Benedito
Tadeu César: Esperidião Amin e o perdão eterno aos inimigos da democracia
O
senador Esperidião Amin protocolou, em 8 de janeiro de 2026, um projeto de lei
que propõe anistia ampla aos envolvidos na tentativa de golpe de Estado de 8 de
janeiro de 2023. A data não é irrelevante. Além de ser uma resposta imediata ao
veto do presidente Lula ao PL da Dosimetria, ela reafirma a tradição dos
defensores da ditadura militar de perdoar seus agentes, dando-lhes sobrevida.
O
projeto apresentado por Amin não se restringe a atos de vandalismo ou de
depredação. O texto alcança cadeias de apoio político, logístico e financeiro,
além de manifestações públicas e publicações nas redes sociais associadas aos
eventos golpistas. Na prática, busca neutralizar decisões judiciais que
responsabilizaram autores materiais e articuladores do ataque às sedes dos Três
Poderes. A lógica é conhecida: quando a democracia reage, propõe-se o
esquecimento do golpe.
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Um político forjado no interior da ditadura
A
carreira de Esperidião Amin não antecede o regime militar. Ela nasce, se
desenvolve e se consolida dentro do arranjo institucional da ditadura. No final
dos anos 1960 e ao longo da década de 1970, Amin ocupou cargos administrativos
e de confiança no Executivo catarinense, em um contexto de supressão das
liberdades políticas, censura à imprensa e perseguição sistemática a
opositores.
O ponto
central desse percurso ocorreu entre 1975 e 1978, quando Amin se tornou
prefeito de Florianópolis por nomeação, indicado pelo então governador Antônio
Carlos Konder Reis. Não houve eleição direta. À época, capitais estaduais eram
tratadas como áreas sensíveis, submetidas a um sistema de tutela política que
afastava a soberania popular. A escolha de prefeitos por nomeação não era um
detalhe administrativo, mas um mecanismo de controle do regime sobre centros
urbanos estratégicos.
Na
sequência, Amin integrou o espaço parlamentar herdado da ditadura, elegendo-se
deputado federal no fim dos anos 1970 pela Arena, partido oficial do governo
militar, ainda sob a lógica do bipartidarismo por ele imposto, e licenciou-se
do mandato para retornar ao Executivo estadual como secretário. Sua ascensão
culminou com a eleição para o governo de Santa Catarina em 1982, assumindo em
1983, quando o regime autoritário ainda estava formalmente em vigor. Trata-se
de uma trajetória orgânica, construída a partir do regime e a serviço dele.
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Ditadura sem porões, mas com funções
Não há
registros documentais que vinculem Esperidião Amin à prática de tortura ou a
operações repressivas específicas. Isso, porém, não autoriza uma leitura
simplista de seu papel histórico.
A
ditadura brasileira não se sustentou apenas pelos porões. Ela dependeu de
segmentos sociais civis responsáveis por administrar o Estado, normalizar o
autoritarismo e conferir aparência de legalidade ao regime. Prefeitos nomeados,
secretários, parlamentares e tecnocratas foram parte essencial dessa
engrenagem. Amin fez parte dela.
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A anistia de 1979: o precedente que retorna
Quando
o regime militar aprovou a Lei da Anistia (Lei nº 6.683/1979), Esperidião Amin
ocupava uma cadeira na Câmara dos Deputados pela Arena, integrando a
legislatura que votou a norma que anistiou os chamados “crimes políticos” e
“crimes conexos”.
Foi
justamente a categoria dos crimes conexos que transformou a anistia em uma
autoanistia do regime. Sob o discurso da reconciliação nacional, a lei acabou
estendendo o perdão a agentes do Estado responsáveis por tortura, execuções,
desaparecimentos forçados e outras graves violações de direitos humanos,
blindando dirigentes militares e civis da repressão. Essa interpretação
bloqueou — e ainda bloqueia — qualquer responsabilização penal efetiva pelos
crimes cometidos durante a ditadura.
O
resultado foi uma anomalia histórica: mais de quatro décadas após o fim formal
do regime autoritário, nenhum torturador foi condenado no Brasil. Pelo
contrário, apoiadores da ditadura e da tortura mantiveram-se no espaço
político, enaltecendo-as e, posteriormente, tentando fazê-las retornar.
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O mundo não comprou a anomalia (mas o Brasil insistiu)
Essa
situação extrapolou o debate interno. O país foi condenado por tribunais
internacionais de direitos humanos justamente por manter essa blindagem a
torturadores. Em 2010, no caso Gomes Lund e outros (Guerrilha do Araguaia), a
Corte Interamericana de Direitos Humanos afirmou de forma categórica que leis
de anistia que impeçam a investigação e punição de graves violações não
produzem efeitos jurídicos válidos. O entendimento foi reiterado em 2018, no
caso Vladimir Herzog e outros, quando a Corte voltou a condenar o Brasil por
sustentar a impunidade dos crimes da ditadura.
Ainda
assim, o país manteve sua posição. No panorama sul-americano, o Brasil
tornou-se uma exceção negativa. Enquanto Argentina, Chile, Uruguai e outros
países avançaram, com diferentes ritmos e caminhos, na responsabilização penal
de agentes das ditaduras, o Estado brasileiro permaneceu ancorado na
interpretação ampliada da anistia de 1979, resistindo a cumprir a
jurisprudência internacional em matéria de justiça de transição.
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Anistia como método político
A
defesa atual da anistia aos golpistas de 8 de janeiro não é nova. Ao longo da
carreira política, Amin esteve associado a iniciativas legislativas
interpretadas como tentativas de reduzir a responsabilização de autoridades
públicas, como a chamada “Emenda Amin”, apresentada em 2016 no contexto da Lava
Jato, e amplamente criticada por restringir prazos e condições de apuração de
crimes cometidos por agentes com foro privilegiado a apenas 180 dias.
O
padrão se repete agora em escala ainda mais grave. Trata-se de perdoar crimes
contra o Estado Democrático de Direito, relativizando uma tentativa explícita
de ruptura institucional. O discurso que sustenta a proposta é antigo. Foi o
mesmo mobilizado pela ditadura quando seu edifício começou a ruir: a apologia
da “pacificação nacional”, da conciliação abstrata, do esquecimento como
virtude política.
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Mudam os golpistas, permanece o perdão
O
resultado costuma ser previsível. A desresponsabilização abre espaço para a
normalização do ataque à democracia e sinaliza tolerância à reincidência
autoritária. Ao tentar repetir, em 2026, a lógica da anistia de 1979,
Esperidião Amin revela uma coerência histórica: proteger os defensores da
ditadura, o que lhes dá fôlego para um novo possível retorno à cena. Mudam os
contextos, mudam os personagens, mas permanece o método.
A
ditadura terminou formalmente em 1985. A cultura política que a sustentou, não.
Ela segue presente na recusa em reconhecer a democracia como valor inegociável
e na aposta reiterada no perdão como resposta a crimes políticos graves, como o
ataque ao Estado Democrático de Direito. Ontem foi o perdão para torturadores e
seus mandantes. Hoje, para golpistas. Em ambos os casos, o mesmo argumento. E o
mesmo risco.
• Cappelli diz que veto de Lula à
dosimetria reflete gravidade do 8 de janeiro e pode ser preservado pelo
Congresso
A
decisão do presidente Lula de vetar o projeto conhecido como “PL da dosimetria”
está “em sintonia com a gravidade do que aconteceu” no 8 de janeiro, quando
extremistas atacaram as sedes dos Três Poderes, afirmou Ricardo Cappelli,
presidente da ABDI e pré-candidato ao governo do Distrito Federal.
A
declaração foi feita em entrevista concedida à TV 247, na qual Cappelli avaliou
os atos de lembrança do 8 de janeiro, comentou a disputa política sobre
punições a crimes contra a democracia e relatou bastidores do momento em que
assumiu o comando da segurança pública do Distrito Federal durante a crise.
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“O que aconteceu foi tentativa de criar um estopim para um golpe de estado”
Ao
defender a realização de solenidades para marcar a data, Cappelli rejeitou
qualquer tentativa de relativizar a violência golpista.
“Eu
acho muito importante esses dois atos, porque eles reforçam que primeiro o que
aconteceu não foi um passeio no parque, não foi uma manifestação democrática”,
afirmou. “O que aconteceu foi a tentativa de criar um stopim para um golpe de
estado.”
Na
entrevista, ele sustentou que o país viveu uma mudança inédita na
responsabilização de golpistas.
“Pela
primeira vez na história do Brasil, conspiradores, golpistas, civis e militares
sentaram no banco dos réus, foram julgados respeitando o devido processo legal,
foram condenados e alguns estão presos”, disse.
Cappelli
também ressaltou que a democracia exige cuidado permanente.
“A
democracia nunca é uma obra pronta, finalizada”, afirmou, ao defender que a
memória institucional do 8 de janeiro fortalece princípios democráticos na
sociedade.
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“O veto do presidente Lula tá em sintonia com a gravidade do que aconteceu”
No
trecho mais político da conversa, Cappelli relacionou diretamente o veto
presidencial à dimensão do plano golpista revelado por investigações.
