quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Sem justiça territorial, mercado de carbono tem demandado títulos de terra no Brasil e na Colômbia

Como evento paralelo à COP 30 sobre Mudança do Clima realizada em Belém (PA), a Cúpula dos Povos, uma construção coletiva de organizações do mundo inteiro por soberania popular e justiça climática, foi um encontro de movimentos populares e organizações da sociedade civil onde tivemos a oportunidade de conectar resistências. Neste marco da Cúpula 2025, ressaltando a metodologia de enlaçamento que a caracterizou, visibilizamos e denunciamos os impactos do mercado de carbono, especialmente aqueles relacionados com a grilagem e a apropriação de terras que ocorrem em países como Brasil e Colômbia.

Neste artigo apresentamos uma síntese dos aportes e debates que levamos à Cúpula dos Povos, assim como aos eventos realizados na zona verde da COP 30, trazendo uma perspectiva de pesquisa e educação popular, destacando como as ameaças da economia verde, pensadas e promovidas nas COPs do Clima, tem aprofundado os riscos aos territórios nestes dois países pan-amazônicos.

<><> O mercado de carbono e a terra

Para a certificação dos créditos de carbono, as empresas que desenvolvem projetos de Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação (REDD+) devem apresentar documentos que comprovem a “segurança” sobre a origem dos créditos; ou seja, devem creditar a propriedade da terra onde haja floresta como sumidouro de carbono.

Esta propriedade usualmente estaria associada a uma terra indígena, território quilombola ou unidade de conservação. Entretanto, o que à primeira vista funciona como um requisito de auditoria empresarial, na realidade opera como mecanismo que habilita novas formas de apropriação e concentração de terras.

<><> Brasil e as políticas de titulação em contradição

O Brasil com suas florestas tropicais e subtropicais tem se tornado palco da expansão de diversas modalidades de iniciativas de economia verde, incluindo a implementação de projetos de REDD+. Para tornar as florestas mais atrativas para empresas desenvolvedoras de projetos de REDD+, o governo federal e os entes subnacionais como os Estados da Amazônia (Pará, Amapá, Acre, Amazonas, Maranhão, Roraima) têm impulsionado a política de titulação de terras de modo individual e até mesmo coletivo.

No processo de titulação, a contradição é evidente já que historicamente o Brasil é um país marcado pela concentração de terra, onde a destinação de terras públicas não chegou a 50 milhões de hectares e os conflitos agrários continuam. Neste contexto, as políticas nacional e subnacionais avançam na produção de títulos individuais e coletivos como parte de uma agenda de reparação ao povos, porém, são políticas parciais, pois a titulação é feita desatrelada de ações efetivas que permitam evitar os vetores de desmatamento e de medidas estruturais de resolução de conflitos territoriais.

Diante das denúncias de grilagem de terras para implementação de projetos REDD+ certificados pela Verra – principal certificadora mundial de créditos de carbono – como demonstrado por Fernanda Wenzel no sul do Amazonas, a resposta do setor empresarial foi apoiar iniciativas de titulação de áreas de florestas. Este enfoque, no entanto, não visa promover justiça territorial, mas sim controle da terra sem assegurar à população local condições materiais, sociais e econômicas de permanecer na terra.

<><> Colômbia e a apropriação de terras de comunidades

Diferente do Brasil, a Colômbia conta com avanços em matéria de titulação coletiva, especialmente para terras indígenas e territórios afrocolombianos. Por outro lado, são as comunidades camponesas que mais sofrem com a disputa por terra. Apesar dos avanços, a titulação coletiva não blinda os territórios das ameaças oriundas da mercantilização da natureza promovida por distintos mecanismos da economia verde, especialmente em um país catalogado como de “alto potencial” para essas iniciativas.

