A
doutrina Trump e a ameaça à paz no Brasil: Por que a invasão da Venezuela é um
alerta para 2026
Já
começamos o ano em choque com a invasão militar da Venezuela e o sequestro de
Nicolás Maduro e sua esposa Cilia Flores pelo regime de Donald Trump. O
presidente estadunidense que já estava livre para assassinar pessoas em barcos
no Caribe, sem nenhum respaldo legal internacional, decidiu testar ainda mais
os limites globais ao iniciar, concretamente, uma investida militar na região. Em
vez de cumprir o mandado de prisão expedido pelo Tribunal Penal Internacional,
com real legitimidade internacional, contra Benjamin Netanyahu, Trump provou
que sua preocupação com a aplicação da lei só conta quando é a sua lei. Agindo
como imperador que não precisa se explicar ou pedir permissão para o Congresso
Nacional de seu próprio país, Trump cresce o olho para o resto do mundo,
especialmente após a prova da covardia de tantos países ditos potências
mundiais quando ameaçados com tarifas no ano passado.
Agora,
não contente em apenas raptar Maduro para um julgamento bizarro em Nova York –
que demanda a pergunta sobre que jurisdição é essa que fez dos Estados Unidos
polícia e corte global? – com bombas e assassinato de civis venezuelanos, Trump
se sente empoderado o suficiente para ameaçar também a Colômbia e retomar sua
narrativa de captura da Groenlândia. Diferente
de presidentes imperialistas anteriores, Trump não precisa da desculpa de que
estaria levando democracia e liberdade ao povo venezuelano. De fato, sua
aliança com a líder de extrema direita Maria Corina Machado servia mais para
caracterizar Maduro como alvo e não necessariamente para favorecer Machado e
seus companheiros.
A
princípio, Trump estaria feliz em permitir que Delcy Rodriguez, antes
vice-presidenta e agora presidenta interina da Venezuela, lidere o país, desde
que seu governo não atrapalhe os planos dos Estados Unidos de controlar e
vender o petróleo venezuelano. Seria um sistema híbrido que mantém refém o
restante do executivo e do legislativo venezuelano e exige a captura das
reservas de petróleo como resgate.
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A doutrina Trump de imperialismo se fortalece na América Latina
Ao que
tudo indica, Trump pretende gerenciar a Venezuela com ameaças, sem o desgaste
de ir a fundo com mudança de regime, especialmente porque, diferente do que
reporta a imprensa focada na diáspora venezuelana, ainda existe apoio popular
ao PSUV na Venezuela. Mais que isso, seria dificílimo despir a máquina estatal
venezuelana do chavismo rapidamente. Portanto, Trump parece optar pela
colaboração via coerção, ao menos enquanto lhe for conveniente.
Ademais,
por mais que Trump aparente escutar as demandas de uma diáspora latina nos
Estados Unidos que é profundamente anticomunista – vide o papel de Marco Rubio
em seu governo — o problema de Trump com a Venezuela vem de muito antes de
Maduro ou até mesmo Hugo Chávez. Se a Venezuela tem a maior reserva de petróleo
do mundo protegida sob a nacionalização dessa indústria, Trump se vê no direito
de reverter essa política que data da década de 70, quando outros países também
ousaram impor limites aos negócios das petrolíferas dos EUA.
De
fato, ao tratar da ocupação da Venezuela como algo normal e simples, Trump
enfatizou que o objetivo era recuperar ganhos perdidos pelos EUA e suas
petrolíferas devido à nacionalização. Além disso, demonstrou pouca preocupação
com a reação internacional. Uma metade do mundo não reagiria por falta de
capacidade de reação militar ou por medo de um destino semelhante, enquanto
outra parte se contentaria em acessar mais facilmente o petróleo venezuelano
que antes jorrava pouco e com dificuldade justamente por causa das sanções
imperialistas.
Aqui,
pouco interessa se o tamanho dessas reservas realmente corresponde às
estimativas. Também é secundário se o petróleo venezuelano é pesado e
extrapesado, o que exige um processamento mais complexo e custoso. Continua
sendo um petróleo valioso especialmente para a produção de diesel e insumos
industriais. Ademais, contribui para a paisagem de guinada aos combustíveis
fósseis promovida explicitamente por Donald Trump, vistas no lema do “drill,
baby, drill”, na censura e desinvestimento de políticas e pesquisa em mudança
climática, na relação aberta e direta com petrolíferas e nos documentos
oficiais do governo.
