Venezuela:
por que os EUA podem fracassar
O
sequestro de Maduro reduz, mas não elimina a força do chavismo na Venezuela.
Tampouco resolve o declínio hegemônico dos Estados Unidos. E Washington não é
capaz de oferecer oportunidades de desenvolvimento que compitam com a
alternativa chinesa...
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A crônica de um ataque anunciado
A
intervenção militar dos Estados Unidos contra a Venezuela, culminando no
sequestro de Nicolás Maduro em 3 de janeiro de 2026, vem sendo preparada há
muito tempo. Em artigo publicado na Carta Capital em fevereiro de 2019,
intitulado “Donald Trump, o fim do globalismo e
a crise na Venezuela”, argumentei que o então presidente revelava com
franqueza inédita os verdadeiros objetivos do imperialismo estadunidense: não a
defesa da democracia ou dos direitos humanos, nem o respeito (seletivo) de
tratados internacionais pautados na ideologia liberal, mas o controle sobre
recursos com valor estratégico e econômico. Já naquele momento, Trump criticava
abertamente seus antecessores por não terem “tomado o petróleo” da Venezuela ou
do Iraque, ou as terras raras do Afeganistão, explicitando uma lógica predatória
que o discurso liberal tradicionalmente dissimulava.
Em
janeiro de 2013, Trump twittou “ainda não posso acreditar que saímos do Iraque
sem o petróleo”. Em debate com Hillary Clinton em setembro de 2016, propôs
voltar ao século XIX: “o costume era que ao vencedor pertenciam os espólios.
Agora não há mais vencedor… Mas eu sempre disse: tome o
petróleo”.
Já
presidente, Trump insistiu duas vezes com o presidente iraquiano para ceder mais petróleo
como reparação pelos custos da guerra. O ex-Conselheiro de Segurança Nacional H.R.
McMaster o teria repreendido na segunda vez: “é ruim para a reputação
americana, vai assustar os aliados… e nos faz parecer como criminosos e
ladrões”. Em janeiro de 2019, o vice-presidente Mike Pence afirmou Trump “não é
um fã” de intervenções externas, exceto “neste hemisfério” (o chamado
“quintal”).
Era um
presságio da Doutrina Donroe. Também em janeiro de 2019, o então Conselheiro de Segurança
Nacional, John Bolton,
afirmou que “estamos em conversação com as grandes companhias (petrolíferas)
americanas… a Venezuela é um dos três países que eu chamei de Troika da Tirania
(além de Nicarágua e Cuba). Faria uma grande diferença para os Estados Unidos
economicamente se pudéssemos fazer as corporações de petróleo americanas
realmente produzirem e investirem nas capacitações petrolíferas da Venezuela”.
Em
abril de 2025, na reunião “IV Dilemmas of Humanity: Perspectives
for Social Transformation”, organizada pelo Instituto Tricontinental de
Pesquisa Social, pelo Movimento Sem Terra e pela Assembleia Internacional dos
Povos em São Paulo, defendi que Trump escolheria a Venezuela como seu primeiro
alvo militar no chamado Hemisfério Ocidental, no que seria a primeira
intervenção militar direta na América do Sul na história. A argumentação era
simples: ataques ao Canadá ou à Groenlândia seriam incomparavelmente mais
arriscados e diplomaticamente indefensáveis; a Venezuela, por outro lado,
oferecia justificativas palatáveis à base política do movimento MAGA (as
supostas ameaças da imigração e do narcotráfico venezuelano) enquanto oferecia
vastas reservas de petróleo e minerais críticos para a disputa tecnológica com
a China.
A National Security Strategy (NSS), Estratégia de
Segurança Nacional, publicada pela administração Trump em 04 de dezembro 2025
formalizou esta estratégia hemisférica, centrada em “fortalecer cadeias de
suprimento críticas… reduzir dependências e aumentar a resiliência econômica
americana… enquanto dificulta que competidores não-hemisféricos aumentem sua
influência na região”. Este documento consagra o que analistas têm chamado de
“Trump Corollary” à Doutrina Monroe ou, mais sarcasticamente, “Donroe
Doctrine”: uma versão explicitamente transacional e coercitiva do
pan-americanismo que subordina toda a América Latina aos imperativos de
segurança e acumulação de capital dos Estados Unidos.
