quarta-feira, 21 de janeiro de 2026


 

Terrorismo imperialista: relembre os golpes dos EUA na América Latina nos últimos 70 anos

O sequestro terrorista do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, na madrugada de 2 para 3 de janeiro desse ano, por parte do governo de Donald Trump, é uma gravíssima afronta à soberania e independência dos países da América Latina e do Caribe. Diaz-Canel, presidente de Cuba, Gustavo Petro, da Colômbia, e Gabriel Boric, do Chile, foram os primeiros a reagir indignados. É a primeira vez que os EUA atacam diretamente um país da América do Sul.

Lula reagiu um pouco mais tarde, enfatizando: “Os bombardeios em território venezuelano e a captura do seu presidente ultrapassam uma linha inaceitável. Esses atos representam uma afronta gravíssima à soberania da Venezuela e mais um precedente extremamente perigoso para toda a comunidade internacional.”

Lula afirmou ainda que a ação militar da madrugada deste início de janeiro é uma flagrante violação do direito internacional e abre espaço para um mundo de “violência, caos e instabilidade”. “Atacar países, em flagrante violação do direito internacional, é o primeiro passo para um mundo de violência, caos e instabilidade, onde a lei do mais forte prevalece sobre o multilateralismo. A condenação ao uso da força é consistente com a posição que o Brasil sempre tem adotado em situações recentes em outros países e regiões”, acrescentou.

Lula salientou que “a ação lembra os piores momentos da interferência na política da América Latina e do Caribe, e ameaça a preservação da região como zona de paz. A comunidade internacional, por meio da Organização das Nações Unidas, precisa responder de forma vigorosa a esse episódio. O Brasil condena essas ações e segue à disposição para promover a via do diálogo e da cooperação.”

Sempre foram no mínimo tensas as relações dos EUA com líderes latino-americanos e caribenhos que não concordam com sua política imperialista fundada na Doutrina Monroe.

Ao longo do século 20, durante o contexto da Guerra Fria e da política de contenção ao comunismo, os EUA envolveram-se direta ou indiretamente em ações que levaram à deposição, morte ou desaparecimento de líderes latino-americanos. A maior parte dessas intervenções ocorreu por meio de apoio a golpes de Estado, operações clandestinas ou alianças com grupos locais.

Entre os casos mais notórios se inclui o de Jacobo Árbenz, presidente democrata da Guatemala. Deposto em 1954 por um golpe apoiado pela Casa Branca, morreu no exílio em circunstâncias consideradas acidentais — afogamento —, em 1971. Há teorias não comprovadas sobre assassinato. Na ocasião do golpe, Che Guevara se encontrava no país e conseguiu se refugiar no México.

No mesmo ano de 1954, os EUA promoveram o golpe que implantou uma ditadura militar no Paraguai. Dez anos depois, replicou a erradicação da democracia no Brasil (1964), depois na Argentina (1966 e 1976), na Bolívia (1966 e 1971), no Uruguai e no Chile (1973).  

O presidente do Chile, Salvador Allende, eleito democraticamente, morreu durante o golpe militar de 1973, apoiado pelos EUA. A versão oficial é de suicídio, mas as circunstâncias ainda são nebulosas e polêmicas.

Omar Torrijos, presidente progressista do Panamá, faleceu em acidente aéreo em 1981. Suspeitas de envolvimento dos EUA persistem, embora nunca tenham sido comprovadas.

O progressista Maurice Bishop, escolhido primeiro-ministro de Granada em 1979, foi derrubado, preso e fuzilado no cárcere em 1983, durante o golpe de Estado que precedeu a invasão dos EUA ao país. Conheci-o em Manágua, em julho de 1980, nas festividades do primeiro aniversário da Revolução Sandinista.

Manuel Noriega, militar que liderou o Panamá de 1983 a 1989, era agente da CIA. No entanto, por se envolver com cartéis de drogas, foi derrubado por invasão estadunidense, levado para os EUA e sentenciado a 40 anos de prisão, dos quais cumpriu 17. Extraditado para a França, esta o enviou ao Panamá, onde foi novamente encarcerado por crimes cometidos durante sua ditadura. Morreu de câncer no cérebro em 2017, aos 83 anos.

