Quando
o uso de maconha vira excessivo? Estudo define limite
Pesquisa
mediu consumo em unidades de THC, análogo às doses de álcool, e encontrou
quantidade semanal a partir da qual o risco de desenvolver transtornos aumenta
significativamente...
Um
estudo publicado na revista da Sociedade para o Estudo da Dependência Química
nesta segunda-feira (12/01) estimou qual é a dose semanal de maconha a partir
da qual há um aumento significativo do risco de desenvolver transtorno por uso
de cannabis (TUC).
Estima-se
que 22% dos consumidores de maconha em algum momento sofrerão de TUC. O
transtorno ocorre quando alguém não consegue mais controlar adequadamente o uso
da maconha, apesar dos problemas evidentes na vida cotidiana. Normalmente, os
compromissos com a escola, o trabalho ou a família são negligenciados, e
ocorrem sintomas de abstinência, como inquietação ou distúrbios do sono, quando
se tenta parar de consumir a droga.
A
pesquisa chefiada pela psicóloga e pesquisadora de dependência química na
Universidade de Bath, no Reino Unido, Rachel L. Thorne, definiu que cada
unidade de tetrahidrocanabinol (THC), responsável pelos efeitos psicoativos da
maconha, equivale a 5 miligramas. O objetivo foi ter uma medida análoga à usada
para medir o consumo de doses de álcool.
O
estudo concluiu que o consumo de 6 unidades de THC (30 mg) por semana por
adolescentes e 8,3 unidades por adultos (41,3 mg) é suficiente para o
desenvolvimento de sintomas de TUC. Caso o consumo seja superior a 6,45
unidades (32,2 mg) por adolescentes e 13,4 unidades (67 mg) por adultos, há
risco de transtorno moderado a grave.
"Este
artigo representa o que acreditamos ser a primeira tentativa de determinar os
limites de risco de TUC por unidades padrão semanais de THC consumidas",
afirmam os pesquisadores, que reconhecem que outros fatores, além da frequência
e quantidade, também podem aumentar o risco de um indivíduo desenvolver
sintomas de TUC.
Ao
contrário do álcool, a maconha contém muitos ingredientes ativos cuja interação
influencia seus efeitos e riscos. Embora o THC seja o fator de risco mais
importante, outros canabinoides e o método de consumo – baseados, vaporizadores
ou comestíveis – alteram significativamente a dose e os efeitos.
Mesmo
assim, os resultados indicam que o consumo diário de um baseado é o suficiente
para o desenvolvimento de TUC em qualquer idade, diz o estudo. Outras pesquisas
estimaram que um baseado médio tem cerca de 7 mg de THC.
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Diferentes doses para adolescentes e adultos
Para
chegar a essa conclusão, os pesquisadores usaram dados do estudo CannTeen, com
85 adolescentes (16 e 17 anos) e 65 adultos (26 a 29 anos) que haviam consumido
maconha de forma regular no ano anterior.
O
referido estudo entrevistou os usuários cinco vezes ao longo de um ano, e ao
final desse período fez um diagnóstico clínico de TUC.
A
amostra é pequena, com um total de 150 pessoas, e o teor real de THC dos
produtos consumidos teve que ser estimado a partir de fontes externas, pois não
havia análises laboratoriais das amostras individuais consumidas.
No
entanto, a sensibilidade dos limites de consumo definidos em todos os modelos
pela pesquisa publicada nesta segunda-feira demonstrou ser alta, capaz de
identificar corretamente 9 em cada 10 indivíduos com TUC.
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A controvérsia sobre estabelecer limite do consumo
Os
valores limite não substituem a análise médica para o diagnóstico e tratamento,
mas podem ajudar na triagem inicial e mesmo orientar consumidores, defendem os
pesquisadores.
Os
números devem, portanto, serem entendidos mais como orientações iniciais do que
como limites rígidos, mas confirmam que quanto maior a ingestão semanal de THC,
maior o risco de desenvolver um transtorno por uso de cannabis.
"Essas
descobertas podem ajudar no desenvolvimento de diretrizes de menor risco para o
uso de maconha, para ajudar aqueles que usam maconha e desejam reduzir o risco
de danos, optando por consumir menos THC do que os limites semanais", diz
a pesquisa.
Ou
seja, com o estabelecimento de limites de consumo, especialistas podem avaliar
melhor o risco ou identificar um distúrbio emergente mais cedo. No entanto, o
texto destaca que apenas a abstinência é "segura" quando se trata de
evitar desenvolver TUC.
"Os
valores limite são geralmente muito úteis para comunicar os riscos para a
saúde", afirma Jakob Manthey, do Centro de Pesquisa Interdisciplinar sobre
Dependência do Centro Médico Universitário de Hamburgo-Eppendorf (UKE).
"[Mas também leva ao] perigo de que o consumo abaixo do limite seja
interpretado como inofensivo ou mesmo benéfico para a saúde", conclui ele,
que não participou do estudo.
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Consumidores desconhecem teor de THC
Um
problema central continua sendo a aplicação prática desses limites: muitos
consumidores não sabem o teor de THC de seus produtos, especialmente no caso de
cultivo doméstico ou fontes ilegais.
"Com
as regras atualmente em vigor, não haverá uma comunicação nacional das unidades
de THC, pois os consumidores muitas vezes não têm uma maneira confiável de
saber o teor de THC dos produtos disponíveis", diz Manthey.
