Renata
Medeiros: Chocando o ovo da serpente
Santa
Catarina não é um bloco homogêneo — e nunca foi. Ainda assim, tornou-se um dos
ambientes politicamente mais receptivos à extrema direita no país. Não por
impulso, nem por ignorância coletiva, mas por uma sucessão de escolhas feitas
com calma, método e certo conforto moral. Nada de ruptura. Nada de
sobressaltos. Um processo gradual, quase elegante, embalado pela ideia de que
estabilidade e previsibilidade compensam qualquer concessão.
Como em
O Ovo da Serpente, de Ingmar Bergman, o que inquieta não é o desfecho, mas a
naturalidade do percurso. Tudo acontece à vista, sob temperatura controlada,
enquanto se insiste em tratar como normal aquilo que já deveria causar
incômodo. O perigo não se anuncia; ele se acomoda.
No
Brasil, quando se fala em extrema direita organizada, fala-se essencialmente do
bolsonarismo. Jair Bolsonaro passou. O movimento, não. Ele permaneceu como
gramática da nova direita: um modo de operar que prescinde de projeto
consistente, relativiza instituições, transforma alinhamento em virtude moral e
substitui debate por testes permanentes de lealdade. Não é exatamente uma
ideologia — é um método funcional, facilmente adaptável a diferentes contextos.
Santa
Catarina não foi tomada de assalto por essa gramática. Parte expressiva do seu
campo político optou por acolhê-la. Não por fervor ideológico explícito, mas
por conveniência estratégica. O alinhamento ofereceu visibilidade nacional,
sensação de pertencimento e algum protagonismo simbólico — ainda que sem
retorno proporcional em políticas públicas estruturantes, investimentos
duradouros ou maior influência nas decisões centrais do país.
É nesse
ponto que uma pergunta se impõe, sem histeria nem acusação: o que significa a
representatividade política de um estado quando ele passa a eleger, com
frequência, candidatos sem vínculo histórico, social ou político com sua
própria realidade? Santa Catarina tem quadros qualificados, lideranças
políticas com trajetória, enraizamento local e compromisso efetivo com o Estado
e sua população. A hospitalidade catarinense é conhecida e valorizada. Mas, na
política, acolher reiteradamente figuras e agendas externas pode significar
abrir mão, pouco a pouco, da própria capacidade de se representar.
O
fenômeno não decorre de imposição externa nem desqualifica a política local
como um todo. Ele revela, antes, uma disposição recorrente de aceitar discursos
prontos e personagens deslocados, desde que tragam consigo a promessa de ordem,
pertencimento e alinhamento ideológico. Representar passa a ser secundário;
confirmar torna-se suficiente.
No
filme de Bergman, o ovo da serpente não se rompe às escondidas. Ele é
observado, protegido, normalizado. Quando finalmente se abre, já não adianta
dizer que não se sabia. Santa Catarina ainda pode olhar para essa casca — com
serenidade, sem caricaturas — e se perguntar se esse conforto político
prolongado não cobra, mais cedo ou mais tarde, um preço.
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Governo de Santa Catarina destina mais de R$ 1 bi ao
ensino superior privado
Dados
do Portal da Transparência coletados no dia 31 de dezembro indicam que o estado
de Santa Catarina gastou, em 2025, mais de um R$ 1,1 bilhão de reais com o
programa Universidade Gratuita, que banca instituições de ensino superior da
rede particular, entre privadas e comunitárias. O valor é cerca de R$ 340
milhões a mais do que o investido em 2024, ano em que foram constatados
indícios de fraudes a partir de uma análise do Tribunal de Contas do Estado,
como o pagamento de bolsas de estudos a alunos milionários.
A
universidade que mais recebeu recursos foi a Univali, com R$ 156 milhões, R$ 40
milhões a mais do que em 2024. Recentemente, a instituição foi alvo de polêmica
por ser sede de um evento com o deputado federal Nikolas Ferreira, aliado do
governador, o que gerou protesto.
Quando
lançou o projeto que bancava cursos em universidades particulares, Jorginho
Mello já prometia um aumento gradativo no valor dos repasses, que foram maiores
do que os da Universidade do Estado de Santa Catarina, entidade pública que
contou com R$ 744 milhões do orçamento em 2025.
