quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Por que a economia dos EUA ainda não caiu

Quando o presidente dos EUA, Donald Trump, assumiu o cargo em janeiro passado, a maioria dos economistas temia o que aconteceria se ele aumentasse as tarifas. A expectativa era que, à medida que os novos impostos elevassem os preços dos bens de consumo e dos insumos – afetando famílias e empresas, respectivamente – a inflação em alta e a queda da renda real se seguiriam. Como se teria um choque de oferta, o Federal Reserve não poderia fazer muito para compensá-lo.

Trump aumentou as tarifas a níveis chocantes, violando acordos internacionais e destruindo o compromisso frequentemente declarado do Partido Republicano com o livre comércio. Em termos de severidade e perturbação, as tarifas de Trump em 2025 foram muito além das já prejudiciais tarifas de seu primeiro mandato, e até mesmo além do infame Smoot-Hawley Act de 1930.

De acordo com o Yale Budget Lab, a tarifa efetiva média sobre importações dos EUA subiu de 2% para 18%, o nível mais alto desde a década de 1930, neste ano. Some a isso a incerteza causada por mudanças frequentes e inexplicáveis de políticas, e grandes efeitos adversos sobre inflação, emprego e renda real pareciam praticamente inevitáveis.

Mas as coisas não saíram como o esperado. É possível que a inflação dos preços ao consumidor (IPC) não tenha subido quase nada: a taxa mais recentemente reportada, para os 12 meses encerrados em novembro, é de 2,7% – o mesmo nível dos últimos meses de 2024. (Claro, o nível de preços é mais alto, ao contrário do que Trump afirma.) A taxa de desemprego subiu apenas um pouco, de 4,1% no final de 2024 para 4,6% em novembro. O crescimento econômico provavelmente desacelerou no final do ano, mas a situação permanece incerta, pois uma paralisação do governo dos EUA atrasou a coleta de dados.

De qualquer forma, é bastante seguro dizer que o dano econômico causado durante o primeiro ano de retorno de Trump no cargo foi menor do que o previsto. Existem quatro razões pelas quais os maiores efeitos das tarifas foram limitados ou adiados em 2025.

Primeiro, as estatísticas econômicas dos EUA são incomumente vulneráveis a problemas de medição, devido à paralisação do governo, que se estendeu de 1º de outubro a 12 de novembro. Algumas informações do IPC estão ausentes porque o Bureau of Labor Statistics não conseguiu coletar dados como de costume, especialmente para outubro. Mesmo em novembro, há motivos para duvidar que a inflação dos custos imobiliários tenha sido zero, como relatado. Se for verdade, isso imporia uma tendência para baixo na estimativa geral do IPC. As divulgações do PIB pelo Bureau of Economic Analysis estão muito atrasadas, com a divulgação dos dados do PIB do terceiro trimestre tendo sido adiada.

A segunda razão pela qual foi visto menos danos causados pelas tarifas de Trump do que o esperado é que muitas das tarifas mais altas ainda não estão totalmente em vigor. Trump adiou algumas tarifas repetidamente. Ele reduziu outras em 14 de novembro, porque elas estavam aumentando os preços dos supermercados.

Além disso, Trump introduziu grandes exceções tarifárias para alguns países. Por exemplo, a indústria automobilística norte-americana integrada teria ficado devastada se ele não tivesse decidido, em 6 de março, isentar mercadorias do México e Canadá da taxa de 25% que entrou em vigor dois dias antes. Produtos desses países agora não enfrentam penalidade se importados sob o Acordo EUA-México-Canadá.

Esse amolecimento era previsível. Os negócios americanos teriam sofrido enormemente se Trump tivesse implementado totalmente as tarifas que anunciou, quanto mais ameaçasse, então nunca era provável que ele persistisse com o pior delas. Trump regularmente assume posições extremas de negociação, apenas para recuar quando a pressão aumenta, mesmo que não tenha conseguido o que exigiu do outro lado.

Na verdade, a suposição dos investidores de que “Trump sempre volta atrás” – conhecida como TACO, Trump Always Chicken Out – virou uma provocação. Mas quando um louco ameaça o Armagedom, é imprudente provocá-lo para que siga o caminho prometido. As tarifas que Trump implementou ainda são muito altas.

Mas isso não significa que os economistas erraram todas as previsões. Há bons motivos para pensar que muitos dos efeitos adversos das tarifas de Trump simplesmente foram adiados, e devemos esperar que eles apareçam em 2026.

Isso nos leva ao terceiro ponto: assim que Trump foi eleito em novembro de 2024, as empresas começaram a antecipar as importações para acumular estoques de bens – especialmente ouro da Suíça e medicamentos para perda de peso da Irlanda – antes da introdução das tarifas previstas. O Modelo Orçamentário Penn-Wharton estima que essa estratégia economizou aos importadores americanos até 6,5 bilhões de dólares – equivalente a 13,1% do novo projeto de lei tarifária – até maio de 2025.