Por eleição democrática, Jean-Bertrand Aristide, sacerdote ligado à Teologia da Libertação, presidiu o Haiti em três períodos, o último de 2001 a 2004, quando devido a um conflito entre ex-militares e seus apoiadores os EUA intervieram e o retiraram do país com apoio de tropas brasileiras.

Juan Orlando Hernández, que presidiu Honduras de 2014 a 2022, foi detido em seu país em fevereiro daquele ano a mando dos EUA. Em junho de 2024, foi condenado pela Justiça estadunidense a 45 anos de prisão, acusado de envolvimento com tráfico de drogas, do qual teria recebido milhões de dólares de cartéis para permitir a passagem de cocaína por Honduras.

Em dezembro do ano passado, Trump concedeu-lhe perdão presidencial, alegando que Hernández foi vítima de “perseguição política” e “armação” do governo Biden, embora tenha sido condenado nos EUA por promotores que o acusaram de ter transformado Honduras em um “narcoestado”.

O perdão foi visto como uma manobra política de Trump para apoiar o partido conservador de Hernández nas eleições hondurenhas de 2025 e reforçar a base eleitoral do ex-presidente. A atitude gerou críticas por contradizer a luta contra o narcotráfico e a política externa dos EUA, especialmente contra a Venezuela, segundo analistas e republicanos.

Além desses, há relatos de tentativas de assassinato de líderes políticos na região, desestabilização de governos ou apoio, por parte dos EUA, a regimes que violavam os direitos humanos.

Vale ressaltar que o líder cubano Fidel Castro, considerado durante décadas inimigo número 1 dos EUA e que completaria 100 anos agora em 2026, faleceu tranquilamente na cama, cercado pela família, em novembro de 2016. E Raul Castro, seu irmão, continua ativo aos 94 anos.

É crucial consultar fontes históricas sólidas e considerar o contexto político de cada época ao analisar esses eventos. Muitos documentos foram liberados ao longo dos últimos anos, revelando o envolvimento dos EUA em operações clandestinas, mas também mostrando que os resultados nem sempre foram os planejados.

Para um estudo aprofundado, recomendo obras de historiadores como Greg Grandin, Stephen Rabe e Piero Gleijeses, além de documentos agora liberados do arquivo de segurança nacional dos EUA.

¨      Trump: crime de guerra, ruptura constitucional e ditadura. Por Paulo Cannabrava Filho

Pois é, vamos continuar falando da ditadura do Trump. Trump não age como presidente de uma democracia, mas como um ditador. E mais: como um assassino que naturaliza a morte como instrumento de política.

Veja você: aviões militares disfarçados de civis sendo usados para atacar barcos no Caribe. Barcos civis. Barcos de pesca. Ataques a tiros contra pessoas indefesas. Sobreviventes que, mesmo já rendidos, são executados. Isso é crime de guerra.

Disfarçar aviões militares como civis é crime de guerra segundo o direito internacional humanitário. Atacar barcos civis também é crime de guerra. Matar pessoas já rendidas, fora de qualquer confronto, é outro crime de guerra. Esses atos violam frontalmente as Convenções de Genebra, que regem a condução de conflitos armados e a proteção de civis e combatentes. Estamos falando, portanto, de crimes múltiplos, reiterados, praticados com plena consciência e em desprezo aberto às normas internacionais que regulam as relações entre Estados.

Trump e seus generais dizem que se trata de combate ao narcotráfico. Mas a pergunta é simples e incontornável: com o aparato bélico que os Estados Unidos possuem, por que não apreendem os barcos? Por que não mostram a suposta droga? <><> Por que não produzem provas?

Eles não fazem isso. Preferem afundar os barcos. Preferem eliminar as provas junto às pessoas. No último ataque, em 2 de janeiro, foram 11 mortos. Três deles já estavam rendidos, fazendo sinais claros para os ianques. Mesmo assim, foram assassinados. Um duplo crime de guerra.

