Luiz
Marques: Esperança sem otimismo
As
nações podem ser otimistas ou pessimistas, como as pessoas e as doutrinas
políticas. Para o professor de literatura inglesa da Universidade de Oxford,
Terry Eagleton, no ensaio Esperança sem otimismo: “Ao lado da
Coreia do Norte, os Estados Unidos são um dos únicos países do mundo em que o
otimismo é quase uma ideologia de Estado. Para amplos setores da população, ser
otimista é ser patriota; o negativismo é um delito de opinião. Mesmo no momento
de maior desespero, uma fantasia coletiva de onipotência e infinito assombra a
consciência nacional”.
Compreende-se
a receptividade ao apelo “Make America Great Again” (MAGA). O lema
explora um sentimento profundo. Não partilhá-lo implica abdicar do genuíno
patriotismo diante dos desafios da globalização. Não importa a responsabilidade
criminal de Donald Trump no ataque golpista ao Capitólio, sob o pretexto falso
de fraude eleitoral. Qualquer semelhança com os acontecimentos de Brasília,
aliás, não é mera coincidência.
Diferentemente,
no parecer de um mecenas da Semana da Arte Moderna de 1922 no Teatro Municipal
de São Paulo, a bússola de nossos afetos aponta para o pessimismo na Terra
brasilis. A saga melancólica é uma herança do estilo português de
colonizar, das etnias aqui mescladas, das atitudes daqueles que ocupam o
território, dos gestos de desconfiança dos habitantes originais.
Tal é a
tese do cafeicultor e escritor Paulo Prado, em Retratos do Brasil.
Na epígrafe do livro, lê-se a maldição que nos corrói a alma: “O japuru é a ave
que simboliza o Brasil. Tem uma estatura avantajada, pernas grossas, asas
fornidas e passa o dia com uma perna cruzada na outra, triste, triste, daquela
austera e vil tristeza”.
O
famoso quadro de Tarsila do Amaral, Abopuru, em tupi-guarani
“homem que come gente”, evoca a descrição acima para explicar o Movimento
Antropofágico e o método modernista de devorar e digerir influências culturais
estrangeiras. Tem que metabolizar.
A
indigestão das elites provoca o refluxo reprobatório e o ânimo moralista que
desqualifica o país e os brasileiros, confinados em trabalhos braçais. Como
lamenta o ditado, “Deus nos entregou uma natureza exuberante e um povinho
preguiçoso”. O eco da escravidão – casa grande e senzala, mando e obediência –
serve de ímã às imprecações dos de cima e às lágrimas dos de baixo.
O Norte
é elogiado pela poderosa unidade espiritual (ética protestante) e o espírito
empreendedor (economia da ganância). O Sul é um ajuntamento tribal dos órfãos
de virtudes cívicas, com um pé na selva e uma mão no extrativismo. A
descendência de colonos apáticos e submissos complementa o arrebatamento
erótico e a ambição desenfreada pelo ouro das minas gerais.
O
Narciso estadunidense exala o superotimismo dos EUA. Já o Malasartes
verde-amarelo, ora preso, reitera o desabono à pátria-mãe com piadas e
comentários vexatórios. “Chega de mimimi, bando de maricas”,
exclama la bête brésilienne para afastar a melancolia
paralisante com linguajar típico de rufião. O ódio à colônia é a marca a ferro
na subjetividade bolsonarista, que remonta às hierarquias rígidas e perversas
do período escravista.
O
otimismo peca pela ingenuidade e pela crença de que forças vulcânicas conspiram
para tudo dar certo, porque assim querem os astros e os deuses. Em calhamaços
de mais de mil páginas, se costuma prospectar Pasárgadas com a imagem suspensa
de uma infância esvanecida. A ilusão alivia frustrações causadas pelo
capitalismo e o neoliberalismo, sem atinar a sua superação.
“Pedimos
àqueles que virão depois de nós, não gratidão por nossas vitórias, mas a
lembrança das nossas derrotas”, reza uma vítima de circunstâncias trágicas para
quem existir se apresentava insuportável. Trata-se da prece ao vento que sopra
na tempestade, o consolo permitido em homenagem às gerações vencidas para
sublimar as ausências doídas numa canção em lá maior.
Os
sobreviventes mantêm acesa a memória para que a realização das promessas ainda
adiadas torne factível o começo de uma época distinta. As lutas subsequentes
honram a coragem dos caídos no campo de batalha, apunhalados pelos donos do
poder. O sacrifício não cancela as ações e os pensamentos que anunciam a
construção da nova sociedade, no horizonte todavia incerto.
A
esperança une o desejo à perspectiva em uma práxis política transformadora,
tece o continuum da história e promove a libertação social. A
brevidade da existência está condensada em três lições de sabedoria: (i) ser
consciente do tanto que já se viveu no passado; (ii) viver com intensidade e
consciência o presente; (iii) preparar-se sem medo para viver o futuro. Sonhar
é preciso.
O
programa organiza a experiência para alcançar o que ultrapassa o conhecimento
atual, a exemplo do que fazem os governos progressistas ao elaborar e
implementar políticas públicas para combater a alienação e as desigualdades. As
utopias concretas valorizam e energizam a cidadania e a democracia naquelas
decisões de interesse nacional e popular. Quem vai, quem vem.
O
princípio da liberdade é o alicerce. No filme Spartacus, de Stanley
Kubrick, o pirata pergunta ao líder dos escravizados se sabe que a revolta está
fadada ao fracasso. Espártaco responde: a luta dos escravos não se resume a
melhorar sua condição. Mesmo todos massacrados, a insurreição não ocorre em
vão. O ato terá manifesto um compromisso incondicional com a emancipação, qual
o heroico, imprescindível e desesperado Levante do Gueto de Varsóvia contra o
nazifascismo na Segunda Guerra Mundial.
Com
programa e princípios é possível se fechar em copas quando tudo se afigura
perdido, e retomar o fôlego. Conforme o poeta
espanhol Antonio Machado: “Todo pasa y todo queda / pero lo nuestro es
pasar, / pasar haciendo caminos, / caminos sobre la mar. // Caminante,
no hay camino, / se hace camino al andar”. O amanhã é uma vereda indeterminada,
onde os dias contribuem para montar um complexo mosaico do tempo e do espaço.
A
realidade exige muita resiliência aos reveses do destino. “A andar se hace camino / y al volver la vista atrás / se ve la senda
que nunca / se ha de volver a pisar”. Vamos disputar as eleições de 2026 para
avançar na direção de um socialismo participativo, democrático. Frente a
desafios coletivos, a esperança celebra uma vida mais interessante na mente e
no coração de cada mortal.
¨ Tiaraju Pablo
D'Andrea: Para evitar uma derrota histórica - O recado de Trump está dado
A
exploração e exportação do petróleo durante todo o século XX transformou a
Venezuela em um dos países com maior PIB da região. No entanto, a riqueza
oriunda do petróleo nunca foi distribuída no país. Os recursos ficavam nas mãos
da burguesia venezuelana, muito rica, que ia de jatinho passar os finais de
semana em Miami.
Essa
desigualdade provocou muita pobreza, com miséria no campo e surgimento de
favelas nas grandes cidades. No plano político, dois partidos da burguesia
dividiram o poder durante todo o século XX.
Em 1989
ocorreu o Caracazo, uma revolta popular que muda os rumos da
história. A revolta começou a partir de protestos espontâneos contra o aumento
da passagem de ônibus. Logo se transformou em levante popular contra a fome e a
miséria.
O então
presidente, Carlos Andrés Perez, reprimiu violentamente a população. Foi um
banho de sangue nas ruas e favelas de Caracas. Até hoje não se sabe o número
real de mortos. Algumas fontes dizem ser 300. Outras 1.500.