As
universidades comunitárias receberam, juntas, cerca de R$ 884 milhões. Outros
R$ 229 milhões foram direcionados a instituições do setor privado. Somado, o
investimento representa a metade do que o governo estadual gasta com educação
básica e um quarto do que representa a folha de pagamento de professores e
servidores da educação.
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Fraudes sem respostas
Em
junho de 2025, o programa Universidade Gratuita, bandeira de marketing na
educação do governo Jorginho Mello, passou por um período de crise breve após o
escrutínio do TCE-SC. Uma análise detalhada das contas de 2024 apresentou
indícios de fraudes, dentre as quais o pagamento de bolsas a estudantes de
famílias milionárias, em especial nos cursos de Medicina.
A
análise pautou discussões na Assembleia Legislativa e levou o programa a ser
revisto em um momento no qual a presidente da associação que reúne a maior
parte das instituições beneficiadas foi alçada ao posto de secretária de
Educação. Luciane Ceretta é também reitora licenciada da Unesc, universidade
que recebeu R$128 milhões do Universidade Gratuita em 2025.
Mesmo
com a divulgação de que mais de R$ 320 milhões dos cofres públicos podem ter
sido investidos para pagar bolsas com suspeitas de fraude entre 2023 e 2024, o
governo não propôs nenhuma medida de ressarcimento do investimento. No entanto,
anunciou a alteração de algumas regras, como a do limite de renda per capita
para bolsistas de Medicina: antes, era de oito salários mínimos por pessoa da
família, agora é de quatro
A
ocultação de um relatório interno da Controladoria Geral do Estado com dados
que confirmavam a apuração do TCE e que teve circulação interna meses antes da
análise do Tribunal ser divulgada também mostrou que parentes dos membros da
comissão que selecionava bolsistas estavam sendo beneficiados. O estado
modificou a regra.
O mesmo
relatório revelou que o governo já conhecia as fragilidades e inconsistências
do programa, mas não promoveu modificações antes de os indícios de fraudes
ganharem repercussão nacional. O levantamento mostrou que beneficiados tinham
famílias com barcos, jet ski, carros de luxo e empresas com capital social
milionário.
O ano
de 2025 também encerrou sem desdobramentos das investigações do Ministério
Público de Santa Catarina e da Polícia Civil. O órgão de segurança chegou a se
envolver no assunto tão logo as suspeitas de fraudes se tornaram públicas, mas
teve mandados de busca e apreensão rejeitados pela Justiça e acabou se ocupando
apenas de bolsistas que fraudaram a regra de moradia no estado há pelo menos
cinco anos.
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Ações afirmativas sob ataque
Apesar
de tentar copiar o modelo do Programa Universidade para Todos (Prouni) do
governo federal, o Universidade Gratuita é diferente pois foi desenhado mais
como uma forma de aumentar repasses às instituições do que como política
pública.
As
regras preveem cortes de renda de até quatro salários mínimos per capita no
grupo familiar do aluno beneficiado. No Prouni, o teto é de 1,5 salários
mínimos. Isso significa que o estudante de uma família de quatro pessoas com
renda total de cerca de R$26 mil mensais pode ser contemplado pelo governo
catarinense.
Outra
diferença é que o Universidade Gratuita é voltado exclusivamente para quem mora
em Santa Catarina há pelo menos cinco anos. Diferentemente do Prouni, o
programa do governador bolsonarista também ignora as ações afirmativas e o Enem
como modalidade de ingresso. Em 2025, Santa Catarina foi o estado com o menor
número de inscritos no exame na rede pública.
Em
dezembro, a Assembleia Legislativa de Santa Catarina aprovou uma lei que
extingue o repasse de verbas públicas para universidades com políticas de ações
afirmativas. Se sancionado, o projeto impediria que houvesse reserva de vagas
no Universidade Gratuita, assunto que chegou a entrar em discussão, mas que
também foi rejeitado pelos deputados.
Em
outubro, pouco antes de aprovar o PL anti-cotas, os deputados votaram contra
uma proposição da deputada Luciane Carminatti (PT) para instituir cotas para
pessoas pretas, pardas e indígenas no programa do governo estadual. Nesta mesma
votação, os deputados instituíram o limite patrimonial para os bolsistas
beneficiados e garantiram o acesso ao benefício a estudantes com patrimônio
familiar de até R$1,5 milhão.
• O Projeto de País da Extrema-Direita
Catarinense
Santa
Catarina, frequentemente tratada como referência em indicadores sociais e
econômicos, vem se consolidando como um verdadeiro laboratório de retrocessos
sociais, políticos e institucionais.