O
prisma de Trump para energia e recursos naturais é securitizado e voltado ao
controle amplo de territórios, cadeias de extração e de produção. O objetivo é
sim fazer dinheiro com petróleo venezuelano, mas não é apenas sobre isso.
Claramente, caso essa versão de ocupação da gestão do estado venezuelano por
Trump funcione, há muito o que investir antes de ganhar. Mas, ao sequestrar
toda renda petroleira, ou ao menos parte dela, Trump também mina o
financiamento de políticas sociais que sustentaram o projeto chavista até aqui,
mesmo sob as sanções impostas pelos Estados Unidos. Atacando a soberania
territorial e nacional venezuelana, Trump também fere perspectivas e tentativas
de construir outras soberanias, como no meio alimentar, digital e energético.
Há
então um indicativo de que o bombardeio direto de Caracas e o sequestro de
Maduro colaboram com objetivos de curto e médio prazo da doutrina Trump de
“America First” (EUA em primeiro lugar). Evidentemente, não se pode descartar
como o imperialismo extrativista busca não somente explorar e vender recursos
naturais, mas também controlar a oferta e a cadeia de insumos, de modo a
pressionar outros países e mercados também. Para além disso, oferece uma grande
oportunidade de enfraquecer governos menos capitalistas na região,
especialmente aqueles que se recusam a trabalhar dentro do entreguismo que
Trump espera ao enxergar a América Latina como seu quintal particular.
Portanto,
há implicações fortes para toda a região. De olho também nas reservas na Guiana
e irritado com os planos de liderança climática de Gustavo Petro para diminuir
o papel de combustíveis fósseis na Colômbia, Trump deixou explícito que
qualquer líder não-aliado pode ser o próximo da lista. Se antes os Estados
Unidos eram um país que dizia levar democracia e recebia pagamento por tal
“serviço benevolente” tomando recursos estratégicos locais, não é necessário
que um país esteja em contexto de controvérsia política, autoritarismo ou
questionamento eleitoral.
É claro
que quanto maior a divisão, mais fácil é inserir a intervenção em uma narrativa de apoio
popular a Trump, como salvador aos moldes dos Estados Unidos na sua incursão
mais recente no Iraque. Porém, não é necessário perder tempo com justificativas
na base da democracia liberal, até porque Donald Trump certamente não foi
eleito como representante de valores liberais. Pelo contrário, Trump não
esconde suas afinidades e ideologia autoritárias, seja com o avanço da
supremacia branca, seja com seu ensejo de “fazer a América grande de novo”
através de domínio internacional.
O
megaextrativismo que sempre motivou guerras e o imperialismo estão
completamente nus. A presidência dos EUA fala de domínio de todo o hemisfério,
tratando pactos internacionais do passado como obsoletos e expondo ainda mais a
fraqueza de instituições multilaterais globais como as Nações Unidas. De fato,
com a saída dos EUA de diversos fóruns e agências de cooperação internacional,
Trump formaliza mais um passo de sua oposição a uma suposta agenda do
“globalismo”.
Na
extrema direita, o problema não é a globalização e como, materialmente,
aprofundou processos de superexploração do trabalho na periferia, normalizou a
extração de recursos (diretos e indiretos) com o comércio de commodities e
estendeu o alcance do domínio cultural-colonial das grandes potências. O que
lhes incomoda é a ideia de que nenhuma nação deve dominar outras.
Os
críticos do “globalismo” tem ojeriza à cooperação justamente porque pode impor
limites ao lucro nacional e internacional de suas elites, além do seu medo de
serem responsabilizados coletivamente por transgressões ao direito
internacional.
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A rede de vassalos entreguistas de Trump
Nada
disso quer dizer que Trump não se interessa por mudança de regime na América
Latina, chegando ao ponto de derrubar governos e instituir seus aliados diretos
no lugar, ou que Trump esteja construindo o isolamento absoluto dos Estados
Unidos. Ao contrário, o presidente dos Estados Unidos tem entendido que o
fortalecimento de seu projeto imperial passa pela construção de uma grande rede
de vassalagem, especialmente em países periféricos.
Por
mais que figuras como Javier Milei, na Argentina, tentem se posicionar como
aliados de Trump, seu comportamento na aliança é de subserviência e bajulação,
além dos ocasionais pedidos de socorro. Essa postura é comum também entre os
membros da cúpula do governo estadunidense, que não ousam fazer qualquer
pronunciamento público que não passe também por elogios e exageros sobre o
presidente.