Indo às
vias de fato, a intervenção militar na Venezuela não representa uma defesa da
democracia ou uma intervenção humanitária: é oficialmente o fim do “globalismo”
que atava o poder militar dos EUA à ideologia liberal de soberania nacional da
carta da ONU, como alertei ser o objetivo de Trump já em 2019. É o fim do século americano imaginado para o mundo por
Woodrow Wilson durante
a Primeira Guerra Mundial e ensaiado por Franklin Delano
Roosevelt na Segunda Guerra. Representa a securitização de recursos estratégicos no
contexto da rivalidade sino-americana e, eventualmente, da tentativa de
reestruturar cadeias produtivas globais segundo linhas geopolíticas. Trata-se
de um precedente perigoso que coloca em risco a soberania em toda a região,
começando com a nova “Troika”, os novos dominós a serem derrubados pelo império
estadunidense: Cuba, Nicaragua e Colômbia.
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A lógica geoeconômica da escolha venezuelana
A
Venezuela foi escolhida como primeiro alvo militar não por acaso, mas por
oferecer a convergência ideal entre oportunidade geoeconômica e viabilidade
política. O país detém as maiores reservas comprovadas
de petróleo do mundo e
vastos depósitos de minerais críticos essenciais às tecnologias de energia
limpa e defesa. Trump declarou repetidamente a importância desses recursos,
inclusive na entrevista em que afirmou que, depois do sequestro de Maduro,
“governaria a Venezuela”.
Esta
franqueza quanto aos objetivos materiais do imperialismo conecta-se diretamente
à estratégia mais ampla de friendshoring ou nearshoring articulada
na Estratégia de Segurança Nacional de 2025. O documento não se limita a propor
diversificação em relação às cadeias produtivas chinesas; pelo menos
retoricamente, almeja a reestruturação sistemática de redes de valor global
segundo critérios geopolíticos. Assim, o objetivo dual em relação à América
Latina é explícito: primeiro, garantir controle estadunidense sobre recursos
minerais críticos (lítio, cobre, terras raras) e infraestrutura estratégica
(portos, redes de telecomunicações, sistemas energéticos); segundo, integrar
economias latino-americanas em cadeias manufatureiras completamente insuladas
da participação ou influência chinesa.
A
oferta feita por María Corina Machado em entrevista a Donald Trump Jr. ilustra
perfeitamente a questão mineral: em troca do apoio à mudança de regime que
colocaria seu grupo no poder, ela ofereceu conceder US$ 1,7 trilhão
em ativos venezuelanos a corporações estadunidenses. O arranjo proposto
não difere substantivamente das concessões petroleiras que caracterizaram o
imperialismo clássico no final do século XIX e início do século XX e que nos
levariam a duas Guerras Mundiais.
Na
questão das cadeias de suprimento, vai-se além das preocupações tradicionais
com extração de recursos para abarcar a reorganização de sistemas produtivos
regionais. Nos ramos intensivos em trabalho, energia e insumos baratos em que a
reindustrialização por onshoring nos Estados Unidos não for
viável, Washington proporá promover elos manufatureiros latino-americana em
cadeias estrategicamente sensíveis – semicondutores, baterias, produtos
farmacêuticos, materiais avançados – mas estritamente dentro de estruturas de
governança que excluam investimento, tecnologia ou acesso a mercados chineses.
Trata-se de uma tentativa de compartimentalização geopolítica de redes
produtivas, criando cadeias de suprimento paralelas organizadas por lealdade
estratégica. Só assim se pode entender a decisão do governo mexicano de implementar
em 01 de janeiro de 2026 tarifas importações de diversos produtos originários
da China, do Brasil e de outros países que não possuem acordo comercial com o
país.
A
dimensão simbólica da escolha por um ataque à Venezuela também merece atenção.
A narrativa MAGA requer inimigos que ameacem o “modo de vida tradicional
americano”. A Venezuela pode preencher este papel: pode ser apresentada
simultaneamente como fonte de imigração indesejada e de narcotráfico, duas
obsessões centrais da base trumpista. Diferentemente do Canadá ou da
Groenlândia, cuja invasão seria difícil de justificar domesticamente e
provocaria crise na aliança ocidental, um ataque à Venezuela mobiliza preconceitos
arraigados e oferece bodes expiatórios convenientes para problemas internos dos
Estados Unidos.