Essas ações já resultaram em mais de 100 mortos em ataques contra barcos civis no Caribe. Isso não é política de segurança. É instinto assassino elevado à condição de método de Estado, em violação direta ao direito internacional e aos princípios mínimos de legalidade no uso da força.

No Irã, o cenário é igualmente grave. Soma-se a isso um dado fundamental: essa guerra difusa, travada por Trump em diferentes frentes, não conta com autorização formal do Congresso dos Estados Unidos. Ao agir militarmente sem respaldo do Poder Legislativo, Trump rompe com o próprio ordenamento constitucional estadunidense, concentra poderes e governa pela força.

Trata-se, portanto, de uma ruptura consciente com o Estado de Direito, tanto no plano internacional quanto no interno. Quando um presidente decide quem vive e quem morre, afunda barcos civis, executa rendidos e ignora o Parlamento, já não governa: impõe-se. Governa pelo medo, pela violência e pelo sangue.

Trump, ao travar guerras ilegais e desprezar deliberadamente o direito internacional, atua como um ditador de fato. Ditador e assassino, segue o caminho daqueles que transformaram a barbárie em política e a guerra em projeto de poder.

¨      De Venezuela a Gaza: o “jornalismo” cúmplice que normaliza os crimes das potências ocidentais. Por Frei Betto

Neste mundo já marcado por crises interligadas – climática, pandêmica, geopolítica – assistimos não a um ajuste, mas um desmonte acelerado da arquitetura internacional pós-Guerra Fria. A volta de Donald Trump à presidência dos EUA não é um mero evento eleitoral; é a materialização de um projeto político que exalta como virtude a ruptura com o multilateralismo. Este fenômeno, porém, não surge no vácuo; é amplificado e, em certa medida, normalizado por um discurso midiático que, ao adotar eufemismos e enquadramentos parciais, acaba por justificar ações imperialistas sob novos rótulos.

O multilateralismo, com todas as suas imperfeições e hipocrisias, era a coluna vertebral de uma ordem baseada em regras, ainda que muitas só figurassem em documentos protocolares. Organizações como a Organização das Nações Unidas (ONU), o Fundo Monetário Internacional (FMI) e a Organização Mundial do Comércio (OMC) serviam como arenas de negociação e freios (tênues) ao exercício bruto do poder. A doutrina “America First” de Trump atacou esse sistema de frente: retirada do país da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) e do Conselho de Direitos Humanos da ONU, ameaças à Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), guerra comercial unilateral, desprezo por acordos climáticos. A mensagem de Trump é clara: os compromissos coletivos são obstáculos ao poderio mundial dos EUA.

Se em um primeiro momento isso foi visto como um transtorno de personalidade do presidente estadunidense, hoje se revela como uma estratégia consciente, que encontrou eco em líderes de outros países e redefiniu o tabuleiro global. A “nova desordem mundial” é uma arena de todos contra todos, onde a força bruta, a coerção econômica e a diplomacia do ultimato substituem a negociação.

No vácuo provocado por essa ruptura, o que emerge não é um mundo multipolar equilibrado, mas um caos de competição predatória, onde grandes potências e corporações agem com total impunidade renovada. A anexação de territórios, as intervenções militares “cirúrgicas”, os bloqueios econômicos asfixiantes e o apoio a governos autoritários continuam. Mas a linguagem para descrevê-los sofreu uma sofisticação perversa. É aqui que a cumplicidade involuntária ou intencional de parte da grande imprensa se torna crucial.

A cobertura de conflitos e intervenções está repleta de eufemismos que encobrem a realidade e desresponsabilizam os agentes do poder. Uma “invasão” torna-se uma “operação especial” ou uma “intervenção para assegurar estabilidade”. Bloqueios, como o imposto a Cuba, ou sanções econômicas, que devastam economias e causam fome em populações civis, são descritas como “embargos”, “medidas de pressão” ou “ferramentas diplomáticas”. Apoio a milícias que derrubam governos eleitos vira “parceria com forças locais”. O termo “guerra” é evitado a todo custo, substituído por um léxico de gestão de crises. O colonialismo do século 21 não se veste mais de “missão civilizatória”, como nos séculos anteriores, mas de “responsabilidade de proteger”, “lutar contra o terrorismo” ou “defender a democracia” — conceitos válidos em si, mas esvaziados e instrumentalizados.

