No Paraná, escolas cívico-militares têm fila de
espera de 11 mil alunos
Quando
Rafaela Barbosa leu sobre a possível chegada do modelo de escolas
cívico-militares em sua cidade, Wenceslau Braz, no norte do Paraná, a primeira
reação foi de curiosidade. "No começo não entendi se era militar mesmo.
Fui procurar na internet como funcionava, qual era o propósito."
Barbosa
não estava satisfeita com o atendimento ao filho adolescente, hoje com 15 anos,
em um colégio particular em que estava matriculado.
Ela já
vinha enfrentando desafios para que ele se saísse bem nos estudos ao menos
desde a pandemia do coronavírus, em 2020, quando todos os alunos tiveram de se
adaptar à rotina de aulas online.
Com o
retorno à vida social pós-pandemia, as coisas ficaram mais difíceis.
"Comecei a perceber que ele não queria ir pra escola. As notas eram ruins.
Falei com a diretora: não é possível; meu filho sempre foi bem."
Barbosa
foi orientada a buscar uma psicóloga e a submeter o filho a alguns exames. Ele
então recebeu o diagnóstico de Transtorno do Déficit de Atenção com
Hiperatividade (TDAH).
Com o
tempo, a mãe sentiu que o filho não conseguia se adaptar ao colégio particular
e também não recebia o apoio que precisava.
Uma das
reclamações é de que a escola só a teria avisado sobre o desempenho dele,
abaixo do esperado, no fim do ano, depois de ele ter ficado em recuperação em
diversas matérias. "Esperava que me informassem."
Barbosa
decidiu, então, matriculá-lo em um colégio cívico-militar público.
O
modelo de ensino, em que militares da reserva atuam em atividades
administrativas e compartilham a gestão da escola com civis, foi lançado como
um programa nacional na gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro em 2019.
Foi
descontinuado em 2023 pelo governo Lula, mas segue em expansão pelo país por
iniciativa principalmente dos Estados. O Paraná começou a aplicá-lo em 2021 e
já converteu mais de 300 escolas ao modelo.
"A
maioria das pessoas na cidade achava que era pra transformar as crianças em
soldados. Eu logo pensei: vou tentar entender, conversar com o diretor do
colégio. E aí percebi que não era dessa maneira." O filho precisou ser
convencido a mudar, pois já tinha trocado de escola uma vez e tinha receio de
não se adaptar.
"Expliquei
a ele que queria que ele ficasse bem, que se desenvolvesse. Não era uma questão
de dinheiro, de poder não pagar [o colégio particular], disse a mãe.
Fizeram,
então, um acordo: ele ficaria no colégio por um ano e, se não se adaptasse,
poderia sair. "No primeiro dia, ele disse que ficou com medo. Que todo
mundo parecia muito sério." Logo chamou a atenção dos dois a grande
quantidade de regras a serem seguidas. "Cabelo sempre bem cortado, nada de
barba e bigode. Sapatos sempre limpos. Unhas sempre limpas e cortadas. Os
horários têm que ser respeitados. Manter as salas limpas e organizadas para a
próxima turma. Mau comportamento é observado de perto. Bom comportamento é
reconhecido", conta.
Dois
anos depois, a mãe diz que o adolescente se acostumou e que seu desempenho
melhorou, tanto na escola quanto em casa, com tarefas diárias. "Tive uma
surpresa maior do que eu imaginava. Percebi que ele mudou bastante, mais
responsável com as coisas dele."
Por um
lado, o programa é popular entre as famílias: dados obtidos pela BBC News
Brasil por meio da Lei de Acesso à Informação apontavam que em novembro de 2025
havia uma fila de espera de 11,2 mil estudantes para se matricular em escolas
cívico-militares no Paraná.
A
popularidade fez com que o programa se tornasse uma das principais bandeiras do
governador Ratinho Jr. e despertasse o interesse de outros Estados, que tentam
criar seus próprios colégios — em São Paulo, por exemplo, governado por
Tarcísio de Freitas (Republicanos), há previsão de adoção ainda em 2026 em 100
escolas.
Só em
2025 o governador paranaense publicou em sua conta no Instagram ao menos onze
vezes sobre o tema — e há quem peça, nos comentários dessas publicações, que
ele se candidate à Presidência da República.
De
outro lado, o programa enfrenta fortes críticas do sindicato de professores e
funcionários do Estado, a APP, que afirma que o modelo concentra mais recursos
para essas escolas em detrimento das outras, não resolve o problema da
segurança e impõe regras de comportamento que interferem no processo
pedagógico.