“Acho
que o veto do presidente Lula tá em sintonia com a gravidade do que aconteceu”,
declarou. “Não é possível que depois de ter conhecimento que existia um plano
para assassiná-lo, para assassinar o vice-presidente da República, para
assassinar o ministro Alexandre de Moraes, o presidente Lula simplesmente
sancionasse uma redução de penas daqueles que planejaram isso.”
Ele
criticou o caráter pontual do projeto e defendeu que mudanças penais não podem
ser desenhadas para responder a um único episódio.
“Fazer
uma alteração na legislação casuística em função de um ato, de um fato, não me
parece o caminho mais adequado”, disse. “Você não pode alterar leis para
responder a um fato.”
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Congresso, veto e STF: “Vamos aguardar”
Cappelli
afirmou preferir o cenário em que o Congresso não derrube o veto, embora
reconheça que a disputa faz parte da dinâmica institucional.
“Eu
prefiro ser um otimista e acreditar que o veto do presidente pode não ser
derrubado pelo Congresso”, disse. “Faz parte do jogo democrático.”
Ele
observou, porém, que mesmo com eventual derrubada do veto, a questão pode ser
judicializada.
“Se o
Congresso derrubar o veto, a matéria ainda pode ser apreciada pelo Supremo
Tribunal Federal”, afirmou, ao repetir que se trata de uma “alteração
legislativa casuística”.
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Bastidores do 8 de janeiro: “Assuma o comando do que tá acontecendo”
Ao
relembrar sua atuação no Ministério da Justiça naquele dia, Cappelli descreveu
a ausência de comando local como fator crítico e relatou a ordem que recebeu ao
ser nomeado para a intervenção federal na segurança pública do DF.
“Nós
estávamos vendo os prédios públicos sendo tomados… e as forças de segurança
completamente sem comando”, disse, ao mencionar que o governador do DF
“simplesmente estava desaparecido” e que o secretário de segurança “estava nos
Estados Unidos”.
Segundo
ele, o recado foi objetivo:
“Olha,
o presidente da República acabou de te nomear interventor federal da segurança
pública no Distrito Federal. Vá à Secretaria de Segurança, reúna com o comando
que tem lá, desça e assuma o comando do que tá acontecendo.”
Cappelli
disse ter recusado sobrevoo de helicóptero e determinado atuação direta na
linha de frente.
“Eu
disse para eles: ‘Não, eu não vou de helicóptero. Nenhum dos senhores vai de
helicóptero. Nós vamos sair daqui agora e vamos pra linha de frente comandar a
tropa’”, afirmou. E completou a orientação operacional: “Efetuar o máximo de
prisões possíveis e desmontar o acampamento golpista nessa noite.”
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Prisões e investigação: “Maior operação de polícia judiciária da história do
Brasil”
Cappelli
reconheceu a possibilidade de que algumas pessoas tenham escapado durante a
madrugada, mas destacou o desmonte do acampamento e o volume de prisões.
“A
gente conseguiu desmontar o acampamento e efetuar a prisão de todos que estavam
no acampamento sem nenhum incidente”, afirmou.
Ele
citou o transporte de cerca de 1.500 pessoas e classificou o esforço como sem
precedentes.
“Durante
3 dias realizamos a maior operação de polícia judiciária da história do Brasil,
que não é brincadeira prender 1500 pessoas”, disse, mencionando o cumprimento
do devido processo legal com participação de diferentes órgãos.
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Livros de história e memória: “Você não pode dizer que não aconteceu”
Na
entrevista à TV 247, Cappelli afirmou não ter dúvidas de que o 8 de janeiro
será incorporado ao ensino e ao registro histórico, independentemente de
disputas políticas.
“São
fatos objetivos”, disse. “Você pode ter até opiniões sobre os fatos, mas você
não pode dizer que não aconteceu.”
Ele
também mencionou ter publicado um livro sobre o episódio.
“Publiquei
um livro, 8 de janeiro, que o Brasil não viu”, afirmou, defendendo que o
registro é essencial “para que jamais se repita o que aconteceu”.
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Segurança pública na eleição: “O crime tá cada vez mais organizado”
Ao
tratar do cenário político, Cappelli avaliou que segurança pública será tema
decisivo no debate eleitoral, citando pesquisas de opinião.
“Segurança
pública aparece como preocupação número um”, afirmou.
Ele
argumentou que o problema se tornou nacional com a atuação de grandes
organizações criminosas.
“Você
tem duas ou três organizações criminosas que verticalizaram o crime no Brasil”,
disse, defendendo integração entre órgãos federais e coordenação política para
enfrentar o problema.
“Precisa
ter alguém no Ministério com coragem, com decisão, com vontade de enfrentar o
crime organizado no Brasil”, declarou. “O crime tem penetrado em todas as
instituições da República.”
Fonte:
Brasil 247

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