Por
que a economia dos EUA ainda não caiu
Quando
o presidente dos EUA, Donald Trump, assumiu o cargo em janeiro passado, a
maioria dos economistas temia o que aconteceria se ele aumentasse as tarifas. A
expectativa era que, à medida que os novos impostos elevassem os preços dos
bens de consumo e dos insumos – afetando famílias e empresas, respectivamente –
a inflação em alta e a queda da renda real se seguiriam. Como se teria um
choque de oferta, o Federal Reserve não poderia fazer muito para compensá-lo.
Trump
aumentou as tarifas a níveis chocantes, violando acordos internacionais e
destruindo o compromisso frequentemente declarado do Partido Republicano com o
livre comércio. Em termos de severidade e perturbação, as tarifas de Trump em
2025 foram muito além das já prejudiciais tarifas de seu primeiro mandato, e
até mesmo além do infame Smoot-Hawley Act de 1930.
De
acordo com o Yale Budget Lab, a tarifa efetiva média sobre importações dos EUA
subiu de 2% para 18%, o nível mais alto desde a década de 1930, neste ano. Some
a isso a incerteza causada por mudanças frequentes e inexplicáveis de
políticas, e grandes efeitos adversos sobre inflação, emprego e renda real
pareciam praticamente inevitáveis.
Mas as
coisas não saíram como o esperado. É possível que a inflação dos preços ao
consumidor (IPC) não tenha subido quase nada: a taxa mais recentemente
reportada, para os 12 meses encerrados em novembro, é de 2,7% – o mesmo nível
dos últimos meses de 2024. (Claro, o nível de preços é mais alto, ao contrário
do que Trump afirma.) A taxa de desemprego subiu apenas um pouco, de 4,1% no
final de 2024 para 4,6% em novembro. O crescimento econômico provavelmente
desacelerou no final do ano, mas a situação permanece incerta, pois uma
paralisação do governo dos EUA atrasou a coleta de dados.
De
qualquer forma, é bastante seguro dizer que o dano econômico causado durante o
primeiro ano de retorno de Trump no cargo foi menor do que o previsto. Existem
quatro razões pelas quais os maiores efeitos das tarifas foram limitados ou
adiados em 2025.
Primeiro,
as estatísticas econômicas dos EUA são incomumente vulneráveis a problemas de
medição, devido à paralisação do governo, que se estendeu de 1º de outubro a 12
de novembro. Algumas informações do IPC estão ausentes porque o Bureau of Labor
Statistics não conseguiu coletar dados como de costume, especialmente para
outubro. Mesmo em novembro, há motivos para duvidar que a inflação dos custos
imobiliários tenha sido zero, como relatado. Se for verdade, isso imporia uma
tendência para baixo na estimativa geral do IPC. As divulgações do PIB pelo
Bureau of Economic Analysis estão muito atrasadas, com a divulgação dos dados
do PIB do terceiro trimestre tendo sido adiada.
A
segunda razão pela qual foi visto menos danos causados pelas tarifas de Trump
do que o esperado é que muitas das tarifas mais altas ainda não estão
totalmente em vigor. Trump adiou algumas tarifas repetidamente. Ele reduziu
outras em 14 de novembro, porque elas estavam aumentando os preços dos
supermercados.
Além
disso, Trump introduziu grandes exceções tarifárias para alguns países. Por
exemplo, a indústria automobilística norte-americana integrada teria ficado
devastada se ele não tivesse decidido, em 6 de março, isentar mercadorias do
México e Canadá da taxa de 25% que entrou em vigor dois dias antes. Produtos
desses países agora não enfrentam penalidade se importados sob o Acordo
EUA-México-Canadá.
Esse
amolecimento era previsível. Os negócios americanos teriam sofrido enormemente
se Trump tivesse implementado totalmente as tarifas que anunciou, quanto mais
ameaçasse, então nunca era provável que ele persistisse com o pior delas. Trump
regularmente assume posições extremas de negociação, apenas para recuar quando
a pressão aumenta, mesmo que não tenha conseguido o que exigiu do outro lado.