A
legalidade do programa também é questionada no Supremo Tribunal Federal pelo PT
e pelo PSOL, em uma ação que alega que o modelo impõe militarização precoce dos
estudantes, além de outros argumentos. No fim de 2025, a Procuradoria-Geral da
República enviou um parecer à corte afirmando que o programa está em
conformidade com a Constituição. O processo ainda não foi julgado.
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'Pais querem formar cidadão de bem', diz diretor
Diretor
do colégio cívico-militar onde estuda o filho de Rafaela Barbosa, que aparece
no início desta reportagem, Rivail Lucas de Oliveira diz que o modelo gerou uma
demanda inédita por vagas. "Estamos com 332 alunos matriculados, com
expectativa de chegar a 380. Não há espaço e estrutura física para aceitar
todos", conta — a prioridade é para alunos que moram mais perto do
colégio.
Ele,
que já era diretor da mesma unidade antes da mudança e até estudou no mesmo
local, diz que a escola já foi muito rejeitada pela comunidade no passado por
estar em uma região socialmente vulnerável, com alunos considerados "mais
problemáticos", em suas palavras. "O maior desafio era a escola
trazer para os pais uma confiança de que poderiam colocar os filhos lá, que
haveria disciplina."
Com o
modelo cívico-militar, avalia que a situação melhorou. "Há um respaldo
maior para trazer disciplina para dentro da sala de aula. É o motivo dos pais
quererem colocar os filhos aqui."
O
processo de transformar o colégio envolveu reuniões com famílias dos alunos e
professores e uma votação. "Foi unânime. Tivemos votação em 2023 e 97%
aprovaram o modelo cívico-militar. Em 2024 já iniciamos o programa."
A alta
procura, avalia o diretor, tem a ver com uma expectativa dos pais de formação
mais rigorosa dos filhos. "A expectativa dos pais é que o filho se forme
cidadão de bem. Que saiba de seus direitos, mas principalmente de seus deveres
e obrigações, do respeito, de cuidado com o patrimônio público."
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Cabelos 'discretos' e pontos por comportamento
O
modelo cívico-militar teve início em 2021 no Paraná. Há hoje mais de 300
escolas do tipo e mais 33 devem migrar para o modelo em 2026.
Esta é
uma categoria diferente dos tradicionais colégios militares, geridos pela
Polícia Militar. Na prática, os colégios continuam sendo geridos por civis e
sob responsabilidade da Secretaria da Educação, mas com apoio de monitores
militares — a quantidade desses funcionários varia de acordo com o número de
alunos de cada unidade.
Nessas
escolas são empregados militares da reserva que, após selecionados em processo
seletivo, recebem remuneração fixa (R$ 5,5 mil) para atividades administrativas
nos colégios. O valor é pago em diárias, não como salário (eles não recebem
décimo terceiro).
Os
militares não usam armas e não ocupam o lugar dos professores, mas realizam
atividades específicas como as chamadas "formaturas", quando alunos
cantam hinos, organização de desfiles, cerimônias, dentre outras. Há também a
função de monitorar o comportamento dos estudantes.
A
decisão de migrar uma escola comum para o modelo cívico-militar parte de uma
votação de cada comunidade escolar, incluindo pais, alunos e funcionários. Se
não houver uma quantidade mínima de votos, a decisão fica para o governo.
O
modelo atende alunos dos anos finais do ensino fundamental e médio e já chega a
20% da rede de ensino do Estado, segundo o governo. Não há processo seletivo
para ingresso.
As
regras de convivência são rígidas e descritas em um manual oficial. Há, por
exemplo, indicação de corte de cabelo ("meia cabeleira para meninos e
coque, trança ou rabo de cavalo para meninas") e recomendação de não usar
piercings ou brincos. "As coisas têm que ser discretas. Todo início de ano
a gente faz reunião com pais para mostrar as regras. Eles estão cientes de que
o padrão é esse", diz o diretor Rivail Lucas. "Às vezes, vem um ou
outro que viu um jogador [de futebol] da moda e cortou o cabelo moicano. Vamos
chamar e orientar. Está no manual. Não é uma ordem inventada pela gente."
