José
Raimundo Trindade: O império das guerras contínuas
Ingressamos
em um dos momentos mais críticos da história humana, superior mesmo a outros
momentos de brutalidade e barbárie característicos do extremado século XX. A
recente invasão da Venezuela pelo poder imperial dos EUA e a reatualização da
“Doutrina Monroe” nos coloca a necessidade de retomar a análise do significado
do imperialismo, não na percepção ampla, mas propriamente a compreensão do
império estadunidense, algo que faremos pela leitura e análise de um autor
brasileiro, trata-se da obra Formação do império americano: da guerra contra a
Espanha à guerra no Iraque”, de Luiz Moniz Bandeira.
A obra
de Moniz Bandeira foi publicada em 2005, sendo uma análise detida desse poder
imperial, sendo que a invasão do Iraque em 2003 foi um dos motivos do amplo
estudo desenvolvido pelo autor, sendo considerado uma das principais obras “das
últimas décadas a tratar da face obscura do império norte-americano”.
Ainda
na introdução da obra Moniz Bandeira (p. 27) retoma a apreciação de um dos
primeiros embaixadores brasileiros em Washington, Domício da Gama, que em 1912
já observava que os EUA não aceitavam “normas ou limitações jurídicas
internacionais”, o que que ele identificava como uma projeção de poder em que
“o duro egoísmo individual [transbordava em] egoísmo nacional”.
Essa
percepção, que remonta a mais de um século, parece ser cada vez mais pertinente
na atual configuração do imperativo imperialista estadunidense, sendo que mesmo
suas pretensas normas ou formulações somente são válidas no limite dos seus
próprios interesses. O texto que apresentamos retorna a obra de Moniz Bandeira
e insere elementos de análise para o atual momento.
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Teorias do imperialismo e os condicionantes do capitalismo histórico
Vale
aqui cinco inferências para o diálogo crítico com a atual realidade e do
alcance da compreensão dessa categoria, seja para tratar do caso estadunidense,
seja para estabelecer diferenciações em relação ao papel geopolítico das formas
históricas de imperialismo que predominaram naquele período batizado por Eric
Hobsbawm (1995) de “era dos impérios”:
(i) O
autor parte do pressuposto que a consolidação do poder estadunidense no século
XX demonstrou a ascensão de um “superimperialismo”, termo tomado de Karl
Kautsky que especulou em torno da possibilidade de uma certa forma de “evolução
do imperialismo”. Vale observar que a compreensão de Karl Kautsky sobre o
imperialismo se baseava sobretudo, como observa Moniz Bandeira (p. 41), no
“sistema de exportação de capitais para as regiões agrarias”, o que definiria
uma ordem de poder entre países desenvolvidos e subdesenvolvidos. O
superimperialismo seria uma resultante da capacidade da classe capitalista
estadunidense, após a segunda guerra mundial, de subordinar as demais classes
capitalistas nacionais, reduzindo-as à condição de clientes seus.
(ii)
Constitui análise comum aos diferentes “marxismos” que o imperialismo esteja
condicionado ao processo de concentração e centralização do capital apontados
por Marx (2013). Desse processo emerge, nos termos de Rudolf Hilferding (1985)
uma oligarquia financeira que controla pequenos e médios capitais,
subordinando-os aos grandes capitais.
Essa
oligarquia resulta em uma modificação dos papéis dos bancos, que deixam de
atuar como simples intermediários bancários e passam a financiar e controlar
grandes empresas, entrelaçando os interesses do capital bancário com o capital
industrial, fundamentalmente através da compra de ações de grandes empresas.
Essa fusão entre os capitais bancários e industrial constitui o principal
processo que origina o atual capital financeiro. Este, por sua vez, submete de
forma crescente a indústria e os demais setores da economia e do poder de
Estado, tornando-se hegemônico no processo de acumulação do capital.
(iii)
Na percepção de Vladímir Lênin (2011), em seu clássico opúsculo, o imperialismo
seria uma conformação estabelecida com base em cinco pontos, a saber: (a) a
exportação de capitais; (b) a produção e distribuição centralizada em grandes
empresas; (c) a fusão de “capital bancário” com “capital industrial” na forma
de “capital financeiro”; (d) a “disputa geopolítica entre as potências
capitalistas”; e (e) as guerras como fenômeno recorrente dessa disputa.
Vladímir Lênin afirma que a concentração da produção se conecta com uma fase
monopolista que será a fase superior do capitalismo, a qual será chamada de
“imperialismo”.