Neste contexto, os projetos de REDD+ tem provocado novas pressões sobre a propriedade coletiva. Um exemplo é o Projeto de Conservação Tángara REDD+ que se sobrepõe a territórios dos Conselhos Comunitários de Rio Mayotquin y Papayal e do Rio Raposo. A empresa promotora reivindica um título privado dentro de uma área que conta com títulos coletivos, e as comunidades foram informadas do projeto quando este já estava em operação. A empresa se diz proprietária de 14 mil hectares no local e nega os direitos das comunidades afrocolombianas.

Outro exemplo se encontra no departamento de Tolima onde comunidades camponesas lutam pela terra desde o período colonial. Hoje, essas comunidades enfrentam novas ameaças devido a execução do Projeto de Compensação de Emissões “Conservación del Bosque Galilea-Amé”, pois este projeto se sustenta na estigmatização dos agricultores como agentes de desmatamento, o que significa negar o manejo territorial e promover a especulação da terra.

Como resultado, extensas áreas que antes eram reivindicadas e trabalhadas por famílias camponesas estão hoje tituladas em nome de grandes empresários da região e do país, fortalecendo a dinâmica de concentração da terra.

<><> Conclusões e perspectivas pan-amazônicas

No Estado do Tocantins, no Brasil, as organizações populares como APA-TO e COEQTO exigiram a titulação coletivas de territórios quilombolas e de povos e comunidades tradicionais antes da operação do chamado REDD+ Jurisdicional com estratégias de mercado e de não-mercado.

Nos territórios este cenário crítico está sendo enfrentado de muitas maneiras. Para além da Panamazônia, no Quênia, na África, as comunidades locais nas florestas, de acordo com a Grassroots Justice Network, reivindicam do governo que para o cumprimento da Lei do Mercado de Carbono sejam antes reconhecidos os territórios com a expedição de títulos.

Os casos de Brasil e Colômbia mostram que os conflitos associados a projetos de REDD+ não são fenômenos isolados, mas sim parte de um padrão mundial concentrado no sul global, onde são os territórios os mais afetados pela desigual distribuição de terra.

Assim, estes projetos, em vez de reduzirem emissões, aprofundam as pressões sobre os territórios, fortalecem processos de grilagem e reproduzem velhas formas de pilhagem com um discurso ambientalista e climático.

Com ideia de que é possível compensar as emissões de gases de efeito estufa, os mecanismos de REDD+ invisibilizam práticas de manejo territorial, com saberes e economias próprias e formas de vida dos povos que protegem as florestas por gerações.

•        Crédito de carbono para florestas:  Cobenefícios sociais e de biodiversidade

Um dos principais atrativos dos projetos REDD+ para compradores no VCM (mercado voluntário de carbono) é seu potencial de gerar cobenefícios: financiar ações que simultaneamente mitiguem as mudanças climáticas, protejam a biodiversidade e apoiem comunidades locais em países em desenvolvimento. No entanto, avaliar se esses projetos realmente geraram cobenefícios também requer avaliações robustas de impacto, idealmente baseadas em análises contrafactuais e dados longitudinais, que muitas vezes faltam. Por exemplo, a Verra promoveu seu premiado projeto certificado com pastores no norte do Quênia como um caso de sucesso; no entanto, investigações subsequentes revelaram que o projeto não conseguiu gerar os benefícios climáticos alegados nem as melhorias prometidas para as comunidades locais, levando à sua suspensão. Embora a busca por cobenefícios seja tentadora (e certamente comercializável), ela vai contra a Regra de Tinbergen, que afirma que atingir metas políticas múltiplas e distintas — como redução de emissões de carbono, proteção da biodiversidade e apoio à comunidade — requer um número equivalente de instrumentos políticos independentes e bem definidos.

<><>Impactos sociais

Integrar com sucesso os objetivos de subsistência e desmatamento evitado é desafiador devido às compensações inerentes de curto prazo. Um crescente corpo de pesquisas enfatiza que os projetos de REDD+ dificilmente terão sucesso a longo prazo, a menos que priorizem a melhoria dos meios de subsistência e do bem-estar das populações afetadas e garantam legitimidade local. Os princípios de conduta ética e implementação rigorosa, centrais à visão de REDD+, são louváveis, mas desafiadores de traduzir em prática.

