Por
que ação de Trump na Venezuela divide mundo em zonas de influência e projeta
nova era global
A
operação de captura do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, por forças dos
Estados Unidos durou poucas horas, mas analistas avaliam que o ato poderá ter
consequências que vão bem além da América Latina.
Estamos
entrando em uma nova era global, em que grandes potências se sentirão mais
livres para intervir em outros países conforme seus interesses?
Como a
operação em Caracas será lida pela Rússia e pela China, países que também têm
buscado influenciar os rumos de nações vizinhas?
E quais
as consequências que a ação dos Estados Unidos podem ter para outros países
latino-americanos, como o Brasil?
Uma
doutrina citada pelo presidente americano Donald Trump horas após a captura de
Maduro parece dar algumas pistas sobre essas questões.
"A
Doutrina Monroe é importante, mas nós a superamos em muito", disse Trump
em uma coletiva de imprensa.
"Sob
nossa nova estratégia de segurança nacional, o domínio americano no Hemisfério
Ocidental nunca mais será questionado."
A
Doutrina Monroe leva o nome de James Monroe, quinto presidente da história dos
EUA, que governou entre 1817 e 1825.
No
documento publicado em novembro que detalha a nova Estratégia de Segurança
Nacional americana, o governo Trump diz que "os Estados Unidos reafirmarão
e farão cumprir a Doutrina Monroe para restaurar a proeminência americana no
Hemisfério Ocidental".
A
Doutrina Monroe foi concebida em uma época em que potências europeias ainda
mantinham várias colônias nas Américas — o Brasil, por exemplo, se tornou
independente de Portugal em 1822, durante a presidência de James Monroe.
Essa
doutrina enxergava o mundo a partir de "esferas de influência"
exercidas por diferentes potências. Monroe via a América Latina como uma região
que deveria ficar sob a influência dos Estados Unidos.
Por
isso, ele disse aos países europeus que encararia qualquer intervenção europeia
na América Latina como uma agressão contra os Estados Unidos. Em contrapartida,
Monroe se comprometeu a não intervir em conflitos na Europa.
Em
entrevista à rede CBS, o secretário de Estado americano, Marco Rubio,
justificou a operação na Venezuela usando uma expressão que remete às
"esferas de influência" da Doutrina Monroe.
"No
século 21, sob a administração Trump, não teremos um país como a Venezuela em
nosso Hemisfério, na esfera de controle e ponto estratégico do Hezbollah, do
Irã e de todas as outras influências malignas no país e no mundo", disse
Rubio.
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O Corolário Roosevelt e a política do 'grande porrete'
Com
base na Doutrina Monroe, os Estados Unidos fizeram uma série de intervenções em
países como Haiti, Nicarágua, Cuba e Colômbia a partir do século 19.
Mas foi
durante a presidência de Theodore Roosevelt (1901-1909) que a aplicação desta
doutrina alcançou outro patamar.
Roosevelt
argumentava que os Estados Unidos tinham o direito de exercer o papel de
"polícia mundial" para conter turbulências ou trocar governos de
países próximos que não estivessem alinhados com a Casa Branca.
Essa
interpretação mais ampla da Doutrina Monroe ficou conhecida como o Corolário
Roosevelt. E, coincidência ou não, um conflito na Venezuela esteve na origem
dessa política.
Em
1902, potências europeias ameaçavam invadir a Venezuela para exigir o pagamento
de dívidas e indenizações. Os Estados Unidos intervieram e evitaram que o
conflito evoluísse para uma guerra.
Por
outro lado, a partir desse episódio, a Casa Branca passou a reivindicar o
direito de agir para "estabilizar" países vizinhos endividados e
evitar a interferência de potências europeias na região.
O
governo Roosevelt também ficou conhecido por outra estratégia que teve grandes
implicações para países latino-americanos: a política do "grande
porrete" (ou Big Stick, em inglês).
Roosevelt
atribuía a expressão a um provérbio africano, ainda que a origem real da frase
jamais tenha sido confirmada: "Fale manso e carregue um grande porrete;
você irá longe".
Na
prática, a política consistia em usar força militar para impor os interesses
dos Estados Unidos. Uma das aplicações dessa política aconteceu durante a
construção do Canal do Panamá (1904-1914), quando os Estados Unidos enviaram
navios de guerra à região para garantir a execução da obra.
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Ditaduras militares
Décadas
depois, durante a Guerra Fria (1947-1991), houve uma nova onda de intervenções
dos Estados Unidos na América Latina.
Nos
anos 1960 e 1970, a Casa Branca patrocinou ou apoiou uma série de golpes de
Estado na região, inclusive o de 1964 no Brasil, que deu início a uma ditadura
militar que só acabou mais de 20 anos depois.
Ações
semelhantes ocorreram em países como Chile, Argentina e Uruguai, e resultaram
na instalação de regimes responsáveis pelo desaparecimento de milhares de
opositores, tortura generalizada e outras graves violações de direitos humanos.
Na
época, os Estados Unidos viam os regimes militares na região como uma barreira
contra a expansão do comunismo e do socialismo associados à União Soviética,
seu grande adversário na Guerra Fria.
A
possível retomada de políticas intervencionistas por parte dos EUA deixou
outros países e territórios em alerta.
Nos
dias seguintes à captura de Maduro, Rubio e Trump indicaram que Cuba, México,
Colômbia e a Groenlândia podem entrar na sua mira, embora não tenham detalhado
qualquer nova operação.
Cuba,
México e Colômbia são hoje comandados por governos de esquerda que condenaram a
operação de captura de Maduro — e já foram alvos de intervenções americanas no
passado.