Essa linguagem não é inocente. Serve a um propósito claro: tornar aceitável o inaceitável. Ao transformar atos de agressão em questões técnicas ou de segurança, a narrativa dominante isola os eventos de seu contexto histórico, ignora as causas profundas e oculta os interesses materiais em jogo. Cria-se uma assimetria narrativa, já que as ações de potências ocidentais ou seus aliados são enquadradas como reativas, defensivas ou necessárias, enquanto as de seus adversários são imediatamente classificadas como ofensivas, expansionistas e malignas.

Um dos casos mais gritantes é a cobertura do genocídio em Gaza. A imprensa hegemônica, em muitos casos, tratou o bombardeio indiscriminado e a morte de milhares de civis como “respostas” a ataques terroristas, “danos colaterais” ou “autodefesa complexa”. A palavra “genocídio”, utilizada por juristas e historiadores sérios, é descartada como retórica excessiva, enquanto os eufemismos oficiais são reproduzidos acriticamente. A mesma lógica se aplica às sanções ao Irã, à Síria ou ao Iêmen, retratadas muitas vezes como problemas de gestão interna de regimes “problemáticos”, e não como instrumentos de guerra econômica que atingem os mais vulneráveis.

O caso da Venezuela é clamoroso. Os EUA decidem violar o Direito Internacional, ocupam o mar do Caribe com suas armas marinhas, assassinam pescadores considerados supostos narcotraficantes e, como o pirata Black Bart, apreendem navios petroleiros. Onde está a mídia investigativa para comprovar as acusações de que os barcos serviam ao narcotráfico? Por que a versão da Casa Branca predomina?

Vejam o noticiário das grandes mídias: todas qualificam de “captura” o sequestro de Nicolas Maduro. Por que captura? Por ter o governo dos EUA posto a cabeça dele a prêmio? E agora que os EUA retiraram a acusação de “narcotraficante”, o que justifica o sequestro? E Cilia Flores, por que foi sequestrada junto ao marido?

O fenômeno Trump é, assim, tanto a causa quanto o sintoma dessa nova desordem. Sua retórica brutalmente transacional expõe o que antes era velado: que a ordem internacional é, em última análise, um jogo de poder. Trump ao menos demonstra uma sinceridade que a grande mídia procura camuflar: a Venezuela foi invadida, não para que se recupere a democracia, e sim para os EUA se apropriarem do petróleo. E a Groenlândia é ameaçada porque a Casa Branca está interessada em suas terras raras e na posição geopolítica que ocupa frente à Eurásia.

Ao agir assim, ele normaliza a linguagem do nacionalismo agressivo. A imprensa, por sua vez, ao adotar uma postura de “objetividade” que frequentemente repete os termos do poderoso, torna-se um mecanismo de soft power. Não precisa mentir; basta selecionar, enquadrar e suavizar.

O resultado é um público dessensibilizado, que consome violência estrutural e imperialismo como se fossem notícias meteorológicas de eventos inevitáveis, complicados, sem causas objetivas. A crítica ao sistema é esvaziada, pois falta o léxico preciso para nomear seus mecanismos. A “nova desordem mundial” não é apenas a dos tanques e das tarifas; é a desordem semântica, onde as palavras perdem seu sentido para servir ao poder.

A saída para este labirinto exige mais do que denúncias. Exige um jornalismo que rejeite o eufemismo como protocolo, que restaure a linguagem direta — invasão é invasão, sequestro é sequestro, bloqueio é bloqueio, genocídio é genocídio — e investigue o poder em vez de apenas traduzi-lo.

Em um mundo pós-multilateral, onde a força bruta retorna ao centro do palco, a última trincheira da ética jornalística pode ser a capacidade de chamar as coisas pelos seus verdadeiros nomes. Sem isso, a nova desordem não será apenas a nossa realidade, mas a única história que nos será permitido contar.

 

Fonte: Diálogos do Sul Global


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