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Desmontando as justificativas oficiais
As três
narrativas mobilizadas para legitimar a intervenção militar – defesa da
democracia, combate ao narcotráfico e intervenção humanitária – desmoronam sob
escrutínio mínimo, revelando-se como pretextos para uma operação motivada por
interesses de domínio econômico sustentado pelo poder político e militar, e
buscando reforçá-los a médio prazo.
O
argumento democrático é particularmente insustentável vindo de Trump. Sem
precisar lembrar de 6 de janeiro de 2021, o próprio Trump ridicularizou
publicamente, em múltiplas ocasiões, o uso da “defesa da democracia” como
justificativa para intervenções imperiais, denunciando-o como hipocrisia
liberal. Em dezembro de 2015, Trump defendeu Wladimir Putin afirmando “que
nosso país também faz muita matança… Há muita estupidez no mundo agora, muita
matança, muita estupidez”. Em fevereiro de 2017, já presidente, Trump reagiu à
crítica de Bill O’Reilly de que “ele (Putin) é um assassino”, afirmando que “há
muitos assassinos. Você pensa que nosso país é tão inocente assim?” Seu
histórico confirma o cinismo da retórica democrática: Trump mantém alianças
estreitas com ditaduras amigas, das monarquias absolutistas do Golfo Pérsico à
Arábia Saudita, passando pelo apoio entusiástico ao golpismo de Jair Bolsonaro
e caterva no Brasil. O problema nunca é a ausência de democracia, mas a falta
de alinhamento com Washington.
O
argumento antidrogas revela-se igualmente fraudulento. Poucos dias antes da
invasão da Venezuela, Trump concedeu perdão presidencial a
Juan Orlando Hernández, ex-presidente de Honduras formalmente julgado e
condenado nos Estados Unidos por conspiração para tráfico de drogas em escala
industrial. O narcotráfico serve como narrativa
conveniente quando
é necessário demonizar adversários; torna-se irrelevante quando o réu é aliado
estratégico. A seletividade não poderia ser mais transparente.
A
justificativa humanitária é talvez a mais obscena das três. Uma administração
que oferece apoio militar, diplomático e
político incondicional ao genocídio israelense em Gaza – onde mais de
60.000 civis palestinos, incluindo mais de 18 mil crianças, foram mortos em
poucos meses – não possui qualquer credibilidade moral para invocar preocupação
humanitária. Ademais, as próprias ações militares dos Estados Unidos contra a
Venezuela – bombardeios que atingiram infraestrutura civil, bloqueio naval que
impediu importação de alimentos e medicamentos por muitos anos – agravaram
dramaticamente o sofrimento da população venezuelana que supostamente
pretendiam aliviar.
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A operação militar e suas repercussões regionais
A
sequência de eventos que levou ao sequestro de Maduro seguiu um roteiro
previsível de escalada coercitiva. Após meses de intensificação de sanções
unilaterais e ameaças cada vez mais explícitas, a administração Trump ordenou
bloqueio naval. Ele não sabe, mas foram o bloqueio naval e a intervenção
militar de Grã-Bretanha, Alemanha e Itália à Venezuela em 1902 que levou ao
corolário Roosevelt à Doutrina Monroe, como procurei mostrar em longo artigo
acadêmico que analisa o imperialismo dos EUA sobre a
América Latina entre 1898 e 1933. Como Trump, Theodore Roosevelt arrogou aos
EUA o direito exclusivo de tutelar o Hemisfério Ocidental, anunciando
publicamente a intenção de expulsar outros impérios militares e financeiros da
América Central e do Caribe. Trump imitou o padrão de intervenção militar da
chamada Diplomacia do Dólar do início do século XX também ao coordenar suas
forças especiais e da CIA com setores da oposição interna e militares
desertores, culminando no sequestro ilegal do presidente venezuelano em 3 de
janeiro de 2026.
As
declarações subsequentes de Trump foram sinceras: os Estados Unidos iriam
“administrar o país” e usar receitas petrolíferas para “pagar a operação
militar e reconstruir a Venezuela como deveria ser”. Não há dúvidas quanto aos
objetivos: controle direto sobre recursos estratégicos e reorganização do
Estado venezuelano segundo interesses imperiais.
