Doutrina
Donroe ou Frankenstein neoliberal?
Estamos
longe de ser especialistas em Venezuela e em relações internacionais. Mas os
acontecimentos que atravessaram a América Latina — porque é de América Latina
que se trata neste momento em que assistimos ao sequestro do presidente Nicolás
Maduro — no quadro da governamentalidade Trump 2.0, nos colocaram,
mais uma vez, diante da relação entre neoliberalismo e crise; e de uma
pergunta: ainda é neoliberalismo? O ataque militar Trump 2.0 à
Venezuela é orientado pelo espectro do neoliberalismo, classicamente entendido
como globalismo?
A
leitura do documento National Security Strategyof the United States of
America — que contém o Trump Corollary to the Monroe Doctrine,
ou simplesmente, Doutrina Donroe,e que fora publicado em novembro
de 2025 — parece indicar a complexidade dessas perguntas, que não podem ser
respondidas por meio de uma alternativa “sim ou não”. É um documento que
reestrutura a ordem internacional, desenhada a partir de 1945, no pós-Guerra,
para a centralização dos Estados Unidos na geopolítica, como nação forte e
respeitada, que garante a paz em todo o mundo — o America First (“America
is strong and respected again-and because of that, we are making peace all over
the world” — p.2 / “Os Estados Unidos estão fortes e novamente respeitados — e,
por causa disso, estamos promovendo a paz em todo o mundo”).
Estamos
longe de ser especialistas em Venezuela e em relações internacionais. Mas os
acontecimentos que atravessaram a América Latina — porque é de América Latina
que se trata neste momento em que assistimos ao sequestro do presidente Nicolás
Maduro — no quadro da governamentalidade Trump 2.0, nos colocaram,
mais uma vez, diante da relação entre neoliberalismo e crise; e de uma
pergunta: ainda é neoliberalismo? O ataque militar Trump 2.0 à
Venezuela é orientado pelo espectro do neoliberalismo, classicamente entendido
como globalismo?
A
leitura do documento National Security Strategyof the United States of
America — que contém o Trump Corollary to the Monroe Doctrine,
ou simplesmente, Doutrina Donroe,e que fora publicado em novembro
de 2025 — parece indicar a complexidade dessas perguntas, que não podem ser
respondidas por meio de uma alternativa “sim ou não”. É um documento que
reestrutura a ordem internacional, desenhada a partir de 1945, no pós-Guerra,
para a centralização dos Estados Unidos na geopolítica, como nação forte e
respeitada, que garante a paz em todo o mundo — o America First (“America
is strong and respected again-and because of that, we are making peace all over
the world” — p.2 / “Os Estados Unidos estão fortes e novamente respeitados — e,
por causa disso, estamos promovendo a paz em todo o mundo”).
Este
ensaio não propõe uma genealogia que responderia de forma definitiva à
complexidade dos dias atuais; ele visa apenas oferecer uma primeira incursão no
que pode se configurar como uma escalada do neoliberalismo com Trump
2.0. E essa escalada se manifesta pela virulência do niilismo do America
First: típico de uma torção discursiva imanente ao neoliberalismo
globalista que funde liberdade e autoritarismo, que rejeita os limites
institucionais e a autodeterminação dos povos em nome da centralização dos
Estados Unidos na geopolítica mundial. Ignora, assim, a relevância da Carta da
ONU na garantia da estabilidade e equilíbrio de poder entre os países. Essa
torção, que faz com que o neoliberalismo se funde ao autoritarismo, foi o que
Wendy Brown denominou como o Frankenstein do Neoliberalismo.
O caso
da Venezuela se encaixa nessa virulência niilista. Sabemos que a intervenção
dos Estados Unidos na região é conhecida, desde 2002, com a aprovação da
tentativa de golpe de Estado contra o então presidente Hugo Chávez.
De lá
para cá, a Venezuela vem sendo posicionada como ameaça à segurança nacional e à
política externa dos Estados Unidos. Em Trump 2.0, testemunhamos
a escalada desse niilismo, com a rejeição do artigo 2 da Carta da ONU e a
aplicação do Peace Through Strength desde junho de 2025: a
redução de Nicolás Maduro, de presidente da Venezuela a narcoterrorista
internacional, chefe do Cartel de Los Soles, ameaçador da segurança americana,
foragido e procurado pela justiça americana com recompensa de 25 milhões de dólares
pela captura; e a ação da força militar na Venezuela, de sequestro e prisão de
Nicolás Maduro. É essa centralização dos Estados Unidos na geopolítica que
justifica também a ameaça de anexação da Groenlândia para garantir a defesa
nacional e a invasão à Colômbia com uma nova redução no horizonte: a de Gustavo
Petro, presidente da Colômbia, a um homem doente, que gosta de produzir cocaína
e vendê-la aos Estados Unidos.