(iv)
Diferentes formulações sobre a configuração concorrencial no capitalismo são
estabelecidas, sendo que as posições opostas (Vladímir Lênin e Karl Kautsky)
quanto ao grau ou intensidade da disputa entre os capitais pode ser interposta
as diversas gradações, como tratado por Nikolai Bukharin (1990), por exemplo.
De
qualquer forma em termos da espacialização do capital, observa-se ao longo do
século XX diferentes conformações: desde a disputa entre Estados nacionais e a
conformação de blocos beligerantes e parcialmente integrados economicamente
como observado até a segunda década do século anterior; assim como a
constituição do poder de controle hegemônico estadunidense na segunda metade do
século XX, mesmo que circundada por parte da Europa ocidental e pelo Japão
submissos.
(v) Por
fim, deve-se teoricamente observar que imperialismo e dependência constituem
faces de uma única moeda. A dependência estaria fundada numa situação de
compromisso entre os interesses que movem as estruturas internas dos países
dependentes e as do grande capital internacional acoplados aos interesses
geoeconômicos da potência imperial. Isto implica que as estruturas que movem o
compromisso nos países dependentes internalizam em linhas gerais os interesses
dos monopólios internacionais e a divisão internacional do trabalho que lhe é
correspondente, o que limita fortemente o grau de autonomia de suas economias e
sociedades.
Esse
conjunto de elementos são fatores de fundo, na perspectiva de Moniz Bandeira
para análise compreensiva do desenvolvimento e consolidação do imperialismo
estadunidense.
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A formação do liberalismo de guerra e os dois conflitos mundiais
Ainda
antes da guerra de secessão (1860-1864) o capitalismo estadunidense já buscava
sua ampliação para além das restritas fronteiras da sua formação original: em
1854 o poderio naval dos EUA já estabelecia a “estratégia de Open Door, que se
tornou parte essencial de sua política exterior no século XX” (p. 40) mediante
a imposição aos japoneses da abertura de “portos aos comerciantes americanos”.
O
acelerado crescimento econômico foi em grande medida potencializado pela
solução de projeto nacional decorrente da guerra civil, mas que em meados do
século XIX foi impulsionado pela expansão da malha ferroviária e pela expansão
para o oeste, em grande medida financiado, como notou o próprio Marx (2013),
por dívida estatal.
O autor
(p. 43) observa que a “violência no Oeste se prolongou de 1850 até 1920” tendo
como centro a exploração do petróleo e a indústria ferroviária, o que gerou o
primeiro ciclo de oligarquias financeiras: “D. Rockefeller (petróleo) e Andrew
Carnegie (aço), conhecidos como robber barons”. De fato, o crescimento
econômico foi impressionante, sendo que em 1895 os EUA já eram a maior potência
industrial, com uma malha ferroviária de quase 280 mil quilômetros. A expansão
das fronteiras estadunidense e seu impulso colonialista foi avassalador: “de
1898 a 1903, os Estados Unidos anexaram formalmente o Havaí, Porto rico, Guam e
Filipinas, bem como se assenhorearam do istmo do Panamá”.
A
referida “Doutrina Monroe”, formulada em 1823 e que expressava a noção de
Jefferson de que a “América tem um hemisfério para si mesma”, foi aprofundada
em 1914 por Theodore Roosevelt e sua política do big stick, se tornando o
primeiro presidente imperial dos Estados Unidos: “havia alcançado influência
dominante no Caribe e na América Central e transformado sua Marinha na segunda
mais poderosa do mundo” (p. 55). Segundo anotou Nikolai Bukharin, integrando a
notação política de imperialismo com os fatores econômicos, os Estados Unidos
constituíam pela primeira vez na história do capitalismo “um vasto truste
capitalista nacional em visas de assimilar países e territórios, antes
dependentes da Europa” (p.67).
A
primeira guerra mundial ofereceu oportunidades formidáveis a expansão
imperialista estadunidense, tendo sido meticulosamente aproveitada. A indústria
norte-americana rapidamente se adaptou às necessidades bélicas das potências
europeias, fornecendo armas para o conjunto dos contendores: as exportações de
munições saltam “de US$ 40 milhões em 1914 (…) para US$ 1,3 bilhão, em 1916.
