quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Vladimir Safatle: O sequestro de Maduro e a terceira onda colonial

Entre 1884 e 1885, as principais potencias ocidentais se reuniram em Berlim para decidir como elas partilhariam o território africano entre si. O evento foi conhecido como “Conferência do Congo”. Não faltaram discursos edificantes sobre tirar tais países da servidão, do atraso a fim de trazer o progresso e a liberdade. O resultado final foi a consolidação de uma segunda fase do processo colonial europeu, que durou até os anos setenta do século passado, quando as coloniais portuguesas na África, as últimas pertencentes a uma potencia europeia, enfim se libertaram. Durante esse quase um século, os africanos e asiáticos conheceram bem o que o “progresso e a liberdade” europeus efetivamente significavam. Saque de suas riquezas, genocídios, massacres administrativos, humilhação colonial. Nada muito diferente do que eles haviam feito séculos antes nas Américas, neste momento em que, pela primeira vez, o direito europeu se impôs como direito global.

Para quem imaginava que essa lógica abertamente colonialista e imperial havia ficado para os livros de história, o dia 03 de janeiro de 2026 está aí para desmentir. Pois poderíamos o recente ataque dos EUA a Venezuela é apenas a coroação definitiva de uma nova época colonial, a terceira que se abre diante de nós, depois da “descoberta” das Américas e da “incursão civilizatória” na África, com as velhas palavras grandiosas e cínicas de sempre.

Acuado diante de uma crise do capitalismo global que simplesmente não passará mais, os EUA entenderam que o momento histórico exigia uma redivisão do globo a partir das principais potências nucleares a fim de permitir o retorno das práticas mais explícitas de pilhagem e saque que fizeram a história da acumulação primitiva. Isso significava que não fazia mais sentido perder tempo em guerras contra potenciais nucleares, como a Rússia, nem fazia sentido fingir multilateralismo escutando seus impotentes aliados europeus. Na verdade, pela primeira vez na história, a ordem global se reconstruiria sem a hegemonia europeia. Assim, a Ucrania foi deixada nas mãos de Putin e a América Latina voltou a ser visto como espaço livre para todo o tipo de intervenção norte-americana a fim de deixar os chineses longe. Não por outra razão, a primeira ameaça internacional de Trump foi contra o Panamá a fim de impor seus interesses na circulação de seu estratégico Canal. Agora, acordamos com o ataque a Venezuela e o sequestro de seu presidente.

Isso significa que se consolida paulatinamente uma nova desordem mundial, com a Europa com mero coadjuvante, a Rússia restabelecendo sua zona de interesse mais imediata, a China como potência que se prepara para retomar Taiwan e os EUA explicitando seu papel de vampiro da América Latina.

Ações norte-americanas dessa natureza na América Latina não são novidades. Basta lembrar do sequestro do então presidente do Panamá, Manuel Noriega, em 1989. Algo semelhante havia sido feito em 1983 contra a pequena ilha caribenha de Granada e seus líderes ou contra o Haiti de Jean-Baptiste Aristide. Poderíamos acrescentar nessa lista todos os golpes de estados patrocinados pelos EUA na região com suas montanhas de cadáveres, seus aparelhos de tortura, de censura, de espoliação de recursos da região. No entanto, por um tempo parecia que a experiência catastrófica das ditaduras latino-americanas havia deixado as intervenções mais explícitas para o passado. Agora, temos a prova de que não é mais o caso. No momento do colapso do capitalismo fóssil, Elon Musk já tinha dado a deixa de que os EUA iriam atrás do resto de energia que restava no globo, independente de onde estivessem, seja na Bolívia ou na Venezuela.

Não é difícil entender como essa ação destrói, de uma vez por todas, com o quadro jurídico internacional que fora criado a partir da Segunda Guerra. Tal quadro já havia sido seriamente abalado com a Guerra do Iraque de George W. Bush, quando EUA e Reino Unido invadiram o Iraque sem nenhuma autorização da ONU e com a justificativa do dever de destruir supostas Armas de Destruição de Massa nas mãos de Sadam Hussein. Armas que até hoje ninguém viu. Na verdade, o que o mundo viu foi como apagar um país do mapa até reduzi-lo a um entreposto comercial de empresas norte-americanas. Depois, o resto da ordem mundial foi massacrada com a inação diante do genocídio em Gaza e com a perseguição norte-americana a juízes de Cortes Internacionais de Justiça: um dos poucos dispositivos de ordem internacional que se demonstraram ativos diante de tamanha catástrofe. Agora, vemos como funcionará esse novo momento global.

