Francisco
Fernandes Ladeira: Manipulações bem-sucedidas dos noticiários internacionais
A
geopolítica é uma temática demasiadamente complexa; envolve questões
econômicas, territoriais, políticas e culturais. Nos noticiários internacionais
da grande mídia, essa constatação – bem óbvia, por sinal – é o argumento para o
uso de “atalhos cognitivos”, recursos discursivos cujo objetivo é tornar
familiar para o público o andamento das relações internacionais. No entanto,
como argumentado neste artigo, tais atalhos não possuem fins didáticos, mas
ideológicos. Via de regra, estão a serviço dos interesses das potências
imperialistas, principalmente dos Estados Unidos.
O
atalho cognitivo mais comum é o maniqueísmo, que consiste em dividir o mundo
entre “bem” e “mal”. É algo a que as pessoas estão habituadas, seja na religião
predominante no Ocidente, nos contos infantis, telenovelas ou filmes. Dessa
forma, tal como nos épicos, a geopolítica tem seus “mocinhos” e “vilões”.
Os três
focos de tensão mais presentes nos noticiários atualmente – Ucrânia, Palestina
e Venezuela – exemplificam essa questão. O “bem” é representado por ucranianos,
israelenses e estadunidenses. O “mal”, por russos, palestinos e venezuelanos.
Com isso, tenta-se induzir o público a aderir a um dos lados em determinado
conflito – via de regra, o lado do imperialismo.
Entretanto,
no atual contexto informacional, diferentemente de outrora, as notícias sobre o
que acontece no mundo não nos chegam apenas pela grande mídia brasileira,
sucursal das agências internacionais de notícias dos países imperialistas. Elas
também circulam na internet. E o que vemos na rede mundial de computadores,
sobretudo nas redes sociais, contradiz as mentiras divulgadas por GloboNews e
companhia.
Diferentemente
dos discursos da mídia hegemônica, a invasão da Ucrânia pela Rússia, em
fevereiro de 2022, não foi uma ação “do nada”, protagonizada pelo “imperialismo
russo”, mas uma resposta de Moscou às provocações da Otan, que utilizou a
população ucraniana como bucha de canhão. Os ataques contínuos de Israel à
Faixa de Gaza não são uma resposta ao “terrorismo” do Hamas, mas a atual etapa
de um genocídio que dura, pelo menos, oito décadas. Por fim, o recente
sequestro de Maduro na Venezuela não ocorreu por ele ser narcotraficante –
acusação, inclusive, retirada. Foi realizado para que os Estados Unidos tenham
acesso privilegiado aos recursos naturais venezuelanos e neutralizem as
influências chinesas e russas no país (e consequentemente em toda a América
Latina). Não teríamos acesso a todas essas informações se não fosse o trabalho
da imprensa alternativa.
Diante
dessa realidade, não por acaso, estudos realizados por instituições como Pew
Research Center e Quaest, pesquisas que tenho realizado com alunos do ensino
médio, ou mesmo breves análises de conteúdos postados nas redes sociais nos
revelam que Israel e Estados Unidos, por exemplo, países representados
positivamente nos noticiários internacionais, já não são vistos da mesma forma
pelo público brasileiro. Ou seja, há uma capacidade reduzida de influência dos
discursos midiáticos hegemônicos sobre os imaginários geopolíticos.
Se os
maniqueísmos dos discursos midiáticos não surtem tanto efeito, o mesmo não
podemos dizer sobre outros dois atalhos cognitivos: o jornalismo de adjetivação
e a personalização.
No
jornalismo de adjetivação, certos atores geopolíticos são rotulados para que
juízos de valor sejam noticiados como se fossem “objetividade editorial”. Nos
focos de tensão aqui abordados, os mais conhecidos são “o autocrata Putin”, “o
grupo terrorista Hamas” e “o ditador Maduro”. Essas tipificações – falaciosas,
por sinal – são repetidas até por críticos da grande mídia.
