Petróleo
e poder: Trump e Rubio querem interferir em toda América Latina, diz
pesquisador
Petróleo
ou poder? Esses dois aspectos ficaram evidentes na fala do presidente dos
Estados Unidos, Donald Trump, quando tentou justificar o ataque ilegal à
Venezuela e o sequestro de Nicolás Maduro durante o pronunciamento de quase uma
hora feito no sábado, 3 de janeiro, na Flórida. “Vamos reconstruir a
infraestrutura de petróleo, o que vai custar bilhões de dólares. Isso será pago
diretamente pelas empresas petrolíferas. Elas serão reembolsadas pelo que
estiverem fazendo, mas tudo isso será pago, e vamos fazer o petróleo fluir como
deveria […] Vamos vendê-lo. Provavelmente venderemos em volumes muito maiores,
porque eles produziam muito pouco devido à infraestrutura precária. Vamos
vender grandes quantidades de petróleo a outros países, muitos dos quais já o
utilizam, e muitos outros virão”, disse Trump, deixando esdruxulamente
explícito o interesse dos EUA – e das empresas petrolíferas – em entrar na
Venezuela. Além de falar quase 20 vezes a palavra petróleo (oil, em inglês)
Trump também sinalizou o que significa para os EUA destituir Maduro e decidir
como o país deve ser governado: “A Venezuela tem muitas pessoas ruins lá
dentro, muitas pessoas ruins que não deveriam liderar. Não vamos correr o risco
de uma dessas pessoas assumir o lugar de Maduro […] Precisamos de países
seguros ao nosso redor”, falou.
Para o
economista e co-diretor do Centro de Pesquisa Econômica e Política (CEPR), Mark
Weisbrot, essa dupla de palavras “petróleo e poder” explica o que motivou a
ação ilegal dos EUA na Venezuela, mas também serve para ilustrar as visões dos
dois homens que mais têm controle sobre a política externa dos EUA atualmente:
o próprio Trump e o secretário de Estado Marco Rubio. “Para Trump, trata-se de
petróleo. Mas, para Marco Rubio, a questão é muito mais a mudança de regime […]
E não se trata apenas de Cuba e Venezuela; eles querem transformar toda a
região”, explica, em entrevista para a Agência Pública. Weisbrot avalia que
Rubio é um dos principais defensores do projeto de que os EUA interfiram cada
vez mais em países da América Latina, sob a lógica da Doutrina “Donroe”, para
destituir adversários e manter apenas os governos que sejam subservientes a
Washington. Nesse plano, alvos prioritários seriam Cuba e Colômbia (cujo
presidente foi ameaçado diretamente por Trump), mas Brasil e México também
estão no radar – mesmo que seja improvável que os EUA atuem da mesma forma
nesses países como fizeram na Venezuela. “[Nas últimas décadas] Os Estados
Unidos lançaram esforços de mudança de regime contra quase todos os governos
social-democráticos, incluindo o Brasil […] Eles não querem que nenhum país
tenha poder. E isso também é verdade para [a relação dos EUA com] Lula. Eles
não gostaram que Lula não se alinhasse com seu projeto geopolítico, que é um
projeto de dominar todos os governos que eles possam”, analisa.
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Leia a entrevista completa a seguir.
• Na sua visão, qual é a motivação central
por trás do ataque dos Estados Unidos? É o petróleo? A geopolítica
internacional? Algum outro fator?
Para
Trump, trata-se de petróleo. Ele afirmou isso repetidamente… Mas para Marco
Rubio [secretário de Estado dos Estados Unidos], a questão é muito mais sobre
mudança de regime: ele vê essa mudança como um passo rumo ao seu sonho de toda
a vida de promover uma mudança de regime em Cuba. Essa operação de mudança de
regime na Venezuela já dura 25 anos; documentos do Departamento de Estado dos
EUA de 2002 reconhecem o papel substancial dos Estados Unidos no golpe daquele
ano [na época, uma tentativa fracassada de golpe tentou retirar o presidente
Hugo Chávez do poder]. E isso tem muito mais a ver com poder do que com
petróleo. E esses esforços de mudança de regime continuaram de forma
ininterrupta até hoje.
• Com as maiores reservas de petróleo do
mundo, o que de fato poderia mudar para os Estados Unidos, em termos de acesso
ao petróleo, caso se consolide uma mudança de regime na Venezuela?
Não
acho que vá haver muito interesse imediato por parte das empresas petrolíferas
americanas na Venezuela, porque a situação é instável demais, e o próprio
governo Trump é muito instável no que diz respeito ao que pode fazer a seguir.
• Por que os Estados Unidos não tentaram
negociar a questão do petróleo com Maduro, que desde o início disse que não
queria um conflito?
