Heleno
Corrêa Filho: Mídia condena a “polarização”, mas defende o abuso da força
A mídia
dominante diz que o Brasil está politicamente mal porque existe “polarização”.
Essa é
uma proposta filosófica que precisa ser verificada. Todas as ideias exigem
exame lógico, escrutínio moral, avaliação de compatibilidade com o que já é
conhecido e verificação da realidade.
Para
isso, é necessário pensar nas condições que sustentam e nas que negam as
afirmativas de um pressuposto, bem como em suas consequências.
O
método conhecido como perguntas sequenciais diante de possibilidades opostas
(maiêutica) exige polaridades de pensamento e de atitude.
Portanto,
não há como julgar ideias e assumir posições sem confrontar formações
discursivas que contestam, se opõem e, por consequência, constituem polos
opostos que se distanciam em perspectivas e referências. O problema é que, sem
polarização — ou sem polaridades —, a vida é morta, burra, estéril.
O
problema não é a polarização. O problema é o uso da força para calar o
pensamento e o debate.
Uma
democracia efetiva exige polarização e combate ao abuso de poder. A mídia
combate a “polarização”, mas defende o abuso da força. A mensagem que fica é a
de conformar-se e ficar quieto: sem pensar, sem propor, sem reclamar. E a culpa
pelo mal-estar gerado por isso recai sobre os que estariam “polarizando”.
Há quem
proponha reprimir manifestações polares. Geralmente, essa atitude parte de quem
está no poder.
Não há
crime em politizar opiniões. O crime seria esconder a política para justificar
opiniões cuja posição parte da supremacia de um grupo sobre outro já dominado.
A
política é o que permite a equidade — palavra esquecida —, que move a ética de
todas as profissões da saúde. No dia em que for crime trazer argumentos
políticos para discutir a saúde, as profissões de saúde serão transformadas em
instrumentos de dominação e controle.
O
pensamento de esquerda não se cansa de apontar que não há conflito de interesse
em discutir política — seja a política das pessoas, das profissões, dos países
ou dos partidos.
O que
se exige sempre é a honestidade dos argumentos, a clareza das fontes e, no
nosso caso, na profissão médica, o respeito às fontes de informação confiáveis
e científicas. Política não é crime nem desrespeito.
Os
autores de crimes e de desrespeitos criminalizam, em um primeiro momento, a
política.
Os
fascistas se aproveitam da liberdade de palavras e de atos políticos para
esmagar a democracia e a liberdade de expressão que contesta suas ações
violentas, que suprimem a política plural. A esquerda não faz isso quando é
legítima, democrática e conta com a confiança e a participação livre das
pessoas.
A
equidade é o princípio filosófico e moral que sustenta o SUS.
Encontrar
um ponto de equilíbrio ou uma síntese em um sistema de saúde iníquo, baseado na
exploração do trabalho — inclusive das(os) médicas(os) —, impulsiona e pode
contradizer um sistema baseado no “cale-se ou será eliminado”. Por isso, um
pensamento “polar” pode ser necessário.
• A democracia na era dos algoritmos: quem
decide quando já não somos nós? Por Marcelo Copell
A
democracia não é apenas um conjunto de regras eleitorais. Ela é, antes de tudo,
um ecossistema de atenção, informação e conflito. Durante boa parte de sua
história recente, esse ecossistema organizou-se em torno da ideia de razão
pública: o debate mediado por instituições, pela imprensa profissional e por
espaços comuns de deliberação.
Essa
arquitetura ainda é evocada no discurso político, mas tornou-se insuficiente em
um mundo no qual os mecanismos que estruturam o debate coletivo deixaram de ser
predominantemente deliberativos para passar a operar por sistemas automatizados
de seleção e priorização de conteúdo.
Durante
décadas, o espaço público foi imperfeito — e humano. Hoje, ele continua
existindo, mas perdeu qualquer pretensão de neutralidade. A visibilidade das
ideias passou a ser regulada por códigos opacos que organizam a atenção,
hierarquizam opiniões e moldam a percepção do consenso político.
