O
laboratório secreto onde o Google testa o computador mais poderoso do mundo na
corrida pela IA quântica
Parece
um enorme lustre dourado e abriga o lugar mais frio do universo conhecido.
O que
estou vendo não é apenas o computador mais poderoso do mundo, mas uma
tecnologia fundamental para a segurança financeira, o bitcoin (e outras
criptomoedas), segredos de Estado, a economia global e muito mais.
A
computação quântica detém a chave para determinar quais empresas e países
vencerão e perderão… o restante do século 21.
Diante
de mim, suspenso a cerca de um metro do chão, em uma instalação do Google em
Santa Bárbara (EUA), está Willow. Francamente, não era o que eu esperava.
Não há
telas nem teclados, muito menos capacetes holográficos ou chips de leitura
cerebral.
O
Willow é um conjunto de discos circulares do tamanho de um barril de petróleo,
conectados por centenas de fios de controle pretos, que descem até um
refrigerador de banho de hélio líquido de bronze. O sistema mantém o microchip
quântico a um milésimo de grau acima do zero absoluto — a temperatura de 273,15
°C negativos, em que a vibração de átomos e moléculas é paralisada.
A
aparência e a sensação remetem aos anos 1980. Mas, se o potencial da computação
quântica se concretizar, a estrutura metálica e cheia de cabos à minha frente,
semelhante a uma água-viva, poderá transformar o mundo de várias maneiras.
"Bem-vindos
ao nosso laboratório de Quantum AI", diz Hartmut Neven, chefe de Quantum
AI do Google, ao atravessarmos a porta de alta segurança.
Neven é
uma figura quase lendária: parte gênio da tecnologia, parte entusiasta de
música eletrônica. Ele se veste como alguém que teria acabado de sair de uma
pista de snowboard rumo a um festival de artes e música, como o Burning Man
(conhecido festival anual realizado no deserto de Nevada, nos EUA) — evento
para o qual, aliás, cria obras de arte. Talvez ele tenha mesmo vindo em um
universo paralelo. Mais sobre isso mais adiante.
A sua
missão é transformar a física teórica em computadores quânticos funcionais
"capazes de resolver problemas que hoje são insolúveis". Ele admite
ser parcial, mas afirma que esses "lustres" são os que apresentam
melhor desempenho no mundo.
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Templo secreto da alta ciência
Grande
parte da nossa conversa gira em torno do que não podemos filmar nesse
laboratório restrito. Essa tecnologia estratégica está sujeita a controles de
exportação, sigilo e ocupa o centro de uma corrida por supremacia comercial e
econômica. Qualquer pequena vantagem, do formato de novos componentes às
empresas que integram as cadeias globais de suprimentos, é fonte de alavancagem
estratégica.
Há um
clima tipicamente californiano nesse templo da alta ciência, perceptível nas
cores e nas obras de arte. Cada computador quântico recebe um nome, como
Yakushima ou Mendocino; todos são "envelopados" por peças de arte
contemporânea, e murais em estilo grafite decoram as paredes, iluminadas pelo
sol intenso do inverno.
Neven
mostra Willow, o mais recente chip quântico do Google, que atingiu dois marcos
importantes. Segundo Neven, o chip encerrou "de uma vez por todas" o
debate sobre se computadores quânticos conseguem realizar tarefas que
computadores clássicos não conseguem.
O
Willow também resolveu, em minutos, um problema usado como referência que
levaria 10 septilhões de anos; ou seja, mais de 1 trilhão de trilhões, um
número com 25 zeros no final, um período muito superior à idade do universo.
Esse
resultado teórico foi aplicado recentemente ao algoritmo Quantum Echoes,
impossível para os computadores convencionais, que ajuda a aprender a estrutura
de moléculas a partir da mesma tecnologia usada em aparelhos de ressonância
magnética.
Neven
enumera as formas como acredita que o chip quântico Willow será usado
"para ajudar a enfrentar muitos dos problemas que a humanidade tem
hoje".
"Ele
vai nos permitir descobrir medicamentos de forma mais eficiente", diz.
"Vai ajudar a tornar a produção de alimentos mais eficiente, a produzir
energia, a transportar energia, a armazenar energia… a enfrentar as mudanças
climáticas e a fome."
"Isso
nos permite compreender muito melhor a natureza e, a partir daí, desbloquear
seus segredos para construir tecnologias que tornem a vida mais agradável para
todos nós", afirma.
Alguns
pesquisadores acreditam que a verdadeira inteligência artificial só será
plenamente possível com a computação quântica.
Integrantes
da equipe que trabalha no laboratório receberam recentemente o Prêmio Nobel de
Física pelo trabalho original sobre "qubits supercondutores", a base
da tecnologia usada ali.
O chip
Willow tem 105 qubits. O projeto quântico da Microsoft conta com oito qubits,
mas adota uma abordagem diferente. A corrida global é chegar a 1 milhão de
qubits para uma "máquina em escala utilitária", capaz de realizar
tarefas como química quântica e desenvolvimento de medicamentos sem erros. A
tecnologia, no entanto, é frágil.
O que
acontece aqui está sendo acompanhado atentamente em todo o mundo. O professor
Peter Knight, presidente do conselho estratégico do Programa Nacional de
Tecnologias Quânticas do Reino Unido, afirma que o Willow abriu um novo
caminho.
"Todas
essas máquinas ainda estão, na prática, na fase de modelos de brinquedos; elas
cometem erros. Precisam de correção de erros. O Willow foi o primeiro a
demonstrar que é possível fazer essa correção, por meio de rodadas repetidas de
ajustes, com melhora progressiva", diz.