O
neurofarmacologista britânico David Nutt, no entanto, considera que os
resultados da pesquisa são um passo importante. Os dados oferecem "uma
estimativa de um limite para o consumo semanal para minimizar o risco de
dependência", enfatiza. Ele defende um mercado regulamentado de maconha
com unidades de THC claramente rotuladas – semelhante ao álcool. Só assim os
consumidores podem realmente controlar seus riscos.
As
unidades de THC propostas poderiam, portanto, esclarecer a discussão até então
vaga sobre qual o limite do uso "alto" ou "arriscado" da
maconha.
• Maconha pode comprometer fertilidade da
mulher, diz estudo
Mulheres
que desejam ter filhos deveriam deixar de consumir cannabis. Esta é a conclusão
de um estudo que analisou a influência da planta, e especialmente do THC –
substância psicoativa contida na erva –, sobre a fertilidade feminina e a
fertilização in vitro.
Isso
porque, segundo os pesquisadores, o consumo de maconha prejudica o
desenvolvimento e a estabilidade dos óvulos, com possíveis efeitos sobre a
fertilidade feminina.
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Estudo investigou efeito do THC sobre os óvulos
Na
fertilização in vitro (FIV), óvulos são fertilizados por espermatozóides em
laboratório, fora do corpo humano. Os cientistas pesquisaram tanto os efeitos
do THC sobre óvulos humanos isolados mantidos em laboratório quanto os
resultados da FIV em pacientes com THC detectado dentro do líquido que envolve
o óvulo dentro do ovário – um sinal de que a mulher consumiu cannabis antes ou
depois do procedimento.
O
estudo foi conduzido por uma equipe do CReATe Fertility Centre, da cidade
canadense de Toronto, junto com pesquisadores da Universidade de Toronto e de
outras instituições. Participaram do estudo 1.059 mulheres em processo de FIV,
das quais 62 haviam sido testadas positivamente para THC.
Nas
pacientes com resultado positivo para THC, foram analisadas as taxas de
maturação dos óvulos, de fecundação e de desenvolvimento de blastocistos. O
blastocisto é o estágio de desenvolvimento que se implanta no útero e é
particularmente importante para uma gravidez bem-sucedida.
Além
disso, o estudo analisou possíveis erros na divisão celular e a probabilidade
de que um embrião apresente um conjunto cromossômico saudável (euploidia). Um
conjunto cromossômico defeituoso (aneuploidia) é frequentemente a causa de
abortos espontâneos.
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Maconha prejudica o desenvolvimento e a estabilidade genética dos óvulos
O
resultado foi claro: pacientes com resultado positivo para THC tinham uma taxa
significativamente mais baixa de embriões euploides – e tinham, portanto, menor
probabilidade de gerar embriões saudáveis e ter uma gravidez bem-sucedida.
Embora
os óvulos dessas pacientes amadurecessem no ovário mais rápido e com maior
frequência, elas claramente tinham menos embriões com uma taxa saudável de
cromossomos (60% contra 67% do grupo livre de THC), e, portanto, menores
chances de parir uma criança saudável.
No
laboratório, a presença de THC levou a mais erros na distribuição de
cromossomos e a uma formação defeituosa da estrutura do óvulo. Especialmente em
doses mais altas de THC, foram observadas com muito mais frequência
malformações do fuso mitótico, o que pode levar a abortos espontâneos ou
distúrbios no desenvolvimento.
As
análises genéticas realizadas no âmbito do estudo sugerem que o THC altera a
atividade de genes no óvulo responsáveis pela distribuição correta do material
genético durante a divisão celular. O THC também influencia genes que controlam
a matriz extracelular – uma rede de proteínas e outras moléculas que estabiliza
as células e é importante para a implantação e o desenvolvimento do embrião.
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Idade pode ter influenciado resultados
Os
resultados sobre o fuso mitótico foram avaliados como muito importantes pelo
professor Artur Mayerhofer, do Centro de Biomedicina de Munique (BMC, na sigla
em alemão), que não participou do estudo. Mas ele também fez críticas à
pesquisa: "Falhas do fuso mitótico também aumentam com a idade da mulher.
Isso não foi levado em conta – o número de casos é muito pequeno para uma
estatística relevante."
Opinião
semelhante foi emitida pelo médico Wolfgang Paulus, diretor do Centro de
Aconselhamento para Toxicologia da Reprodução no Hospital Universitário de
Saúde da Mulher em Ulm, na Alemanha, que também não participou do estudo.
"Pacientes que querem ter filhos e recorrem à FIV são em média mais velhas
e têm mais problemas genéticos, razão pela qual frequentemente a gravidez não é
bem-sucedida. Possivelmente o THC provoca em mulheres jovens, sem grandes
problemas genéticos, menos efeitos no que diz respeito à reprodução."
Por
isso, segundo Paulus, é preciso outros estudos que investiguem os efeitos do
THC em mulheres de diferentes idades.
Outro
ponto elencado pelo médico é a falta de dados precisos sobre "os hábitos
de consumo de cannabis, por exemplo frequência, momento, dosagem e modo como
foi consumido".
Apesar
dos achados importantes, o efeito exato do THC segue incerto, pontua
Mayerhofer. "Investigações em um tipo de célula – como aqui em oócitos em
um contexto clínico de fertilização in vitro – fornecem apenas informações
limitadas sobre um efeito sistêmico e, portanto, sobre o 'significado no
cotidiano'", disse, acrescentando que estudos futuros também deveriam
investigar "fatores de influência não considerados, como o consumo de
outras drogas".
Fonte:
DW Brasil

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