reduzindo o apetite e aumentando o metabolismo."
Ao
menos, é assim que a leptina deveria funcionar. Muitas vezes, ela falha,
sobretudo no ambiente alimentar ocidental, explica ele.
Isso
ocorre porque o sinal da leptina compartilha uma via de sinalização com a
insulina. "Portanto, se os níveis de insulina estão altos demais, isso
acaba diluindo o sinal da leptina, e o cérebro deixa de perceber quanta gordura
está armazenada."
A boa
notícia é que esse ponto de ajuste não é fixo, ele pode se deslocar
gradualmente por meio de mudanças sustentadas no estilo de vida, melhora do
sono, redução do estresse e adoção de hábitos saudáveis de longo prazo.
Assim
como ao reajustar um termostato, ajustes lentos e consistentes, ao longo do
tempo, podem ajudar o corpo a aceitar uma nova faixa mais saudável.
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Obesidade no Reino Unido: a tempestade perfeita
Nada
disso explica sozinho o aumento da obesidade em países como o Reino Unido.
Afinal, nossos genes e a constituição biológica do corpo humano não mudaram.
A
proporção de adultos classificados como com sobrepeso ou obesidade aumentou de
forma constante na última década. A análise de 2025 da Health Foundation,
entidade filantrópica de serviços de saúde do Reino Unido, indica que mais de
60% dos adultos do Reino Unido agora se enquadram nessa categoria (incluindo
cerca de 28% considerados obesos).
Parte
disso se deve ao enorme volume e acessibilidade de alimentos de baixa qualidade
e alto teor calórico, em especial os ultraprocessados. Somam-se a isso o
marketing e a publicidade agressivos de fast food e bebidas açucaradas, o
aumento do tamanho das porções e as oportunidades limitadas para a prática de
atividades físicas (muitas vezes em razão do planejamento urbano ou da falta de
tempo), e temos uma tempestade perfeita.
"[Como
resultado] nos tornamos uma população mais obesa e, claro, aqueles com maior
propensão genética a ganhar peso acabaram ganhando", disse Farooqi, da
Universidade de Cambridge.
Especialistas
em saúde pública se referem a esse quadro como ambiente obesogênico, termo
usado pela primeira vez nos anos 1990, quando pesquisadores passaram a
relacionar o aumento das taxas de obesidade a fatores externos, como
disponibilidade de alimentos, marketing e planejamento urbano.
Em
conjunto, argumentam muitos especialistas, esses fatores criam estímulos e
pressões constantes que levam a alimentação excessiva e ao sedentarismo,
significando que até pessoas altamente motivadas têm dificuldade para manter um
peso saudável.
Tudo
isso também ajuda a explicar por que a força de vontade se tornou um termo cada
vez mais carregado de significado.
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O debate sobre responsabilidade individual
Sentada
em seu escritório na Administração Municipal de Newcastle (Reino Unido), a
diretora de saúde pública Alice Wiseman vê comida por todo lado. "Há
cafeterias, padarias e restaurantes de comida para viagem. Você não consegue ir
à escola ou ao trabalho sem passar por um lugar que venda comida."
"A
visibilidade importa. Se você passa por muitos pontos de comida para viagem no
caminho para o trabalho, é mais provável que compre algo. O corpo quase reage à
comida ao seu redor", diz Wiseman.
Em
Gateshead, onde ela também é diretora no sistema público de saúde, nenhuma
autorização de planejamento urbano foi concedida para novos estabelecimentos de
venda de comida para viagem desde 2015.
Mas no
restante do país, o setor de fast food e de refeições para viagem continuou a
crescer, movimenta mais de £ 23 bilhões por ano (cerca de R$ 145 bilhões).
E os
gastos com publicidade de alimentos no Reino Unido são dominados por produtos
ricos em gordura, sal e açúcar, como doces, bebidas açucaradas, fast food e
lanchinhos, segundo o mais recente Ofcom Communications Market Report.
Mas
Wiseman, que é vice-presidente da Association of Directors of Public Health
(Associação de Diretores do Sistema de Saúde Pública, em tradução livre),
avalia que as novas medidas anunciadas para restringir a publicidade de junk
food — ou, oficialmente, "less healthy food" (alimentos menos
saudáveis, em tradução livre) — terão alcance limitado.
Um
relatório publicado no ano passado pela The Food Foundation também apontou que
alimentos mais saudáveis custam mais do que o dobro por caloria em comparação
aos menos saudáveis.
"Em
famílias onde o dinheiro é curto, é difícil arcar com uma alimentação
saudável", diz Wiseman.
"Não
estou dizendo que a responsabilidade individual não tenha um papel. Mas, quando
se pensa bem, é preciso perguntar: o que mudou? Nós não perdemos força de
vontade de repente."
A
nutricionista Bini Suresh concorda. "Vivemos em um ambiente projetado para
o consumo excessivo."