No
entanto, a repressão ao Caracazo causou uma divisão dentro do
exército. Muitos soldados afirmaram que não era papel das forças armadas atirar
contra o próprio povo. O saldo de mortes, somado à pobreza da maioria da
população, fez o descontentamento virar um movimento político dentro do próprio
exército, organizado por Hugo Chávez, então militar. Chávez passa a ser uma
figura política cada vez mais conhecida. Oriundo dos extratos populares, sabia
falar com a população e entendia seus desejos.
Em
1998, ganhou a eleição presidencial por primeira vez, assumindo no começo de
1999. Foi presidente da Venezuela até o dia da sua morte, em 5 de março de
2013. Várias vezes reeleito, Hugo Chávez foi um dos presidentes mais populares
da história da América Latina. Já em 2002 sofreu uma tentativa de golpe de
Estado. O povo foi às ruas exigindo sua libertação. Chávez voltou aclamado e
ainda mais forte.
Seus
anos no governo foram muito importantes para a América Latina e o mundo. No
plano interno, com total apoio popular, seu governo redistribuiu a renda do
petróleo. Ao invés de financiar a ostentação da burguesia, esse recurso foi
utilizado para uma série de políticas sociais. A educação melhorou. A saúde
melhorou. Ampliaram-se as políticas habitacionais. A produção de alimentos
aumentou e foi diversificada.
Outro
avanço importante deu-se no âmbito cultural. O governo da Venezuela criou
formas midiáticas e artísticas que valorizaram a cultura nacional e os povos
originários, além de politizar sua população. A burguesia venezuelana nunca
aceitou ter perdido o poder para o povo. Os Estados Unidos nunca aceitaram um
país verdadeiramente livre na América Latina, ainda mais com reservas de
petróleo.
Tendo
Simón Bolívar como grande exemplo, Chávez foi também o maior impulsionador da
unidade latinoamericana nas últimas décadas, liderando um processo que uniu
experiências de vários países: a Bolívia de Evo, a Argentina dos Kirchner, o
Uruguai de Pepe Mujica, o Paraguai de Lugo, o Brasil de Lula.
Infelizmente,
muitos governos da América Latina não souberam aproveitar as oportunidades que
a chamada “onda rosa” propiciou. Era necessário avançar muito mais em
organização popular do que o que foi de fato realizado. A história cobra seu
preço.
Após a
morte de Chavez, em 2013, Nicolas Maduro, então vice, assumiu o cargo de
presidente. De maneira evidente, com o passar do tempo, a experiência
bolivariana cometeu equívocos, dividiu-se internamente, sofreu desgastes.
Contudo, há que se lembrar que os mandatos de Maduro tiveram que lidar com o
aprofundamento das campanhas de desestabilização organizadas pelos EUA com
apoio da burguesia venezuelana.
Nos
últimos anos, intensificaram-se diversos bloqueios econômicos contra a
Venezuela, dificultando as condições de vida no país. No âmbito político,
diversas campanhas de desestabilização dentro e fora do país instituíram uma
narrativa falsa de que o país estava sob uma ditadura e que a miséria reinava.
Algumas
figuras da direita venezuelana foram cruciais nesse plano diabólico de
destruição do próprio país, dentre os quais Capriles, Guaidó e Corina Machado.
A burguesia venezuelana preferiu aliar-se a uma potência estrangeira contra o
próprio povo, tendo como objetivo retomar o poder que deteve durante todo o
século XX (a direita brasileira faz a mesma coisa).
Há
também que se ressaltar o papel vergonhoso da mídia corporativa do Brasil, que
amplificou as diversas mentiras que se contou sobre a Venezuela. A mídia
corporativa brasileira (e de outras partes do mundo) serviu como uma correia de
transmissão dos interesses do imperialismo estadunidense. Bajulação pura!
Mesmo
com tantas dificuldades, a experiência bolivariana perdura no tempo. Nesse
âmbito, as comunas são o grande pilar do poder popular na Venezuela. É no
bairro que as decisões são tomadas. É uma democracia direta que funciona de
baixo pra cima. Essa força popular será crucial no decorrer dos acontecimentos,
e toda periferia e favela no Brasil tem muito a aprender com a experiência
territorial das comunas venezuelanas.
O
segundo mandato de Donald Trump é marcado pelo terrorismo de Estado. De olho
nas reservas de petróleo e no ouro da Venezuela, cercou e atacou militarmente o
país, violando tratados internacionais e a própria Constituição dos EUA.
O
recado de Trump vem sendo dado há um tempo: sua política imperialista e
neocolonial não tem limites, e sua intenção é roubar riquezas naturais e
subjugar povos.
Faz-se
necessária uma reação potente dos BRICS e do que resta dos organismos
internacionais. O povo dos Estados Unidos também precisa pressionar
internamente. A Europa deve abandonar a vergonhosa posição que assumiu, de
subserviência total aos EUA.
Mais do
que nunca, os povos da América Latina devem se unir. A Venezuela é a
experiência mais avançada de soberania e verdadeira independência. Sua derrota
é também uma derrota histórica para a América Latina.
¨ O neoliberalismo
fracassou na América Latina. Por Emir Sader
A
última década do século passado foi amplamente neoliberal. Praticamente todos
os países, à exceção de Cuba, aderiram ao neoliberalismo, que aparecia como
algo inevitável. Dizia-se que todo governo sério tem, antes de tudo, que
colocar as finanças do Estado em dia.
Estaríamos
assim condenados a priorizar o ajuste fiscal. Colocar as finanças do Estado em
dia. Isto é, cortar recursos que passavam a ser considerados supérfluos e
negativos.
Nessa
lista estavam, claro, os gastos com educação, com saúde, com transporte
público, com infraestrutura, com estradas, com obras públicas em geral. Houve
governantes que suspenderam todas as obras públicas, não importando quais
fossem e onde estivessem e os danos que causassem, incluído o desemprego dos
trabalhadores.
O
prioritário passaria a ser o que o mercado dissesse que era prioritário, isto
é, o que a bolsa de valores dissesse que era prioritário. Como se o mercado
substituísse o Estado. Este era quem imprimia dinheiro, portanto fonte da
inflação. Estado mínimo se tornava um objetivo fundamental.
Terminar
com os investimentos estatais, com sua capacidade de regulamentação da economia
era combater os gastos supérfluos, era combater a inflação, tornado objetivo
prioritário de qualquer política econômica responsável.
A
América Latina mergulhou em um profundo processo recessivo, de aprofundamento
maior das desigualdades e da exclusão social, que sempre a caracterizaram ao
longo do tempo.
O
continente reagiu neste século, tornando-se nas duas primeiras décadas o
epicentro da luta contra o neoliberalismo. Contra a mercantilização da vida das
pessoas, contra a concepção segundo a qual tudo tem preço, tudo se vende, tudo
se compra.
Deu
muito errado. Hoje, quando chegamos ao primeiro quarto deste século, não há um
país da América Latina que tenha dado certo adotando políticas neoliberais. Dos
três mais importantes países do continente, dois vão bem, com políticas
antineoliberais: Brasil e México. E um vai muito mal com políticas neoliberais:
Argentina.
Simples,
mas absolutamente verdadeiro. Quais destes países promovem o crescimento
econômico e têm as taxas de desemprego mais baixas de suas histórias? Qual país
produz recessão e desemprego em massa? Quais desses países têm governantes com
prestígio e qual tem presidente desmoralizado?
O
fracasso do governo argentino é o fracasso do neoliberalismo na América Latina.
O sucesso dos governos do Brasil e do México é o sucesso dos governos
antineoliberais.
Fonte:
Outras Palavras/Brasil 247

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