Pesquisas demonstram efeitos variados do REDD+ no bem-estar socioeconômico. Algumas pesquisas relatam percepções positivas entre as famílias durante a implementação de projetos, enquanto outros estudos relatam efeitos insignificantes. Muitos projetos carecem da coleta sistemática e da análise contrafactual de dados socioeconômicos longitudinais necessárias para uma avaliação rigorosa de impacto ex post. Mais fundamentalmente, os projetos de REDD+ frequentemente carecem de transparência sobre os mecanismos de repartição de benefícios, e os benefícios são frequentemente capturados pelas elites comunitárias, exacerbando ainda mais as desigualdades sociais.

Embora a clareza da posse da terra seja geralmente considerada um pré-requisito para o REDD+, muitos projetos são implementados em regiões onde a governança florestal é historicamente complexa e a posse da terra permanece obscura ou contestada. Essa incerteza agrava as vulnerabilidades, especialmente para grupos marginalizados, como pequenos produtores, comunidades indígenas e pessoas sem-terra, cujos meios de subsistência dependem do acesso aos recursos florestais. Da mesma forma, projetos que restringem o acesso às florestas provavelmente afetarão desproporcionalmente as comunidades vulneráveis, o que significa que elas teriam que oferecer compensação adequada pelos meios de subsistência perdidos para manter o bem-estar socioeconômico].

Para mitigar riscos de danos sociais, os padrões de VCM incorporam políticas de salvaguarda projetadas para proteger comunidades vulneráveis. No entanto, estudos de campo revelam que as salvaguardas podem se tornar exercícios performáticos focados no cumprimento de requisitos baseados em indicadores, desconsiderando contestações, críticas e demandas locais por justiça. Auditorias externas destinadas a garantir a conformidade com os padrões de salvaguarda social são frequentemente prejudicadas por limitações estruturais, incluindo a dependência do auditor em autorrelatos da equipe do projeto, treinamento inadequado em avaliação de salvaguardas e desafios logísticos, como tempo limitado no local, conhecimento local insuficiente e dificuldade de acesso a comunidades remotas. Uma revisão de 18 projetos voluntários de REDD+ constatou que os auditores frequentemente falhavam em detectar a não conformidade e, mesmo quando violações eram identificadas, as justificativas dos desenvolvedores eram frequentemente aceitas sem ação corretiva substancial. A inadequação das salvaguardas e dos processos de auditoria tem resultado na incapacidade de prevenir danos, como evidenciado por inúmeras violações documentadas de direitos humanos relacionadas ao VCM. Sem reformas substanciais, o REDD+ corre o risco de perpetuar as mesmas injustiças que alega combater.

<><> Impactos na biodiversidade

Embora projetos que efetivamente protegem o habitat forneçam inerentemente algum nível de proteção da biodiversidade, as falhas documentadas de muitos projetos REDD+ para reduzir o desmatamento abaixo do padrão usual sugerem que eles também falharam em fornecer benefícios adicionais à biodiversidade. É importante ressaltar que a maior parte dos projetos REDD+ ocorre nos trópicos, onde a biodiversidade local não é apenas amplamente desconhecida, mas também onde as comunidades bióticas locais são subconjuntos mais variáveis e menos previsíveis da flora e fauna regionais. Esses fatos há muito tempo deixam perplexa a ciência da conservação na maioria das áreas centrais do REDD+ e representam um desafio fundamental para avaliar adequadamente os impactos à biodiversidade. Projetos REDD+ precisam de programas de monitoramento da biodiversidade projetados com os objetivos do projeto em mente, que registrem informações em escalas temporais e espaciais apropriadas. Avanços tecnológicos, incluindo armadilhas fotográficas, DNA ambiental, dispositivos de gravação acústica e abordagens de visão computacional, podem melhorar substancialmente o monitoramento da biodiversidade nas áreas do projeto.

 

Fonte: Tapajós de Fato/Amazônia Real

 

Nenhum comentário: