quarta-feira, 21 de janeiro de 2026


 

Cannabrava: a face autoritária do império em declínio

Há cada vez menos espaço para dúvidas: Donald Trump governa como um ditador. Despreza as leis internas, ignora o direito internacional e aciona forças militares sem qualquer autorização do Congresso. Se a democracia estadunidense estivesse minimamente em funcionamento, esse comportamento reiterado já teria levado a um processo de impeachment. Não se trata de retórica exagerada, mas de fatos concretos.

Trump se arroga o direito de decidir sobre outros países como se fossem extensões de seu poder pessoal. Afirma que “governa” a Venezuela, ameaça abertamente Cuba e declara que não deseja ver China ou Rússia atuando em território venezuelano. Mais grave ainda: faz essas declarações em reuniões com executivos da indústria petroleira, deixando explícito que sua política externa está diretamente subordinada aos interesses do capital energético. Não é diplomacia — é coerção imperial.

Como corolário desse avanço autoritário, revive-se a Doutrina Monroe, agora atualizada pela lógica do Big Stick: “Fale suavemente, mas leve um grande porrete”. No caso de Trump, nem mesmo o eufemismo se sustenta. O “porrete” se traduz na mobilização ostensiva de forças navais e aéreas, na intimidação direta e na chantagem econômica. O império abandona qualquer disfarce liberal e assume sua face bruta.

É nesse contexto que, no dia 17, em Assunção, será firmado o acordo entre o Mercosul e a União Europeia. Ainda dependente da aprovação do Parlamento Europeu, trata-se do maior acordo comercial da história, envolvendo cerca de 720 milhões de pessoas, um PIB estimado em 22 trilhões de dólares e a perspectiva de zerar as tarifas do setor industrial em até dez anos. O acordo se insere num cenário de reorganização geopolítica que ocorre sob a pressão direta da ofensiva imperial dos Estados Unidos.

Trump deixou isso claro ao advertir China e Rússia de que não as quer na Venezuela e ao exigir que Caracas rompa relações com China, Rússia, Irã e Cuba. Trata-se de uma tentativa explícita de recolonização, agora sem mediações, sem pudor e sem respeito às regras mínimas da convivência internacional.

O que está em jogo não é apenas a Venezuela, Cuba ou a América Latina. É a própria ideia de democracia, corroída no centro do sistema que sempre se apresentou como seu guardião. Trump não é um desvio. É a expressão nua e crua de um império em declínio, que já não consegue governar pelo consenso e recorre, cada vez mais, à força.

No Brasil, não há com o que se preocupar. Petróleo? Já está controlado pelas empresas. Minérios? Já estão controlados pelas empresas. Política econômica? Vigora o pensamento único imposto pelo capital financeiro.

O enfrentamento desse avanço autoritário não virá das instituições capturadas nem das elites comprometidas com a submissão. Ele só pode nascer da mobilização popular. Cabe ao povo ocupar as ruas, organizar-se e exigir um projeto nacional que recoloque no centro a soberania, o controle dos recursos estratégicos, a independência política e o direito de decidir seu próprio destino. Sem pressão popular, não há democracia possível nem país verdadeiramente livre.

Quando um império em declínio recorre à força para conter o mundo multipolar

        A história demonstra que o imperialismo avança quando encontra resignação social. Por Flaviano Cardoso

O sequestro militar do presidente Maduro como ato imperialista inaceitável na América Latina – um precedente perigoso e uma ameaça à paz que exige resposta imediata

Quando a força se impõe sobre o direito, a soberania deixa de ser princípio e passa a ser concessão. O sequestro militar de um chefe de Estado em exercício, acompanhado da declaração de “administração” externa de um país soberano, marca uma ruptura aberta com a ordem internacional. Ao invocar a Doutrina Monroe e anunciar tutela política e energética, Donald Trump não apenas desafia normas centrais do sistema multilateral; tenta substituí-las por uma lógica de dominação explícita. A gravidade do gesto explica a reação convergente de Brasil, China e Rússia – três pilares do mundo em transição multipolar – que qualificaram o episódio como precedente perigoso e ameaça à paz.

A posição do Brasil, reafirmada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, recoloca no centro princípios constitutivos da diplomacia contemporânea: soberania, não intervenção e solução pacífica de controvérsias. Ao advertir que a normalização desse ato abriria um ciclo de insegurança, o Brasil não defende governos; defende limites. Limites sem os quais Estados médios e periféricos tornam-se alvos permanentes de ações arbitrárias. A mensagem é direta: aceitar o sequestro de um presidente e a tutela externa de um Estado equivale a tornar qualquer país vulnerável amanhã.

