quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Petróleo e poder: Trump e Rubio querem interferir em toda América Latina, diz pesquisador

Petróleo ou poder? Esses dois aspectos ficaram evidentes na fala do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, quando tentou justificar o ataque ilegal à Venezuela e o sequestro de Nicolás Maduro durante o pronunciamento de quase uma hora feito no sábado, 3 de janeiro, na Flórida. “Vamos reconstruir a infraestrutura de petróleo, o que vai custar bilhões de dólares. Isso será pago diretamente pelas empresas petrolíferas. Elas serão reembolsadas pelo que estiverem fazendo, mas tudo isso será pago, e vamos fazer o petróleo fluir como deveria […] Vamos vendê-lo. Provavelmente venderemos em volumes muito maiores, porque eles produziam muito pouco devido à infraestrutura precária. Vamos vender grandes quantidades de petróleo a outros países, muitos dos quais já o utilizam, e muitos outros virão”, disse Trump, deixando esdruxulamente explícito o interesse dos EUA – e das empresas petrolíferas – em entrar na Venezuela. Além de falar quase 20 vezes a palavra petróleo (oil, em inglês) Trump também sinalizou o que significa para os EUA destituir Maduro e decidir como o país deve ser governado: “A Venezuela tem muitas pessoas ruins lá dentro, muitas pessoas ruins que não deveriam liderar. Não vamos correr o risco de uma dessas pessoas assumir o lugar de Maduro […] Precisamos de países seguros ao nosso redor”, falou.

Para o economista e co-diretor do Centro de Pesquisa Econômica e Política (CEPR), Mark Weisbrot, essa dupla de palavras “petróleo e poder” explica o que motivou a ação ilegal dos EUA na Venezuela, mas também serve para ilustrar as visões dos dois homens que mais têm controle sobre a política externa dos EUA atualmente: o próprio Trump e o secretário de Estado Marco Rubio. “Para Trump, trata-se de petróleo. Mas, para Marco Rubio, a questão é muito mais a mudança de regime […] E não se trata apenas de Cuba e Venezuela; eles querem transformar toda a região”, explica, em entrevista para a Agência Pública. Weisbrot avalia que Rubio é um dos principais defensores do projeto de que os EUA interfiram cada vez mais em países da América Latina, sob a lógica da Doutrina “Donroe”, para destituir adversários e manter apenas os governos que sejam subservientes a Washington. Nesse plano, alvos prioritários seriam Cuba e Colômbia (cujo presidente foi ameaçado diretamente por Trump), mas Brasil e México também estão no radar – mesmo que seja improvável que os EUA atuem da mesma forma nesses países como fizeram na Venezuela. “[Nas últimas décadas] Os Estados Unidos lançaram esforços de mudança de regime contra quase todos os governos social-democráticos, incluindo o Brasil […] Eles não querem que nenhum país tenha poder. E isso também é verdade para [a relação dos EUA com] Lula. Eles não gostaram que Lula não se alinhasse com seu projeto geopolítico, que é um projeto de dominar todos os governos que eles possam”, analisa.

>>>> Leia a entrevista completa a seguir.

•        Na sua visão, qual é a motivação central por trás do ataque dos Estados Unidos? É o petróleo? A geopolítica internacional? Algum outro fator?

Para Trump, trata-se de petróleo. Ele afirmou isso repetidamente… Mas para Marco Rubio [secretário de Estado dos Estados Unidos], a questão é muito mais sobre mudança de regime: ele vê essa mudança como um passo rumo ao seu sonho de toda a vida de promover uma mudança de regime em Cuba. Essa operação de mudança de regime na Venezuela já dura 25 anos; documentos do Departamento de Estado dos EUA de 2002 reconhecem o papel substancial dos Estados Unidos no golpe daquele ano [na época, uma tentativa fracassada de golpe tentou retirar o presidente Hugo Chávez do poder]. E isso tem muito mais a ver com poder do que com petróleo. E esses esforços de mudança de regime continuaram de forma ininterrupta até hoje.

•        Com as maiores reservas de petróleo do mundo, o que de fato poderia mudar para os Estados Unidos, em termos de acesso ao petróleo, caso se consolide uma mudança de regime na Venezuela?

Não acho que vá haver muito interesse imediato por parte das empresas petrolíferas americanas na Venezuela, porque a situação é instável demais, e o próprio governo Trump é muito instável no que diz respeito ao que pode fazer a seguir.

•        Por que os Estados Unidos não tentaram negociar a questão do petróleo com Maduro, que desde o início disse que não queria um conflito?