Na justificativa de ações dessa natureza, pode-se usar os velhos argumentos surrados de sempre: que Maduro é um ditador, que fraudou eleições e coisas similares. De fato, seu governo foi catastrófico e repito o que já escrevi em outra ocasião: não cabe a esquerda apoiar governos que atiram contra sua própria população e que criam milhões de refugiados. Mas esse é um problema a ser resolvido pelos venezuelanos em seu direito de auto-determinação e auto-governo. Tão ruim quanto Maduro é a oposição venezuelana que vive de tentar dar golpes desde 2000.

Digo isso apenas para salientar que o fato de Maduro ser quem é não muda em nada o fato de nenhum país ganhar com isso autorização de invasão e de tomada de governo. Se assim fosse, o primeiro país a cair deveria ser exatamente um dos maiores aliados dos EUA, a saber, a Arabia Saudita. Um país que faz o Irã parecer uma democracia escandinava. Ou poderíamos falar do estado genocida de Israel e seu apartheid, pois se tem alguém nesse mundo que merecia um Tribunal Internacional, esse alguém é Benjamin Netanyahu. Ou da Hungria, ou da Turquia, ou… Ou seja, faz parte da história das práticas imperialistas escolher qual governo autoritário será apoiado e qual será destruído. E o critério é simplesmente não estar mais alinhados aos interesses das potencias coloniais. Quem quer fortalecer uma ordem mundial com princípios elementares de justiça estaria nesse momento procurando fortalecer Cortes Internacionais, e não procurando destruí-las como faz os EUA.

No entanto, há algo ainda mais dramático para nós, brasileiros. É claro que nesse novo colonialismo norte-americano da América Latina, os dois países que colocam problemas para tal estratégia são México e Brasil. E dentre esses dois o problema principal é o Brasil, que tem sua estratégia geopolítica própria e mostrou ser capaz de pratica-la sem precisar do aval dos EUA, isso enquanto o México tem uma economia muito dependente para pensar em voos maiores. Ou seja, o alvo principal nessa fase de retorno ao imperialismo explícito é o Brasil. O ataque contra a Venezuela, não foi apenas contra a Venezuela: foi contra o Brasil.

Os EUA já tentaram nos desestabilizar no ano passado, mas sem sucesso. Eles certamente tentarão de novo, já que contam com o auxílio não apenas da extrema-direita local com seu sonho orgiástico de estar sob a bota de um império mas, e não podia deixar de ser, dos nossos queridos “liberais”. Se me permitem, de toda a fauna que compõe a direita latino-americana, o “liberal” é a mais exótica. Sempre com uma tirada contra a “polarização”, contra a “cultura do cancelamento” e outras “divisões da sociedade”, ele nunca deixa de apoiar um golpe ou ver como natural que uma potencia ocidental invada um país, sequestre seu presidente e diga que a partir de agora vai tomar conta de seu petróleo.

Nesse momento, abre-se um horizonte de guerra contínua a nossa frente. O capitalismo não consegue mais iludir ninguém com suas antigas promessas de estabilidade e de governança mundial. Promessas essas que nunca foram reais, mas que mobilizavam milhares de discursos e de “análises” sobre espaços multilaterais paulatinamente construídos, de “guerras justas” e de coalizões de defesa da “razão” e de “intervenções humanitárias”. Ao menos agora não vamos ter que lidar com tamanho cinismo.  Nessa nova fase do colonialismo, as razões são claras. As defesas também terão de ser.

¨      'Ação de Trump na Venezuela pode criar um precedente para potências autoritárias no mundo'

Com a captura do líder venezuelano Nicolás Maduro, Donald Trump demonstrou de forma mais contundente do que nunca sua crença no poder de sua própria vontade, sustentada pela força bruta do poder militar dos Estados Unidos. Por ordem dele, os EUA colocaram Maduro atrás das grades e agora irão "administrar" a Venezuela.

O presidente americano fez o anúncio em uma coletiva de imprensa extraordinária, com enormes implicações para a política externa dos EUA em todo o mundo, realizada em seu clube e residência na Flórida, Mar-a-Lago. Trump afirmou que os Estados Unidos ficarão no comando da Venezuela "até que possamos fazer uma transição segura, adequada e criteriosa".

Segundo Trump, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, conversou com a vice-presidente venezuelana, Delcy Rodríguez, que teria dito: "faremos o que vocês precisarem… Ela, acho, foi bastante cordial, mas realmente não tem escolha".

