quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Francisco Fernandes Ladeira: Manipulações bem-sucedidas dos noticiários internacionais

A geopolítica é uma temática demasiadamente complexa; envolve questões econômicas, territoriais, políticas e culturais. Nos noticiários internacionais da grande mídia, essa constatação – bem óbvia, por sinal – é o argumento para o uso de “atalhos cognitivos”, recursos discursivos cujo objetivo é tornar familiar para o público o andamento das relações internacionais. No entanto, como argumentado neste artigo, tais atalhos não possuem fins didáticos, mas ideológicos. Via de regra, estão a serviço dos interesses das potências imperialistas, principalmente dos Estados Unidos.

O atalho cognitivo mais comum é o maniqueísmo, que consiste em dividir o mundo entre “bem” e “mal”. É algo a que as pessoas estão habituadas, seja na religião predominante no Ocidente, nos contos infantis, telenovelas ou filmes. Dessa forma, tal como nos épicos, a geopolítica tem seus “mocinhos” e “vilões”.

Os três focos de tensão mais presentes nos noticiários atualmente – Ucrânia, Palestina e Venezuela – exemplificam essa questão. O “bem” é representado por ucranianos, israelenses e estadunidenses. O “mal”, por russos, palestinos e venezuelanos. Com isso, tenta-se induzir o público a aderir a um dos lados em determinado conflito – via de regra, o lado do imperialismo.

Entretanto, no atual contexto informacional, diferentemente de outrora, as notícias sobre o que acontece no mundo não nos chegam apenas pela grande mídia brasileira, sucursal das agências internacionais de notícias dos países imperialistas. Elas também circulam na internet. E o que vemos na rede mundial de computadores, sobretudo nas redes sociais, contradiz as mentiras divulgadas por GloboNews e companhia.

Diferentemente dos discursos da mídia hegemônica, a invasão da Ucrânia pela Rússia, em fevereiro de 2022, não foi uma ação “do nada”, protagonizada pelo “imperialismo russo”, mas uma resposta de Moscou às provocações da Otan, que utilizou a população ucraniana como bucha de canhão. Os ataques contínuos de Israel à Faixa de Gaza não são uma resposta ao “terrorismo” do Hamas, mas a atual etapa de um genocídio que dura, pelo menos, oito décadas. Por fim, o recente sequestro de Maduro na Venezuela não ocorreu por ele ser narcotraficante – acusação, inclusive, retirada. Foi realizado para que os Estados Unidos tenham acesso privilegiado aos recursos naturais venezuelanos e neutralizem as influências chinesas e russas no país (e consequentemente em toda a América Latina). Não teríamos acesso a todas essas informações se não fosse o trabalho da imprensa alternativa.

Diante dessa realidade, não por acaso, estudos realizados por instituições como Pew Research Center e Quaest, pesquisas que tenho realizado com alunos do ensino médio, ou mesmo breves análises de conteúdos postados nas redes sociais nos revelam que Israel e Estados Unidos, por exemplo, países representados positivamente nos noticiários internacionais, já não são vistos da mesma forma pelo público brasileiro. Ou seja, há uma capacidade reduzida de influência dos discursos midiáticos hegemônicos sobre os imaginários geopolíticos.

Se os maniqueísmos dos discursos midiáticos não surtem tanto efeito, o mesmo não podemos dizer sobre outros dois atalhos cognitivos: o jornalismo de adjetivação e a personalização.

No jornalismo de adjetivação, certos atores geopolíticos são rotulados para que juízos de valor sejam noticiados como se fossem “objetividade editorial”. Nos focos de tensão aqui abordados, os mais conhecidos são “o autocrata Putin”, “o grupo terrorista Hamas” e “o ditador Maduro”. Essas tipificações – falaciosas, por sinal – são repetidas até por críticos da grande mídia.

Nos últimos dias, não foi raro presenciarmos nas redes sociais pessoas que se dizem “à esquerda” replicando posicionamentos controversos sobre a Venezuela, enfatizando que, apesar dos ataques estadunidenses, ficamos livres da “ditadura bolivariana”. É a “esquerda” que a GloboNews gosta. Papagaios de pirata dos Guga Chacra da vida. Da mesma forma, muitos setores progressistas demoraram a demonstrar solidariedade ao povo palestino para não serem confundidos com apoiadores do “grupo terrorista Hamas”. Postura extremamente lamentável.

Já a personalização consiste em analisar a geopolítica não a partir de interesses econômicos, mas levando em conta personalidades individuais. Por meio desse atalho cognitivo, é possível, por exemplo, perceber as agressões sionistas e estadunidenses não como modus operandi clássico de Israel e Estados Unidos, mas como ações ligadas exclusivamente às personalidades controversas de Netanyahu e Trump. Com esse ilusionismo verbal, cria-se a impressão de que, quando a extrema direita sair do poder, Israel e Estados Unidos deixarão de lado as políticas externas agressivas.