Trump e seu enviado presidencial especial, Richard Grenell, de fato tentaram negociar a questão do petróleo com Maduro; não está claro por que isso não teve sucesso, mas é possível que a pressão contínua de Rubio por uma mudança de regime e outras abordagens mais violentas façam parte da resposta. Houve uma grande diferença entre Rubio e Trump nesse ponto. Trump estava interessado no petróleo, e Rubio queria mudança de regime. E assim, segundo relatos da imprensa, por exemplo, do New York Times – enquanto Trump oscilava entre tentar negociar um acordo petrolífero com Maduro ou tentar derrubá-lo – Rubio parecia estar, de acordo com relatos de pessoas que falaram com ele, tentando convencer Trump de que a melhor forma de obter o petróleo seria por meio de uma mudança de regime.

•        O quão central é para os EUA de Trump ter acesso a reservas adicionais de petróleo e gás?

Os Estados Unidos são exportadores líquidos de mais de 800 milhões de barris de petróleo por ano e, portanto, não precisam ter acesso ao petróleo venezuelano. Mas Trump não aceita que o clima global esteja, de fato, mudando como resultado dos combustíveis fósseis; por isso, por várias razões, ele busca aumentar a produção de combustíveis fósseis nos Estados Unidos. Uma possível razão pela qual o acesso ao petróleo venezuelano poderia ser importante para Trump: é amplamente visto que Trump acumulou bilhões de dólares por ter sido presidente, um fenômeno sem precedentes nos Estados Unidos. Assim, é concebível que Trump veja o petróleo como mais um grande investimento que poderia beneficiar a ele e à sua família.

•        Para além do petróleo, quão importante é para Trump afirmar influência na América Latina como parte de sua agenda geopolítica? Como a Doutrina “Donroe” e o confronto com a influência chinesa entram nessa ação?

Bem, para Rubio isso é realmente importante. E não se trata apenas de Cuba e Venezuela — ele e seus aliados na administração Trump e no Congresso querem transformar toda a região. Cuba e Venezuela são apenas parte dessa transformação.

É importante lembrar que, no século 21, em determinado momento da primeira década, a maior parte do Hemisfério Sul viveu sob governos de centro-esquerda, em sua maioria social-democratas. Alguns eram conhecidos como socialistas, mas, na prática, governaram como social-democratas. Economicamente, os governos de centro-esquerda foram muito bem-sucedidos, reduzindo a pobreza na região de 44% para 28% entre 2002 e 2013, após 20 anos sem nenhum avanço nesse campo. Não é que o governo dos EUA fosse contra a redução da pobreza; ele simplesmente não queria tolerar a independência nacional de que os governos latino-americanos precisavam para produzir esses resultados. E isso é ainda mais verdadeiro hoje, com pessoas como Rubio e Trump no comando. No século 21, os Estados Unidos lançaram esforços de mudança de regime contra quase todos os governos social-democratas da América Latina, incluindo o Brasil.

Lula observou que o governo dos EUA trabalhou para ajudá-lo a ser preso em 2018, para que não pudesse concorrer à Presidência naquele ano. Eles também ajudaram e apoiaram o impeachment de Dilma. E eu poderia passar horas falando sobre todos os governos democraticamente eleitos na América Latina que os EUA tentaram derrubar apenas no século 21: incluindo o apoio a golpes de Estado que removeram presidentes na Bolívia, em Honduras e no Haiti; e que tiveram um enorme impacto negativo sobre democracias de centro-esquerda na Argentina, no Paraguai e em outros países. Apenas algumas semanas atrás, eles inclusive interferiram na eleição hondurenha [no fim de 2025], com Trump dizendo de forma muito contundente que Honduras seria punida se o eleitorado não votasse no candidato escolhido por Trump. É claro que a administração Barack Obama também apoiou o golpe em Honduras em 2009. Mas a Venezuela tem sido o principal alvo de mudança de regime na América Latina – e um dos principais alvos no mundo – durante a maior parte dos últimos 25 anos, com algumas exceções, como a guerra do Iraque. E o país pagou um preço horrível por isso em termos de morte e sofrimento. As sanções dos EUA causaram a maior parte da pior depressão econômica em tempos de paz da história, na Venezuela, com dezenas de milhares de vidas perdidas apenas no primeiro ano das sanções de Trump, em 2017 e 2018; e muito mais do que isso nos anos de 2018 a 2022.

Trata-se de petróleo, mas muito mais de poder, porque a Venezuela, com 300 bilhões de barris de reservas comprovadas de petróleo, sempre será um país com influência. Em certo momento, na primeira década do século 21, ela estava fornecendo mais ajuda externa a países da América Latina do que os Estados Unidos. E é isso que o governo dos EUA não quer. Eles não querem que nenhum país tenha o poder – sobretudo – de perseguir, especialmente em grupo, uma política externa independente dos Estados Unidos. E isso também tem sido verdadeiro na relação dos EUA com Lula. Eles não gostaram do fato de Lula não se alinhar ao projeto geopolítico deles, que é um projeto de dominação de todos os governos que conseguirem.