Não
elegemos esses sistemas. Eles não são debatidos no Congresso, não passam por
escrutínio público e seus critérios permanecem inacessíveis. Ainda assim,
determinam o que vemos, o que ignoramos, o que nos mobiliza emocionalmente e
até aquilo que acreditamos ser majoritário. A democracia do século XXI não está
sendo corroída por tanques ou golpes clássicos, mas por engrenagens invisíveis
de otimização, desenhadas para maximizar engajamento, lucro e previsibilidade
comportamental.
A
questão central já não é se a tecnologia influencia a política — isso é um fato
consumado. O problema é saber se democracias conseguem sobreviver quando a
mediação do debate público deixa de ser institucional e passa a ser governada
por processos automáticos.
No
Brasil, as redes sociais tornaram-se o principal espaço de formação de opinião
política. Mas não funcionam como praças públicas: operam como mercados de
atenção. Cada postagem, vídeo ou polêmica é avaliada não por sua relevância
cívica ou compromisso com a verdade, mas por sua capacidade de gerar cliques,
reações e tempo de permanência. O resultado é conhecido: conteúdos extremos são
premiados, nuances são penalizadas e a indignação permanente converte-se em
ativo político.
Esse
ambiente não produz apenas polarização; cria uma ilusão perigosa de maioria.
Quando sistemas de recomendação nos expõem repetidamente a opiniões semelhantes
às nossas, reforçam a sensação de que “todo mundo pensa assim”. O dissenso
deixa de ser entendido como parte natural da democracia e passa a ser tratado
como ameaça ou traição. A erosão da confiança não começa nas instituições —
começa entre os próprios cidadãos.
A
expansão da inteligência artificial elevou esse fenômeno a outro patamar. Já
não se trata apenas de amplificar discursos existentes, mas de produzir
narrativas em escala industrial. Textos, imagens, vídeos e vozes sintéticas
permitem fabricar consensos artificiais, simular apoio popular e desacreditar
adversários com um grau de sofisticação inédito. A verdade passa a ser
disputada não pela ausência de fatos, mas pela superabundância de versões
plausíveis.
Diante
desse cenário, a resposta política tem sido lenta e, muitas vezes, ingênua.
Regula-se a tecnologia como se fosse apenas mais um setor econômico, quando ela
se tornou uma infraestrutura central da vida democrática. Discute-se a
propaganda eleitoral, mas ignora-se o impacto estrutural dos mecanismos de
curadoria de conteúdo. Fala-se em educação midiática como solução quase
exclusiva, como se fosse razoável exigir que o cidadão comum enfrente sozinho
sistemas concebidos por equipes especializadas em psicologia comportamental e
ciência de dados.
Não se
trata de rejeitar a tecnologia. Ferramentas automatizadas não são, por
natureza, inimigas da democracia. Podem, em tese, ampliar a diversidade de
perspectivas, reduzir a desinformação e fortalecer o debate público. O problema
é que, quando submetidas exclusivamente à lógica do mercado, tendem a produzir
exatamente o oposto.
A
pergunta decisiva é política: quem deve controlar a estrutura da esfera pública
digital? Empresas privadas com interesses comerciais globais ou sociedades
democráticas, por meio de regras transparentes, auditáveis e sujeitas a
controle público?
Responder
a essa pergunta exige abandonar a ideia confortável de neutralidade
tecnológica. Regular esses sistemas não é censura; é uma forma contemporânea de
separação de poderes. Assim como não aceitamos que bancos privados definam
sozinhos a política monetária, não deveríamos aceitar que plataformas digitais
determinem, sem limites, as condições do debate democrático.
A União
Europeia avançou com legislações como o Digital Services Act, mas mesmo esses
esforços ainda são insuficientes. A transparência dos critérios de priorização
permanece limitada, a auditoria independente é rara e as sanções dificilmente
acompanham a velocidade da inovação.
O
Brasil tem feito avanços importantes na construção de um marco regulatório para
a economia digital e para a inteligência artificial, com projetos de lei em
tramitação, planos nacionais de governança e o fortalecimento de instituições.