Para
construir essa primeira incursão no que pode se configurar como uma escalada do
neoliberalismo com Trump 2.0., com a virulência do niilismo
do America First, propomos destacar os eixos estruturantes da Doutrina
Donroe — ela substitui a Doutrina Monroe (“The Monroe Doctrine is a
big deal, but we’ve superseded it by a lot, by a real lot. They now call it the
Donroe document”/ “A Doutrina Monroe é algo muito importante, mas nós a
superamos — e muito, muito mesmo. Agora eles chamam isso de Documento Donroe”
— declaração de Donald Trump em 3 de janeiro de 2026): uma visão ampliada,
integrada e centralizada de poder, que articula segurança, liderança
tecnológica, economia, cultura, moral e identidade nacional. E que entendemos
estar organizada em oito eixos estruturantes:
- Redefinição do
conceito de estratégia nacional.
- Centralidade da
soberania, do nacionalismo e do America First.
- Segurança
nacional ampliada: fronteiras, economia e cultura.
- Economia no
fundamento da segurança nacional.
- Peace Through
Strength e
predisposição ao não-intervencionismo.
- Concorrência
estratégica com a China, Rússia e Irã.
- Organização
regional da estratégia global.
- Crítica às
elites e às ideologias contemporâneas.
<><>
I. Os eixos estruturantes da Doutrina Donroe
O
primeiro eixo do documento se refere à redefinição do conceito de
estratégia nacional à luz da crítica direcionada à política do pós-Guerra
Fria — caracterizada como difusa, idealista e divorciada dos interesses
nacionais concretos: ou seja, uma lista de desejos, platitudes vagas, que não
definem clara e objetivamente o que os Estados Unidos querem (p.5).
Essa redefinição está alicerçada em três perguntas: 1. O que os Estados
Unidos deveriam querer?; 2. Quais são os meios disponíveis
para alcançá-lo?; 3. Como podemos conectar fins e meios em uma estratégia de
segurança nacional viável?
Essas
perguntas mostram como a concepção de estratégia nacional deve se fundamentar
em uma posição clara a respeito do que os Estados Unidos querem para si e de
uma articulação precisa entre fins e meios, baseada em prioridades explícitas e
na limitação do escopo da ação externa. Tudo em nome do America
First e não da autodeterminação dos povos, defendida pela Carta da
ONU.
O que
nos leva diretamente ao segundo eixo estruturante da Doutrina
Donroe: centralidade da soberania, do nacionalismo — pilares do America
First.
O National
Security Strategyof the United States of America reafirma a soberania
nacional como princípio organizador da política externa e de segurança,
rejeitando o multilateralismo e as agendas globais (ambos considerados ameaças
à autonomia dos Estados). Sendo pilares do America First, a defesa
da soberania e do nacionalismo criam um muro de proteção contra tudo o que
representa uma ameaça existencial aos Estados Unidos, visando: garantir sua
continuidade como república soberana e independente; proteger a população, o
território, a propriedade intelectual, a economia e o american way of
life (por exemplo, a família tradicional americana) de ameaças
internacionais/globalistas; enfrentar as ameaças militares e não
militares (migrações em massa, espionagem, narcotráfico, influência
estrangeira, propaganda).
O que
nos leva, diretamente, ao terceiro eixo estruturante da Doutrina Donroe —
a segurança nacional ampliada: fronteiras, economia e cultura. É
importante destacar a centralidade tecnológica para as forças armadas,
tornando-a a mais avançada do mundo, com vistas à dissuasão de conflitos e a
vencer guerras de forma rápida e decisiva. Essa centralidade tecnológica se
manifesta na superioridade nuclear e no desenvolvimento de sistemas de defesa
antimísseis (incluindo o Golden Dome). Mas a defesa da soberania e do
nacionalismo compõe uma compreensão ampliada do que vem a ser a segurança
nacional, pois integra o enfrentamento às ameaças militares e não militares
externas à proteção da economia, do território e do american way of
life. Para isso, a segurança nacional ampliada deve cobrir: o encerramento
da era das migrações em massa; o controle total das fronteiras e das redes de
transporte; a defesa de liberdades fundamentais (especialmente, a liberdade de
expressão e de religião) em oposição a agendas, definidas no documento, como
elitistas ou tecnocráticas (principalmente, o multiculturalismo, as políticas
identitárias e de diversidade e a agenda climática e regulatória).
No
escopo da segurança nacional ampliada, chegamos ao quarto eixo estruturante da
Doutrina Donroe: a economia no fundamento da segurança nacional.
O
documento sustenta que a segurança econômica é a segurança nacional. Para isso,
é fundamental que a política econômica seja orientada pela lógica da segurança
nacional e se concentre: 1) na garantia de economia forte com uma política
comercial baseada na reciprocidade, tarifas e combate a práticas “predatórias”;
2) na proteção das cadeias produtivas e minerais críticos; 3) no fortalecimento
da indústria nacional, especialmente a vinculada à defesa; 4) na edificação do
setor energético como ativo geopolítico (energy dominance), inseparável
da rejeição à agenda climática global; 5) na associação direta entre
prosperidade econômica interna, poder global e capacidade militar.