Após a entrada em vigor das tarifas, a maioria dos varejistas ainda não aumentou os preços, pois não havia esgotado seus estoques pré-tarifários. Isso é prática comum entre varejistas, embora um economista possa dizer que viola o princípio da maximização do lucro. Mesmo hoje, muitos importadores ainda não repassaram totalmente os custos adicionais para seus clientes.

Na verdade – e este é o ponto final e mais importante – os importadores continuaram a absorver grande parte do aumento de custos, mesmo após esgotarem seus estoques pré-tarifários. Usando dados em tempo real de grandes varejistas americanos, Alberto Cavallo e seus coautores descobrem que os preços dos produtos sujeitos às novas tarifas – tanto os produtos importados quanto seus substitutos fabricados nos EUA – vêm subindo desde abril. O aumento, que foi cerca de 5,4% no varejo, foi suficiente para elevar a taxa de inflação da cesta geral do IPC em 0,7 pontos percentuais acima do que teria sido de outra forma. Mas representa uma pequena fração dos custos que poderiam ser repassados nos níveis atuais das tarifas.

É claro que os preços pagos pelos importadores aumentaram proporcionalmente às tarifas, ao contrário das alegações de Trump de que exportadores estrangeiros cobrem os custos das tarifas reduzindo seus preços. São as empresas americanas que têm absorvido os custos, assim como normalmente fazem quando o dólar se deprecia. Isso reflete em parte o fato de que eles não têm ideia de quanto tempo as tarifas permanecerão em vigor. Trump pode mudar de ideia, ou talvez a Suprema Corte decida seguir a lei e derrubá-los. Essa incerteza também ajuda a explicar por que muitas empresas afetadas até agora evitaram demitir trabalhadores.

Mas as empresas não permitirão que as tarifas corram suas margens de lucro indefinidamente. Assumindo que as tarifas permaneçam, os EUA podem esperar mais aumentos de preços e pressão para baixo sobre a renda real em 2026.

•        O declínio do império americano. Por Maurício Rands

Trump vence com força ao depor e sequestrar o presidente de um país soberano. No curto prazo, pelo menos. Mas perde a guerra do soft power. Ao reeditar o velho intervencionismo americano na América Latina, reativa os juízos negativos à política externa que invadia as repúblicas de bananas e apoiava tiranos e suas ditaduras. Basta lembrar o apoio a Pinochet no Chile, aos generais argentinos, uruguaios e brasileiros em suas ditaduras. Com armas, recursos e treinamento, inclusive em técnicas de tortura. Isso parecia superado. Agora retoma a arrogância imperialista e afunda a imagem dos EUA. E inaugura uma nova geopolítica mundial, de novo centrada na prevalência do mais forte, como bem retratada por Eric Hobsbawm, em seu clássico A Era dos Impérios. Mas essa hegemonia apenas pela força, sem um mínimo de coesão política, pode indicar início de declínio.

Recente livro de Peter Heather e John Rapley (“Why Empires Fall”), professores de Cambridge e do Kings College de Londres, sugerem a presença de fortes sinais de declínio das potências ocidentais lideradas pelos EUA. Eles analisam a fundo as dinâmicas do declínio de dois impérios. A do império romano no quinto século D.C e a dos impérios europeus da era moderna. A partir da dinâmica das relações entre os centros desses Impérios e suas periferias, eles identificam um padrão historicamente recorrente. Embora, isso não permita inferir que vá se repetir, alguns desses fenômenos podem estar indicando o início do declínio do império americano.

Heather e Rapley criticam uma linha de explicação para o colapso dos impérios que remonta ao clássico de Edward Gibbon, “Decline and Fall of the Roman Empire”. Para esses intérpretes o colapso dos impérios explica-se por fatores internos: longo declínio econômico, cultural e institucional, entre eles. Essa erosão gradual é vista como acelerada por invasões externas. Os “bárbaros” das confederações germânicas arremataram o colapso do império romano. Os imigrantes que “invadem” a Europa e os EUA nos dias que correm. Daí seguiria a receita de que o antídoto seria o controle das fronteiras. Como também sugerem autores como Nail Ferguson (Why the Nations Fail). A tese oposta, de Heather e Rapley, sustenta que os fatores mais relevantes não são escolhas e eventos no âmbito interno. Mas, sim, as transformações que os centros imperiais desencadeiam em suas periferias. O desenvolvimento econômico das periferias, causado pelas necessidades do centro, deflagra processos políticos que findam por desafiar a própria dominação imperial que iniciou o ciclo. A emergência de países como China, Índia, Coréia e outros, até então periféricos, decorre dessa lógica. Como eles advertem: não é possível fazer o Ocidente “great again” no sentido de reafirmação de um domínio global incontrastável. O processo de reajuste das potências ocidentais pode refazer uma nova ordem global a partir das melhores tradições da civilização ocidental. Mas pode também reproduzir as piores.

Como parecem estar fazendo lideranças como Donald Trump e outras da ultradireita populista ocidental, hoje tão fortes. Mas que, do alto da sua ignorância sobre a história dos impérios, podem estar acelerando o declínio ocidental. Quando à ignorância se acrescentam a visão imediatista e supremacista do líder mais forte do Ocidente, não fica difícil perceber que essa receita não tem como dar certo.

