terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Heleno Corrêa Filho: Mídia condena a “polarização”, mas defende o abuso da força

A mídia dominante diz que o Brasil está politicamente mal porque existe “polarização”.

Essa é uma proposta filosófica que precisa ser verificada. Todas as ideias exigem exame lógico, escrutínio moral, avaliação de compatibilidade com o que já é conhecido e verificação da realidade.

Para isso, é necessário pensar nas condições que sustentam e nas que negam as afirmativas de um pressuposto, bem como em suas consequências.

O método conhecido como perguntas sequenciais diante de possibilidades opostas (maiêutica) exige polaridades de pensamento e de atitude.

Portanto, não há como julgar ideias e assumir posições sem confrontar formações discursivas que contestam, se opõem e, por consequência, constituem polos opostos que se distanciam em perspectivas e referências. O problema é que, sem polarização — ou sem polaridades —, a vida é morta, burra, estéril.

O problema não é a polarização. O problema é o uso da força para calar o pensamento e o debate.

Uma democracia efetiva exige polarização e combate ao abuso de poder. A mídia combate a “polarização”, mas defende o abuso da força. A mensagem que fica é a de conformar-se e ficar quieto: sem pensar, sem propor, sem reclamar. E a culpa pelo mal-estar gerado por isso recai sobre os que estariam “polarizando”.

Há quem proponha reprimir manifestações polares. Geralmente, essa atitude parte de quem está no poder.

Não há crime em politizar opiniões. O crime seria esconder a política para justificar opiniões cuja posição parte da supremacia de um grupo sobre outro já dominado.

A política é o que permite a equidade — palavra esquecida —, que move a ética de todas as profissões da saúde. No dia em que for crime trazer argumentos políticos para discutir a saúde, as profissões de saúde serão transformadas em instrumentos de dominação e controle.

O pensamento de esquerda não se cansa de apontar que não há conflito de interesse em discutir política — seja a política das pessoas, das profissões, dos países ou dos partidos.

O que se exige sempre é a honestidade dos argumentos, a clareza das fontes e, no nosso caso, na profissão médica, o respeito às fontes de informação confiáveis e científicas. Política não é crime nem desrespeito.

Os autores de crimes e de desrespeitos criminalizam, em um primeiro momento, a política.

Os fascistas se aproveitam da liberdade de palavras e de atos políticos para esmagar a democracia e a liberdade de expressão que contesta suas ações violentas, que suprimem a política plural. A esquerda não faz isso quando é legítima, democrática e conta com a confiança e a participação livre das pessoas.

A equidade é o princípio filosófico e moral que sustenta o SUS.

Encontrar um ponto de equilíbrio ou uma síntese em um sistema de saúde iníquo, baseado na exploração do trabalho — inclusive das(os) médicas(os) —, impulsiona e pode contradizer um sistema baseado no “cale-se ou será eliminado”. Por isso, um pensamento “polar” pode ser necessário.

•        A democracia na era dos algoritmos: quem decide quando já não somos nós? Por Marcelo Copell

A democracia não é apenas um conjunto de regras eleitorais. Ela é, antes de tudo, um ecossistema de atenção, informação e conflito. Durante boa parte de sua história recente, esse ecossistema organizou-se em torno da ideia de razão pública: o debate mediado por instituições, pela imprensa profissional e por espaços comuns de deliberação.

Essa arquitetura ainda é evocada no discurso político, mas tornou-se insuficiente em um mundo no qual os mecanismos que estruturam o debate coletivo deixaram de ser predominantemente deliberativos para passar a operar por sistemas automatizados de seleção e priorização de conteúdo.

Durante décadas, o espaço público foi imperfeito — e humano. Hoje, ele continua existindo, mas perdeu qualquer pretensão de neutralidade. A visibilidade das ideias passou a ser regulada por códigos opacos que organizam a atenção, hierarquizam opiniões e moldam a percepção do consenso político.