As
repercussões regionais desta ação são profundas e perigosas. Cuba, Nicarágua e
Colômbia são os alvos mais prováveis em seguida. Trump já os ameaçou, e o
precedente venezuelano demonstra que tais ameaças não constituem mera retórica.
O regime comunista cubano, isolado após décadas de bloqueio e recentemente
enfraquecido por crises energéticas severas, pode estar com os dias contados. E
Gustavo Petro pode pagar por falar verdades em Nova Iorque e por representar
peça importante no dominó das esquerdas
latino-americanas que Trump quer demolir.
México,
Brasil e até potências ocidentais como Dinamarca (por conta da Groenlândia) e
Canadá encontram-se em alerta mediato. As ameaças de Trump contra a Groenlândia
não podem mais ser descartadas como provocações vazias.
É
claro, a América Latina não responde uniformemente à coerção imperial. A
Argentina de Javier Milei oferece contraexemplo instrutivo: o alinhamento
ideológico e estratégico total com Washington foi recompensado com pacote de resgate de US$ 40 bilhões. Este padrão de
recompensas e punições diferenciadas confirma a natureza explicitamente
transacional da nova estratégia hemisférica: países que aceitam subordinação
recebem apoio financeiro; aqueles que resistem enfrentam coerção crescente.
Contudo,
a resistência equatoriana a bases militares estrangeiras, confirmada em referendo popular em
novembro de 2025,
demonstra que a imposição da vontade de Washington enfrenta obstáculos mesmo em
países relativamente pequenos. A invasão da Venezuela, contudo, eleva
dramaticamente os custos potenciais da resistência, estabelecendo que os
Estados Unidos estão dispostos a empregar força militar direta quando
consideram seus interesses suficientemente ameaçados.
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Brasil, China e os limites do unilateralismo coercitivo
A
estratégia trumpista de subordinação hemisférica através de chantagem tarifária
e ameaça militar enfrenta, no entanto, limites estruturais significativos. O
caso brasileiro ilustra estas contradições de forma particularmente nítida.
Europa,
Japão e Coreia do Sul cederam rapidamente às demandas comerciais de Trump
devido à dependência militar em relação aos Estados Unidos, ou seja, foram
forçados a “pagar tributo para manter o império
americano”. Já
o Brasil manteve resistência relativamente bem-sucedida. Esta resiliência
deriva de vantagens estruturais específicas: a China consolidou-se como
principal parceiro comercial brasileiro há mais de uma década, absorvendo
parcela crescente das exportações de commodities; por causa disso, o Brasil
acumulou reservas internacionais substanciais que proporcionam margem de
manobra em crises cambiais; a diplomacia brasileira cultivou relacionamentos
alternativos através dos BRICS e outras plataformas multilaterais do Sul
Global.
A
campanha de Lula pela desdolarização, intensificada após sua visita à China em
abril de 2023, representa desafio direto ao instrumento fundamental de poder
estadunidense: o controle sobre o sistema monetário
internacional.
Propostas para liquidação bilateral de operações comerciais e cambiais em
moedas nacionais, discussões sobre moeda comum dos BRICS, e diversificação de
reservas internacionais retiram negócios de Nova Iorque e corroem gradualmente
a capacidade de Washington de empregar sanções financeiras como arma
geopolítica.
Esta
autonomia relativa do Brasil provoca irritação evidente em Washington.
Assessores de Trump revelaram publicamente que os Estados Unidos estão “muito
preocupados” com os BRICS e a desdolarização, identificando o Brasil como
problema particular.
A tentativa de forçar o Brasil ao alinhamento através de tarifas punitivas,
contudo, enfrentou o problema de que o mercado estadunidense, embora
importante, não é mais indispensável para a economia brasileira como fora em
décadas anteriores. O acesso a Wall Street ainda é indispensável, mas bloquear
o acesso brasileiro como forma de pressão aceleraria o que Trump quer evitar:
empurraria o Brasil para fora do mundo do dólar e em direção aos BRICS.
Os
limites mais fundamentais da “Donroe Doctrine”, porém, transcendem qualquer
país específico. Ocupações militares prolongadas são proibitivamente custosas,
como demonstraram Iraque e Afeganistão. Pesquisas de opinião nos Estados Unidos
indicavam que 55% da população se opunha à invasão
da Venezuela,
sugerindo que aventuras militares adicionais enfrentarão resistência doméstica
crescente, especialmente se produzirem baixas norte-americanas significativas
ou custos fiscais elevados.