Trump deu poucos detalhes. Disse que "não temos medo de colocar botas no chão, se for necessário".

Mas será que ele acredita que pode governar a Venezuela à distância? Essa demonstração de que ele está disposto a sustentar palavras com ação militar — elogiada efusivamente em Mar-a-Lago tanto por Marco Rubio quanto pelo secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth — será suficiente para remodelar a Venezuela e intimidar líderes latino-americanos a se submeterem?

Soou como se ele acreditasse em algo nesse sentido.

As evidências indicam que isso não será fácil nem tranquilo.

Em outubro, o respeitado think tank International Crisis Group alertou que a queda de Maduro poderia levar à violência e à instabilidade na Venezuela.

No mesmo mês, o New York Times informou que autoridades de defesa e diplomacia do primeiro governo Trump haviam simulado cenários sobre o que poderia acontecer caso Maduro caísse. A conclusão foi a perspectiva de um caos violento, com facções armadas disputando o poder.

A remoção e prisão de Nicolás Maduro representam uma demonstração extraordinária do poder militar americano.

Os Estados Unidos mobilizaram uma enorme armada e atingiram seu objetivo sem perder uma única vida americana.

Maduro havia ignorado a vontade do povo venezuelano ao desconsiderar sua própria derrota eleitoral e, sem dúvida, sua saída será bem-vinda para muitos cidadãos do país.

Mas as implicações da ação dos Estados Unidos irão repercutir muito além das fronteiras da Venezuela.

O clima na coletiva de imprensa em Mar-a-Lago foi triunfalista, com a celebração do que foi, sem dúvida, uma operação exemplar, conduzida por forças americanas altamente profissionais.

A operação militar é apenas a primeira etapa.

O histórico dos Estados Unidos em promover mudanças de regime pela força nos últimos 30 anos é desastroso.

O acompanhamento político é o que determina o sucesso ou o fracasso do processo.

O Iraque mergulhou em uma catástrofe sangrenta após a invasão americana em 2003. No Afeganistão, duas décadas e bilhões de dólares investidos em tentativas de construção nacional foram varridos em poucos dias após a retirada dos EUA em 2021.

Nenhum dos dois países ficava no "quintal" dos Estados Unidos.

Ainda assim, os fantasmas de intervenções passadas na América Latina — e a ameaça de outras que ainda podem vir — não são muito mais promissores.

Trump testou um novo apelido, a "Doutrina Donroe", para a declaração feita pelo presidente James Monroe em 1823, que alertava outras potências a não interferirem na esfera de influência americana no Hemisfério Ocidental.

"A Doutrina Monroe é algo muito importante, mas nós a superamos em muito", disse Trump em Mar-a-Lago. "Sob a nossa nova estratégia de segurança nacional, a dominância americana no Hemisfério Ocidental nunca mais será questionada."

Ele afirmou que o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, teria de "cuidar do próprio traseiro".

Mais tarde, disse à Fox News que "algo vai ter que ser feito com o México".

Cuba também está, sem dúvida, na agenda dos EUA, que vem sendo conduzida por Rubio, cujos pais são cubano-americanos.

Os Estados Unidos têm um longo histórico de intervenções armadas na América Latina.

Eu estava no Haiti em 1994, quando o presidente Bill Clinton enviou 25 mil soldados e dois porta-aviões para impor uma mudança de regime. Na época, o governo haitiano ruiu sem que um único tiro fosse disparado. Longe de inaugurar um futuro melhor, os 30 anos desde então foram marcados por sofrimento quase ininterrupto para o povo haitiano. Hoje, o Haiti é um Estado falido dominado por gangues armadas.

Donald Trump falou em tornar a Venezuela grande novamente, mas não mencionou a democracia. Ele descartou a ideia de que a líder da oposição venezuelana María Corina Machado, vencedora do Prêmio Nobel da Paz de 2025, deva liderar o país.

"Acho que seria muito difícil para ela ser líder, ela não tem apoio… Não tem respeito", afirmou.

Ele não mencionou Edmundo González, que muitos venezuelanos acreditam ter sido o verdadeiro vencedor das eleições de 2024.

Em vez disso, pelo menos por enquanto, os Estados Unidos estão apoiando a vice-presidente de Maduro, Delcy Rodríguez.