Na
verdade, a suposição dos investidores de que “Trump sempre volta atrás” –
conhecida como TACO, Trump Always Chicken Out – virou uma provocação. Mas
quando um louco ameaça o Armagedom, é imprudente provocá-lo para que siga o
caminho prometido. As tarifas que Trump implementou ainda são muito altas.
Mas
isso não significa que os economistas erraram todas as previsões. Há bons
motivos para pensar que muitos dos efeitos adversos das tarifas de Trump
simplesmente foram adiados, e devemos esperar que eles apareçam em 2026.
Isso
nos leva ao terceiro ponto: assim que Trump foi eleito em novembro de 2024, as
empresas começaram a antecipar as importações para acumular estoques de bens –
especialmente ouro da Suíça e medicamentos para perda de peso da Irlanda –
antes da introdução das tarifas previstas. O Modelo Orçamentário Penn-Wharton
estima que essa estratégia economizou aos importadores americanos até 6,5
bilhões de dólares – equivalente a 13,1% do novo projeto de lei tarifária – até
maio de 2025.
Após a
entrada em vigor das tarifas, a maioria dos varejistas ainda não aumentou os
preços, pois não havia esgotado seus estoques pré-tarifários. Isso é prática
comum entre varejistas, embora um economista possa dizer que viola o princípio
da maximização do lucro. Mesmo hoje, muitos importadores ainda não repassaram
totalmente os custos adicionais para seus clientes.
Na
verdade – e este é o ponto final e mais importante – os importadores
continuaram a absorver grande parte do aumento de custos, mesmo após esgotarem
seus estoques pré-tarifários. Usando dados em tempo real de grandes varejistas
americanos, Alberto Cavallo e seus coautores descobrem que os preços dos
produtos sujeitos às novas tarifas – tanto os produtos importados quanto seus
substitutos fabricados nos EUA – vêm subindo desde abril. O aumento, que foi
cerca de 5,4% no varejo, foi suficiente para elevar a taxa de inflação da cesta
geral do IPC em 0,7 pontos percentuais acima do que teria sido de outra forma.
Mas representa uma pequena fração dos custos que poderiam ser repassados nos
níveis atuais das tarifas.
É claro
que os preços pagos pelos importadores aumentaram proporcionalmente às tarifas,
ao contrário das alegações de Trump de que exportadores estrangeiros cobrem os
custos das tarifas reduzindo seus preços. São as empresas americanas que têm
absorvido os custos, assim como normalmente fazem quando o dólar se deprecia.
Isso reflete em parte o fato de que eles não têm ideia de quanto tempo as
tarifas permanecerão em vigor. Trump pode mudar de ideia, ou talvez a Suprema
Corte decida seguir a lei e derrubá-los. Essa incerteza também ajuda a explicar
por que muitas empresas afetadas até agora evitaram demitir trabalhadores.
Mas as
empresas não permitirão que as tarifas corram suas margens de lucro
indefinidamente. Assumindo que as tarifas permaneçam, os EUA podem esperar mais
aumentos de preços e pressão para baixo sobre a renda real em 2026.
• O declínio do império americano. Por
Maurício Rands
Trump
vence com força ao depor e sequestrar o presidente de um país soberano. No
curto prazo, pelo menos. Mas perde a guerra do soft power. Ao reeditar o velho
intervencionismo americano na América Latina, reativa os juízos negativos à
política externa que invadia as repúblicas de bananas e apoiava tiranos e suas
ditaduras. Basta lembrar o apoio a Pinochet no Chile, aos generais argentinos,
uruguaios e brasileiros em suas ditaduras. Com armas, recursos e treinamento,
inclusive em técnicas de tortura. Isso parecia superado. Agora retoma a
arrogância imperialista e afunda a imagem dos EUA. E inaugura uma nova
geopolítica mundial, de novo centrada na prevalência do mais forte, como bem
retratada por Eric Hobsbawm, em seu clássico A Era dos Impérios. Mas essa hegemonia
apenas pela força, sem um mínimo de coesão política, pode indicar início de
declínio.