Mais
importante, os Estados Unidos são incapazes de apresentar propostas de
desenvolvimento que rivalizem com as chinesas. Enquanto a estratégia de
Washington se baseia em condicionar acesso ao mercado consumidor à submissão
política e em brandir sanções como ferramenta punitiva, Pequim disponibiliza
obras de infraestrutura concreta, crédito paciente de longo prazo,
compartilhamento de tecnologias e mercados em expansão, tudo isso sem
exigências políticas onerosas. Esta assimetria nas ofertas de desenvolvimento
cria vantagem estrutural chinesa que tarifas punitivas e ameaças militares não
conseguem neutralizar completamente.
O risco
de blowback geopolítico também não deve ser subestimado. Cada
ação coercitiva dos Estados Unidos fortalece a narrativa chinesa de que
Washington representa ameaça à soberania do Sul Global, impulsionando países a
buscar proteção através de alinhamento mais estreito com Beijing. A invasão da
Venezuela fornece evidência dramática para este argumento, potencialmente
acelerando a formação de blocos e de alianças com a China que a estratégia de
Trump ostensivamente pretende prevenir.
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Os dados estão lançados: o precedente perigoso e a necessidade de resistência
coletiva
A
intervenção militar dos Estados Unidos na Venezuela e a captura de Nicolás
Maduro constituem violação flagrante do direito internacional e da Carta das
Nações Unidas. Independentemente de qualquer avaliação que se faça do governo
venezuelano, o princípio da não-intervenção militar unilateral representa
conquista civilizatória fundamental preparada pelo menos desde 1648 (Vestfália)
que não pode ser descartada sem consequências catastróficas para a ordem
internacional.
O
precedente estabelecido é seríssimo. Se os Estados Unidos podem invadir país
soberano, depor seu governo e assumir controle direto sobre seus recursos
naturais com base em justificativas tão transparentemente fraudulentas, nenhum
país está seguro se não tiver forças armadas dissuasórias ou alianças militares
fortes. A normalização de intervenções militares unilaterais destrói qualquer
pretensão de sistema internacional baseado em regras. O imperador fica nu. Por
isso, talvez a escalada militar revele mais fraqueza que força. Um hegemon
confiante em sua primazia econômica, tecnológica e cultural não precisa
recorrer a invasões militares para assegurar acesso a recursos ou mercados. A
disposição dos Estados Unidos de empregar força direta reflete a erosão de
formas mais sutis de dominação.
O
sequestro de Maduro enfraquece, mas não elimina o domínio do chavismo na
Venezuela. Tampouco resolve as contradições estruturais do declínio hegemônico
dos Estados Unidos. Os EUA não conseguem oferecer modelo de desenvolvimento
atrativo que compita efetivamente com a alternativa chinesa; não possuem
capacidade fiscal para financiar Marshall Plan hemisférico; não podem reverter
décadas de desindustrialização doméstica através de tarifas punitivas a
aliados. A imposição de controle militar direto sobre a Venezuela, se for
possível, pode garantir acesso ao petróleo venezuelano, mas não restaura a
centralidade dos Estados Unidos nas cadeias produtivas globais.
Alternativas
à subordinação existem, mas exigem coordenação política e coragem estratégica
por parte dos governos do Sul Global. O fortalecimento de plataformas regionais
como CELAC, UNASUL e BRICS oferece espaços institucionais para resistência
coletiva. Aprofundamento da integração econômica Sul-Sul reduz vulnerabilidade
à coerção econômica estadunidense. Diversificação de reservas internacionais e
desenvolvimento de sistemas de pagamento alternativos minam o poder das sanções
financeiras.
A lição
fundamental da invasão da Venezuela é que soberania isolada é vulnerável;
apenas coordenação coletiva pode contrabalançar o poder imperial. O desafio
para governos progressistas na América Latina e no Sul Global é transformar
indignação retórica em cooperação efetiva. O precedente foi estabelecido. O que
está em jogo é decisivamente histórico: os novos lances determinarão se o
século XXI será marcado pelo ressurgimento do imperialismo militar predatório
ou pela consolidação de ordem internacional genuinamente multipolar.
Fonte:
Por Pedro Paulo Zahluth Bastos, em Outras Palavras

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