Embora deva ter havido algum tipo de conluio interno que forneceu aos militares americanos as informações internas necessárias para remover Maduro, o regime criado por seu antecessor, Hugo Chávez, parece permanecer intacto.

É improvável que as Forças Armadas venezuelanas, apesar de qualquer humilhação que seus generais possam sentir por não conseguirem se opor ao ataque americano, aceitem os planos dos EUA.

Os militares e os apoiadores civis do regime enriqueceram por meio de redes de corrupção que não estarão dispostos a perder.

Milícias civis foram armadas pelo regime, e a Venezuela conta ainda com outros grupos armados.

Entre eles estão redes criminosas, além de guerrilhas colombianas que apoiaram o regime de Maduro em troca de abrigo.

A intervenção dos EUA na Venezuela evidencia de forma contundente alguns dos pilares da visão de mundo de Trump.

Ele não faz segredo do quanto cobiça a riqueza mineral de outros países. Já tentou extrair lucro dos recursos naturais da Ucrânia em troca de ajuda militar.

Trump também não esconde seu desejo de controlar as enormes reservas minerais da Venezuela, nem sua crença de que empresas petrolíferas americanas foram roubadas quando a indústria do petróleo foi nacionalizada.

"Vamos retirar do subsolo uma quantidade enorme de riqueza, e essa riqueza irá para o povo da Venezuela, para pessoas de fora da Venezuela que antes estavam no país, e também para os Estados Unidos da América, na forma de compensação", afirmou.

Isso deve aprofundar os temores na Groenlândia e na Dinamarca de que ele volte seu olhar não apenas para o sul, mas também para o norte.

Os Estados Unidos não abandonaram o desejo de incorporar a Groenlândia, tanto por sua posição estratégica no Ártico quanto pelos recursos naturais que estão se tornando mais acessíveis à medida que o gelo derrete em razão do aquecimento global.

A operação contra Maduro também representa mais um golpe sério na ideia de que a melhor forma de governar o mundo é seguir um conjunto de regras acordadas, conforme estabelecido no direito internacional.

Essa noção já estava fragilizada antes de Donald Trump assumir o cargo, mas ele já demonstrou repetidamente, tanto nos Estados Unidos quanto no cenário internacional, que acredita poder ignorar leis de que não gosta.

Aliados europeus, que fazem de tudo para não irritá-lo — incluindo o primeiro-ministro Keir Starmer —, enfrentam agora o desafio de afirmar apoio ao direito internacional sem condenar o fato de que a operação contra Maduro constitui uma violação flagrante da Carta das Nações Unidas.

A justificativa americana de que seus militares apenas auxiliaram na execução de um mandado de prisão contra um narcotraficante que se fazia passar por presidente da Venezuela é frágil, especialmente diante das declarações de Trump de que os EUA passarão a controlar o país e sua indústria petrolífera.

Poucas horas antes de Maduro e sua esposa serem capturados, ele se reuniu com diplomatas chineses em seu palácio em Caracas.

A China condenou a ação dos EUA. Afirmou que "atos hegemônicos dos Estados Unidos violam gravemente o direito internacional e a soberania da Venezuela, além de ameaçarem a paz e a segurança na América Latina e no Caribe".

Segundo Pequim, os EUA deveriam "parar de violar a soberania e a segurança de outros países".

Ainda assim, a China pode enxergar um precedente na ação americana.

Pequim considera Taiwan uma província dissidente e já declarou que devolver o território ao controle de Pequim é uma prioridade nacional.

Em Washington, esse é justamente o temor do vice-presidente democrata do Comitê de Inteligência do Senado, o senador Mark Warner. Em comunicado, ele afirmou que líderes chineses — e outros — estarão observando atentamente.

"Se os Estados Unidos afirmam ter o direito de usar força militar para invadir e capturar líderes estrangeiros acusados de conduta criminosa, o que impede a China de reivindicar a mesma autoridade sobre a liderança de Taiwan? O que impede [o presidente russo] Vladimir Putin de apresentar justificativa semelhante para sequestrar o presidente da Ucrânia? Uma vez que essa linha é cruzada, as regras que contêm o caos global começam a ruir, e regimes autoritários serão os primeiros a explorá-la."

Donald Trump parece acreditar que é ele quem define as regras e que o que se aplica aos Estados Unidos sob seu comando não significa que outros possam esperar os mesmos privilégios.Mas não é assim que funciona o mundo do poder.

Suas ações no início de 2026 apontam para mais 12 meses de turbulência global.

 

Fonte: A Terra é Redonda/BBC News

 

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