Quando
Eduardo Bolsonaro e seus parceiros tramaram contra a soberania brasileira ao
apelar ao tarifaço, à lei Magnistky e outras ameaças via Estados Unidos de modo
a intervir no julgamento de Jair Bolsonaro e dos golpistas do 8 de Janeiro, uma
tática similar era visível: elogiar a capacidade de Trump, demonstrar que os
EUA podem prejudicar o Brasil caso queiram, e ressaltar como, em troca de apoio
político à extrema direita brasileira, Trump poderia aumentar sua influência na
região. Embora o tiro tenha saído pela culatra devido à articulação eficiente e
plural do governo Lula e a mobilização popular, cumpriu um importante papel em
explicitar ainda mais o tom entreguista, submisso e traiçoeiro dos falsos
patriotas bolsonaristas.
A ala
da extrema direita apegada ao projeto bolsonarista e trumpista continua
instigando Trump a intervir na política brasileira. A ideia mais básica de
soberania nacional – aquela herdada dos acordos Vestfalianos de 1648 – não
entra na cabeça dos Bolsonaros, de Tarcísio de Freitas, de Ronaldo Caiado ou
Nikolas Ferreira. Para eles, o que importa é o uso da força econômica e até
mesmo militar por parte da maior liderança neofascista do mundo hoje para
assegurar a reprodução de seus cargos no Brasil e os interesses de seus grupos.
As
afinidades conservadoras e autoritárias que políticos do PL partilham com Trump
são apenas o começo da história. Sua transfobia, misoginia e racismo
ultrapassam crenças morais e se manifestam em políticas concretas, inclusive
econômicas. É claro que, na ânsia de mandar no Brasil, essa direita também se
atrapalha, como quando perderam a confiança de empresários e fazendeiros que
seriam prejudicados pelo tarifaço.
Se
Eduardo Bolsonaro achava que esse era um preço a pagar para livrar o pai de
pagar por seus crimes, ele esqueceu de combinar com a burguesia brasileira.
Ainda assim, em geral, o acesso a recursos naturais brasileiros, nossa mão de
obra barata e o controle financeiro do nosso mercado garantem o interesse
perene do imperialismo que enxerga na extrema direita local uma forma de
explorar sem limitações e regras.
Políticas
que parecem ser estritamente nacionais, como a imposição do Marco Temporal ou
os retrocessos do PL da Devastação, cumprem um importante papel para a
reafirmação do Brasil e da América Latina como quintal dos Estados Unidos. Não
é por acaso que tanto Trump quanto os Bolsonaros sintam tanta ojeriza pelo
movimento ambiental e ONGs do meio.
Da
mesma forma, políticas entreguistas do petróleo, como aquelas implementadas por
Jair Bolsonaro, favorecem a entrada de investidores e petrolíferas dos EUA, ao
mesmo tempo que normalizam a exploração de combustíveis fósseis, que é
expandida até mesmo em governos progressistas. Se tratar nossos territórios
como fonte de recurso para a exploração interessa às nossas elites e aos seus
parceiros internacionais, cuidá-los deveria ser prioridade de um modelo
alternativo.
Porém,
a farsa de que quando um estado periférico explora seus recursos ele se protege
dos imperialistas ainda é dominante. Além de facilitar a rota de exploração
para a direita caso retorne ao poder, também serve como propaganda para forças
internas que enxergam na dependência da exploração um vácuo de soberania.
Quando
Trump invade a Venezuela e passa a exigir 50 milhões de barris de petróleo
através de ameaça militar, ele rouba venezuelanos duas vezes: primeiro, do
recurso; segundo, da renda nacional perdida por não poder vender o recurso para
fins sociais. Assim, agiliza riscos de colapso e calamidade social que, como no
caso das sanções, pode usar para forçar a mão do povo, inclusive em novas
eleições.
O
empobrecimento do povo argentino também ilustra essa dinâmica. Ao mesmo tempo
em que 72% dos trabalhadores ganham abaixo do necessário para sobreviver,
Milei, o fiel escudeiro de Trump, pode usar da realidade da crise para pedir
apoio financeiro ao regime trumpista como se estivesse em busca de um herói.