Trump e
seu enviado presidencial especial, Richard Grenell, de fato tentaram negociar a
questão do petróleo com Maduro; não está claro por que isso não teve sucesso,
mas é possível que a pressão contínua de Rubio por uma mudança de regime e
outras abordagens mais violentas façam parte da resposta. Houve uma grande
diferença entre Rubio e Trump nesse ponto. Trump estava interessado no
petróleo, e Rubio queria mudança de regime. E assim, segundo relatos da
imprensa, por exemplo, do New York Times – enquanto Trump oscilava entre tentar
negociar um acordo petrolífero com Maduro ou tentar derrubá-lo – Rubio parecia
estar, de acordo com relatos de pessoas que falaram com ele, tentando convencer
Trump de que a melhor forma de obter o petróleo seria por meio de uma mudança
de regime.
• O quão central é para os EUA de Trump
ter acesso a reservas adicionais de petróleo e gás?
Os
Estados Unidos são exportadores líquidos de mais de 800 milhões de barris de
petróleo por ano e, portanto, não precisam ter acesso ao petróleo venezuelano.
Mas Trump não aceita que o clima global esteja, de fato, mudando como resultado
dos combustíveis fósseis; por isso, por várias razões, ele busca aumentar a
produção de combustíveis fósseis nos Estados Unidos. Uma possível razão pela
qual o acesso ao petróleo venezuelano poderia ser importante para Trump: é
amplamente visto que Trump acumulou bilhões de dólares por ter sido presidente,
um fenômeno sem precedentes nos Estados Unidos. Assim, é concebível que Trump
veja o petróleo como mais um grande investimento que poderia beneficiar a ele e
à sua família.
• Para além do petróleo, quão importante é
para Trump afirmar influência na América Latina como parte de sua agenda
geopolítica? Como a Doutrina “Donroe” e o confronto com a influência chinesa
entram nessa ação?
Bem,
para Rubio isso é realmente importante. E não se trata apenas de Cuba e
Venezuela — ele e seus aliados na administração Trump e no Congresso querem
transformar toda a região. Cuba e Venezuela são apenas parte dessa
transformação.
É
importante lembrar que, no século 21, em determinado momento da primeira
década, a maior parte do Hemisfério Sul viveu sob governos de centro-esquerda,
em sua maioria social-democratas. Alguns eram conhecidos como socialistas, mas,
na prática, governaram como social-democratas. Economicamente, os governos de
centro-esquerda foram muito bem-sucedidos, reduzindo a pobreza na região de 44%
para 28% entre 2002 e 2013, após 20 anos sem nenhum avanço nesse campo. Não é
que o governo dos EUA fosse contra a redução da pobreza; ele simplesmente não
queria tolerar a independência nacional de que os governos latino-americanos
precisavam para produzir esses resultados. E isso é ainda mais verdadeiro hoje,
com pessoas como Rubio e Trump no comando. No século 21, os Estados Unidos
lançaram esforços de mudança de regime contra quase todos os governos
social-democratas da América Latina, incluindo o Brasil.
Lula
observou que o governo dos EUA trabalhou para ajudá-lo a ser preso em 2018,
para que não pudesse concorrer à Presidência naquele ano. Eles também ajudaram
e apoiaram o impeachment de Dilma. E eu poderia passar horas falando sobre
todos os governos democraticamente eleitos na América Latina que os EUA
tentaram derrubar apenas no século 21: incluindo o apoio a golpes de Estado que
removeram presidentes na Bolívia, em Honduras e no Haiti; e que tiveram um
enorme impacto negativo sobre democracias de centro-esquerda na Argentina, no
Paraguai e em outros países. Apenas algumas semanas atrás, eles inclusive
interferiram na eleição hondurenha [no fim de 2025], com Trump dizendo de forma
muito contundente que Honduras seria punida se o eleitorado não votasse no
candidato escolhido por Trump. É claro que a administração Barack Obama também
apoiou o golpe em Honduras em 2009. Mas a Venezuela tem sido o principal alvo
de mudança de regime na América Latina – e um dos principais alvos no mundo –
durante a maior parte dos últimos 25 anos, com algumas exceções, como a guerra
do Iraque. E o país pagou um preço horrível por isso em termos de morte e
sofrimento. As sanções dos EUA causaram a maior parte da pior depressão
econômica em tempos de paz da história, na Venezuela, com dezenas de milhares
de vidas perdidas apenas no primeiro ano das sanções de Trump, em 2017 e 2018;
e muito mais do que isso nos anos de 2018 a 2022.
Trata-se
de petróleo, mas muito mais de poder, porque a Venezuela, com 300 bilhões de
barris de reservas comprovadas de petróleo, sempre será um país com influência.