Não elegemos esses sistemas. Eles não são debatidos no Congresso, não passam por escrutínio público e seus critérios permanecem inacessíveis. Ainda assim, determinam o que vemos, o que ignoramos, o que nos mobiliza emocionalmente e até aquilo que acreditamos ser majoritário. A democracia do século XXI não está sendo corroída por tanques ou golpes clássicos, mas por engrenagens invisíveis de otimização, desenhadas para maximizar engajamento, lucro e previsibilidade comportamental.

A questão central já não é se a tecnologia influencia a política — isso é um fato consumado. O problema é saber se democracias conseguem sobreviver quando a mediação do debate público deixa de ser institucional e passa a ser governada por processos automáticos.

No Brasil, as redes sociais tornaram-se o principal espaço de formação de opinião política. Mas não funcionam como praças públicas: operam como mercados de atenção. Cada postagem, vídeo ou polêmica é avaliada não por sua relevância cívica ou compromisso com a verdade, mas por sua capacidade de gerar cliques, reações e tempo de permanência. O resultado é conhecido: conteúdos extremos são premiados, nuances são penalizadas e a indignação permanente converte-se em ativo político.

Esse ambiente não produz apenas polarização; cria uma ilusão perigosa de maioria. Quando sistemas de recomendação nos expõem repetidamente a opiniões semelhantes às nossas, reforçam a sensação de que “todo mundo pensa assim”. O dissenso deixa de ser entendido como parte natural da democracia e passa a ser tratado como ameaça ou traição. A erosão da confiança não começa nas instituições — começa entre os próprios cidadãos.

A expansão da inteligência artificial elevou esse fenômeno a outro patamar. Já não se trata apenas de amplificar discursos existentes, mas de produzir narrativas em escala industrial. Textos, imagens, vídeos e vozes sintéticas permitem fabricar consensos artificiais, simular apoio popular e desacreditar adversários com um grau de sofisticação inédito. A verdade passa a ser disputada não pela ausência de fatos, mas pela superabundância de versões plausíveis.

Diante desse cenário, a resposta política tem sido lenta e, muitas vezes, ingênua. Regula-se a tecnologia como se fosse apenas mais um setor econômico, quando ela se tornou uma infraestrutura central da vida democrática. Discute-se a propaganda eleitoral, mas ignora-se o impacto estrutural dos mecanismos de curadoria de conteúdo. Fala-se em educação midiática como solução quase exclusiva, como se fosse razoável exigir que o cidadão comum enfrente sozinho sistemas concebidos por equipes especializadas em psicologia comportamental e ciência de dados.

Não se trata de rejeitar a tecnologia. Ferramentas automatizadas não são, por natureza, inimigas da democracia. Podem, em tese, ampliar a diversidade de perspectivas, reduzir a desinformação e fortalecer o debate público. O problema é que, quando submetidas exclusivamente à lógica do mercado, tendem a produzir exatamente o oposto.

A pergunta decisiva é política: quem deve controlar a estrutura da esfera pública digital? Empresas privadas com interesses comerciais globais ou sociedades democráticas, por meio de regras transparentes, auditáveis e sujeitas a controle público?

Responder a essa pergunta exige abandonar a ideia confortável de neutralidade tecnológica. Regular esses sistemas não é censura; é uma forma contemporânea de separação de poderes. Assim como não aceitamos que bancos privados definam sozinhos a política monetária, não deveríamos aceitar que plataformas digitais determinem, sem limites, as condições do debate democrático.

A União Europeia avançou com legislações como o Digital Services Act, mas mesmo esses esforços ainda são insuficientes. A transparência dos critérios de priorização permanece limitada, a auditoria independente é rara e as sanções dificilmente acompanham a velocidade da inovação.

O Brasil tem feito avanços importantes na construção de um marco regulatório para a economia digital e para a inteligência artificial, com projetos de lei em tramitação, planos nacionais de governança e o fortalecimento de instituições. Ainda assim, o desafio de equilibrar proteção de direitos, inovação e autonomia institucional permanece — e muito dependerá da capacidade de transformar normas em práticas efetivas.

