No
acordo Mercosul–UE, o desafio não é ganhar ou perder, mas equilibrar
Ao
analisar o acordo entre o Mercosul e a União Europeia, a economista Lia Vales,
chefe do Departamento de Análise Econômica da UERJ e pesquisadora associada do
FGV/Ibre, alerta para uma leitura simplificadora que costuma dominar o debate
público, centrada na ideia de ganhadores e perdedores.
“O
comércio internacional não é neutro. Sempre há quem ganha e quem perde. O
problema não é esse, mas como o país enfrenta as perdas”, afirmou durante o
programa TV GGN 20 Horas.
Em
linhas gerais, o acordo tende a favorecer setores mais competitivos da economia
brasileira, especialmente o agronegócio, enquanto pode impor desafios
adicionais a segmentos da indústria nacional.
Para
ela, isso não significa que o acordo seja, por definição, negativo. “Acordo
nenhum resolve o problema de um país. Ele cria um cenário. O que vai definir o
resultado são as políticas públicas, os investimentos e as escolhas internas”,
disse.
Lia
Vales também destacou que o acordo não representa uma abertura abrupta da
economia. Os prazos de redução tarifária são longos e, em alguns setores
sensíveis, como o automotivo, podem chegar a até 30 anos.
A
economista lembrou que a indústria brasileira já opera, na prática, com tarifas
de importação mais baixas do que as oficiais, graças a instrumentos como o
regime de ex-tarifário, que permite a redução ou isenção do imposto de
importação de máquinas e equipamentos quando não há similar nacional.
Para
Lia Vales, isso mostra que o acordo Mercosul–UE não representa uma ruptura
abrupta. “A indústria brasileira tem problemas próprios de competitividade. Não
é um acordo comercial que vai destruí-la”, afirmou.
Durante
o programa, o jornalista Luis Nassif contextualizou o debate ao apontar que a
retomada do acordo ocorre em um momento de fragilidade econômica da União
Europeia, marcada por baixo crescimento, crise industrial e perda de
competitividade frente aos Estados Unidos e à China.
Nesse
cenário, o Mercosul passa a ser visto como alternativa estratégica para
garantir acesso a alimentos, energia e matérias-primas, além de ampliar
mercados para produtos industrializados europeus.
A
comparação com o NAFTA — acordo firmado entre México, Estados Unidos e Canadá
nos anos 1990 — também foi debatida. Lia questionou leituras automáticas que
tratam o acordo como exemplo inequívoco de sucesso ou fracasso, e ressaltou que
o caso mexicano mostra justamente os limites dos acordos comerciais.“Houve
aumento de renda em um primeiro momento, mas a distribuição desses ganhos não
veio do comércio. Isso é responsabilidade do próprio país”, afirmou.
Segundo
ela, o NAFTA coincidiu com crescimento da economia norte-americana e
desvalorização do peso mexicano, e também resultou em concentração regional da
indústria e aumento da desigualdade.
Outro
ponto central destacado pela professora é que o acordo envolve, na prática,
dois instrumentos distintos. Um é estritamente comercial, voltado à redução de
tarifas e de mais fácil aprovação.
O outro
é um acordo regulatório mais amplo, que inclui, por exemplo, compromissos nas
áreas ambiental, trabalhista e de desenvolvimento sustentável, e depende da
ratificação dos parlamentos nacionais europeus. “Esse segundo acordo cria um
ambiente institucional que pode tanto facilitar o diálogo quanto gerar tensões,
especialmente se for usado de forma assimétrica”, avaliou.
Para
Lia Vales, o desafio central do acordo é equilibrar os ganhos do setor
agroexportador com uma política industrial ativa, capaz de preservar empregos,
estimular investimentos e evitar a desestruturação produtiva. “Não é uma
discussão sobre ser a favor ou contra o comércio, mas sobre qual modelo de
desenvolvimento o país quer construir”, concluiu.
• Para ministro espanhol, pacto
UE–Mercosul é resposta ao protecionismo
O
acordo comercial firmado entre a União Europeia e o Mercosul representa uma
resposta política e clara da Europa a um cenário global marcado por guerras
comerciais, protecionismo crescente e enfraquecimento das regras multilaterais,
avalia Carlos Cuerpo, ministro da Economia da Espanha.
Em
artigo publicado no site Project Syndicate, Cuerpo explica que o contexto
internacional mudou profundamente desde o início das negociações, onde o
otimismo do pós-Guerra Fria deu lugar a um ambiente de instabilidade, no qual
sanções, coerção econômica e disputas geopolíticas desafiam a ordem liberal
construída ao longo das últimas décadas.
