Liszt
Vieira: Donald Trump e o capitalismo predatório
A
ação na Venezuela expõe a transição do capitalismo liberal para o predatório,
onde a força bruta suplanta o direito internacional para confiscar recursos
estratégicos
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Donald Trump e a Venezuela
Nicolás
Maduro foi sequestrado e levado a Nova Yorque, certamente com algum tipo de
informação e apoio interno. O Governo dos EUA aceitou negociar com a
vice-presidente e já começou a dar ordens. Se Nicolás Maduro era ilegítimo
porque fraudou a eleição, a vice-presidente de Nicolás Maduro seria legítima?
Que
ninguém espere coerência de Donald Trump. Esse início de negociação, se
confirmado, indica que não haverá ocupação militar territorial. Ou seja, os EUA
não vão enviar tropas para invadir a Venezuela. Isso seria um desgaste enorme,
com mortes de soldados americanos e grande perda de apoio popular para Donald
Trump.
O
governo da Venezuela se aproximou da Rússia e China e, depois do sequestro de
Nicolás Maduro, o governo continua o mesmo, todos estão no mesmo lugar. Donald
Trump quer negociar acesso ao petróleo com o governo que tem o poder, e não com
a líder de oposição, Maria Corina Machado, que não tem influência no poder.
A
grande reserva de petróleo da Venezuela está no interior do país, na Faixa
Petrolífera do Orinoco, o que dificulta muito aos EUA o controle operacional e
a exploração comercial, além de facilitar ações de sabotagem por parte de uma
possível resistência. Isso ajuda a explicar porque Donald Trump não deve
priorizar a ação militar direta, vai preferir ações indiretas como, por
exemplo, sanções econômicas, bloqueios comerciais, punições políticas e
diplomáticas etc. Os teóricos de estratégia militar sabem que os atores mais
fracos tendem a obter sucesso relativo quando conseguem deslocar o conflito
para arenas nas quais a superioridade material do adversário perde eficácia
O
Partido Democrata não tem moral para denunciar que Donald Trump bombardeou a
Venezuela em operação de guerra, sem apoio prévio do Congresso e ignorando a
Constituição e a Carta da ONU, porque o ex-presidente Barack Obama fez o mesmo
quando bombardeou a Líbia durante sete meses em 2011.
Segundo
alguns analistas, a Suprema Corte, embora de maioria conservadora, vai condenar
Donald Trump a vultosas indenizações por ter baixado o tarifaço sem autorização
prévia do Congresso. Isso vai causar um grande prejuízo financeiro e enorme
desgaste político para Donald Trump. Não seria impossível que esta decisão, se
realmente vier, possa ter impacto em alguma decisão judicial reconhecendo a
flagrante ilegalidade do bombardeio da Venezuela e sequestro de Nicolás Maduro.
E as pesquisas eleitorais já apontam para uma séria derrota de Donald Trump nas
próximas eleições parlamentares de “mid-term”, previstas para novembro
próximo. A possibilidade de um impeachment já foi cogitada pelas especulações
jornalísticas nos EUA.
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Decadência dos EUA?
Há um
certo consenso entre os cientistas políticos que analisam as relações
internacionais no sentido de considerar o governo de Donald Trump como um forte
indício do declínio da hegemonia unilateral dos EUA no mundo, que estaria
caminhando para relações geopolíticas de natureza multilateral.
Há
sinais evidentes da decadência econômica dos EUA que consomem mais do que
produzem e importam mais do que exportam. Seu poder reside hoje não só na
tecnologia, mas principalmente no controle financeiro, no papel do dólar como
moeda global. O sistema de pagamento e trocas no mercado mundial está baseado
no SWIFT, referenciado ao dólar, que começa a ser ameaçado pelo sistema
financeiro chinês CIPS (Cross-Border Interbank Payment System), muito mais
eficaz e rápido.