Recente
livro de Peter Heather e John Rapley (“Why Empires Fall”), professores de
Cambridge e do Kings College de Londres, sugerem a presença de fortes sinais de
declínio das potências ocidentais lideradas pelos EUA. Eles analisam a fundo as
dinâmicas do declínio de dois impérios. A do império romano no quinto século
D.C e a dos impérios europeus da era moderna. A partir da dinâmica das relações
entre os centros desses Impérios e suas periferias, eles identificam um padrão
historicamente recorrente. Embora, isso não permita inferir que vá se repetir,
alguns desses fenômenos podem estar indicando o início do declínio do império
americano.
Heather
e Rapley criticam uma linha de explicação para o colapso dos impérios que
remonta ao clássico de Edward Gibbon, “Decline and Fall of the Roman Empire”.
Para esses intérpretes o colapso dos impérios explica-se por fatores internos:
longo declínio econômico, cultural e institucional, entre eles. Essa erosão
gradual é vista como acelerada por invasões externas. Os “bárbaros” das
confederações germânicas arremataram o colapso do império romano. Os imigrantes
que “invadem” a Europa e os EUA nos dias que correm. Daí seguiria a receita de
que o antídoto seria o controle das fronteiras. Como também sugerem autores
como Nail Ferguson (Why the Nations Fail). A tese oposta, de Heather e Rapley,
sustenta que os fatores mais relevantes não são escolhas e eventos no âmbito
interno. Mas, sim, as transformações que os centros imperiais desencadeiam em
suas periferias. O desenvolvimento econômico das periferias, causado pelas
necessidades do centro, deflagra processos políticos que findam por desafiar a
própria dominação imperial que iniciou o ciclo. A emergência de países como
China, Índia, Coréia e outros, até então periféricos, decorre dessa lógica.
Como eles advertem: não é possível fazer o Ocidente “great again” no sentido de
reafirmação de um domínio global incontrastável. O processo de reajuste das
potências ocidentais pode refazer uma nova ordem global a partir das melhores
tradições da civilização ocidental. Mas pode também reproduzir as piores.
Como
parecem estar fazendo lideranças como Donald Trump e outras da ultradireita
populista ocidental, hoje tão fortes. Mas que, do alto da sua ignorância sobre
a história dos impérios, podem estar acelerando o declínio ocidental. Quando à
ignorância se acrescentam a visão imediatista e supremacista do líder mais
forte do Ocidente, não fica difícil perceber que essa receita não tem como dar
certo.
O
episódio da invasão da Venezuela e do sequestro do seu presidente foi festejado
pela direita ocidental, com a honrosa exceção da francesa Le Pen. Mesmo os
críticos da ditadura de Maduro, entre os quais me incluo, não podemos aceitar a
invasão de um país soberano e o desrespeito ao direito internacional. Muito
menos pela cobiça do petróleo desse país, algo que foi exposto com clareza por
Trump. Esse autocrata americano pelo menos é sincero. Não bastasse a própria
ascensão da China e as dinâmicas econômicas e políticas mundiais atuais, a
maior potência ocidental parece empenhada em acelerar o seu declínio. Xi Ji
Ping observa e agradece, como concluiu o editorial da The Economist, em sua
edição do Natal.
• Venezuela, a ponta do iceberg Trump. Por
Reimont Otoni
Passada
uma semana do ataque ilegal dos Estados Unidos a Venezuela – aparentemente, com
o único propósito de sequestrar o presidente Nicolas Maduro e sua esposa, Cilia
–, a situação no país vizinho permanece nebulosa, indefinida. As notícias que
recebemos, em sua maioria, parecem saídas diretamente do Departamento de Estado
americano.
Esse
vácuo soa como proposital, como parte de um plano de deixar o mundo na
expectativa do que virá. Falar sobre a agressão dos Estados Unidos a Venezuela
olhando apenas o nosso país vizinho parece interessar mais ao projeto despótico
de controle global de Donald Trump e sua Doutrina Donroe (uma versão
personalíssima da já caduca Doutrina Monroe, de 1823!).
É
primário falar em ditadura de Chavez ou Maduro, como se este fosse o ponto
central da operação terrorista perpetrada, quando é notório que Trump jamais se
preocupou com ditaduras, especialmente as aliadas, ou demonstra qualquer
preocupação com o presente e o futuro político da Venezuela. É primário falar
em ação de combate ao narcotráfico internacional, quando o próprio Departamento
de Justiça dos Estados Unidos reviu as acusações contra Nicolás Maduro e, em
nova versão enviada ao Tribunal de Justiça recuou na tese de que ele seria o
chefe de um Cartel de los Soles que nunca existiu, segundo especialistas.
Ambas
as justificativas foram só isso: um modo forjado para justificar legalmente o
ataque ilegal, que contrariou todas as leis internacionais.
No
curto espaço de tempo em que permaneceram no território venezuelano, as tropas
de Trump cometeram brutalidades, em desrespeito aos direitos humanos da
população – ao menos 50 civis foram mortos, casas populares foram bombardeadas
e destruídas por mísseis e arrasaram o principal centro de tratamento de
doenças renais do país. Cilia Flores Maduro apareceu no tribunal de Nova York,
para a audiência de custódia, cheia de ferimentos e hematomas no rosto.
A
Venezuela é apenas a ponta do enorme iceberg Trump. E quem tenta analisar só a
ponta, perde a dimensão da grande ameaça que o atual presidente americano
representa para a paz e o equilíbrio mundiais. Em entrevista ao New YorK Times,
ele deixou claríssimo o que pretende ao dizer que o seu poder global só tem um
limite: ele mesmo.
No
espaço de uma semana, desde que comandou a operação ilegal de invadir a
Venezuela, Trump já ameaçou a Groenlândia, a Colômbia, o Irã, Cuba e até a
Rússia. Para cada um uma justificativa. Com seu discurso errático e
aparentemente (só aparentemente) desconexo, mantém o mundo em um suspense
permanente girando ao seu redor.
Trump
não está preocupado com democracia, justiça social, bem estar dos povos, paz
mundial. Quer é riquezas para os grandes magnatas americanos. Já disse que se
acha o dono do Hemisfério Sul e que vai ganhar muito dinheiro por aqui e fazer
os melhores negócios para os Estados Unidos. Mas, para isso, precisa se cercar
de governos fracos, submissos e escravos aos americanos. Os povos que se danem.
No caso
particular do Brasil, ainda que as ameaças e ataques diretos tenham sido
neutralizados pela habilidade diplomática do governo Lula, é evidente que Trump
está de olho no nosso petróleo, no nosso minério, nas nossas terras raras e nas
nossas grandes reservas de água doce. Para isso, é mais do que provável que
procure interferir nas eleições de 2026, seja em apoios e declarações diretas,
seja por meio de seus marionetes e bajuladores da extrema direita brasileiras.
Por isso, quem defende Trump, está contra o Brasil, está contra o povo
brasileiro, é traidor. Não podemos perdoar ou compactuar com traidores. Não
podemos permitir a interferência americana nas eleições de 2026.
O mundo
não é o parquinho de diversões dos Estados Unidos. Seguimos juntos, em defesa
da soberania dos povos, da democracia, da integração latino-americana. Em
defesa da paz mundial, exigimos respeito à soberania de cada país.
Fonte:
Por Jeffrey Frankel, no Project Syndicate, com tradução no Economia e
Complexidade | Tradução: Eleutério F. S. Prado/Brasil 247

Nenhum comentário:
Postar um comentário