“Nesse
cenário, o acordo UE–Mercosul surge como uma reafirmação do compromisso europeu
com o comércio baseado em regras, a cooperação internacional e a integração
econômica”, afirma o político.
O
tratado cria a maior zona de livre comércio já estabelecida pela União
Europeia, abrangendo quase um quarto da economia global e uma população
superior a 700 milhões de pessoas. A expectativa é que as exportações europeias
para os países do Mercosul cresçam cerca de 70%, com uma economia anual de
aproximadamente € 4 bilhões em tarifas para empresas da UE.
Diferentemente
de acordos comerciais anteriores, o pacto incorpora compromissos ambientais e
trabalhistas com mecanismos de execução, além de abrir mercados de serviços e
compras públicas. Para o governo espanhol, isso reforça a resiliência econômica
europeia e contribui para a criação de empregos qualificados em áreas como
tecnologia, telecomunicações e finanças.
Outro
ponto central é o acesso a minerais críticos, como lítio e terras raras,
considerados estratégicos para as transições verde e digital. A diversificação
de fornecedores no Mercosul pode reduzir a dependência europeia de cadeias
concentradas e fortalecer setores como veículos elétricos, energias renováveis
e defesa.
No
campo agrícola, o acordo prevê salvaguardas para produtores europeus, mantendo
padrões rigorosos de segurança alimentar, ao mesmo tempo em que amplia
oportunidades para o agronegócio da UE. Produtos como azeite de oliva e vinho
devem ganhar espaço nos mercados sul-americanos, enquanto a Europa amplia o
acesso a commodities como a soja.
Para
Cuerpo, o significado do acordo vai além da economia. Europa e América Latina
compartilham valores como democracia, Estado de Direito e multilateralismo, e a
parceria com o Mercosul reforça a estratégia europeia de ampliar alianças em um
mundo cada vez mais fragmentado.
Na
visão do ministro espanhol, acordos como o UE–Mercosul são essenciais para
construir um ambiente internacional mais previsível, seguro e orientado por
regras comuns.
Acordo
Mercosul-UE está alinhado a objetivos ambientais, diz ministra
A
ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, comemorou a
aprovação do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia (UE) pela
Comissão da UE e avaliou de forma positiva os termos celebrados entre os países
que irão compor a maior zona de livre comércio do mundo.
“As
negociações resultaram em um texto equilibrado e alinhado aos desafios
ambientais, sociais e econômicos contemporâneos”, destaca nota oficial
divulgada pelo ministério.
Na
avaliação da ministra, o texto do acordo está alinhado a agenda ambiental
brasileira, capaz de promover o desenvolvimento ao mesmo tempo em que protege a
natureza e enfrenta a mudança do clima.
“Em
três anos, conseguimos reduzir o desmatamento na Amazônia em 50% e em 32,3% no
Cerrado e, ao mesmo tempo, abrir mais de 500 novos mercados para o agronegócio
do país”, reforça.
Para
Marina Silva, a condução dessa agenda pelo governo brasileiro e os compromissos
ambientais assumidos pelos países do Mercosul foram definitivos para que o
conselho do bloco europeu finalizasse as negociações de forma favorável. “Depois de 25 anos, a aprovação deste acordo
está ancorada na confiança de que o governo do presidente Lula conduz uma
agenda ambiental séria, consistente e comprometida com resultados”, diz.
Destaques
Entre
os pontos fortes do acordo comercial destacados na nota do MMA estão a
reafirmação de compromissos pela sustentabilidade ambiental e climática dos
países envolvidos. A exemplo da adoção do princípio das responsabilidades
comuns, porém diferenciadas e do reforço à soberania na definição dos padrões
ambientais de cada país.
O
documento também avança ao considerar instrumentos financeiros das agendas de
clima e biodiversidade, como a possibilidade de valoração dos serviços
prestados pela natureza e o financiamento ambiental.
A
promoção de produtos da bioeconomia e bens sustentáveis também entraram no
acordo de comércio entre os blocos, que prevê ainda o fornecimento de
informações sobre desmatamento e o cumprimento da legislação ambiental pelos
países exportadores.
As
salvaguardas estabelecidas pelo texto, de acordo com o comunicado do MMA,
previnem impactos ambientais negativos e asseguram que a ampliação do comércio
contribua para a promoção da sustentabilidade.
Fonte:
Jornal GGN/Agencia Brasil

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