Outra
diferença entre as cívico-militares é o chamado sistema de créditos: os alunos
são observados ao longo de todo o ano e podem receber nota por "fatos
observados positivos" ou negativos. "O estudante começa com dez
pontos de crédito, que podem aumentar ou diminuir. Se não respeitar a fila do
lanche, por exemplo, ou não se comportar na fila na hora de cantar o hino, vai
perdendo ponto", explica o secretário de Educação do Paraná, Roni Miranda
Vieira.
'Mas
ele também pode ganhar se ajudar um colega com necessidade especial, juntar um
lixo, for colaborativo com o professor. Isso enaltece boas atitudes em relação
à convivência social", diz. Os mais destacados podem receber elogios
formais e distinções, como certificados e medalhas.
O
secretário de Educação do Paraná, Roni Miranda, conta que havia interesse em
aproximar militares das escolas desde o início da gestão de Ratinho Jr.
Existia, por exemplo, um programa em que esses policiais monitoravam o entorno
dos colégios, o Escola Segura. "Atendia a entrada e saída [das escolas] e
fora dos muros da escola. Pra monitorar crimes, briga na frente da escola,
traficante que vai vender drogas, assediadores dos estudantes. Mas a parte
interna ficava desassistida", lembra o secretário.
O
modelo cívico-militar vem, então, em 2021, para incluir esses militares e uma
expectativa de maior disciplina para dentro dos muros dos colégios. "O que
acontece hoje? Um pai, uma mãe, saem de madrugada para trabalhar e voltam
praticamente à noite. Os filhos acabam ficando desassistidos."
Na
avaliação do secretário, a escola passa a desempenhar um papel que vai além do
conteúdo pedagógico. "Eles procuram alguém que possa fazer a parte
disciplinar dos seus filhos. Que consiga trazer aquela educação que, por muitas
vezes, por não estarem presentes no dia a dia do filho, não conseguem entregar
essa boa educação e disciplina ao filho. A visão é de que o militar é
disciplinado e respeita as regras. Tem esse imaginário."
Miranda
afirma que os colégios neste modelo alcançam bons resultados educacionais por
oferecerem boas condições de trabalho aos professores. "O professor que
está na cívico-militar não se preocupa com disciplina. Vai chegar na sala de
aula e os alunos vão estar sentados e organizados. Saiu uma pesquisa de que
professores perdem, em média, 10% do tempo pra organizar a turma e começar a
dar a aula (A pesquisa fala em 21% do tempo para manter ordem na sala no
Brasil). [Na cívico-militar] eles já encontram a turma organizada."
Como o
fenômeno é recente, ainda não há pesquisas que apontem de forma conclusiva que
o desempenho dessas escolas é sistematicamente superior ao dos colégios
tradicionais.
O
secretário pontua que o modelo não é uma imposição do Estado, mas uma opção
para as famílias. "Temos vários modelos de segmentos educacionais. Escola
em modelo integral, cívico-militar, parceria com privada, escola técnica, do
campo, escola agrícola. Os pais escolhem onde querem matricular o filho. Não é
o Estado que faz a decisão."
Para o
secretário, o tema das escolas cívico-militares tem potencial de pautar o
debate eleitoral no Brasil em 2026. "A população está preocupada com
segurança. Hoje é o que mais preocupa o brasileiro. Automaticamente associam
[este modelo] a um ambiente mais seguro. Tínhamos escolas com incidência de
tráfico muito grande no entorno. Com a presença da cívico-militar, afastou os
traficantes. Sabem que tem um militar da reserva que está ali. Afasta esse tipo
de meliante."
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Bandeira da direita, programa nacional foi revogado sob Lula
Mais do
que um modelo de ensino, as escolas cívico-militares se tornaram uma bandeira
política da direita no Brasil e uma espécie de contraposição à esquerda.
A
criação de um programa nacional das escolas cívico-militares foi uma promessa
de campanha do ex-presidente Jair Bolsonaro, que iniciou a implementação do
modelo durante seu mandato.
Até
2022, segundo balanço oficial, o programa havia sido adotado por 202 escolas,
atendendo cerca de 120 mil alunos. A proposta era aplicar o modelo em escolas
já existentes.
Na
época, o governo Bolsonaro divulgou indicadores que apontariam uma redução da
violência verbal e física, além da violência patrimonial. Também indicou queda
de quase 80% na evasão e no abandono escolar em escolas desse tipo.