Nessa lógica, na última eleição presidencial estadunidense, no ano retrasado, setores identitários da esquerda fizeram campanha pela candidata Kamala Harris, como se o simples fato de ela ser mulher, negra e filha de imigrantes fosse suficiente para produzir um mandato que rompesse com a política externa do imperialismo. Uma conhecida articulista da esquerda, inclusive, fez uma constrangedora postagem nas redes sociais com o título “Axé, Kamala”.

Portanto, o atual cenário informacional apresenta uma conclusão dúbia. No âmbito macro, que envolve as relações entre os diferentes Estados nacionais, as mentiras da grande mídia já não surtem tanto efeito. É cada vez mais complexo defender as ações de países beligerantes como Israel e Estados Unidos. No entanto, tais ações são minimizadas nos discursos geopolíticos hegemônicos ao serem associadas às personalidades de seus atuais líderes.

Por outro lado, as resistências ao imperialismo, tanto na Palestina quanto na Venezuela, ainda são vistas de maneira negativa em boa parte dos setores progressistas – ou que ao menos se consideram como tais. Isso comprova que os rótulos presentes na mídia ainda são eficientes.

Dessa forma, devemos concentrar nossos esforços na desconstrução dessas ideologias que produzem uma falsa equivalência entre oprimidos e opressores. Quem reproduz discursos como “Hamas terrorista” e “Maduro ditador” está fazendo o jogo do imperialismo, esteja consciente disso ou não.

•        Revelando os dez truques da retórica utilizada pelos Estados Unidos. Por Wang Yiwei

Nos primeiros dias do novo ano, os Estados Unidos lançaram um ataque aéreo contra a Venezuela, sequestrando à força o presidente Nicolás Maduro e sua esposa enquanto dormiam, nas primeiras horas da madrugada, e levando-os para Nova York, onde seriam julgados. A operação deu continuidade a uma sequência de ameaças e ataques militares norte-americanos contra a Venezuela desde agosto de 2025, incluindo a oferta de recompensa pela “captura” de Maduro, o deslocamento de uma frota anfíbia, ataques a embarcações supostamente ligadas ao tráfico de drogas, o rompimento de relações diplomáticas e a autorização de operações encobertas da CIA.

Além disso, os Estados Unidos reforçaram sua presença militar no Caribe e em regiões vizinhas, ameaçando Cuba, Colômbia e México, ao mesmo tempo em que passaram a articular a anexação da Groenlândia, território da Dinamarca. Trata-se de um caso flagrante de terrorismo internacional e de violação explícita da Carta das Nações Unidas, que revela de forma inequívoca a natureza hegemônica e imperialista da política externa norte-americana.

Ainda assim, a administração Trump manipulou a opinião pública por meio de uma série de artifícios retóricos, desencadeando uma verdadeira campanha de guerra cognitiva. O resultado foi uma reação intensa de forças pró-Estados Unidos inclusive dentro da China, levando ao questionamento da política externa chinesa e até a comparações indevidas com a questão de Taiwan.

Diante disso, torna-se imprescindível identificar as três grandes lógicas narrativas e os dez principais truques retóricos empregados pelos Estados Unidos, bem como estabelecer, sem demora, um sistema narrativo autônomo.

<><> Confundir conceitos e borrar distinções travestidas de lógica

O primeiro truque consiste em transformar questões internacionais em assuntos domésticos. Na madrugada de 3 de janeiro, pelo horário da costa leste, forças norte-americanas bombardearam diversos alvos militares na Venezuela, incluindo o porto de La Guaira, a Base Aérea Libertador, o Forte Tiuna, a Base Aérea La Carlota e o aeroporto de Higuerote. O ataque foi cuidadosamente planejado para moldar a percepção posterior dos fatos. O que foi, na prática, uma invasão flagrante de um Estado soberano passou a ser descrito como uma operação transfronteiriça de “captura”.

Essa narrativa deslocou o debate para o interior da política norte-americana, concentrando-se na suposta autorização do Congresso, enquanto se evitava deliberadamente a condenação internacional que uma agressão dessa magnitude naturalmente exigiria à luz do direito internacional e da Carta da ONU. O sequestro ilegal foi assim disfarçado de ação contra o terrorismo. Apesar da condenação internacional generalizada, Washington tentou redirecionar a atenção para acusações de “lavagem de dinheiro do narcotráfico” e para a suposta ilegitimidade do governo venezuelano.

O segundo truque é converter agressão militar em ação de aplicação da lei. Trump descreveu a incursão militar como a “captura” de Maduro, afirmando que o ataque foi realizado “em cooperação com as forças de segurança dos Estados Unidos”. Do ponto de vista jurídico, “captura” é um termo policial, não militar. Um sequestro foi rebatizado como prisão. O plano, audacioso, era transferir o presidente venezuelano para um tribunal federal em Nova York, cidade-sede da ONU, reforçando simbolicamente a pretensão dos Estados Unidos de se colocarem como intérpretes e juízes das normas internacionais.