Em uma
entrevista ao programa Today, da BBC Radio 4, o ex-conselheiro de segurança
nacional dos EUA Ben Rhodes disse que já via sinais da nova postura da Casa
Branca mesmo antes da intervenção na Venezuela.
Para
Rhodes, há um "retorno dos Estados Unidos à esfera de influência na
América Latina e em todo o Hemisfério Ocidental, onde, essencialmente, ele
[Trump] escolhe os líderes de que gosta e os de que não gosta".
Rhodes
cita os empréstimos que, sob Trump, os EUA concederam ao governo aliado de
Javier Milei, na Argentina, bem como o apoio que o republicano declarou a
"vários líderes autoritários latino-americanos, enquanto ameaça retomar o
Canal do Panamá e bombardear o México e a Colômbia".
O
ex-conselheiro compara o momento atual ao "período anterior à Primeira
Guerra Mundial, quando os Estados Unidos, da mesma forma que a Rússia
reivindica essa esfera de influência na antiga União Soviética, estão de volta
às operações de mudança de regime no Hemisfério Ocidental, o que não terminou
bem no passado".
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E o Brasil?
O
Brasil está em uma situação peculiar, segundo analistas.
Assim
como os líderes de Cuba, México e Colômbia, o presidente Luiz Inácio Lula da
Silva (PT) também criticou a operação na Venezuela: disse que os bombardeios e
a captura de Maduro "ultrapassam uma linha inaceitável" e
"lembram os piores momentos de interferência na política da América
Latina".
Mas, ao
mesmo tempo, Lula vinha tendo um bom momento na relação com Trump.
No ano
passado, Trump chegou a impor sanções contra o Brasil e a pedir a anulação do
julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro. Mas, depois de uma série de
conversas com Lula, o americano passou a elogiar o líder brasileiro e suspendeu
várias destas sanções.
Para
Silvio Cascione, diretor da consultoria Eurasia, a captura de Maduro pode
atrasar o processo de reaproximação — especialmente negociações nas áreas de
tarifas e minerais críticos, que são dois temas em que Lula e Trump vinham
dialogando.
Ele
cita outro ponto de atenção: uma possível decisão do governo americano de
classificar facções criminosas brasileiras como organizações terroristas. Trump
tem agido assim em relação a outros cartéis de drogas latino-americanos, como
fez com o Tren de Arágua, da Venezuela.
Cascione
diz que, se as facções brasileiras entrarem nessa lista, o risco não seria de
ações militares americanas contra o Brasil, mas sim de maiores pressões
financeiras e regulatórias sobre o país, algo que também pode complicar a
reaproximação, segundo ele.
O
analista lembra que este é um ano de eleição presidencial no Brasil. Em um
relatório recente, a consultoria Eurasia afirma que os EUA acompanharão de
perto o pleito brasileiro.
"O
risco mais significativo envolve potenciais reações dos EUA a ações do Supremo
Tribunal Federal brasileiro percebidas como politicamente tendenciosas contra
candidatos de direita", diz a consultoria no documento.
Segundo
a Eurasia, se o Judiciário brasileiro agir de forma agressiva contra candidatos
de direita, os EUA podem se sentir encorajados a apoiá-los.
Ao
mesmo tempo, a consultoria afirma que "qualquer resposta [dos EUA] que
seja vista como interferência flagrante ou indevida pode ter a consequência não
intencional de beneficiar a candidatura de reeleição de Lula".
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Rússia e China
Analistas
também apontam para possíveis consequências da operação na Venezuela que vão
bem além da América Latina.
Jeremy
Bowen, editor internacional da BBC News, escreveu um artigo dizendo que a ação
de Trump pode "criar um precedente para potências autoritárias",
referindo-se principalmente a China e Rússia.
Os dois
países eram aliados do governo Maduro, criticaram a operação dos Estados Unidos
e pediram a libertação do venezuelano.
Mas
Bowen afirmou que, mesmo condenando em público a atitude dos Estados Unidos,
China e Rússia podem considerar que a intervenção dá a eles uma brecha para que
também usem a força em suas vizinhanças.
Afinal,
"a operação contra Maduro também representa mais um golpe sério na ideia
de que a melhor forma de governar o mundo é seguir um conjunto de regras
acordadas, conforme estabelecido no direito internacional".
A
Rússia já vem usando a força para impor seus interesses desde que invadiu a
Ucrânia, em 2022 — e há temores de que possa realizar novos ataques contra
outras nações europeias no futuro.
A
China, por sua vez, pode avaliar que a ação americana na Venezuela legitima uma
intervenção chinesa em Taiwan, diz Bowen.
"Pequim
considera Taiwan uma província dissidente e já declarou que devolver o
território ao controle chinês é uma prioridade nacional", afirmou.
A
preocupação de que a operação na Venezuela encoraje Rússia e China a
iniciativas semelhantes foi citada pelo senador democrata Mark Warner,
vice-presidente do Comitê de Inteligência do Senado.
"Se
os Estados Unidos afirmam ter o direito de usar força militar para invadir e
capturar líderes estrangeiros acusados de conduta criminosa, o que impede a
China de reivindicar a mesma autoridade sobre a liderança de Taiwan? O que
impede Vladimir Putin de apresentar justificativa semelhante para sequestrar o
presidente da Ucrânia?", questionou o senador, que integra a oposição a
Trump.
"Uma
vez que essa linha é cruzada, as regras que contêm o caos global começam a
ruir, e regimes autoritários serão os primeiros a explorá-la."
Fonte:
BBC News Mundo

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