Nos
últimos dias, não foi raro presenciarmos nas redes sociais pessoas que se dizem
“à esquerda” replicando posicionamentos controversos sobre a Venezuela,
enfatizando que, apesar dos ataques estadunidenses, ficamos livres da “ditadura
bolivariana”. É a “esquerda” que a GloboNews gosta. Papagaios de pirata dos
Guga Chacra da vida. Da mesma forma, muitos setores progressistas demoraram a
demonstrar solidariedade ao povo palestino para não serem confundidos com
apoiadores do “grupo terrorista Hamas”. Postura extremamente lamentável.
Já a
personalização consiste em analisar a geopolítica não a partir de interesses
econômicos, mas levando em conta personalidades individuais. Por meio desse
atalho cognitivo, é possível, por exemplo, perceber as agressões sionistas e
estadunidenses não como modus operandi clássico de Israel e Estados Unidos, mas
como ações ligadas exclusivamente às personalidades controversas de Netanyahu e
Trump. Com esse ilusionismo verbal, cria-se a impressão de que, quando a
extrema direita sair do poder, Israel e Estados Unidos deixarão de lado as
políticas externas agressivas.
Nessa
lógica, na última eleição presidencial estadunidense, no ano retrasado, setores
identitários da esquerda fizeram campanha pela candidata Kamala Harris, como se
o simples fato de ela ser mulher, negra e filha de imigrantes fosse suficiente
para produzir um mandato que rompesse com a política externa do imperialismo.
Uma conhecida articulista da esquerda, inclusive, fez uma constrangedora
postagem nas redes sociais com o título “Axé, Kamala”.
Portanto,
o atual cenário informacional apresenta uma conclusão dúbia. No âmbito macro,
que envolve as relações entre os diferentes Estados nacionais, as mentiras da
grande mídia já não surtem tanto efeito. É cada vez mais complexo defender as
ações de países beligerantes como Israel e Estados Unidos. No entanto, tais
ações são minimizadas nos discursos geopolíticos hegemônicos ao serem
associadas às personalidades de seus atuais líderes.
Por
outro lado, as resistências ao imperialismo, tanto na Palestina quanto na
Venezuela, ainda são vistas de maneira negativa em boa parte dos setores
progressistas – ou que ao menos se consideram como tais. Isso comprova que os
rótulos presentes na mídia ainda são eficientes.
Dessa
forma, devemos concentrar nossos esforços na desconstrução dessas ideologias
que produzem uma falsa equivalência entre oprimidos e opressores. Quem reproduz
discursos como “Hamas terrorista” e “Maduro ditador” está fazendo o jogo do
imperialismo, esteja consciente disso ou não.
• Revelando os dez truques da retórica
utilizada pelos Estados Unidos. Por Wang Yiwei
Nos
primeiros dias do novo ano, os Estados Unidos lançaram um ataque aéreo contra a
Venezuela, sequestrando à força o presidente Nicolás Maduro e sua esposa
enquanto dormiam, nas primeiras horas da madrugada, e levando-os para Nova
York, onde seriam julgados. A operação deu continuidade a uma sequência de
ameaças e ataques militares norte-americanos contra a Venezuela desde agosto de
2025, incluindo a oferta de recompensa pela “captura” de Maduro, o deslocamento
de uma frota anfíbia, ataques a embarcações supostamente ligadas ao tráfico de
drogas, o rompimento de relações diplomáticas e a autorização de operações
encobertas da CIA.
Além
disso, os Estados Unidos reforçaram sua presença militar no Caribe e em regiões
vizinhas, ameaçando Cuba, Colômbia e México, ao mesmo tempo em que passaram a
articular a anexação da Groenlândia, território da Dinamarca. Trata-se de um
caso flagrante de terrorismo internacional e de violação explícita da Carta das
Nações Unidas, que revela de forma inequívoca a natureza hegemônica e
imperialista da política externa norte-americana.
