Luis
Felipe Miguel: As bravatas de Donald Trump
Dois
traços marcantes de todos nós, humanos, são criar narrativas e tomar lado,
separando os bons dos maus. Pode ser que venha de fábrica, como parece que é a
tendência de ver rostos humanos em quaisquer objetos remotamente assemelhados.
Ou talvez seja efeito de nossa socialização primária – os contos de fada, quem
sabe?
Mas o
fato é que, diante de uma tevê ligada em uma sala de espera, passando uma
partida de futebol entre duas equipes desconhecidas, bastam poucos minutos para
que nossa simpatia se incline para um dos lados. E que, com qualquer fragmento
de informação, logo acionamos nosso repertório de explicações padronizadas e
escolhemos aquela que julgamos mais adequada, para operar com ela ao menos de
forma provisória.
Podemos
pensar também no Horse Race Test, um “jogo” que fez sucesso no Twitter no ano
passado. Avatares toscos de cavalos vagavam aleatoriamente até encontrarem
cenouras, o que não impediu de surgirem fãs apaixonados de alguns dos
competidores e elaboradas teorias conspiratórias sobre por que o cavalo ciano
sempre perdia. O perfil do Horse Race Test tem hoje mais de 160 mil seguidores.
No
caso, agora, da Venezuela, temos os dois problemas. Por um lado, há uma série
de pontas soltas, de fatos aparentemente pouco compreensíveis e contraditórios
entre si. É meio que inevitável que qualquer um que tente compreender a
situação embarque em algum tipo de especulação. Mas é importante diferenciar
claramente o que é fato razoavelmente confirmado, o que é hipótese a ser
validada e o que é especulação, ainda que bem fundada.
Ao
mesmo tempo, nossa tendência de tomar lados faz com que seja grande a tentação
de estabelecer um vilão e um mocinho. Para que esta narrativa seja coerente, no
entanto, é preciso de muita seletividade quanto às informações que serão
levadas em conta.
À
direita vê Nicolás Maduro como um ditador cuja queda precisa ser comemorada.
Donald Trump, naturalmente, ocupa o lugar de herói: é aquele que, motivado por
ideais nobres, foi capaz de derrotar o malvado e levá-lo para que receba a
justa punição.
Isso só
faz sentido se é menosprezada toda a ideia de direito internacional e de
soberania das nações – o que é feito, em geral, de forma implícita. É preciso
também ignorar deliberadamente que o próprio Donald Trump, em seu discurso
autolaudatório depois do sequestro do presidente venezuelano, falou sem parar
de petróleo mas se esqueceu de mencionar a democracia.
Políticos
bolsonaristas não disfarçaram a esperança de que os Estados Unidos dessem uma
forcinha para tirar Lula da presidência, com ou sem eleições no final deste
ano. Não vou dizer que tiraram a máscara porque faz tempo que já não usam
nenhuma: estão poucos se lixando para a soberania nacional ou para a
democracia. Mas relatos com esse teor vieram também de analistas da imprensa,
que, ao menos pretensamente, deveriam prezar pela qualidade mínima daquilo que
apresentam.
Temos
desde a sempre folclórica Natália Beauty, afirmando que o destino de Nicolás
Maduro é um alerta para governantes que não apoiam o “empreendedorismo”, até
Joel Pinheiro da Fonseca, que gosta de pensar que está em outro patamar,
colocando uma ressalva aqui, outra ali, mas, no geral, saudando a promessa de
renascimento de uma democracia venezuelana.
São
relatos, também, que creditam toda a calamidade humanitária na Venezuela de
hoje às taras do próprio regime, ignorando o papel exercido pelo boicote dos
Estados Unidos e de seus aliados internos, Mas, à esquerda, se vê o oposto. Não
faltam comentaristas que tecem loas ao regime de Nicolás Maduro que – dizem
eles – só não era o paraíso na Terra por causa do imperialismo ianque.
Este
tipo de ilusão é mais grave quando ocorre à esquerda, porque a esquerda deveria
se basear – como dizia Vladímir Lênin – na “análise concreta da situação
concreta”.
O
processo político venezuelano, desde a chegada de Hugo Chávez ao poder, é
complexo. Não há dúvida de que houve um esforço de afirmação da soberania
nacional que atingiu os interesses estadunidenses e levou a uma reação feroz do
imperialismo ianque. Mas não há dúvida também que o propalado socialismo sempre
foi muito mais uma figura de retórica do que qualquer outra coisa. Basta
assinalar que, ao fim da primeira década do século XXI, isto é, após também dez
anos de governo bolivariano, o setor privado ampliara sua participação na
economia venezuelana, o capital se apropriava de uma parcela maior da riqueza
nacional e a taxa de exploração do trabalho crescera.
Também
é verdade que o regime perdeu legitimidade ao longo dos anos, o que tanto
estimulou quanto foi resultado de uma escalada autoritária, acentuada
fortemente nos anos de Maduro no poder. As suspeitas de que as últimas eleições
presidenciais foram fraudadas são, para dizer o mínimo, bastante verossímeis.