"A
obesidade não é uma falha de caráter. É uma condição complexa e crônica,
moldada pela biologia e por um ambiente altamente obesogênico. Força de
vontade, por si só, não é suficiente, e enquadrar a perda de peso apenas como
uma questão de disciplina causa danos."
No
entanto, outros têm uma leitura diferente do termo "força de
vontade".
O
professor Keith Frayn, autor de A Calorie is a Calorie (Uma Caloria é uma
Caloria, em tradução livre) concorda que muitas pessoas hoje com sobrepeso
provavelmente não estariam nessa condição há 40 anos. "Foi o ambiente que
mudou, não a força de vontade delas nem qualquer outra coisa", afirma.
Ele
acrescenta: "Tenho receio de que descartar a 'força de vontade' torne
fácil demais se resignar a um peso que talvez não seja o desejado ou o melhor
para a saúde".
Frayn
cita grandes bases de dados de pessoas que conseguiram perder peso e manter a
redução, como o National Weight Control Registry, nos EUA, que reúne mais de 10
mil participantes. "Essas pessoas descrevem tanto a perda de peso quanto a
manutenção do peso como 'difíceis', sendo o segundo ainda mais difícil do que o
primeiro…".
"Eu
diria que, se você dissesse a essas pessoas que força de vontade não tem nada a
ver com isso, elas ficariam bastante ofendidas", diz Frayn.
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'Não se legisla pessoas para a boa forma'
O
debate mais amplo, naturalmente, é até que ponto o Estado deve assumir
responsabilidade.
Wiseman
avalia que a regulação é uma ferramenta importante no enfrentamento da
obesidade argumentando que promoções como leve um, pague dois estimulam compras
por impulso. Já Gareth Lyon, chefe da área de saúde e assistência social do
think tank de direita (centro de estudos e debates) Policy Exchange, argumenta
que mais legislação não é o caminho.
"Não
se legisla pessoas para a boa forma", diz.
"As
proibições e impostos sobre alimentos que as pessoas gostam de comer só tornam
a vida mais difícil, menos prazerosa e mais cara, em um momento em que o Reino
Unido já enfrenta dificuldades com o custo de vida."
Christopher
Snowdon, diretor de economia do estilo de vida no Institute of Economic
Affairs, outro think tank de direita, também considera que a obesidade é um
"problema individual", e não de saúde pública.
"[A
obesidade] decorre das escolhas feitas por esse indivíduo", argumenta.
"Em última instância, não dá para ir muito além do indivíduo. Acho
bastante bizarra a ideia de que seja responsabilidade do governo fazer as
pessoas emagrecerem".
"Eu
gostaria de ver uma avaliação independente e rigorosa dessas políticas e, se
elas não estão funcionando, que sejam revogadas."
Quanto
à força de vontade, ela sempre desempenhará algum papel — o que varia é o
tamanho desse papel na avaliação de especialistas.
Suresh
avalia que a força de vontade é apenas uma parte de um quadro mais amplo. E que
o primeiro passo é informar as pessoas sobre quais outros fatores estão em
jogo.
"Essa
perspectiva muda o foco de um julgamento moral sobre força de vontade para um
sistema de apoio compassivo, baseado na ciência, que, em última instância,
oferece melhores chances de sucesso no longo prazo."
Existem
também maneiras de fortalecer a força de vontade, argumenta a psicóloga Eleanor
Bryant, da Universidade de Bradford (Reino Unido). "Ela não é constante o
tempo todo. É influenciada pelo seu humor, pelo nível de cansaço e, no caso da
alimentação, pelo nível de fome que sente."
O que
também importa é a forma como se pensa sobre isso. Existem dois tipos de força
de vontade: flexível e rígida. Quem tem força de vontade rígida vê as coisas
como preto no branco. "Se você cede à tentação, basicamente se entrega.
Você come aquele biscoito e continua comendo."
Em
termos psicológicos, isso é conhecido como alimentação desinibida. "Já a
pessoa flexível diz: 'Ok, comi um biscoito… mas vou parar por aqui'",
explica Bryant. "Não é preciso dizer que a flexibilidade é muito mais
bem-sucedida."
Ela
acrescenta: "Exercer força de vontade em relação à comida provavelmente é
mais difícil do que em outras áreas [da vida]."
Suresh
concorda, mas afirma que, quando as pessoas compreendem os limites da força de
vontade, a capacidade de exercê-la tende, na prática, a se fortalecer.
"Quando
esses pacientes entendem que sua dificuldade tem raízes biológicas, e não na
falta de disciplina, e passam a contar com apoio baseado em nutrição
estruturada, padrões regulares de alimentação, estratégias psicológicas e metas
realistas, a relação deles com a comida melhora de forma significativa."
Fonte:
Correio Braziliense

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