O episódio da invasão da Venezuela e do sequestro do seu presidente foi festejado pela direita ocidental, com a honrosa exceção da francesa Le Pen. Mesmo os críticos da ditadura de Maduro, entre os quais me incluo, não podemos aceitar a invasão de um país soberano e o desrespeito ao direito internacional. Muito menos pela cobiça do petróleo desse país, algo que foi exposto com clareza por Trump. Esse autocrata americano pelo menos é sincero. Não bastasse a própria ascensão da China e as dinâmicas econômicas e políticas mundiais atuais, a maior potência ocidental parece empenhada em acelerar o seu declínio. Xi Ji Ping observa e agradece, como concluiu o editorial da The Economist, em sua edição do Natal.

•        Venezuela, a ponta do iceberg Trump. Por Reimont Otoni

Passada uma semana do ataque ilegal dos Estados Unidos a Venezuela – aparentemente, com o único propósito de sequestrar o presidente Nicolas Maduro e sua esposa, Cilia –, a situação no país vizinho permanece nebulosa, indefinida. As notícias que recebemos, em sua maioria, parecem saídas diretamente do Departamento de Estado americano.

Esse vácuo soa como proposital, como parte de um plano de deixar o mundo na expectativa do que virá. Falar sobre a agressão dos Estados Unidos a Venezuela olhando apenas o nosso país vizinho parece interessar mais ao projeto despótico de controle global de Donald Trump e sua Doutrina Donroe (uma versão personalíssima da já caduca Doutrina Monroe, de 1823!).

É primário falar em ditadura de Chavez ou Maduro, como se este fosse o ponto central da operação terrorista perpetrada, quando é notório que Trump jamais se preocupou com ditaduras, especialmente as aliadas, ou demonstra qualquer preocupação com o presente e o futuro político da Venezuela. É primário falar em ação de combate ao narcotráfico internacional, quando o próprio Departamento de Justiça dos Estados Unidos reviu as acusações contra Nicolás Maduro e, em nova versão enviada ao Tribunal de Justiça recuou na tese de que ele seria o chefe de um Cartel de los Soles que nunca existiu, segundo especialistas.

Ambas as justificativas foram só isso: um modo forjado para justificar legalmente o ataque ilegal, que contrariou todas as leis internacionais.

No curto espaço de tempo em que permaneceram no território venezuelano, as tropas de Trump cometeram brutalidades, em desrespeito aos direitos humanos da população – ao menos 50 civis foram mortos, casas populares foram bombardeadas e destruídas por mísseis e arrasaram o principal centro de tratamento de doenças renais do país. Cilia Flores Maduro apareceu no tribunal de Nova York, para a audiência de custódia, cheia de ferimentos e hematomas no rosto.

A Venezuela é apenas a ponta do enorme iceberg Trump. E quem tenta analisar só a ponta, perde a dimensão da grande ameaça que o atual presidente americano representa para a paz e o equilíbrio mundiais. Em entrevista ao New YorK Times, ele deixou claríssimo o que pretende ao dizer que o seu poder global só tem um limite: ele mesmo.

No espaço de uma semana, desde que comandou a operação ilegal de invadir a Venezuela, Trump já ameaçou a Groenlândia, a Colômbia, o Irã, Cuba e até a Rússia. Para cada um uma justificativa. Com seu discurso errático e aparentemente (só aparentemente) desconexo, mantém o mundo em um suspense permanente girando ao seu redor.

Trump não está preocupado com democracia, justiça social, bem estar dos povos, paz mundial. Quer é riquezas para os grandes magnatas americanos. Já disse que se acha o dono do Hemisfério Sul e que vai ganhar muito dinheiro por aqui e fazer os melhores negócios para os Estados Unidos. Mas, para isso, precisa se cercar de governos fracos, submissos e escravos aos americanos. Os povos que se danem.

No caso particular do Brasil, ainda que as ameaças e ataques diretos tenham sido neutralizados pela habilidade diplomática do governo Lula, é evidente que Trump está de olho no nosso petróleo, no nosso minério, nas nossas terras raras e nas nossas grandes reservas de água doce. Para isso, é mais do que provável que procure interferir nas eleições de 2026, seja em apoios e declarações diretas, seja por meio de seus marionetes e bajuladores da extrema direita brasileiras. Por isso, quem defende Trump, está contra o Brasil, está contra o povo brasileiro, é traidor. Não podemos perdoar ou compactuar com traidores. Não podemos permitir a interferência americana nas eleições de 2026.

O mundo não é o parquinho de diversões dos Estados Unidos. Seguimos juntos, em defesa da soberania dos povos, da democracia, da integração latino-americana. Em defesa da paz mundial, exigimos respeito à soberania de cada país.

 

Fonte: Por Jeffrey Frankel, no Project Syndicate, com tradução no Economia e Complexidade | Tradução: Eleutério F. S. Prado/Brasil 247

 

Nenhum comentário: