Feminicídios
sobem, mas falta verba para proteger mulheres
Depois
que a ex-namorada se recusou a reatar o namoro, Douglas Alves da Silva a
atropelou e arrastou pela Marginal Tietê, em São Paulo. A vítima teve as duas
pernas amputadas e morreu cerca de um mês depois. No Rio de Janeiro, João
Antônio Miranda Ramos, pedagogo do Centro Federal de Educação Tecnológica
(Cefet), matou a tiros duas colegas da unidade. Ele já havia sido denunciado
por assédio moral. Já em Santa Catarina, um homem foi preso depois de estuprar
e asfixiar uma pesquisadora numa trilha.
Os três
casos de violência contra mulheres que aconteceram em novembro passado causaram
comoção no país. As mortes engrossam as estatísticas de feminicídios no Brasil:
em 2024, foram 1.492 registros, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança
Pública, o maior número da série histórica.
Os
feminicídios são a ponta mais grave de um ciclo que começa com xingamentos,
humilhações e agressões. Outro relatório do Fórum, Visível e Invisível, mostrou
que 37,5% das mulheres haviam sido agredidas em 2024, o que inclui desde
ameaças a casos de estupro e espancamentos.
"Impedir
a violência é o maior desafio", diz a coordenadora da área de política
fiscal do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made/USP),
Clara Brenck. "Isso passa por uma mudança de pensamento sobre os papéis
sociais, e a política pública é capaz de influenciar essa percepção do que é
justo ou válido."
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Políticas afetadas
O
Ministério das Mulheres é a principal pasta do Executivo a concentrar ações e
recursos para políticas públicas de proteção às mulheres e combate à violência.
O Orçamento de 2024 autorizava R$ 256,4 milhões para três programas da pasta.
No entanto, segundo um levantamento do Instituto de Estudos Socioeconômicos
(Inesc), apenas 14,29% desse dinheiro foi gasto no mesmo ano, o que equivale a
R$ 36,6 milhões.
"Isso
é muito preocupante. Se não há execução orçamentária, significa que o recurso
não chega para que a política pública seja implementada. É como se ela sequer
existisse na prática", afirma Brencke. "Isso tem consequências
graves, pois acaba transferindo para a esfera privada a questão da proteção
contra a violência de gênero. Não vai atender todo mundo, e talvez quem mais
precise não tenha acesso."
O
recurso financia ações como o Ligue 180, a Casa da Mulher Brasileira, Centros
de Referência da Mulher e iniciativas de combate à violência e autonomia
econômica, por exemplo. Com a falta de recursos e baixa execução do orçamento,
os projetos ficam comprometidos.
Em
vários estados, a entrega de novas unidades da Casa da Mulher Brasileira, que
acolhe vítimas de violência, foi atrasada ou cancelada. Em Porto Alegre, por
exemplo, o terreno foi escolhido em julho do ano passado, mas a construção
ainda não começou. Atualmente, há 11 unidades em funcionamento no país, e
outras seis estão em obras.
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Desafios para executar verba
Uma das
dificuldades para efetivar o gasto planejado é a falta de articulação entre
governo federal, estados e municípios no uso do dinheiro. "Numa política
estruturada em um sistema, como é o SUS, os estados e municípios têm papéis
muito claros sobre o que fazer, então se executa o recurso mais rapidamente.
Mas a política para mulheres não é assim, depende de vontade política. Os
estados que querem investir, investem; outros, não", diz a assessora
política do Inesc, Carmela Zigoni. Ela acrescenta que todo o orçamento da pasta
é repassado aos governos e prefeituras por meio de licitações, editais e
convênios, o que torna os desembolsos mais lentos.
Outra
barreira para os gastos com políticas de proteção às mulheres seria o arcabouço
fiscal, segundo o Inesc. A medida limita o crescimento real das despesas do
governo. "Com isso, tem uma limitação do gasto social. Só que a população
continua crescendo, e a violência explodiu", afirma Zigoni.
Além
disso, boa parte do dinheiro destinado a essas políticas é oriundo de emendas
parlamentares. Em 2024, 64% dos recursos do Ministério das Mulheres foram
captados por esse mecanismo. A ferramenta permite aos parlamentares indicarem
como o governo federal deve alocar o dinheiro.
"O
impacto disso nas políticas públicas é que há o planejamento da ação, mas não
se sabe se vai ter dinheiro para custear, porque precisa passar o pires entre
os deputados, e cada um deles tem seus interesses e plataformas
políticas", explica Zigoni. "A previsibilidade orçamentária
acabou."
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Vai e vem de investimentos
As
ações de gênero ganharam espaço no orçamento federal em 2003, quando foi criada
a Secretaria de Políticas para Mulheres (SPM). A pasta obteve status de
ministério em 2010, com mesmo volume de recursos humanos e financeiros.
Em
2016, no governo de Michel Temer, a Secretaria das Mulheres foi transferida
para o novo Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial, da Juventude e dos
Direitos Humanos. Em seguida, sob o comando de Jair Bolsonaro, a pasta mudou de
nome e se fundiu a outras, se tornando o Ministério da Mulher, da Família e dos
Direitos Humanos.
Uma
nota técnica do Inesc aponta que essas mudanças resultaram em "uma visão
genérica sobre as mulheres [no orçamento], além de um explícito posicionamento
contra os direitos sexuais e reprodutivos". O documento descreve que, sem
recursos específicos para políticas para mulheres, não houve dinheiro alocado
para esse propósito. "O orçamento público é a ferramenta que torna reais
as políticas públicas".
"Na
medida em que se deixa de investir durante 4 anos em uma política pública, os
índices de violência explodem e não é da noite para o dia que irão
voltar", acrescenta Carmela Zigoni.
Foi só
em 2021 que a bancada feminina no Congresso determinou que o poder executivo
elaborasse, todos os anos, o relatório A Mulher no Orçamento, para medir a
eficácia dos gastos com políticas voltadas a esse público. A última edição foi
publicada em 2024, quando o Ministério das Mulheres foi recriado.
Para
este ano, está previsto um aumento de 14,8% no orçamento para políticas
voltadas a mulheres. "Apesar de ter aumentado o recurso, ainda é pouco.
Estamos lidando com orçamento de trilhões de reais, em que políticas como de
saúde e educação custam bilhões, pois são universais e estão em todos os
municípios, mas a política de mulheres continua em milhões", acrescenta.
O
Ministério das Mulheres é um dos que têm os menores orçamentos da Esplanada, no
patamar das pastas da Pesca e Aquicultura (R$ 273,2 milhões) e do
Empreendedorismo (R$ 270,4 milhões). A DW pediu um posicionamento do Ministério
das Mulheres sobre sua execução orçamentária, mas não recebeu resposta até a
publicação desta reportagem.
Diante
da dificuldade de se garantir que os investimentos em políticas públicas
reduzam a desigualdade entre homens e mulheres, a Organização das Nações Unidas
(ONU) elaborou o conceito de Orçamento Sensível a Gênero (OSG). A partir desse
modelo, todos os projetos tocados pelos governos deveriam considerar
estratégias para favorecer a equidade de gênero e carimbar recursos para essa
finalidade.
"Uma
política de gênero não é separada da política de renda, por exemplo. A dívida,
as receitas e despesas do país não estão separados da esfera social, porque
isso também afeta a economia. Por isso, tem que ser considerada na gestão do
orçamento e equilíbrio das contas", argumenta Clara Brenck.
Fonte:
DW Brasil

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