Isso
coloca a tecnologia em uma trajetória para ser escalada até executar com
precisão 1 trilhão de operações, possivelmente dentro de sete ou oito anos, em
vez das duas décadas que antes se supunham necessárias.
Se o
primeiro quarto deste século foi marcado pela ascensão da internet e, depois,
da inteligência artificial, os próximos 25 anos tendem a inaugurar a era
quântica.
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Como funciona?
Imagine
tentar encontrar uma bola de tênis em uma entre mil gavetas fechadas. Um
computador clássico abre cada uma, em sequência. Um computador quântico abre
todas ao mesmo tempo. Ou, de modo semelhante, em vez de precisar de cem chaves
para abrir cem portas na computação tradicional, a computação quântica permite
abrir as cem com uma única chave, instantaneamente.
Essas
máquinas não serão para todos. Não vão encolher a ponto de caber em celulares,
óculos de IA ou laptops. O ponto central é que o poder desses computadores
cresce de forma exponencial, e todo mundo quer participar.
Perguntei
ao CEO da Nvidia, Jensen Huang, se isso representa uma ameaça ao modelo da
empresa, baseado no fornecimento de chips especializados para IA.
"Não", respondeu. "No futuro, um processador quântico será
acrescentado ao computador."
Um dos
principais especialistas do Reino Unido destaca o que está em jogo no mundo
quântico: o poder potencial de descriptografar quase tudo, de segredos de
Estado ao bitcoin.
"Todo
o universo das criptomoedas também terá de ser reavaliado por causa da ameaça
da computação quântica", afirma Knight, do Programa Nacional de
Tecnologias Quânticas do Reino Unido.
Um
parceiro de destaque da Nvidia no ano passado disse que, embora o bitcoin ainda
tenha alguns anos de margem, a tecnologia precisará migrar para uma blockchain
— uma espécie de banco de dados descentralizado que usa criptografia para
registrar transações — mais forte até o fim da década.
Fontes
do setor de tecnologia usam a expressão Harvest Now, Decrypt Later
("Colher Agora, Decifrar Depois", em tradução livre) para descrever
como agências estatais estariam armazenando grandes volumes de dados
criptografados, internos e externos, com a expectativa de que gerações futuras
consigam acessá-los.
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Corrida global
E há
também a corrida global. A abordagem da China é muito diferente da disputa
comercial observada nos Estados Unidos e outros países do chamado Ocidente.
Segundo
Knight, do Programa Nacional de Tecnologias Quânticas do Reino Unido, o volume
total de recursos comprometidos com tecnologia quântica na China, cerca de US$
15 bilhões (aproximadamente R$ 82,7 bilhões), pode equivaler à soma de todos os
demais programas governamentais do mundo.
Desde
2022, a China publicou mais artigos científicos sobre computação quântica do
que qualquer outro país. Os esforços são liderados pelo físico pioneiro Pan
Jianwei e fazem parte central do 14º plano quinquenal de Pequim.
A China
decidiu impedir que empresas de tecnologia como Baidu e Alibaba desenvolvessem
suas próprias pesquisas em computação quântica, concentrando profissionais e
infraestrutura em uma iniciativa estatal. A estratégia chinesa busca vantagem
sobretudo em comunicações quânticas e satélites.
No ano
passado, Pan desenvolveu e testou o computador quântico Zuchongzhi 3.0, usando
tecnologia semelhante, embora com abordagem diferente, à do Willow, e afirmou
ter alcançado resultados comparáveis. No outono, o sistema foi aberto para uso
comercial. A sensação lembra o Projeto Manhattan da Segunda Guerra Mundial
(para vencer a Alemanha no desenvolvimento de armas atômicas) ou a corrida
espacial, agora, no século 21.
O Reino
Unido é um dos principais polos científicos em pesquisa quântica. Foi um
cientista britânico quem realizou os estudos originais sobre qubits
supercondutores.
O país
abriga dezenas de empresas e pesquisas de ponta, e o governo planeja anunciar
investimentos significativos nas próximas semanas. A tecnologia é considerada
vital para a economia, o uso militar e a geopolítica, com a ambição de que o
Reino Unido se torne a terceira potência nesse campo.
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Universos paralelos
De
volta ao laboratório do Willow, surgem questões ainda mais existenciais. No ano
passado, Neven sugeriu que a velocidade inédita do sistema daria respaldo a
algumas teorias sobre a existência de um multiverso. Em linhas gerais, a ideia
de que o Willow teria recorrido a universos paralelos para ampliar seu poder de
processamento. Nem todos os cientistas concordaram com essa teoria.
"Ainda
há um debate intenso", diz ele. "Como você viu na visita ao
laboratório, a razão de os computadores quânticos serem tão poderosos é que, em
um único ciclo de relógio, eles conseguem acessar 2 das 105 combinações
simultaneamente. Isso te faz questionar: onde estão todas essas
possibilidades?... Há uma versão da mecânica quântica que pensa nisso, a da
formulação de Muitos Mundos [MWF, na sigla em inglês], que fala em universos ou
realidades paralelas."
Neven
ressalta que o Willow não prova essa hipótese, mas considera que o resultado é
"sugestivo o suficiente para levarmos a ideia a sério".
Essa é
a fronteira mais avançada do mundo, da tecnologia, do crescimento econômico e
do poder global. O governo britânico deve investir centenas de milhões para
tentar alcançar o Willow e os avanços chineses. Soa como ficção científica, mas
está rapidamente se tornando um fato econômico.
Fonte:
Por Faisal Islam, editor de Economia da BBC News

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