Desde o começo, porém, iniciativas de participação política popular eram
combinadas com forte centralização do poder, personalismo exacerbado e
militarização do aparelho estatal.
A
Venezuela serviu de espantalho para a direita latino-americana, sendo usada
para desviar a atenção dos graves problemas de outros países do subcontinente,
governados pela direita e submissos aos Estados Unidos. Mas isso não nega a
gravidade dos problemas da própria Venezuela.
Deve
ser possível denunciar a agressão estadunidense, a motivação imperialista que a
animou e a ilegalidade do sequestro de Maduro sem negar o autoritarismo de sua
presidência e o caráter duvidoso de sua eleição. Assim, aliás, como deve ser
possível denunciar a invasão russa à Ucrânia sem fazer de Volodymyr Zelensky um
herói ou da OTAN uma empreitada do bem. Ou denunciar o genocídio em Gaza e a
inadmissível ocupação colonial israelense sobre o território do povo palestino,
do rio ao mar, sem esquecer que o Hamas é um grupo fundamentalista.
Tudo
isso é necessário para ver o mundo clareza – e para saber como intervir mesmo.
O
entendimento da natureza do governo de Nicolás Maduro também é necessário para
tentar compreender o desenrolar dos acontecimentos. É constrangedor ver um
jornalista como Breno Altman – um sujeito capaz, sem dúvida, mas preso em
sua persona de stalinista impenitente e porta-voz brasileiro
do regime venezuelano – vituperando contra quem sugere que possa ter havido um
acordo entre a presidente interina, Delcy Rodríguez, e Donald Trump.
Segundo
ele, pensar nessa hipótese seria como uma traição, destinada a “desmobilizar a
resistência”.
Aliás,
Breno Altman sempre propagandeou que o grande diferencial da Venezuela era a
“mobilização popular”. Até ficou famosa a resposta da ex-presidente Dilma
Rousseff, questionada por ele e explicando que quem garantia o regime não era a
mobilização popular, mas as forças armadas. E agora, quando a reação popular à
agressão imperialista se mostra quase inexistente, revelando o desânimo e o
desencanto dos setores que no passado foram base do chavismo, ele tem pouco a
falar.
Não
pode ser “traição” encarar a realidade. Regimes fechados costumam ter sua
cúpula dividida em camarilhas imersas em disputas internas. Processos
inicialmente revolucionários em decrepitude fomentam o oportunismo. Muitos
relatos sobre a Venezuela, inclusive de antigos apoiadores de Hugo Chávez, dão
conta de ambos os fenômenos.
São
suposições, claro, mas a hipótese de colaboração interna é a que melhor explica
a surpreendente ausência de baixas estadunidenses na operação de sequestro de
Nicolás Maduro. Não pode ser descartada por dogmatismo.
O fato
é que Donald Trump fez todas as suas bravatas, mas descartou impor um
oposicionista como chefe da Venezuela e aceitou Delcy Rodríguez como presidente
do país. E ela, por sua vez, continua com a retórica de que Nicolás Maduro deve
ser libertado, mas ao mesmo tempo anuncia que deseja uma relação “equilibrada e
respeitosa” com Washington. Donald Trump anunciou que 50 milhões de barris de
petróleo venezuelano que seriam destinados à China agora serão dos Estados
Unidos. Os chineses deram mostras que acreditaram.
Mas,
claro, não falta gente que prefere acreditar nas fake news triunfalistas
de algum Pepe Le Gambá, falando sobre como os EUA chegaram ao fundo do poço.
Só o
desenrolar dos acontecimentos vai trazer luz, mas, no momento, é razoável
imaginar que os dois lados veem como possível tentar um acordo – e os termos
dele, não é preciso ser muito perspicaz para imaginar, incluiriam a permanência
da camarilha dirigente venezuelana no poder, de um lado, e tratamento mais
camarada para as petroleiras estadunidenses, do outro.
Em vez
de mandar tropas para controlar o país, com resultado provavelmente desastroso,
ou tentar empossar uma María Corina da vida, que não controlaria os militares e
geraria uma crise permanente, faz sentido que Donald Trump consiga um arranjo
com o governo atual. É o caminho mais rápido para a “estabilização”, até
porque, sem o apoio dos EUA, a oposição de direita ao regime vai à míngua.
É
razoável, eu escrevi – não é certo. Mas se trata realmente disso: reconhecer a
incerteza, pensar em cenários prováveis sabendo que não estão definidos, usar a
navalha de Ockham, resistir à tentação de acreditar em narrativas mirabolantes
apenas porque aquecem nosso coração.
E
lembrar sempre que embora claramente exista um vilão, não há mocinho nessa
história.