A condenação da China foi inequívoca ao classificar a intervenção como ameaça à paz regional e internacional. Pequim apontou o risco sistêmico da normalização da força: quando soberanias e contratos podem ser anulados por decisões militares unilaterais, desaparece a previsibilidade mínima que sustenta cooperação, investimentos e estabilidade. Não se trata apenas da Venezuela; trata-se da destruição do chão comum sobre o qual o mundo multipolar pretende se erguer.

A Rússia, por sua vez, sublinhou a violação do direito internacional e o perigo de escalada. Ao lembrar que apenas o Conselho de Segurança pode autorizar o uso da força, Moscou reafirmou um princípio decisivo: o direito internacional não pode ser seletivo. Quando uma potência se arroga exceções, enfraquece não só o alvo imediato, mas o edifício jurídico que contém a generalização do conflito.

Essa convergência ganha densidade histórica quando inserida no arco longo do imperialismo norte-americano no pós-Vietnã. A partir dos anos 1970, Washington não abandonou a intervenção; reorganizou-a. À guerra aberta sucederam-se operações diretas e indiretas: golpes apoiados nas sombras, sabotagens econômicas, guerras por procuração, invasões “humanitárias”, sanções como armas de cerco. Da América Central ao Oriente Médio, da Ásia ao Caribe, repetiu-se o padrão: quando um país ou um projeto político se mostra disfuncional aos interesses estratégicos do centro, a pressão se intensifica até a ruptura. O caso chileno, com a derrubada violenta do governo de Salvador Allende, permanece como memória traumática continental; o episódio atual é o mais grave desde então – com a diferença inquietante de que, agora, a força estrangeira se apresenta abertamente como poder administrador.

No século XXI, essa lógica tem efeitos corrosivos adicionais: ela anula ou bloqueia iniciativas de paz e esvazia o multilateralismo. Na guerra da Rússia-Ucrânia, o campo do possível é estreitado por escaladas e vetos cruzados; em Gaza, a repetição de vetos a cessar-fogo imediato normaliza o massacre e prolonga a catástrofe humanitária. Não se trata de atribuir causalidade única, mas de reconhecer um fato estrutural: o poder desproporcional de moldar agendas, vetar consensos e impor exceções mina a credibilidade das soluções coletivas. Quando esse poder culmina em intervenção armada aberta – como agora na Venezuela – o recado ao sistema internacional é brutal: a pluralidade política pode ser tratada como delito geopolítico.

Nesse cenário, a voz do México reforça o alerta regional. Ao afirmar que a relação com os Estados Unidos deve ser de cooperação, não subordinação, a presidenta mexicana recoloca a América Latina como zona de paz e rejeita a transformação do continente em espaço administrável por força externa. Brasil, México, China e Rússia convergem, por linguagens distintas, num ponto essencial: não é possível construir um novo polo global estável se intervenções militares abertas voltarem a ser método ordinário de política externa.

Sob uma leitura materialista, o movimento é conhecido: quando a valorização do capital enfrenta limites, a coerção reaparece como mediação direta. A linguagem muda – “transição”, “administração”, “reconstrução” –, mas o conteúdo permanece. O custo humano também: militarização da vida, trauma coletivo, colapso institucional. Soberania não é abstração jurídica; é condição de vida e de saúde social.

Diante disso, a Organização das Nações Unidas não pode hesitar. A exigência que emerge é de resposta imediata, firme e plurilateral que reafirme a Carta da ONU, a proibição do uso da força e a integridade territorial dos Estados. O silêncio institucional transformaria abuso em precedente e exceção em regra – empurrando o mundo para um clima de insegurança permanente.

A resposta, contudo, não se esgota na diplomacia. A história demonstra que o imperialismo avança quando encontra resignação social. A captura militar de um chefe de Estado e a pretensão aberta de organizar a transição de poder em países que “pensam diferente” não são desvios pontuais: são a declaração explícita de um método. Se tolerado, nenhum país estará fora de risco. Por isso, a reação precisa ser institucional e popular: popular no sentido da organização cívica, pacífica e massiva que sustenta o direito quando ele é atacado.