Ainda assim, o desafio de equilibrar proteção de direitos, inovação e autonomia
institucional permanece — e muito dependerá da capacidade de transformar normas
em práticas efetivas.
É nesse
ponto que o risco democrático se impõe. A democracia raramente desaparece de
forma abrupta. Ela se desgasta aos poucos. Perde densidade. Transforma-se em
espetáculo. Quando nos damos conta, ainda votamos, mas já não deliberamos.
Ainda falamos, mas deixamos de nos escutar.
Se a
democracia sempre foi um sistema imperfeito, sua força residiu na capacidade de
corrigir os próprios erros. O desafio agora é saber se conseguirá fazê-lo em um
ambiente no qual as distorções são amplificadas automaticamente e a atenção se
tornou o recurso mais disputado do planeta.
Hoje, a
defesa da democracia passa menos pelas urnas e mais pelo código. E isso exige
que deixemos de tratar a tecnologia como um destino inevitável para encará-la
como aquilo que sempre foi: uma escolha política.
• O passado que não passa. Por Emir Sader
60 anos
depois do golpe militar e 40 do final da ditadura militar no Brasil, os dois
filmes premiados sucessivamente no Globo de Ouro – “Ainda Estou Aqui” e “O
Agente Secreto” – têm como tema a ditadura militar.
O país
viveu tantas coisas, se redemocratizou, teve retrocessos por um mandato
presidencial, mas esse passado não passa. Os filmes são vistos por milhões de
brasileiros, a maioria dos quais não viveu aquele período, com naturalidade,
não como filmes sobre o passado, não como algo de um passado longínquo.
É certo
que o país não passou a limpo tudo o que viveu durante a ditadura militar, os
21 anos que fazem da ditadura brasileira a mais longa de todas na América
Latina. Não tivemos a alegria que os argentinos tiveram de ver seu principal
ditador – Jorge Videla – ser julgado, preso e morrer na prisão.
A
transição democrática não se deu como ruptura. O novo regime surgiu como um
misto do velho e do novo, da sobrevivência do passado. O primeiro presidente
civil foi eleito sem o voto direto, porque a campanha pelas eleições diretas
foi derrotada no Congresso. Como resultado, o primeiro presidente civil do
Brasil depois da ditadura militar foi quem era presidente do partido da
ditadura militar, que se havia oposto às eleições diretas.
Essa
transição fez com que, uma vez mais na nossa história, os acordos de elite
impedissem que as rupturas se dessem, em vários momentos da nossa história.
Sempre volta à nossa cabeça a afirmação tão significativa do então governador
de Minas Gerais, Antonio Carlos de Andrade, para caracterizar a Revolução de
1930: “Façamos a revolução antes que o povo a faça".
Mesmo
um momento, a Revolução de 30, que, a posteriori, aparece como uma grande
ruptura, na passagem de um regime hegemonizado pela oligarquia agrária para um
governo que passou a promover centralmente os interesses da burguesia
industrial, foi feito acompanhado dessa afirmação.
Para
não ir tão longe, em 8 de janeiro de 2023 houve uma tentativa de um novo golpe,
que buscava reinstalar no país uma ditadura, que foi rapidamente derrotada,
demonstrando que os tempos são outros, que a democracia que temos veio para
ficar.
A
eleição de Lula, em 2002, foi igualmente um marco fundamental na afirmação da
democracia no Brasil. Um líder sindical, nordestino, do Partido dos
Trabalhadores, tornava-se presidente do Brasil, tendo se reelegido e eleito sua
sucessora.
Lula
voltou a ser eleito, pela terceira vez, como presidente do Brasil, quatro anos
depois de ter sido preso, sem nenhuma prova, como o próprio Judiciário
finalmente reconheceu. O país voltou a ter um presidente de extrema direita
durante um mandato, porque houve um novo golpe no país, com o impeachment de
Dilma Rousseff e a condenação e prisão de Lula.
É nessa
democracia realmente existente que milhões de brasileiros consagraram dois
filmes que se passam durante a ditadura militar, revelando como é um passado
que não passa.
Fonte:
Viomundo/Observatório da Imprensa/Brasil 247

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