Distribuição
do trabalho doméstico afeta saúde das mulheres
"O
que eles chamam de amor, nós chamamos de trabalho não pago." A frase
icônica da filósofa italiana Silvia Federici vai no ponto sobre como mulheres
passam muito mais tempo cozinhando, limpando, planejando e cuidando dos filhos
do que os homens. Um trabalho que, apesar de essencial, é desvalorizado na
sociedade.
Assim,
o casamento (para os fins deste artigo: entre uma mulher e um homem),
frequentemente enquadrado como uma fonte de estabilidade e saúde, tem deixado
muito a desejar nesse quesito.
A
ciência mostra que o resultado desses arranjos não é apenas um contingente de
mulheres exaustas. Mais de 20 anos de pesquisa apontam que a participação
desproporcional das mulheres no trabalho doméstico e mental não remunerado tem
consequências para sua saúde.
"É
importante falar sobre quanto trabalho 'invisível' e emocional as mulheres
realizam nas tarefas domésticas e nos papéis de cuidadoras", afirma Annie,
uma mulher na casa dos 40 anos que mora na Tailândia. "Essa 'carga mental'
muitas vezes não é reconhecida."
A maior
parte das tarefas domésticas recai sobre as mulheres por razões culturais, e
não por preferências pessoais, enfatiza o psicoterapeuta Ben Yalom. Ele se
dedica, assim como seu pai, o psiquiatra Irvin Yalom, a investigar as
complexidades das relações humanas.
"Grande
parte do desequilíbrio nos papéis de homens e mulheres [vem] de como somos
criados. Com os homens, há um certo tipo de treinamento de masculinidade do
qual geralmente não temos consciência", disse Ben Yalom.
As
mulheres, acrescentou, são treinadas para serem cuidadoras e emocionalmente
alertas. "E os homens, como resultado, não assumem esse papel, não
aprendem isso, o que é um problema."
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Carga mental das tarefas domésticas
Mesmo
quando ambos os parceiros trabalham, as mulheres carregam a maior parte da
carga mental, gerenciando horários, planejando refeições e organizando tarefas.
Pesquisadores descrevem isso como "trabalho cognitivo e emocional
invisível", que mantém uma casa – e a sociedade –funcionando.
Um
estudo realizado em 2023 na Suécia , envolvendo 14.184 adultos, descobriu que
as mulheres gastam quase o dobro do tempo em trabalho doméstico não remunerado
que os homens: cerca de 1 em cada 10 mulheres contra 1 em cada 20 homens
relataram fazer mais de 30 horas de trabalho doméstico por semana.
As
mulheres do estudo também eram significativamente mais propensas a apresentar
sintomas depressivos ou a serem diagnosticadas com depressão. A tensão de
gerenciar essa carga de trabalho é considerada uma das causas desse fenômeno.
Remi,
uma mãe que trabalha em tempo integral na Alemanha, relata que o desequilíbrio
começa quase inconscientemente. "Isso era normal para mim — trabalhar e
cuidar da casa."
Após
longos dias de trabalho, Remi disse que muitas vezes era ela quem cozinhava,
automaticamente. "Adoro cozinhar, mas às vezes isso pesa muito se não
tenho um dia bom."
Muitas
mulheres entrevistadas pela DW disseram ter percebido um padrão: seus maridos
muitas vezes só ajudavam quando solicitados.
No
início do casamento, Remi disse que se via constantemente lembrando o marido:
"Isso precisa ser feito, você pode fazer isso, por favor?" Esse
monitoramento "também faz parte do estresse que carregamos".
A
maternidade intensificou a sensação de desequilíbrio para Remi. "Você
acorda, se arruma, a criança depende de você — não do pai", disse,
acrescentando ainda que seu marido só intervinha depois que ela comunicava suas
necessidades.
Outros
dados de 2005 corroboram esse cenário. Pesquisadores acompanharam 128 pais de
primeira viagem, antes do nascimento de seus filhos e seis meses após o
nascimento. O estudo mostrou que, após o parto, a carga de trabalho doméstico
das mulheres aumentou drasticamente, enquanto a dos homens permaneceu
praticamente inalterada. As mães reduziram o tempo dedicado ao trabalho
remunerado para cuidar mais dos filhos e, como resultado, relataram menor
satisfação.
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Tornando o trabalho doméstico "visível"
A
psicóloga Ishita Pateria, que mora na Índia, trabalha com casais para tornar
tangível o que ela chama de "fardo oculto".
Pateria
frequentemente pede aos homens que assumam todas as tarefas domésticas por um
mês. "Isso os ajuda a cultivar empatia", disse ela. "No final do
mês, muitos parceiros masculinos começam a contribuir mais depois de ver a
carga de trabalho."
Um
artigo publicado em 2025 destacou a necessidade de abordagens como a de Pateria
para cultivar empatia em relação ao trabalho doméstico nos homens.
Mulheres
nos Estados Unidos e na Europa, incluindo a Itália, onde os pesquisadores
estavam baseados, realizavam, a maior parte do trabalho mental nas famílias.
Esse
trabalho mental estava associado a níveis mais altos de estresse, menor
sensação de satisfação e maiores efeitos na carreira das mulheres em comparação
com os homens.
Yalom
observou que muitos homens simplesmente não compreendem o trabalho mental que
as mulheres realizam: "Muitas vezes, um homem, em graus variados, nem
mesmo tem consciência das coisas que estão sendo feitas."
Mesmo
em lares onde ambos os parceiros trabalham, as mulheres muitas vezes assumem um
segundo turno invisível, e isso pode ter consequências reais para seu
bem-estar, estresse e saúde a longo prazo.
"As
mulheres se esforçam muito não apenas para cuidar de seus parceiros, mas também
dos filhos e da casa. É uma carga maior, um estresse maior. Mas o estresse
causa problemas de saúde para as mulheres", disse Yalom.
<><>Equilibrando
os relacionamentos modernos
Os
papéis econômicos nos relacionamentos mudaram nos últimos 20 anos, cada vez
mais equiparados. Mas as expectativas culturais não acompanharam essa mudança.
Para as
mulheres, o custo desse desequilíbrio é mensurável e grave, afetando a saúde
mental, os níveis de estresse e o bem-estar a longo prazo.
"As
expectativas patriarcais de 'autoanulação' [...], muitas vezes somos ensinadas
a amar através da autoanulação", disse Annie. Mas o amor, acrescentou ela,
é uma escolha, não uma obrigação.
Perceber
isso, disse Annie, "me ajudou a resistir à exaustão emocional e a
redefinir o cuidado além das expectativas patriarcais. Tenho certeza de que
odeio lavar roupa — prefiro contratar alguém para delegar essa tarefa".
Combinar
limites claros, como esses, com exercícios, como a abordagem de desenvolvimento
da empatia de Pateria, oferece um modelo para relacionamentos modernos: os
casais podem compartilhar conscientemente as responsabilidades emocionais e
domésticas para melhorar a equidade, a comunicação e o apoio mútuo.
Fonte:
DW Brasil

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