Até o
Brasil lançou um método eficaz e imediato de pagamento, o Pix, que não existe
nos EUA e que vem sendo atacado por Donald Trump porque contraria os interesses
das empresas norte-americanas de cartão, como Visa ou Mastercard. Pela sua
participação e certa liderança no BRICS, que ameaça a médio prazo o poder do
dólar, o Brasil contribui para o enfraquecimento da influência norte-americana
em seu quintal latino-americano.
Os EUA
não são mais uma democracia. Donald Trump controla o Executivo, o Legislativo e
parte do Judiciário. Retirou os EUA de compromissos e organismos
internacionais, e boicotou as universidades e a pesquisa científica,
desencadeando uma guerra cultural para impedir o debate e a pesquisa de certos
temas, e para mudar a história registrada nos museus que passariam a adotar uma
narrativa falsa de seu agrado.
Mas
Donald Trump que ir além do território dos EUA. Quer que suas decisões tenham
validade universal e que sejam acatadas por outros países.
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Donald Trump contra a soberania nacional
O mundo
foi dividido em Estados-nação desde a Conferência de Westfália em 1648 que
assegurou a igualdade jurídica de todos os países, por mais diferentes que
sejam do ponto de vista econômico, social, cultural ou militar. O conceito de
Estado-nação criado pelo Tratado de Westfalia em 1648 foi baseado nos
princípios de territorialidade, soberania, autonomia e legalidade.
Assim,
um decreto do governo de qualquer país só tem validade jurídica dentro do seu
território. Em outros países, não tem validade, porque cada país é soberano e
tem suas próprias leis. Na prática, porém, essa situação é mais complexa e
algumas exceções são admitidas quando um país aceita seguir a lei de outro país
por pressão diplomática, tratados ou interesses comerciais.
Há
muitos exemplos de decretos do governo norte-americano que foram obedecidos por
outros países, mesmo sem validade jurídica interna, por razões econômicas. O
exemplo mais conhecido é o embargo comercial decretado pelos EUA contra Cuba
que proibiu empresas norte-americanas de manter relações comerciais com esse
país.
Indiretamente,
empresas estrangeiras cortaram relações comerciais com Cuba para não perder
acesso ao mercado norte-americano. Uma decisão unilateral de um Governo acabou
tendo efeito transnacional. Mais importante ainda é o fato de o sistema
financeiro mundial ser muito dependente do dólar e dos bancos dos EUA.
Em 20
de agosto de 2025, Donald Trump aplicou a Lei Magnitsky a quatro membros do
Tribunal Penal Internacional, sediado em Haia, por estarem processando o
genocida Benjamim Netanyahu pelo massacre na Faixa de Gaza. Esses Juízes do
Tribunal Penal Internacional tiveram seus bens congelados nos EUA, vistos
cassados e impedidos de realizar transações financeiras.
Os
Estados nacionais se enfraquecem porque não podem mais controlar dinâmicas que
extrapolam seus limites territoriais. As comunicações eletrônicas passam por
cima das fronteiras nacionais, os capitais entram e saem de um país deixando
muitas vezes como legado uma crise econômica e financeira, a mão de obra,
apesar das proibições, emigra para outros países, empresas transnacionais têm
orçamento maior do que a maioria das nações, transformadas na prática em
províncias.
O crime
organizado, como o comércio ilegal de drogas e armas, passa por cima das leis
nacionais. Outro exemplo impactante: para defender a soberania nacional, as
Forças Armadas do Brasil dependem de uma empresa estrangeira. Trata-se da
empresa Starlink, de Elon Musk, pois de suas antenas dependem as Forças Armadas
para suas comunicações.
A
destruição ambiental em um país afeta outros e a crise climática global não
respeita as fronteiras nacionais. O patrimônio comum da humanidade entra em
conflito com a dimensão nacional-territorial. Os ecossistemas compartilhados
constituem um patrimônio comum que excede o marco das soberanias nacionais.
E para
esses e outros problemas existem acordos e normas internacionais de regulação,
nem sempre respeitadas. Além das dimensões acima mencionadas, há outras
afetando a autonomia do Estado Nacional, como questões culturais e sociais.