Essa vulnerabilidade permite que Trump exija outras coisas de volta, já que um
“minion” de valores morais similares não seria suficiente sem que cumprisse um
papel na acumulação capitalista. Logo no começo do ano, Milei impôs um estado
de espionagem e perseguição à organização política na Argentina através de um
decreto em que alterou a Lei de Inteligência.
Aos
moldes de Trump, Milei tem buscado ampliar os poderes atrelados à segurança
nacional. Embora essas políticas aparentem alvejar primeiramente opositores ou
imigrantes – como no caso do ICE nos EUA – abrem caminho para um estado
policial cada vez mais forte capaz de suprimir protestos e garantir a
permanência dessas figuras autoritárias no poder.
É assim
que Nayib Bukele caiu nas graças de Trump. Presidente de El Salvador desde
2019, Bukele é conhecido por ser altamente popular e autoritário ao mesmo
tempo. Seu governo é marcado por perseguição a jornalistas, coerção militar de
outros políticos, e instalação de aliados em posições estratégicas de poder,
como no judiciário. Em 2025, a assembleia nacional dominada por uma
supermaioria de seu partido Nuevas Ideas, aprovou uma emenda constitucional que
agora permite reeleições ilimitadas – que aparenta ser também um desejo de
Trump na busca por um terceiro mandato.
Milei,
que é ousado em casa mas parece um cachorrinho nervoso ao lado de Trump, se
referencia no modelo Bukele de segurança interna marcado por prisões em massa e
bastante repressão. Admirado por figuras brasileiras como Nikolas Ferreira, o
estilo autoritário de Bukele – que até brinca de ser chamado de ditador – aproximou-o de Trump como parceiro
estratégico para a política de deportações dos Estados Unidos.
Quanto
menos claro está o que torna um imigrante realmente ilegal nos EUA,
especialmente agora que até crianças são alvejadas em creches e escolas, maior
o risco de que uma pessoa seja deportada não para o seu país de origem, mas que
desapareça ou seja enviado para uma prisão salvadorenha. As denúncias de abuso
e tortura, incluindo violência sexual, sofridos por venezuelanos deportados
para o CECOT causaram alguma comoção, mas não o suficiente para mobilizar o
povo estadunidense.
Enquanto
isso, Trump e Bukele fazem seus próprios acordos. Um dos pretextos para o
sequestro de Maduro foi de que ele seria líder de um cartel de narcotráfico –
alegação que o próprio Departamento de Justiça dos EUA abandonou logo depois.
Porém, é Bukele que negocia diretamente com gangues perigosas, como o MS-13,
com pactos que pedem a diminuição de fatalidades em troca de privilégios na
prisão – tudo isso com apoio diplomático dos EUA.
Bukele,
que também sonha em reunificar Costa Rica, El Salvador, Guatemala, Honduras e
Nicarágua em um só país (provavelmente sobre sua liderança), é também ponte
para as intervenções de Trump na política hondurenha. Na conferência de
imprensa de 03 de janeiro, Trump se gabou de ter apoiado o candidato vencedor
em Honduras, fruto de um processo eleitoral bastante conturbado e que
provavelmente irá reverter políticas populares pautadas em soberania nacional e
anti-imperialismo do governo de Xiomara Castro.
Nasry
Asfura, que foi declarado vencedor por um pequena margem, ganhou notoriedade
adicional quando Trump anunciou logo antes das eleições que ele era o único
candidato hondurenha com quem o governo dos EUA trabalharia; ou seja, caso
outro candidato ganhasse, Trump poderia acessar alguma das várias ferramentas
de punição coletiva econômica ou militar que os Estados Unidos usam em nossa
região quando o voto popular não satisfaz seus interesses.
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O que isso significa para o Brasil?
Donald
Trump está empoderado pela inação coletiva dos demais estados do mundo. Ele tem
seus vassalos de um lado e do outro, salvo algumas exceções, encontra apenas
notas de repúdio e discursos duros nos palanques multilaterais que ele mesmo
despreza. Não é por acaso que se fala tanto de fim da ordem liberal, fim da
hegemonia do direito internacional e do acirramento de guerras globais.
Quando
Trump comemorou o resultado eleitoral em Honduras, também expressou seu
contentamento com a eleição de José Antonio Kast no Chile. Kast toma posse em
março de 2026 e planeja um caminho de austeridade para os chilenos e combate à
migração, especialmente os migrantes venezuelanos. Sua postura é de elogio à
atuação de Trump na Venezuela, marcando o aumento da fratura política entre os
governos da região.