Essa
associação direta nos conduz ao quinto eixo: Peace Through Strength e
predisposição ao não-intervencionismo.Ele não se reduz a um slogan militar;
mas se constitui como um princípio organizador da política externa americana,
em que a paz deriva da assimetria de poder claramente reconhecida, e não da
confiança em normas e instituições. Neste sentido, o eixo situa a força como
fundamento da dissuasão, ou seja, os atores estatais ou não estatais,
suficientemente dissuadidos, não ameaçam os interesses americanos. Para isso, a
Doutrina Donroe defende o forte investimento militar. Os princípios incluem: a
superioridade militar articulada à superioridade econômica, tecnológica,
nuclear e de propriedade intelectual; a capacidade de solucionar conflitos com
rapidez,evitando sua extensão por tempo indeterminado; realinhamento da
diplomacia para a força como condição para a paz; ênfase em burden-sharing,
ou seja, os aliados devem assumir maior responsabilidade por sua própria
defesa; articulação direta entre força externa e coesão interna por meio de
valores como meritocracia e confiança nacional, que garantem a unidade dos
Estados Unidos frente a comunidade internacional.
O Peace
Through Strengthnos conduz ao sexto eixo: concorrência econômica,
tecnológica e infraestrutural com China, Rússia e Irã (que fornece
armas e drones para países como Venezuela, que ameaçam a segurança do
território continental dos EUA). O documento destaca, ainda, a China como
principal concorrente no plano econômico, tecnológico e de inovação. O que nos
coloca no sétimo eixo: a organização regional da estratégia global.
Esse
eixo, na verdade, apresenta a reestruturação da ordem global a partir da
centralidade geopolítica dos Estados Unidos — com capilaridade na América
Latina. Segundo o documento, após anos de negligência, os Estados Unidos
reafirmarão e farão cumprir a Doutrina Monroe para restaurar a preeminência
americana no Hemisfério Ocidental, e para proteger os Estados Unidos e seu
acesso a geografias-chave em toda a região. Este “Corolário Trump” à Doutrina
Monroe é uma restauração do poder e da centralidade das prioridades americanas
em termos de segurança ampliada. Essa organização regional da estratégia global
exige uma avaliação crítica das elites e ideologias contemporâneas —
o oitavo eixo da Doutrina Donroe.
Trata-se
de um dos eixos estruturantes da Doutrina Donroe. O documento diagnostica que
as elites intelectuais, desde o fim da Guerra Fria, têm ficado aquém do
esperado, com listas intermináveis de desejos ou estados finais almejados; não
definiram claramente o que os Estados Unidos queriam; em vez disso, proferiram
platitudes vagas. Elites econômicas, políticas
e intelectuais teriam produzido um desvio estratégico profundo ao
calcularem muito mal a disposição dos Estados Unidos
em arcar para sempre com fardos globais, em relação aos quais o povo americano
não tinha sinergia alguma. O documento afirma que tais elites superestimaram a
capacidade econômica e política dos Estados Unidos de manter simultaneamente um
Estado administrativo expansivo e um complexo militar-diplomático global, além
de terem aceitado passivamente a transferência de encargos de defesa para os
EUA por parte de aliados. Associada a essa avaliação crítica, o documento situa
ainda a rejeição das ideologias contemporâneas. Em primeiro lugar, a ideologia
da diversidade, equidade e inclusão (DEI) — considerada tóxica aos valores dos
Estados Unidos — defende a reinstauração de uma cultura do mérito e da
competência. Em segundo lugar, a ideologia do transnacionalismo, que desloca o
centro decisório para além do Estado-nação e enfraquece a coragem, a força de
vontade e o patriotismo. Essa crítica às ideologias contemporâneas converge
para uma leitura mais ampla de declínio moral, cultural e político, em que a
perda de confiança nas tradições nacionais, na história e na identidade
civilizacional teria enfraquecido tanto a política interna quanto a projeção
internacional dos Estados Unidos.
A
primeira impressão, após a exposição dos oito eixos da Doutrina Donroe, é que
configuram uma escalada do neoliberalismo, fundindo liberdade e autoritarismo,
rejeitando os limites institucionais e a autodeterminação dos povos, em nome da
centralidade dos Estados Unidos na geopolítica mundial. Isso é feito por meio
do exercício unilateral de poder, legitimado por uma gramática moral esvaziada
de limites normativos — fusão essa denominada por Wendy Brown de Frankenstein do
Neoliberalismo. O traço distintivo da Doutrina Donroe reside nessa fusão
niilista da liberdade e do autoritarismo, que corrói a própria ideia de ordem
internacional, substituindo-a por uma geopolítica na qual a ausência de limites
institucionais deixa de ser exceção e se converte em princípio organizador da
política global no século XXI.
Fonte:
Por Por Claudia Henschel de Lima e Antonio José Alves Junior, em Outras
Palavras

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