Ainda
assim, a administração Trump manipulou a opinião pública por meio de uma série
de artifícios retóricos, desencadeando uma verdadeira campanha de guerra
cognitiva. O resultado foi uma reação intensa de forças pró-Estados Unidos
inclusive dentro da China, levando ao questionamento da política externa
chinesa e até a comparações indevidas com a questão de Taiwan.
Diante
disso, torna-se imprescindível identificar as três grandes lógicas narrativas e
os dez principais truques retóricos empregados pelos Estados Unidos, bem como
estabelecer, sem demora, um sistema narrativo autônomo.
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Confundir conceitos e borrar distinções travestidas de lógica
O
primeiro truque consiste em transformar questões internacionais em assuntos
domésticos. Na madrugada de 3 de janeiro, pelo horário da costa leste, forças
norte-americanas bombardearam diversos alvos militares na Venezuela, incluindo
o porto de La Guaira, a Base Aérea Libertador, o Forte Tiuna, a Base Aérea La
Carlota e o aeroporto de Higuerote. O ataque foi cuidadosamente planejado para
moldar a percepção posterior dos fatos. O que foi, na prática, uma invasão
flagrante de um Estado soberano passou a ser descrito como uma operação
transfronteiriça de “captura”.
Essa
narrativa deslocou o debate para o interior da política norte-americana,
concentrando-se na suposta autorização do Congresso, enquanto se evitava
deliberadamente a condenação internacional que uma agressão dessa magnitude
naturalmente exigiria à luz do direito internacional e da Carta da ONU. O
sequestro ilegal foi assim disfarçado de ação contra o terrorismo. Apesar da
condenação internacional generalizada, Washington tentou redirecionar a atenção
para acusações de “lavagem de dinheiro do narcotráfico” e para a suposta
ilegitimidade do governo venezuelano.
O
segundo truque é converter agressão militar em ação de aplicação da lei. Trump
descreveu a incursão militar como a “captura” de Maduro, afirmando que o ataque
foi realizado “em cooperação com as forças de segurança dos Estados Unidos”. Do
ponto de vista jurídico, “captura” é um termo policial, não militar. Um
sequestro foi rebatizado como prisão. O plano, audacioso, era transferir o
presidente venezuelano para um tribunal federal em Nova York, cidade-sede da
ONU, reforçando simbolicamente a pretensão dos Estados Unidos de se colocarem
como intérpretes e juízes das normas internacionais.
O
terceiro truque desloca o foco do nacional para o pessoal. A divulgação de
imagens de Maduro e de sua esposa detidos, acompanhadas até de mensagens de
“Feliz Ano Novo” da agência antidrogas norte-americana, personalizou o
episódio. A Venezuela desaparece como sujeito político, substituída pela
construção da figura de um “criminoso”. Um chefe de Estado é despojado de sua
condição soberana e reduzido a fugitivo, enquanto o destino de uma nação é
simplificado em culpa individual.
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Quando o espetáculo encobre a ilegalidade
Outro
expediente é o destaque às supostas façanhas heroicas das forças especiais para
ocultar a ilegalidade da intervenção. A Casa Branca divulgou imagens da sala de
comando da Operação Resolução Absoluta, evocando a operação que matou Osama bin
Laden. Trump e o secretário de Defesa detalharam rapidamente o papel da força
de elite Delta Force, mergulhando a opinião pública numa narrativa
cinematográfica digna de Hollywood. Assim, uma operação militar complexa, com
violações do espaço aéreo, bombardeios múltiplos e incursões terrestres, foi
reduzida ao “momento da captura”, relegando toda a violência restante ao papel
de ruído de fundo.
A
sofisticação tática, porém, não esconde a barbárie estratégica. Nenhuma crítica
às armas substitui a crítica do armamento como política. Trump tentou evitar um
novo Afeganistão e apagar o vexame da retirada caótica conduzida por Biden.