Não se trata de defender governos, mas de defender o direito dos povos à autodeterminação sem ameaça militar externa. Trata-se de afirmar que a soberania não é mercadoria, que a paz não é retórica e que a força não pode substituir o direito. A história julgará este momento. Ou o mundo reage, reafirmando que o sequestro de Estados não será tolerado, ou aceita ingressar em uma nova era de insegurança permanente. Diante desse limiar, a passividade não é opção.

        Cabello: Sequestro de Maduro aprofundou sentimento anti-estadunidense na Venezuela. Por Ángel González

A presidenta encarregada da Venezuela, Delcy Rodríguez, afirmou na terça-feira (6) que “o governo da Venezuela rege no país, mais ninguém” e que “não há agente externo que governe” o país. A declaração contrapõe diretamente o que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tem repetido nos últimos dias.

Trump disse na segunda-feira (5) que o vice-presidente J.D. Vance, seu secretário de Guerra, Pete Hegseth, seu assessor Stephen Miller e seu secretário de Estado, Marco Rubio, integrariam a “supervisão” estadunidense do governo da Venezuela; e, ao ser perguntado sobre quem teria a máxima responsabilidade, respondeu: “eu”. O chefe da Casa Branca também ameaçou Delcy Rodríguez ao afirmar que, se ela não fizer o que lhe for determinado em Washington, pagaria “um preço muito alto, provavelmente maior que o de Maduro.”

A isso respondeu Rodríguez na terça-feira (6): “Pessoalmente, aos que me ameaçam, digo: meu destino não é decidido senão por Deus; essa é minha resposta.” A líder chavista acrescentou que tanto o presidente Nicolás Maduro quanto sua esposa, Cilia Flores, “são pessoas inocentes e decentes”, e denunciou que a imunidade de Maduro como chefe de Estado “foi injustamente quebrantada, atingindo completamente as leis internacionais e as leis da Venezuela.”

Essas palavras foram proferidas durante uma reunião de trabalho na qual anunciou a instalação de um Estado-Maior Agroalimentar, que integra mecanismos governamentais de pesca, comunas e indústria, para avaliar e garantir a produção e os mecanismos de distribuição de alimentos em todo o território.

No mesmo dia, à noite, a atual presidenta decretou sete dias de luto pelos homens e mulheres assassinados na madrugada de 3 de janeiro durante o ataque dos EUA. “Uma mensagem para nossos jovens mártires, que deram sua vida pela defesa do nosso país, pelo seu povo, e por isso tomamos essa decisão de luto, em honra a eles, que entregaram suas vidas defendendo o presidente Maduro”, declarou.

<><> Imunidade de Maduro e anúncio de investigação

O procurador-geral da Venezuela, Tarek William Saab, expressou seu reconhecimento a Delcy Rodríguez como presidenta encarregada e lhe ofereceu todo o seu apoio “no marco da coordenação entre os poderes públicos”.

Denunciou que a operação militar executada em 3 de janeiro, sem uma declaração prévia de guerra nem uma resolução do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), “constitui uma agressão armada ilegal de caráter terrorista que viola a Carta da ONU.”

Saab ressaltou que Nicolás Maduro, no momento de seu sequestro, é um presidente em exercício e que a Constituição venezuelana “estabelece de maneira muito firme a imunidade do Presidente”, a qual não é apenas uma prerrogativa pessoal ou individual, “mas um princípio de hierarquia constitucional, de alcance universal e uma norma fundamental do direito internacional.”

O procurador explicou também que, segundo o direito internacional consuetudinário, ratificado pela Corte Internacional de Justiça, os chefes de Estado em exercício gozam de imunidade pessoal absoluta, o que significa que não podem ser presos nem processados por tribunais estrangeiros.

“A extração forçada, o sequestro e a privação ilegítima de liberdade do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa em seu próprio território, para serem levados a outro país, qualificam-se juridicamente como sequestro internacional e privação ilegítima de liberdade”, denunciou.

Saab acrescentou que Donald Trump violou a própria Constituição e as leis dos Estados Unidos, uma vez que a resolução sobre poderes de guerra exige autorização do Congresso para ações militares, o que não ocorreu. Além disso, em qualquer caso, “a Constituição dos Estados Unidos não tem jurisdição sobre o território venezuelano nem sobre o de outras nações”, lembrou.

