Mpox
– a pandemia sobre a qual pouco se fala
O vírus
parece não representar grande ameaça, mas conseguiu se espalhar por todos os
continentes e, por definição, tornou-se uma pandemia. Novas variantes podem ter
efeitos ainda desconhecidos...
Durante
a pandemia de covid-19 , era comum ouvir: isso é só o começo. A cada grande
surto de gripe aviária , voltam algumas perguntas inquietantes: será que agora
vem a próxima pandemia? Teremos mais lockdowns, escolas fechadas e sistemas de
saúde em colapso?
Fabian
Leendertz afirma que sim, a próxima pandemia está entre nós, e já faz algum
tempo. Ele é diretor do Instituto Helmholtz para Saúde Única (HIOH) em
Greifswald, na Alemanha, onde pesquisadores estudam como a saúde humana, animal
e o meio ambiente interagem.
Zoonoses
são, por isso, um dos focos de pesquisa do HIOH. São doenças infecciosas que
podem ser transmitidas de animais para humanos e vice-versa, como o
coronavírus, a gripe aviária e a mpox – esta última, a pandemia em curso.
Pandemia
é a disseminação de uma doença infecciosa em grande escala, para vários países
ou continentes, com transmissão sustentada entre pessoas. Não se refere apenas
à gravidade da doença, mas à sua extensão geográfica.
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Esquilos são hospedeiros
A mpox
é causada pelo vírus MPXV e, apesar de ter sido chamada de varíola dos macacos
, é comum entre roedores da África Ocidental e Central, seus principais
hospedeiros.
O vírus
foi identificado pela primeira vez em humanos em 1970, em um bebê de nove meses
na República Democrática do Congo.
Leendertz
e sua equipe conseguiram rastrear, no Parque Nacional de Taï, na Costa do
Marfim, o caminho do vírus até chegar ao ser humano. Eles estudaram um surto de
mpox num grupo de macacos mangabei (Cercocebus atys), uma espécie típica da
África Ocidental.
Os
pesquisadores observaram – e até filmaram – esses primatas caçando uma espécie
de esquilo e se alimentando dos animais. Análises de fezes confirmaram a
suspeita: os esquilos estavam infectados com MPXV e transmitiram o vírus aos
mangabás. "Foi a primeira vez que alguém conseguiu mostrar como ocorre a
transmissão", diz Leendertz.
Tanto
os esquilos quanto os primatas são caçados por pessoas da região, vendidos em
mercados de animais silvestres e consumidos como alimento. Assim, o vírus chega
até nós.
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Transmissão ocorre principalmente pelas mucosas
Felizmente,
a infecção pelo MPXV costuma ser leve. Mas pode ser perigosa – e até fatal –
para crianças pequenas, gestantes e pessoas com comorbidades. A doença se
caracteriza por lesões cutâneas infecciosas, como bolhas, pústulas e feridas. O
vírus é transmitido de pessoa para pessoa pelo contato físico próximo.
Existem
duas variantes genéticas principais do vírus, chamadas clados: o clado 1
(África Central) e o clado 2 (África Ocidental). Cada um se subdivide em 1a,
1b, 2a e 2b. Foi o clado 2b que, em 2022, se espalhou pelo mundo e transformou
a mpox em pandemia. Esse surto global acendeu o alerta e direcionou a pesquisa
para uma questão: como o vírus se dissemina?
Julia
Port, líder de grupo no Centro Helmholtz de Pesquisa em Infecções, estuda as
vias de transmissão do MPXV. Ela desenvolveu um modelo experimental com um
roedor africano. "Observamos que esses animais podem ser infectados pela
pele e pelas vias respiratórias, mas principalmente pelas vias retal e
vaginal."
Segundo
Port, as mucosas dessas regiões oferecem as melhores condições para a
replicação do vírus, inclusive em humanos. "As lesões aparecem com
frequência na área genital", explica, o que aumenta a probabilidade de
transmissão sexual.
As
lesões cutâneas podem ser muito dolorosas, e o líquido presente nas bolhas e
nas crostas é altamente infeccioso. Ainda assim, os cientistas se dizem
aliviados por a mpox não se espalhar de outra forma.
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Transmissão aérea é improvável
"Após
o surto de 2022, a comunidade científica se perguntou qual era o potencial do
MPXV para transmissão aérea", diz Port. Um vírus que se espalha por tosse,
espirro ou respiração pode se disseminar rapidamente e é difícil de conter –
como mostrou o coronavírus.
Até
agora, não há evidências de que isso ocorra com o MPXV, segundo o Instituto
Robert Koch. A transmissão por aerossóis a longas distâncias também parece
improvável.
"O
surto global de 2022 foi praticamente contido com medidas comportamentais e
vacinação", afirma Port. Uma medida simples e eficaz: evitar contato
físico próximo.
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Comportamento humano como gatilho
Como os
vírus estão sempre em mutação, é possível que alguma subvariante do MPXV evolua
para algo que leve o mundo a novos lockdowns. O MPXV também sofre mutações, mas
"não há provas concretas de que alguma delas aumente a
transmissibilidade", diz Port.
O vírus
parece não representar grande ameaça, por isso pouco se fala dele. Ainda assim,
conseguiu se espalhar por todos os continentes e, por definição, tornou-se uma
pandemia. Julia Port ressalta que isso ocorreu sem grandes mudanças no vírus. O
motivo? Humanos e animais – e também humanos entre si – estão cada vez mais
próximos, criando oportunidades para o contágio.
É aí
que entra o projeto One Health de Leendertz, na Costa do Marfim. Identificar
quais animais funcionam como reservatórios do vírus é só o começo. O próximo
passo é dialogar com as comunidades locais e alertá-las sobre os riscos do
contato com certas espécies.
No
melhor cenário, isso leva a mudanças de comportamento. Não podemos controlar
como um vírus muda, mas podemos controlar como lidamos com os animais. Essa
pode ser, em muitos casos, a melhor forma de prevenir pandemias.
No caso
da mpox, há vacinas disponíveis que ajudam a prevenir a doença e a reduzir o
risco de formas graves. Esses imunizantes foram desenvolvidos originalmente
para a varíola (que foi erradicada) e depois aprovados para uso contra mpox,
uma vez que os vírus são do mesmo grupo.
Fonte:
DW Brasil

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