Por
trás da propaganda de ordem, mérito e eficiência, avança um projeto político
articulado por forças da extrema-direita que ataca a democracia, criminaliza a
pobreza, esvazia políticas públicas e desmonta direitos duramente conquistados
pelos trabalhadores.
Entre
os inúmeros ataques à população está a tentativa de desmonte do serviço público
por meio da PEC 38/2025, uma proposta que reedita a antiga PEC 32 de Paulo
Guedes e que vem sendo conduzida no Congresso com apoio entusiasmado de
parlamentares catarinenses.
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PEC 38/2025: o golpe administrativo contra os servidores públicos
A
Proposta de Emenda à Constituição, que já tramita na Comissão de Constituição e
Justiça da Câmara, retoma o discurso de “modernização do Estado”, mas carrega,
em seu conteúdo, mecanismos profundos de destruição da estrutura pública
brasileira. Ao enfraquecer a estabilidade no funcionalismo, abrir caminho para
contratações temporárias sem concurso, permitir interferências políticas em
áreas técnicas e precarizar as condições de trabalho nos órgãos públicos, a PEC
38 reduz drasticamente a capacidade do Estado de servir à população,
especialmente à parcela mais vulnerável.
Sob a
relatoria do deputado catarinense Zé Trovão (PL), a proposta é, na prática, um
golpe administrativo contra o serviço público e seus servidores. E o mais
grave: vem sendo tratada com naturalidade, como se fosse um simples ajuste de
gestão, quando na verdade representa uma tentativa clara de transformar o
Estado em um balcão de negócios a serviço de interesses privados e da velha
prática de loteamento de cargos e aparelhamento político.
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Políticas higienistas e criminalização da pobreza em Florianópolis
Esse
projeto de precarização do Estado não é um ato isolado. Ele faz parte de uma
engrenagem mais ampla de retrocesso que se manifesta em diversas frentes no
estado de Santa Catarina.
Na
capital, a Prefeitura de Florianópolis implantou um posto de “controle” na
rodoviária para “triagem” de pessoas em situação de vulnerabilidade. Quem chega
sem emprego ou moradia é orientado a aceitar uma passagem de volta à cidade de
origem, numa política que escancara a lógica higienista e discriminatória de
setores do poder público local. A medida, duramente criticada por órgãos de
direitos humanos e pela Defensoria Pública da União, foi classificada como uma
prática ilegal, por instaurar um tipo de controle migratório interno baseado na
condição social — algo absolutamente incompatível com os princípios
democráticos e constitucionais.
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Racismo institucional e o fim das cotas raciais no estado
No
plano estadual, o discurso de exclusão racial também ganhou palco. Além de
endossar as ações do prefeito da capital, Jorginho Mello (PL) gerou repúdio
nacional ao elogiar a cidade de Pomerode destacando, entre seus “atrativos”, a
“cor da pele das pessoas”. Embora o Ministério Público Federal tenha arquivado
a investigação, a fala escancarou o racismo institucionalizado que se
naturaliza em muitos discursos de agentes públicos. Em um estado onde a
população negra é fortemente atingida pela pobreza, violência e exclusão
social, esse tipo de declaração perpetua as desigualdades estruturais
históricas.
A
ofensiva contra a inclusão racial e social ganhou ainda mais força com a
aprovação, pela Assembleia Legislativa, do Projeto de Lei 753/2025. A proposta,
já aprovada e encaminhada para sanção do governador, proíbe a adoção de cotas
raciais em processos seletivos e concursos públicos em universidades estaduais
como a UDESC, em instituições privadas financiadas com recursos públicos
estaduais — como as do sistema Acafe — e também em contratações de professores,
técnicos e demais profissionais vinculados ao setor educacional.
A lei,
se sancionada, representará um dos maiores retrocessos já registrados nas
políticas de ação afirmativa em Santa Catarina. Ela fere diretamente o
entendimento já consolidado pelo Supremo Tribunal Federal sobre a
constitucionalidade das cotas raciais e impõe penalidades severas às
instituições que insistirem em manter essas políticas: multas de R$ 100 mil por
edital e corte de repasses públicos. Trata-se de uma tentativa explícita de
apagar avanços conquistados a duras penas por meio da luta antirracista e dos
movimentos sociais.
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Universidade “gratuita”, mas para quem?