•        Trump afirmou, em uma entrevista à Fox News, que algo teria de ser feito em relação ao México, citando as atividades de grupos de tráfico de drogas. Quanta realidade você vê nessa ameaça?

Bem, Trump está ameaçando o México, não há dúvida quanto a isso; Rubio provavelmente veria Sheinbaum como um problema, porque ela é uma presidente independente e reconhece, assim como os outros governos independentes remanescentes da região, o quanto a soberania nacional é importante. Novamente, trata-se de poder. Portanto, eles não a percebem como alguém do lado deles, mas ela tem sido cuidadosa em administrar sua relação com a administração Trump, e Rubio sabe que uma operação de mudança de regime ali seria difícil e potencialmente muito confusa. Ainda assim, eles ameaçaram realizar ações militares dentro do México, e nunca se sabe quando podem considerar útil, para seus próprios objetivos, fazer isso.

•        O lobista do petróleo

Qualquer análise sobre o atentado do último 3 de janeiro contra a Venezuela que ignore o apetite histórico dos Estados Unidos pelo petróleo do país simplesmente não se sustenta. É como fechar os olhos para o óbvio, já que por trás da retórica agressiva e do desprezo explícito pelo povo venezuelano — a quem Trump chegou a se referir como o povo mais feio do mundo — está a velha obsessão do país imperialista pelo controle do petróleo.

Nos últimos dias, Trump sequer se deu ao trabalho de sustentar os argumentos que antes usava como verniz moral para suas investidas: a suposta falta de democracia ou a alegada ligação do Estado venezuelano com o narcotráfico praticamente desapareceram do discurso. O que ficou foi o blefe nu e cru sobre saquear o petróleo venezuelano. Sem rodeios, sem disfarces.

Não é coincidência. Trump é hoje o principal porta-voz do negacionismo climático no mundo e teve sua campanha presidencial fartamente financiada por gigantes do setor petrolífero dos Estados Unidos, como Energy Transfer, Continental Resources e Hilcorp Energy. A elas se somam pesos-pesados como Exxon Mobil e Chevron, empresas que perderam espaço quando a estatal PDVSA passou a ocupar o centro da política petrolífera venezuelana.

Agora, Trump presta contas a quem bancou sua campanha política. Ao prometer, em tom de ameaça travestida de bravata, que a Venezuela entregaria até 50 milhões de barris de petróleo aos Estados Unidos, ele não fala como estadista, mas como lobista. O petróleo, mais uma vez, é o verdadeiro protagonista dessa história.

O secretário de Estado de Trump, Marcos Rubio, entusiasta do golpismo na América Latina, segue afirmando que há um plano de organização do país atacado, na qual haveria uma fase de recuperação onde empresas de seu país teriam acesso ao mercado venezuelano de forma… justa?

A presidente interina de Venezuela Delcy Rodríguez, ameaçada por Trump para cooperar com suas exigências, garante que o controle do país segue na mão do governo chavista e que não há agentes externos nesse processo.

Enquanto isso, no Oceano Atlântico, uma nova embarcação carregando petróleo da Venezuela foi alvo de pirataria dos Estados Unidos. O agravante é que o navio, perseguido por pelo menos duas semanas em rota marítima, havia adotado bandeira e escolta dos russos. Em resposta, a Rússia acusou os Estados Unidos de violar o direito marítimo.

A China voltou a se pronunciar sobre o imbróglio, afirmando que os Estados Unidos atentam contra os interesses do povo venezuelano e contra normas básicas das relações internacionais. Já o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, que também está na mira de Trump, disse que voltaria a pegar em armas caso os Estados Unidos invadam seu país, e que camponeses se tornariam milhares de guerrilheiros para defender a soberania nacional.

Os países estão divididos entre defender ou rechaçar o atentado imperialista dos Estados Unidos. E isso ficou claro na reunião da Organização dos Estados Americanos (OEA). Enquanto Argentina, Equador, Paraguai e El Salvador defenderam a intervenção estrangeira, Brasil, Chile, Colômbia, México e Honduras se posicionaram pela soberania nacional venezuelana.

Nas ruas de Caracas, mulheres se reuniram em marcha pedindo a libertação do presidente Maduro e da primeira-dama e deputada Cilia Flores, sequestrados pelos Estados Unidos no dia 3 de janeiro.

 

Fonte: Por Bruno Fonseca, da Agencia Pública/Página do MST

 

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