Atividades culturais em um país, como cinema ou música, por exemplo, impactam
comportamentos sociais em outros.
Diante
disso, como fica a soberania nacional? Um dos alicerces do conceito de Estado
Nação, ela sobrevive na literatura política e jurídica clássica da democracia e
da formação do Estado Nacional. Na prática, porém, foi abalada e, em alguns
casos, engolida pela globalização. A soberania nacional funciona hoje, em
geral, como reivindicação e protesto. Tornou-se um dogma doutrinário, é um
forte sentimento na consciência de um povo, mas muitas vezes só funciona quando
não há interesse do capital global que transformou a grande maioria dos países
em províncias.
É
verdade que o governo de Donald Trump embaralhou as cartas e deu uma guinada
regressiva a diversas dimensões da globalização, principalmente no plano
econômico, com o objetivo de fortalecer o seu Estado Nacional, segundo sua
perspectiva, para enfrentar a ascensão econômica e tecnológica da China e a
ameaça do BRICS. O domínio predominante dos EUA no plano financeiro e outros
estaria começando a ser ameaçado.
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Capitalismo – de liberal a predatório
Vivemos
hoje uma crise múltipla, que alguns chamam de policrise, envolvendo as crises
geopolíticas, sociais e tecnológicas. Como tudo está interligado, é preciso
pensar de forma sistêmica. Uma das dimensões dessa realidade é o esgotamento
estrutural dos recursos, em particular das energias fósseis. E a Venezuela,
como se sabe, possui as maiores reservas de petróleo do mundo.
O
capitalismo da finitude é um conceito do historiador Arnaud Orain. Ele surge em
períodos de crise que levam as elites econômicas e políticas a deixar de ver o
mundo como infinito. Nesse momento, a lógica muda completamente. Não se busca
mais maximizar a riqueza global por meio da concorrência e do livre-comércio,
mas “assegurar” – ou seja, apropriar-se, ou até roubar – recursos raros em
zonas de influência exclusivas.
O
capitalismo não é mais liberal, é predatório, violento e rentista, e utiliza a
força militar para atingir seus objetivos. A livre concorrência deixa de
existir como princípio. No capitalismo de recursos finitos, o monopólio deixa
de ser um problema e passa a ser um ativo geopolítico. E as grandes corporações
multinacionais têm orçamentos e poderes que ultrapassam os dos próprios
Estados.
Donald
Trump jogou fora a fachada liberal do capitalismo e assumiu o capitalismo
predatório como política oficial dos EUA. A operação militar na Venezuela, com
o sequestro do seu Presidente e a ameaça de nova ofensiva militar se o governo
venezuelano não cumprir as ordens dadas por Donald Trump, é um primeiro passo.
E, no início desta semana, Donald Trump anunciou que a Venezuela vai “entregar”
até 50 milhões barris de petróleo. Ele paga mas controla o dinheiro. Isso
ameaça a venda de petróleo para a China, que tem contratos com o governo
venezuelano.
Donald
Trump faz um discurso negacionista em matéria de clima, mas ele sabe que os
recursos naturais são escassos. E para se apoderar desses recursos, faz tábula
rasa da democracia e das instituições e direitos internacionais, públicos ou
privados. Já ameaçou a Colômbia e também a Groenlândia, que pertence à
Dinamarca, membro da OTAN.
A Casa
Branca anunciou em 6 de janeiro último que Donald Trump pretende adquirir a
Groenlândia, mas não descarta o uso das Forças Armadas. Ou seja, Donald Trump
quer comprar, mas se a Dinamarca não quiser vender, ele invade. A invasão da
Groenlândia em busca de seus recursos naturais acarretaria a implosão da OTAN.
E, sempre na alça de mira, o Irã que, segundo alguns, seria o próximo objetivo
militar de Donald Trump e de Benjamin Netanyahu.
Donald
Trump está destruindo a ordem mundial baseada em direitos e instituições
internacionais. Como um brutamontes, com tacape na mão, sem máscaras, persegue
com violência seus objetivos de implantar nos EUA um capitalismo predatório.