Em certo momento, na primeira década do século 21, ela estava fornecendo mais
ajuda externa a países da América Latina do que os Estados Unidos. E é isso que
o governo dos EUA não quer. Eles não querem que nenhum país tenha o poder –
sobretudo – de perseguir, especialmente em grupo, uma política externa
independente dos Estados Unidos. E isso também tem sido verdadeiro na relação
dos EUA com Lula. Eles não gostaram do fato de Lula não se alinhar ao projeto
geopolítico deles, que é um projeto de dominação de todos os governos que
conseguirem.
• Trump afirmou, em uma entrevista à Fox
News, que algo teria de ser feito em relação ao México, citando as atividades
de grupos de tráfico de drogas. Quanta realidade você vê nessa ameaça?
Bem,
Trump está ameaçando o México, não há dúvida quanto a isso; Rubio provavelmente
veria Sheinbaum como um problema, porque ela é uma presidente independente e
reconhece, assim como os outros governos independentes remanescentes da região,
o quanto a soberania nacional é importante. Novamente, trata-se de poder.
Portanto, eles não a percebem como alguém do lado deles, mas ela tem sido
cuidadosa em administrar sua relação com a administração Trump, e Rubio sabe
que uma operação de mudança de regime ali seria difícil e potencialmente muito
confusa. Ainda assim, eles ameaçaram realizar ações militares dentro do México,
e nunca se sabe quando podem considerar útil, para seus próprios objetivos,
fazer isso.
• O lobista do petróleo
Qualquer
análise sobre o atentado do último 3 de janeiro contra a Venezuela que ignore o
apetite histórico dos Estados Unidos pelo petróleo do país simplesmente não se
sustenta. É como fechar os olhos para o óbvio, já que por trás da retórica
agressiva e do desprezo explícito pelo povo venezuelano — a quem Trump chegou a
se referir como o povo mais feio do mundo — está a velha obsessão do país
imperialista pelo controle do petróleo.
Nos
últimos dias, Trump sequer se deu ao trabalho de sustentar os argumentos que
antes usava como verniz moral para suas investidas: a suposta falta de
democracia ou a alegada ligação do Estado venezuelano com o narcotráfico
praticamente desapareceram do discurso. O que ficou foi o blefe nu e cru sobre
saquear o petróleo venezuelano. Sem rodeios, sem disfarces.
Não é
coincidência. Trump é hoje o principal porta-voz do negacionismo climático no
mundo e teve sua campanha presidencial fartamente financiada por gigantes do
setor petrolífero dos Estados Unidos, como Energy Transfer, Continental
Resources e Hilcorp Energy. A elas se somam pesos-pesados como Exxon Mobil e
Chevron, empresas que perderam espaço quando a estatal PDVSA passou a ocupar o
centro da política petrolífera venezuelana.
Agora,
Trump presta contas a quem bancou sua campanha política. Ao prometer, em tom de
ameaça travestida de bravata, que a Venezuela entregaria até 50 milhões de
barris de petróleo aos Estados Unidos, ele não fala como estadista, mas como
lobista. O petróleo, mais uma vez, é o verdadeiro protagonista dessa história.
O
secretário de Estado de Trump, Marcos Rubio, entusiasta do golpismo na América
Latina, segue afirmando que há um plano de organização do país atacado, na qual
haveria uma fase de recuperação onde empresas de seu país teriam acesso ao
mercado venezuelano de forma… justa?
A
presidente interina de Venezuela Delcy Rodríguez, ameaçada por Trump para
cooperar com suas exigências, garante que o controle do país segue na mão do
governo chavista e que não há agentes externos nesse processo.
Enquanto
isso, no Oceano Atlântico, uma nova embarcação carregando petróleo da Venezuela
foi alvo de pirataria dos Estados Unidos. O agravante é que o navio, perseguido
por pelo menos duas semanas em rota marítima, havia adotado bandeira e escolta
dos russos. Em resposta, a Rússia acusou os Estados Unidos de violar o direito
marítimo.
A China
voltou a se pronunciar sobre o imbróglio, afirmando que os Estados Unidos
atentam contra os interesses do povo venezuelano e contra normas básicas das
relações internacionais. Já o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, que também
está na mira de Trump, disse que voltaria a pegar em armas caso os Estados
Unidos invadam seu país, e que camponeses se tornariam milhares de
guerrilheiros para defender a soberania nacional.
Os
países estão divididos entre defender ou rechaçar o atentado imperialista dos
Estados Unidos. E isso ficou claro na reunião da Organização dos Estados
Americanos (OEA). Enquanto Argentina, Equador, Paraguai e El Salvador
defenderam a intervenção estrangeira, Brasil, Chile, Colômbia, México e
Honduras se posicionaram pela soberania nacional venezuelana.
Nas
ruas de Caracas, mulheres se reuniram em marcha pedindo a libertação do
presidente Maduro e da primeira-dama e deputada Cilia Flores, sequestrados
pelos Estados Unidos no dia 3 de janeiro.
Fonte:
Por Bruno Fonseca, da Agencia Pública/Página do MST

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