É nesse ponto que o risco democrático se impõe. A democracia raramente desaparece de forma abrupta. Ela se desgasta aos poucos. Perde densidade. Transforma-se em espetáculo. Quando nos damos conta, ainda votamos, mas já não deliberamos. Ainda falamos, mas deixamos de nos escutar.

Se a democracia sempre foi um sistema imperfeito, sua força residiu na capacidade de corrigir os próprios erros. O desafio agora é saber se conseguirá fazê-lo em um ambiente no qual as distorções são amplificadas automaticamente e a atenção se tornou o recurso mais disputado do planeta.

Hoje, a defesa da democracia passa menos pelas urnas e mais pelo código. E isso exige que deixemos de tratar a tecnologia como um destino inevitável para encará-la como aquilo que sempre foi: uma escolha política.

•        O passado que não passa. Por Emir Sader

60 anos depois do golpe militar e 40 do final da ditadura militar no Brasil, os dois filmes premiados sucessivamente no Globo de Ouro – “Ainda Estou Aqui” e “O Agente Secreto” – têm como tema a ditadura militar.

O país viveu tantas coisas, se redemocratizou, teve retrocessos por um mandato presidencial, mas esse passado não passa. Os filmes são vistos por milhões de brasileiros, a maioria dos quais não viveu aquele período, com naturalidade, não como filmes sobre o passado, não como algo de um passado longínquo.

É certo que o país não passou a limpo tudo o que viveu durante a ditadura militar, os 21 anos que fazem da ditadura brasileira a mais longa de todas na América Latina. Não tivemos a alegria que os argentinos tiveram de ver seu principal ditador – Jorge Videla – ser julgado, preso e morrer na prisão.

A transição democrática não se deu como ruptura. O novo regime surgiu como um misto do velho e do novo, da sobrevivência do passado. O primeiro presidente civil foi eleito sem o voto direto, porque a campanha pelas eleições diretas foi derrotada no Congresso. Como resultado, o primeiro presidente civil do Brasil depois da ditadura militar foi quem era presidente do partido da ditadura militar, que se havia oposto às eleições diretas.

Essa transição fez com que, uma vez mais na nossa história, os acordos de elite impedissem que as rupturas se dessem, em vários momentos da nossa história. Sempre volta à nossa cabeça a afirmação tão significativa do então governador de Minas Gerais, Antonio Carlos de Andrade, para caracterizar a Revolução de 1930: “Façamos a revolução antes que o povo a faça".

Mesmo um momento, a Revolução de 30, que, a posteriori, aparece como uma grande ruptura, na passagem de um regime hegemonizado pela oligarquia agrária para um governo que passou a promover centralmente os interesses da burguesia industrial, foi feito acompanhado dessa afirmação.

Para não ir tão longe, em 8 de janeiro de 2023 houve uma tentativa de um novo golpe, que buscava reinstalar no país uma ditadura, que foi rapidamente derrotada, demonstrando que os tempos são outros, que a democracia que temos veio para ficar.

A eleição de Lula, em 2002, foi igualmente um marco fundamental na afirmação da democracia no Brasil. Um líder sindical, nordestino, do Partido dos Trabalhadores, tornava-se presidente do Brasil, tendo se reelegido e eleito sua sucessora.

Lula voltou a ser eleito, pela terceira vez, como presidente do Brasil, quatro anos depois de ter sido preso, sem nenhuma prova, como o próprio Judiciário finalmente reconheceu. O país voltou a ter um presidente de extrema direita durante um mandato, porque houve um novo golpe no país, com o impeachment de Dilma Rousseff e a condenação e prisão de Lula.

É nessa democracia realmente existente que milhões de brasileiros consagraram dois filmes que se passam durante a ditadura militar, revelando como é um passado que não passa.

 

Fonte: Viomundo/Observatório da Imprensa/Brasil 247

 

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