O apoio
explícito de Trump a esses candidatos deixa um alerta para a Colômbia e o
Brasil. Os dois países estão em ano eleitoral. Enquanto Trump ameaçou a
Colômbia diretamente e também tenta colar em Gustavo Petro uma acusação sem
embasamento de associação com o narcotráfico.
O
suposto combate ao tráfico internacional de drogas entrega a Trump um certo
nível de fundamento legal – dentro das leis estadunidenses, claro – para agir
como polícia global, como se sua jurisdição ultrapassasse o território dos EUA
sempre que o tema interessasse diretamente a eles. Essa manobra serve para
burlar simbolicamente o artigo 2(4) da Carta das Nações Unidas, já que,
materialmente, a abordagem na Venezuela fere claramente sua integridade
territorial.
Enquanto
o conflito se expande e desenrola, até Petro tem apelado para desescalar a
relação com Trump. Em entrevista, confessou que temia o mesmo destino de
Maduro, já que os EUA não precisam de nenhum pretexto moral ou democrático para
destituir presidentes, basta ir contra seus interesses.
Quanto
ao Brasil, convivemos com as nossas próprias versões de golpistas e vassalos
fiéis de Trump – entre os que já articularam com Trump no passado, como os
Bolsonaros, e aqueles sedentos por sua atenção, como Nikolas Ferreira. O
deputado federal por Minas Gerais, que certamente será candidato em outubro,
compartilhou imagem após o sequestro de Maduro que sugere que agentes de Trump
façam o mesmo com Lula.
Quanto
aos presidenciáveis, Tarcísio de Freitas está claramente cortejando o apoio de
Trump, buscando um futuro como o de Kast ou de Asfura. Em uma eventual disputa
entre Tarcísio e Lula, o atual presidente deve reforçar o discurso de soberania
nacional que funcionou muito bem contra o tarifaço em 2025, enquanto a extrema
direita brasileira pede reforços ao prometer serem vassalos leais e
entreguistas do regime Trump.
As
consequências disso vão além de uma mera disputa entre direita e esquerda. Além
de reforçarem uma aliança autoritária regional, que seria difícil de desfazer,
a atuação da extrema direita ultrapassa os pedidos comuns de intervenção
econômica ou política no Brasil. Hoje em dia, nossa paz está em jogo.
Não é
como se o Brasil vivesse, internamente, em paz. As chacinas e massacres
atrelados a uma falida guerra às drogas que reproduz organizações criminosas
nas comunidades, nas instituições políticas e no sistema financeiro são
sintomas de um sistema destrutivo e conflituoso. Ambientalistas brasileiros são
perseguidos e assassinados simplesmente pro defenderem nossos biomas, enquanto
povos indígenas vivem sob ameaças constantes, tortura, assassinato e
desaparecimento. O que temos no Brasil é uma paz relativa, sabendo que sempre
pode ser pior no caso de guerra civil, suspensão total da lei e da ordem, e,
claro, ameaça militar externa.
A
questão é que caso a aliança entre a vassalagem de extrema direita brasileira e
Trump se aprofunde, entramos em risco não apenas de uma nova e cruel fase de
autoritarismo doméstico, mas também de submissão direta aos interesses
estrangeiros. É uma preocupação que deveria afligir todos os brasileiros que se
preocupam com a estabilidade e a possibilidade de construção de prosperidade no
Brasil por nossos próprios meios.
Em
tempos de policrise planetária, com mudança climática, poluição, insegurança
alimentar, graves problemas de saúde e precarização do trabalho ao redor do
mundo, a última coisa que precisamos é de ameaças de guerra batendo à nossa
porta. Como os perpetradores de nossas mazelas estão conectados pela raiz aos
mesmos sistemas e agentes inimigos da paz na geopolítica, precisamos deixar
claro que barrar o avanço dos autoritários e conservadores nas nossas
instituições é também um ato de soberania e segurança nacional.
A
composição atual do Congresso Nacional atua contra os interesses do povo
brasileiro, retirando recursos da educação e da pesquisa públicas, favorecendo
planos de saúde privados, encarecendo o nosso custo de vida para facilitar o
lucro das grandes empresas. É por isso que passamos a enfatizar que esse é um
Congresso inimigo do povo. Vale então lembrar que o Congresso inimigo do povo é
também um Congresso amigo de Trump.
Fonte:
Por Sabrina Fernandes, em The Intercept

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