Ainda assim, o agressor não escapa ao julgamento histórico. Atacar a Venezuela
não resolve o abismo fiscal nem a polarização política interna dos Estados
Unidos, tampouco corrige o erro estratégico de iniciar uma guerra
insustentável.
Há
ainda o uso do procedimento para ocultar a substância. Em ano de eleições
legislativas, o debate entre democratas e republicanos sobre a legalidade
formal das ações de Trump confundiu a opinião pública e encobriu o caráter
agressivo da operação. As discussões no Capitólio receberam muito mais atenção
do que os debates no Conselho de Segurança da ONU.
Outro
truque consiste em inverter causa e efeito. Ao induzir o público a discutir por
que os Estados Unidos intervieram na Venezuela, a narrativa se desloca para a
ideia de que “a Venezuela destruiu a si mesma”, conduzindo à conclusão
implícita de que a queda de Maduro seria merecida e de que a chamada “maldição
do petróleo” seria um destino inevitável.
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Romper tempo e espaço para enganar a opinião pública
Os
Estados Unidos também usam as notícias para apagar a história. Enquanto o
destino de Maduro ocupa os noticiários, Trump passa a ameaçar Cuba, Colômbia e
México. Poucos se lembram de que os Estados Unidos já protagonizaram mais de 40
intervenções na América Latina, envolvendo agressões militares, controle
político e exploração econômica. A revista Foreign Affairs revelou que, antes
mesmo da ofensiva, o governo venezuelano sinalizava disposição para atender
exigências norte-americanas, especialmente sobre o controle do petróleo.
Ao
lançar novos temas, Washington dilui os assuntos pendentes. Enquanto a crise
latino-americana ainda se desenrola, Trump volta-se para a Groenlândia e
anuncia possíveis ataques ao Irã. Em meio a essa enxurrada de manchetes, o
futuro da Venezuela vai sendo esquecido.
Imagens
também são usadas para ocultar processos. A fotografia de Maduro com roupas
rasgadas escondeu o massacre de 32 escoltas cubanos mortos enquanto defendiam o
presidente venezuelano. Apenas quando Cuba decretou luto nacional é que muitos
perceberam a brutalidade da operação. Para os Estados Unidos, basta que não
haja baixas entre suas forças especiais.
Toda
essa retórica funciona como um camuflado discursivo para contornar o direito
internacional e enfraquecer os mecanismos multilaterais, abrindo caminho para
uma ordem internacional baseada em normas ditadas por Washington. O discurso
serve tanto à expansão global e ao saque de recursos quanto às agendas
políticas domésticas, num jogo sofisticado e profundamente enganoso.
O
teórico norte-americano John Mearsheimer, em A tragédia da política das grandes
potências, observa que as guerras costumam ser apresentadas como cruzadas
morais, e não como disputas por poder. Foi assim na Guerra do Golfo, quando
George H. W. Bush falou em “libertar o Kuwait”, ocultando os interesses
petrolíferos. Hoje, esses interesses seguem centrais, e a Venezuela tornou-se o
novo epicentro.
No fim
das contas, a manipulação da linguagem é um instrumento poderoso de dominação.
Não é preciso convencer o público da “legitimidade da violência”, mas apenas de
que ela é rotineira, limitada e bem administrada. Quando “invasão” vira
“captura” e “guerra” se transforma em “governança”, a mudança mais perigosa já
ocorreu, não no campo de batalha, mas nas entrelinhas.
O mais
alarmante é que cada crise reforça a hegemonia norte-americana e aprofunda a
bipolaridade entre Estados Unidos e China. Com a digitalização e as tecnologias
inteligentes, intensifica-se também o imperialismo digital. Análises geradas
por inteligência artificial circulam amplamente na internet, misturando dados
reais com distorções e desinformação. Nesse cenário, compreender e desmontar a
retórica imperial torna-se não apenas um exercício intelectual, mas uma
necessidade política urgente.
Fonte:
Observatório da Imprensa/Brasil 247

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