Em sua condição de chefe do Poder Cidadão da Venezuela, um dos cinco poderes do Estado, o procurador exigiu “de maneira imediata, a libertação incondicional tanto do cidadão presidente Nicolás Maduro quanto da primeira-dama, Cilia Flores”, afirmando que essas duas detenções “são totalmente nulas e violadoras do direito internacional, do Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos, e vulneram a Declaração Universal dos Direitos Humanos, assim como a própria Constituição dos Estados Unidos da América.”

A seguir, Saab dirigiu-se ao juiz Alvin K. Hellerstein, responsável pelo processo judicial em Nova York, exigindo que reconheça a falta de jurisdição do tribunal sob sua responsabilidade para julgar um mandatário de uma nação soberana protegido por imunidade diplomática como chefe de Estado.

Também informou a designação de três promotores para investigar as dezenas de baixas inocentes, tanto civis quanto militares, ocorridas em meio ao que qualificou como um “crime de guerra”.

Por sua vez, a presidenta do Tribunal Supremo de Justiça, Caryslia Rodríguez, destacou que as instituições do Estado continuam funcionando plenamente “sob a autoridade e direção da presidenta encarregada Delcy Rodríguez”. Da mesma forma, afirmou que, a partir da mais alta instância judicial, farão “tudo o que corresponde institucionalmente para alcançar o retorno do Presidente e da primeira-dama.”

<><> “Vamos trazer Nicolás de volta”

Na terça-feira (6), foi realizada em Caracas uma marcha multitudinária de mulheres para exigir a libertação do presidente Maduro e de Cilia Flores. Diante da concentração, Diosdado Cabello, secretário-geral do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), assegurou que continuarão em busca do retorno de Maduro ao país.

“A Revolução Bolivariana perdeu fisicamente o comandante Hugo Chávez e não temos a capacidade de trazê-lo de volta, mas o presidente Nicolás Maduro, sim, vão nos devolvê-lo; nós vamos trazer Nicolás de volta”, declarou diante de milhares de manifestantes.

Cabello desmentiu aqueles que dizem que, na Venezuela, as pessoas celebram o sequestro de Maduro, destacando que, pelo contrário, o que os Estados Unidos conseguiram no país foi “levantar um grande sentimento antinorte-americano”. Além disso, garantiu que os poucos que zombam do ocorrido “riem da própria desgraça”: “Não entendem que aqui a Revolução Bolivariana ainda continua.”

<><> Honras aos mortos

A Guarda de Honra Presidencial prestou homenagem póstuma a 19 integrantes de seu corpo que foram assassinados no Forte Tiuna durante o bombardeio e o assalto perpetrados pelos Estados Unidos em 3 de janeiro. Os corpos foram velados em capela ardente na Brigada da Guarda de Honra, localizada no mesmo Forte Tiuna. Aos falecidos foi conferida a Ordem Cruz da Guarda de Honra Presidencial, em sua primeira classe. O Ministério da Defesa publicou nas redes sociais uma mensagem no marco desse reconhecimento:

A FANB [Força Armada Nacional Bolivariana da Venezuela] presta homenagem aos nossos Heróis da Pátria. Com o coração cheio de orgulho e o olhar voltado para nossa bandeira, a grande família militar rende a mais alta honra aos soldados que, com valentia inquebrantável, realizaram o sacrifício supremo em defesa de nossa Pátria. Honra e glória eterna aos nossos soldados!

Ministério da Defesa da Venezuela

<><> Série animada recria a épica do ocorrido

Parte das reações provocadas pela agressão estadunidense entre os venezuelanos se expressa na arte. O criador digital que se identifica nas redes sociais como “Rintintin12r”, e que costuma publicar histórias em formato de anime em plataformas como TikTok e Instagram, divulgou um vídeo sobre o ataque de 3 de janeiro que se tornou viral.

O curta animado, criado com inteligência artificial, recria a cena do sequestro do presidente Maduro e de sua esposa. Trata-se de uma versão criativa, pois não existem detalhes confirmados sobre os pormenores da captura do casal presidencial. Na história, diz-se que a primeira-dama exigiu ser levada junto ao presidente, embora, em um primeiro momento, os agressores pretendessem sequestrar apenas a ele. Também se observa que o casal aceitou ir com seus sequestradores, exigindo que cessassem os bombardeios sobre a população. Trata-se de uma amostra da interpretação que, na Venezuela, começa a ser construída sobre um fato que marcou profundamente a todos.

 

Fonte: Diálogos do Sul Global/Le Monde/La Jornada


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