O terceiro truque desloca o foco do nacional para o pessoal. A divulgação de imagens de Maduro e de sua esposa detidos, acompanhadas até de mensagens de “Feliz Ano Novo” da agência antidrogas norte-americana, personalizou o episódio. A Venezuela desaparece como sujeito político, substituída pela construção da figura de um “criminoso”. Um chefe de Estado é despojado de sua condição soberana e reduzido a fugitivo, enquanto o destino de uma nação é simplificado em culpa individual.

<><> Quando o espetáculo encobre a ilegalidade

Outro expediente é o destaque às supostas façanhas heroicas das forças especiais para ocultar a ilegalidade da intervenção. A Casa Branca divulgou imagens da sala de comando da Operação Resolução Absoluta, evocando a operação que matou Osama bin Laden. Trump e o secretário de Defesa detalharam rapidamente o papel da força de elite Delta Force, mergulhando a opinião pública numa narrativa cinematográfica digna de Hollywood. Assim, uma operação militar complexa, com violações do espaço aéreo, bombardeios múltiplos e incursões terrestres, foi reduzida ao “momento da captura”, relegando toda a violência restante ao papel de ruído de fundo.

A sofisticação tática, porém, não esconde a barbárie estratégica. Nenhuma crítica às armas substitui a crítica do armamento como política. Trump tentou evitar um novo Afeganistão e apagar o vexame da retirada caótica conduzida por Biden. Ainda assim, o agressor não escapa ao julgamento histórico. Atacar a Venezuela não resolve o abismo fiscal nem a polarização política interna dos Estados Unidos, tampouco corrige o erro estratégico de iniciar uma guerra insustentável.

Há ainda o uso do procedimento para ocultar a substância. Em ano de eleições legislativas, o debate entre democratas e republicanos sobre a legalidade formal das ações de Trump confundiu a opinião pública e encobriu o caráter agressivo da operação. As discussões no Capitólio receberam muito mais atenção do que os debates no Conselho de Segurança da ONU.

Outro truque consiste em inverter causa e efeito. Ao induzir o público a discutir por que os Estados Unidos intervieram na Venezuela, a narrativa se desloca para a ideia de que “a Venezuela destruiu a si mesma”, conduzindo à conclusão implícita de que a queda de Maduro seria merecida e de que a chamada “maldição do petróleo” seria um destino inevitável.

<><> Romper tempo e espaço para enganar a opinião pública

Os Estados Unidos também usam as notícias para apagar a história. Enquanto o destino de Maduro ocupa os noticiários, Trump passa a ameaçar Cuba, Colômbia e México. Poucos se lembram de que os Estados Unidos já protagonizaram mais de 40 intervenções na América Latina, envolvendo agressões militares, controle político e exploração econômica. A revista Foreign Affairs revelou que, antes mesmo da ofensiva, o governo venezuelano sinalizava disposição para atender exigências norte-americanas, especialmente sobre o controle do petróleo.

Ao lançar novos temas, Washington dilui os assuntos pendentes. Enquanto a crise latino-americana ainda se desenrola, Trump volta-se para a Groenlândia e anuncia possíveis ataques ao Irã. Em meio a essa enxurrada de manchetes, o futuro da Venezuela vai sendo esquecido.

Imagens também são usadas para ocultar processos. A fotografia de Maduro com roupas rasgadas escondeu o massacre de 32 escoltas cubanos mortos enquanto defendiam o presidente venezuelano. Apenas quando Cuba decretou luto nacional é que muitos perceberam a brutalidade da operação. Para os Estados Unidos, basta que não haja baixas entre suas forças especiais.

Toda essa retórica funciona como um camuflado discursivo para contornar o direito internacional e enfraquecer os mecanismos multilaterais, abrindo caminho para uma ordem internacional baseada em normas ditadas por Washington. O discurso serve tanto à expansão global e ao saque de recursos quanto às agendas políticas domésticas, num jogo sofisticado e profundamente enganoso.

O teórico norte-americano John Mearsheimer, em A tragédia da política das grandes potências, observa que as guerras costumam ser apresentadas como cruzadas morais, e não como disputas por poder. Foi assim na Guerra do Golfo, quando George H. W. Bush falou em “libertar o Kuwait”, ocultando os interesses petrolíferos. Hoje, esses interesses seguem centrais, e a Venezuela tornou-se o novo epicentro.

No fim das contas, a manipulação da linguagem é um instrumento poderoso de dominação. Não é preciso convencer o público da “legitimidade da violência”, mas apenas de que ela é rotineira, limitada e bem administrada. Quando “invasão” vira “captura” e “guerra” se transforma em “governança”, a mudança mais perigosa já ocorreu, não no campo de batalha, mas nas entrelinhas.

O mais alarmante é que cada crise reforça a hegemonia norte-americana e aprofunda a bipolaridade entre Estados Unidos e China. Com a digitalização e as tecnologias inteligentes, intensifica-se também o imperialismo digital. Análises geradas por inteligência artificial circulam amplamente na internet, misturando dados reais com distorções e desinformação. Nesse cenário, compreender e desmontar a retórica imperial torna-se não apenas um exercício intelectual, mas uma necessidade política urgente.

 

Fonte: Observatório da Imprensa/Brasil 247

 

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