¨
A Humilhação como Método. Por Eugênio Bucci
A
captura – ou rapto, ou sequestro – de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos, na
madrugada de sábado, foi amplamente analisada e comentada na imprensa. Só ficou
faltando um pedaço. Além das razões geopolíticas (que levam a Casa Branca a
tentar expulsar as influências russas e chinesas do mar do Caribe e da América
do Sul), além das pressões exercidas sobre o presidente pela indústria
petrolífera norte-americana (que quer beber o óleo extrapesado das águas
venezuelanas) e além da ameaça de perda de popularidade interna (que o governo
imagina conseguir desviar com agressividade bélica em plagas estrangeiras), há
um quarto fator a se levar em conta.
Esse
quarto fator é a imagem, a comunicação, a propaganda no seu sentido mais
superlativo. Não se pense que seja apenas uma questão de modular a fala ou de
escolher a melhor mensagem para o melhor momento. Para o trumpismo, a
propaganda açambarca toda a episteme, mais ou menos como aconteceu com o
nazismo. No Terceiro Reich, a massificação da ideologia constituiu a única
forma de conhecer, explicar e moldar o mundo – na era Trump, a comunicação se
realiza como a apoteose performática que reduz o mundo à lógica do
entretenimento. Segundo essa doutrina, existir é aparecer, não importa a que
custo e não importa para quê.
Aparecer
implica empalidecer a imagem do outro. Pela chave do exibicionismo compulsivo,
podemos compreender a política de aviltamento sistemático que o trumpismo
dirige contra outras nações e seus representantes legítimos. Não se trata
meramente de um jeito espalhafatoso de ser, mas de um discurso fechado,
compacto e pesado que define o modo de ser. Donald Trump adestrou-se em seu
discurso quando se tornou uma celebridade da televisão como apresentador do
programa The Apprentice. Mais adiante, aprendiz deslumbrado que
sempre foi, elevou seu estilo discursivo ao patamar de escola para as relações
externas. O método consiste em submeter o interlocutor a rituais sucessivos de
humilhação explícita para quebrar-lhe a dignidade, a autoconfiança e a
independência. Adeus, ONU. Adeus, democracia. Adeus, soberania nacional dos
outros – e, se a Otan bobear, adeus também para a Otan.
Foi com
base nesse parâmetro que o vice-presidente J. D. Vence compareceu a uma reunião
sobre segurança mundial na Europa, em fevereiro do ano passado, para anunciar
aos seus pares que havia “um novo xerife na cidade”. Isso na mesma semana em
que seu chefe, o assim chamado “xerife”, deixava claro que preferia negociar
com Putin a se entender com os líderes europeus. Poucos dias depois, Trump, em
pessoa, ladeado por Vence, admoestou com arrogância extrema o presidente
ucraniano Volodymyr Zelensky, durante uma reunião no Salão Oval: “Você está
brincando com a Terceira Guerra Mundial”. A partir daí, vieram em cascata
demonstrações de prepotência e soberba, como o bombardeio das instalações
nucleares do Irã, em junho – bombardeio, diga-se, mais cenográfico do que
efetivo: mal arranhou o projeto de enriquecimento de urânio do regime iraniano.
Na
natureza do trumpismo, a dimensão do espetáculo é mais determinante que a
dimensão geopolítica (a vigilância das “áreas de influência”), a dimensão
econômica (representada no caso presente pelas companhias de petróleo) e a
dimensão da política interna (especialmente quando bate em índices de
popularidade). O espetáculo condiciona e determina todo o resto.
Basta
ver que o receituário de Trump, uma forma sistêmica de loucura, não tem nenhuma
compatibilidade com a coerência e com o cultivo do respeito. Sobre sua
incoerência constitutiva, lembremos que ele mandou prender Maduro porque o
acusava de chefiar o narcotráfico. Depois, sem maiores explicações, retirou a
acusação de narcotraficante mas manteve a prisão. Lembremos também a patacoada
que foi o capítulo das tarifas abusivas contra o Brasil. No início, a razão
seria a defesa de Bolsonaro. Então, Bolsonaro ficou de escanteio mas a guerra
tarifária prosseguiu. O show tem que continuar. Quanto ao cultivo do respeito,
tentemos imaginar um Trump polido, cortês, afável e adepto do soft
power. Esse Trump jamais existirá. Ele é puro bullying internacional.
O que
aconteceu no sábado passado foi furor performático – e bem ensaiadinho. Teria
que ser como foi, com a Força Delta de abre-alas, secundada por 150 aeronaves,
entre bombardeiros, aviões de combate, helicópteros e drones, como se a
política externa fosse a continuação de um filme de Bruce Willis por outros
meios, passando pelos filmes de Tom Cruise, por certo. Em Trump, o fascismo
alcança seu feitio mais avançado de entretenimento sem caráter e totalizante.
A
investida contra Caracas, que fez letra morta do Direito Internacional,
humilhou indistintamente os que apoiam Maduro e os que se opõem a ele. Os
primeiros não tiveram como proteger seu ídolo e se desmoralizaram. Os segundos
ficaram no papel de crianças, jurídica e politicamente incapazes, que chamam o
irmão mais velho para bater no coleguinha. O continente inteiro está humilhado.
No
mais, o Brasil, em ano eleitoral, está na alça de mira.
Fonte:
A Terra é Redonda

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