¨
Trump assume o controle dos campos de petróleo. Caracas
negocia, provocando a ira da China
Os Estados
Unidos escolheram um caminho de brutalidade declarada ao revelar
seus planos para a
Venezuela:
os campos de petróleo do país sul-americano serão explorados
"indefinidamente" pelos Estados Unidos, as decisões
de Caracas serão "ditadas" pelos americanos e o dinheiro da
venda de petróleo bruto será controlado diretamente por Donald Trump. Do presidente dos
Estados Unidos ao secretário de Energia, Chris Wright, do secretário de
Estado, Marco Rubio, à secretária de
imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, ninguém esconde o motivo que
levou os Estados Unidos a atacar a Venezuela para depor o
presidente Nicolás Maduro e sua
esposa, Cilia Flores.
Ninguém
mais fala sobre a luta contra as
drogas.
Em uma publicação na plataforma de mídia Truth Social, Trump anunciou que
Caracas começará a entregar parte de seu fornecimento aos Estados Unidos, entre
30 e 50 milhões de barris, o equivalente a aproximadamente dois meses de
produção por dia. "Este petróleo será vendido a preço de mercado, e esse
dinheiro será controlado por mim, como presidente dos Estados
Unidos da América", declarou Trump, acrescentando mais tarde:
"Caracas só comprará produtos fabricados nos EUA com o dinheiro que
receber do petróleo bruto". Não está claro o que
a Venezuela receberá em troca do fornecimento, avaliado entre US$ 1,8
e US$ 3 bilhões, e a base legal para os Estados Unidos reivindicarem o petróleo caso o governo
interino não aceite o plano de Trump também não está clara.
A Venezuela produz atualmente
menos de um milhão de barris por dia. Enquanto isso, o primeiro impacto das
palavras dos Estados Unidos já se faz
sentir: a estatal petrolífera PDVSA admitiu ter iniciado negociações
com os EUA para o fornecimento de petróleo bruto. "Este processo",
diz um comunicado, "está sendo conduzido sob acordos semelhantes aos
vigentes com empresas internacionais, como a Chevron". A medida
americana, contudo, provocou uma reação furiosa da China, visto que a
maior parte do petróleo sancionado acaba em Pequim: "Este é um típico
ato de intimidação por parte dos Estados Unidos", afirmou a porta-voz
do Ministério das Relações Exteriores. Em Washington, a porta-voz da Casa
Branca, Leavitt, não descartou o envio de soldados americanos para
proteger as operações das petrolíferas. Trump, acrescentou ela,
"reserva-se o direito de usar as Forças Armadas, se necessário; não é algo
que ele queira fazer; a diplomacia é sempre a primeira opção". Por
fim, Trump quer que o governo interino lhe assegure que não haverá
ataques ou sabotagens contra americanos, enquanto Trump pediu a Caracas que se
livre de todos os corretores e intermediários que mantiveram contatos com
a Rússia, o Irã e a China ao longo dos
anos.
Enquanto
isso, amanhã, Trump se reunirá com gigantes
petrolíferos americanos na Casa Branca para finalizar o plano de
infraestrutura e exploração dos campos de petróleo venezuelanos.
Apesar de possuir o que é considerado as maiores reservas de petróleo do mundo,
a Venezuela teve até agora pouca influência nos mercados devido à
ampla instabilidade interna e às duras sanções. O país é capaz de produzir
grandes quantidades de petróleo extrapesado, o que significa que mesmo uma
pequena recuperação no setor pode ter um impacto significativo nos mercados. Na
semana que terminou em 2 de janeiro, os estoques americanos caíram 3,8 milhões
de barris, enquanto os analistas previam um aumento de 1,1 milhão, um sinal de
aumento da demanda. Este é mais um motivo pelo qual Trump quer o
controle total dos campos de petróleo da Venezuela.
Fonte:
A Terra é Redonda/La Repubblica

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