Mas o centro da expansão capitalista estadunidense ia além das formidáveis
exportações e conformação do complexo bélico-militar, o fluxo de “créditos e
financiamentos externos orienta-se para Nova Yorque e os Estados Unidos
rapidamente se transformam de devedores em credores da Europa”, assim de uma
nação devedora à Europa de “cerca de US$ 4 bilhões a US$ 5 bilhões (…) [passou
a ser] credor de US$ 11 bilhões” (p. 88).
O
cenário de poder imperial e sua consolidação impositiva parecia estar
totalmente estabelecida em 1920, vocacionando o “americanismo” a ser o grande
ditador do século XX.
Moniz
Bandeira ressalta um aspecto que será chave na consolidação do “americanismo”
do pós-Segunda guerra: nos “anos 1920, a difusão do laissez-faire foi o vetor
da política tanto interna quanto externa dos Estados Unidos” (p. 88),
compreensível que após o longo período protecionista e de isolacionismo que
marcou a construção e expansão econômica, agora, ao lado da continuada
“diplomacia dos canhões e do intervencionismo” aplicadas a América Central e
Caribe, se empenhavam em políticas liberais, estabelecendo, aos poucos, uma
cultura de “superimperialismo”, ou seja, um liberalismo bélico que se enunciava
como hegemon global do capitalismo do século XX.
A
década de 1930 será marcada por três processos contraditórios, mas interligados
na economia mundial:
O
primeiro movimento foi executado pela Alemanha nazista, cujo quadro de escassez
de divisas levou a uma política de acordos de compensação com diversos países,
sendo que a América Latina e, especialmente o Brasil e Argentina, foram
centrais para resolver a necessidade de “matérias-primas indispensáveis”.
Esses
acordos bilaterais foram considerados afrontosos a “Doutrina Monroe”, sendo que
o Império estadunidense atua no sentido de resguardar seu hemisfério, mas o
aprofundamento das relações comerciais entre a América Latina e a Alemanha eram
crescentes, sendo que a tratativa entre o governo Vargas, garantindo expressiva
exportação de bens primários e a importação vantajosa de manufaturados alemães
foi uma das características do período, como ressalta Moniz Bandeira (p. 103)
“essa competição, através de acordos bilaterais, constituiu, provavelmente, um
dos fatores que aguçaram o antagonismo dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha com
a Alemanha.
Um
segundo movimento envolveu duas forças antagônicas ideologicamente, mas cuja
lógica de interesses táticos acabou combinando um contraditório acordo,
trata-se do “Pacto Molotov-Ribbentrop”, assinado em 23 de agosto de 1939,
acordo firmado de não agressão entre a URSS e a Alemanha, algo que duraria
pouco, mas que deu oportunidade para recomposição bélica da antiga da URSS.
Vale
observar que a guerra entre Alemanha e URSS foi o front mais violento e
destrutivo, sendo que, como ressalta Moniz Bandeira (p. 132) “Roosevelt (…)
tratou de manter os soviéticos lutando contra as tropas de Hitler, e uma
segunda frente na Europa continental não foi aberta, apesar dos insistentes
apelos de Stalin”.
O
terceiro movimento envolveu especificamente o EUA e o Japão. Diversos autores e
analistas do processo prévio a segunda guerra afirmam que o Japão foi
claramente provocado pelos EUA. Assim o panfleto de quinze páginas publicado
pelo jornalista estadunidense John Flynnn acusava Roosevelt “de aguilhoar o
Japão para que desse o primeiro tiro”.
Esses
três movimentos analisados por Moniz Bandeira (p. 99-124) se vinculam a três
aspectos chaves daí decorrentes: (i) os EUA estavam desde o início envolvidos
no processo de conformação do conflito, estabelecendo uma estratégia liberal de
guerra que circundava a América Latina e a Ásia aos seus limitados interesses
econômicos e geopolíticos e; (ii) as relações ideológicas em torno da Alemanha
e URSS foram mais secundárias que principais na delimitação do processo de
abrangência da guerra e nas condições posteriores de desenvolvimento do
capitalismo; (iii) a delimitação de áreas de influência pareceu passar já desde
aquele período (1930) pelos interesses estadunidenses.
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O superimperialismo e a ordem do pós-Segunda guerra
A
segunda guerra definiu duas grandes áreas de influência (EUA e URSS),
estabeleceu uma base multilateral econômica sob hegemonia e coordenação dos EUA
(FMI, Banco Mundial, GATT) e a Organização das Nações Unidas e suas diversas
institucionalidades enquanto potencial instrumento de coordenação das disputas
bélicas ou de conflitos diversos.