Ao
mesmo tempo em que desmonta políticas afirmativas, o governo estadual mantém o
polêmico programa Universidade Gratuita — vendido como exemplo de
democratização do acesso ao ensino superior, mas hoje sob investigação do
Tribunal de Contas do Estado. De acordo com auditoria do TCE, foram encontrados
indícios de irregularidade em mais de 18 mil cadastros de estudantes
beneficiados, com casos que envolvem ocultação de patrimônio, renda
incompatível e uso indevido de benefícios por estudantes fora dos critérios de
vulnerabilidade social.
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A bancada catarinense e a anistia aos golpistas
Em
Brasília, o retrocesso institucional também tem a assinatura catarinense. No
último dia 10 de dezembro, a Câmara dos Deputados aprovou o PL da Dosimetria
(PL 2162/2023), que reduz penas de condenados pelos crimes de 8 de janeiro. O
projeto permite que pessoas condenadas por tentativa de golpe de Estado tenham
suas penas abrandadas, passando menos tempo em regime fechado e podendo
antecipar sua progressão para regimes mais brandos.
Dos 15
deputados catarinenses presentes na votação, 13 votaram a favor da proposta,
apenas 2 foram contra:
🔻 Votaram a favor da redução de pena
dos golpistas:
• Valdir Cobalchini (MDB)
• Daniel Freitas (PL)
• Daniela Reinehr (PL)
• Fabio Schiochet (União Brasil)
• Geovania de Sá (PSDB)
• Gilson Marques (Novo)
• Ismael dos Santos (PSD)
• Jorge Goetten (Republicanos)
• Júlia Zanatta (PL)
• Luiz Fernando Vampiro (MDB)
• Rafael Pezenti (MDB)
• Ricardo Guidi (PL)
• Zé Trovão (PL)
🟢 Votaram contra (em defesa da
democracia):
• Ana Paula Lima (PT)
• Pedro Uczai (PT)
🔘 Ausente:
• Caroline de Toni (PL) – em
licença-maternidade
Essa
votação reafirma que a bancada catarinense tem se consolidado como uma das mais
alinhadas com a pauta da extrema-direita, atuando de forma sistemática contra
os direitos da população, contra os trabalhadores e trabalhadoras e contra a
democracia.
No
Senado, a situação é igualmente alarmante. O relator do PL da Dosimetria é o
senador catarinense Esperidião Amin (PP), que já declarou publicamente que não
vê impedimentos para incluir no texto uma anistia ampla e direta. A tentativa
de “passar a borracha” nos crimes cometidos contra a democracia é mais uma peça
desse tabuleiro que tenta, de forma organizada, reescrever a história e
legitimar práticas autoritárias.
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Um projeto político articulado contra o povo
Tudo
isso compõe um projeto político articulado, sustentado por setores da velha
oligarquia estadual e por figuras da nova extrema-direita que emergiu com a
onda bolsonarista. Juntos, eles votam sistematicamente contra os interesses da
população, atacam os servidores públicos, sabotam o serviço estatal e colocam o
aparato institucional a serviço dos mais ricos.
Ao
criminalizar a pobreza, negar o racismo, desmontar políticas públicas e
relativizar a democracia, esse projeto desenha um tipo de país onde os direitos
são privilégio de poucos e a maioria trabalhadora segue marginalizada,
reprimida ou simplesmente esquecida.
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Mobilização urgente: é hora de reagir
Diante
desse cenário, o Sintrafesc reafirma sua posição de combate intransigente a
qualquer forma de retrocesso. Seguiremos firmes na denúncia dos ataques aos
serviços públicos e na defesa da democracia, dos direitos sociais e da justiça
social.
É
fundamental que toda a sociedade catarinense esteja atenta ao que, e como,
estão votando nossos parlamentares, pois cada decisão afeta diretamente os
direitos, os serviços públicos e o futuro de toda a população. Cada projeto
aprovado, cada direito negado e cada voto dado contra os interesses do povo
precisa ser lembrado nas eleições de 2026.
Não se
pode naturalizar o que está em curso. Santa Catarina não pode continuar a ser a
vitrine de um Brasil desigual, racista e autoritário. O futuro do país precisa
ser construído com base na justiça social, na inclusão e na valorização do
serviço público como instrumento essencial para garantir dignidade a todos.
Fonte:
Brasil 247/ICL Notícias/Sintrafesc

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