Essa
engenharia social foi em grande medida estabelecida sob forte controle da
hegemonia estadunidense e durou enquanto a capacidade do imperativo
imperialista dos EUA se manteve, sendo que a crise e desestruturação deste
aparato, a partir de 1970 está em grande medida vinculado a perda de capacidade
do seu poder econômico global.
Vale
observar que o choque com a URSS foi quase instantâneo, sendo que a guerra fria
começou no exato momento em que a Alemanha foi tomada e dividida. Como observa
Moniz Bandeira (p.151): “(…) a política de containment do comunismo, que
implicava hábil e vigilante aplicação de contraforça [e também] requeria o
emprego de meios econômicos”, sendo o Plano Marshall uma política tanto de
contenção soviética quanto de estabelecimento do poder imperial estadunidense,
algo fortalecido militarmente com o estabelecimento da Organização do Tratado
do Atlântico Norte (OTAN) em 1949 e com a racionalidade estabelecida cujo
objetivo era “conter qualquer agressão da União Soviética (…) [entretanto]
possibilitou uma forma sofisticada de intervenção direta nos assuntos internos
dos países hospedeiros (…) e uma forma de desnacionalização de suas Forças
Armadas” (p. 176).
A
institucionalização das ações de intervenção encobertas da CIA se tornam um
aspecto chave da política internacional dos EUA, sendo que ainda sob Henry
Trumam, em dezembro de 1947, o “recém-criado National Security Council (…)
encarregou o diretor da CIA de promover guerra psicológica, dentro de um
sistema bipolar, que então se configurava [além de] realizar propaganda, guerra
econômica, ações preventivas diretas, incluindo sabotagem, demolição, medidas
de evacuação, subversão contra governos hostis (…)” (p. 163).
A CIA
constitui, como mostram os recentes acontecimentos na Venezuela e o sequestro
do presidente Nicolás Maduro, um fator institucional chave nas relações de
poder imperial e na organização da capacidade intervencionista estadunidense.
O
período logo após a guerra também marcou uma revitalização da Doutrina Monroe,
sendo celebrado ainda em 1947 o Tratado Interamericano de Assistência Recíproca
(TIAR) e criaram a Organização dos Estados Americanos (OEA), uma
institucionalidade que fundamentava o poder imperial no hemisfério e o
estabelecimento do “invólucro jurídico para arregimentar os países do
hemisfério, em caso de guerra contra a União Soviética” (p. 165).
Um
componente particularmente importante no processo de intervenção estadunidense
na América Latina tem seu processo de conformação no Oriente Médio, mais
especificamente no Irã. A CIA esteve por trás dos movimentos de deposição e
prisão Muhammad Mossadeq e execução das lideranças do Partido Comunista
Iraniano (Tudeh). Mossadeq tinha estabelecido um governo nacionalista,
inclusive com a nacionalização do petróleo.
Moniz
Bandeira (p.182) ressalta que “o uso de covert action pelos Estado Unidos (…)
serviu para outras experiências, particularmente na América Latina”, assim em
1954 operacionais da CIA e agentes das forças armadas estadunidenses produziram
guerra psicológica e intervenção na Guatemala, removendo o governo nacionalista
de Jacobo Arbenz e logo após atuaram secretamente para produzir uma “aguda
crise militar” que levou ao suicídio de Getúlio Vargas. O histórico de
intervencionismo, via patrocínio de golpes de Estado, atuação da CIA ou mesmo
intervenção militar direta em países da América Latina constitui um longo rol,
constituindo as mais importantes: Guatemala (1954); Cuba (1961); República
Dominicana (1965); Brasil (1964); Chile (1973); Granada (1983); Panamá (1989);
Venezuela (2000-2026), sequestro dos presidentes Hugo Chaves e Nicolás Maduro.
O
sistema firmado no pós-guerra foi estabelecido com base na capacidade de poder
imperial estadunidense. Um formato de “superimperialismo”, na tipificação
teórica de Karl Kautsky parece se estabelecer como clímax da ordem unipolar que
se estabelece com o fim da URSS, mas cuja origem se encontra ainda na derrota
da Alemanha, “cuja extraordinária expansão das forças produtivas chocou-se com
a relativa estreiteza do seu espaço econômico” (p. 765).
Como
assevera Moniz Bandeira (p. 768) a lógica e a racionalidade imperial dos EUA,
seu pretenso “Destino Manifesto”, se inscrevem na sua própria história,
anterior, inclusive aos acontecimentos que desenvolvem no século XX e XXI: “(…)
com a república presidencialista, projetada nos moldes da monarquia
constitucional (…), o que se implantou na América do Norte foi uma république
impériale, como Raymond Arondefiniu os Estados Unidos”.
Porém,
o século XX na sua segunda metade estabelece um poder liberal de Guerra cujo
centro determinante está a indústria bélica e seu amplo complexo industrial e
financeiro, um circuito econômico que impulsiona e impele às guerras
permanentes e, ao mesmo tempo, por serem “improdutivas”, leva a erosão da “base
econômica” (p. 778).
O
sistema de Bretton Woods foi uma formulação que organizou a institucionalidade
de poder imperial, sendo que o FMI condicionou os regimes fiscais dos Estados
nacionais subordinados, inclusive definindo os limites de desenvolvimento
desigual entre sociedades através da transferência de renda contínua da
periferia para o centro, base da lógica colonial ou de dependência.
O Banco
Mundial tinha a pretensão de estabelecer o financiamento de infraestrutura
social para nações. Isso, porém, nunca se deu. Diga-se, em relação às nações
latino-americanas, nunca houve financiamento de fato a infraestrutura e
desenvolvimento para nossas nações, sendo uma ilusão ideológica o discurso de
que foram capitais estadunidenses ou financiamento dessas instituições do poder
imperial responsáveis pela industrialização brasileira.
Diga-se
que essa ilusão é até hoje assumida, mesmo por segmentos de esquerda no Brasil.
Os EUA e suas instituições não tiveram nenhuma importância significativa no
financiamento da industrialização brasileira, muitos estudos demonstram isso e
o quanto essa ilusão de poder estadunidense se tornou um imaginário tão forte
entre os brasileiros. Moniz Bandeira (p. 198) reforça essa percepção a partir
da lógica liberal estadunidense, assim “os Estados Unidos tinham como política
recusar qualquer apoio governamental a empreendimentos econômicos nos países do
Terceiro Mundo e insistiam em free enterprise, free market e redução da
intervenção do Estado na economia”.
Essa
forma de intervenção política estabeleceu a imposição de regimes fiscais
contracionistas principalmente aos países latino-americanos, isso ao longo das
oito décadas do pós-segunda guerra e um mecanismo espoliativo baseado na
transferência de riqueza, seja via pagamento de elevados juros e serviços da
dívida pública, seja via os mecanismos de trocas desiguais, inclusive
promovendo “o liberalismo econômico através de autoritarismo político, de
governos militares, a serviço da comunidade dos homens de negócios” (p. 199).
O
sistema de Bretton Woods se exauriu ainda no século XX (1980), sendo o primeiro
momento da exaustão de toda lógica firmada no pós-Segunda Guerra Mundial,
inclusive a ordem geopolítica.
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Notas finais sobre a nova fase do imperialismo
Entramos
em momento muito críticos, sendo que quatro movimentos. Já apontados na obra de
Moniz Bandeira se integram neste ponto da conjuntura mundial:
(i) Se
recoloca a disputa entre potências estatais: China, Rússia, Índia, EUA e
Alemanha, em grande medida reacendendo elementos da análise do Imperialismo na
concepção de Lenin, por mais que o “superimperialismo” estadunidense e a
interpretação de Karl Kautsky ainda pareça ser bastante explicativa da atual
ordem. Aqui fica uma interrogação, que parece que logo se resolverá.
(ii) Um
potencial retorno a divisão entre áreas de influência de potências, sendo a
América Latina novamente subjugada a uma condição histórica de “exclusivo
metropolitano” dos EUA. O quanto se vislumbrará um quadro de resistência
constitui a interrogação neste caso.
(iii)
Não há mais a ordem estabelecida no pós-Segunda Guerra, configuração agora
colocada por uma nova disputa concorrencial entre capitais nacionais, muito
parecido com a lógica anterior à Primeira Guerra.
(iv) O
Brasil está na beira de um sistema já inexistente, sendo que sua capacidade de
exercício de poder soberano encontra-se tão limitado quanto nas vésperas da
Segunda Guerra Mundial, o que nos coloca em um dos momentos mais arriscados da
nossa vida enquanto sociedade nacional.
A obra
de Moniz Bandeira deve ser detidamente lida e refletida.
Fonte:
A Terra é Redonda

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