Em
2023, já sob o governo Lula, o programa foi descontinuado por decreto. Em
declaração pública, o presidente afirmou que não é obrigação do Ministério da
Educação manter esse tipo de iniciativa. "Se cada Estado quiser criar, que
crie. Se cada Estado quiser continuar pagando, que continue. Mas o MEC tem que
garantir a educação civil, igual, para todo e qualquer filho de brasileira ou
brasileiro", disse Lula.
Em
audiência na Comissão de Educação da Câmara dos Deputados, também em 2023, o
ministro da Educação, Camilo Santana, afirmou que discutiria com governadores e
prefeitos o destino das escolas já em funcionamento, mas que o MEC
interromperia a criação de novas unidades.
Em
entrevista ao UOL, Santana negou que o encerramento do programa fosse uma
tentativa de se contrapor ao governo Bolsonaro. "Não tem base legal. Foi
uma política criada por decreto. O governo passado enviou um projeto de lei ao
Congresso para institucionalizar a política, que foi considerado
inconstitucional. Não há previsão na Lei de Diretrizes e Bases nem no Plano
Nacional de Educação. Foi feita por decreto."
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'Alguns alunos saem com depressão', diz presidente de sindicato
A
Associação dos Professores do Paraná (APP) é uma das instituições que buscam a
revogação do programa de escolas cívico-militares no Paraná.
Para
Walkiria Olegário Mazeto, presidente da associação, há três pontos principais
na crítica ao modelo. Ela argumenta que, por se tratar da rede pública de
ensino, e não privada, é dever do Estado garantir educação igual para todos,
sem priorizar um público específico.
Além
disso, acrescenta, segurança pública não é responsabilidade da escola. A
presença de um policial não necessariamente vai garantir segurança da
comunidade, ela opina.
Finalmente,
ela aponta que o modelo impõe uma intervenção direta no comportamento dos
estudantes em fase em que a diversidade deveria ser respeitada.
Além
desses pontos centrais da crítica, Mazeto disse à BBC News Brasil que recebe
denúncias relacionadas à postura dos militares nessas escolas, como a de entrar
em aulas mesmo sem autorização do professor ou de confrontos com esses
professores em temas históricos, como a ditadura militar. "É comum
recebermos denúncias de militares que chamam a atenção de professores ou que
fazem contraponto a conteúdos ministrados que divergem da concepção de história
deles. Seja dizendo para estudantes no pátio que o conteúdo não é daquele jeito
ou classificando o professor como sendo de esquerda ou doutrinador."
Outra
crítica é que a padronização de vestimenta e cabelo prejudicaria estudantes
negros. "O cabelo afro não é aceito, seja dos meninos ou das meninas.
Precisa estar preso, cortado, dentro de um padrão. Nesses casos temos ido ao
Ministério Público, para que escolas não possam proibir estudantes de terem
cabelo de determinada cor ou fora do padrão militar. Mas ainda assim há assédio
sobre esses estudantes."
Mazeto
afirma também que o governo usa essas escolas como vitrine ideológica,
expulsando alunos que não se adaptam, por meio do sistema de pontuação por
comportamento. "Quando as escolas começam a perceber quais estudantes
tendem a reprovar ou não têm bom desempenho escolar, a família é convidada a
retirá-los da escola."
Para
ela, esse sistema gera pressão tanto sobre os alunos quanto sobre as famílias.
"Eles
são tão assediados que temos um grande número de estudantes que acabam saindo
dessas escolas em processo de depressão e abalo psicológico. Aqueles que têm
tempo diferenciado de aprendizagem, ritmo mais lento, que exigem da escola mais
atenção e não vão seguir o padrão acabam sendo os mais assediados. E assim vão
fazendo uma 'limpa', deixando naquela escola só os que têm facilidade de
aprendizagem e bom desempenho."
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Mas por que, então, há uma fila de pais que querem matricular seus filhos
nessas escolas?
Para
Mazeto, essa é uma reação esperada por causa da propaganda do governo estadual
sobre o modelo. "Num Estado com o Paraná, conservador, bolsonarista, que
tem propagado que seu filho vai estar mais seguro [na escola cívico-militar],
que aquela escola vai garantir qualidade educacional a ele...o pai tem menos
condições de avaliar essa leitura de uma rede inteira de qualidade. Ele está
preocupado com a condição do seu filho. Mesmo que isso não se confirme para
todo mundo."
Ela diz
também que o modelo prioriza algumas escolas em detrimento das outras. "Se
eu estou falando de escola pública, preciso garantir, enquanto Estado, um
padrão de qualidade e de atendimento a todas as escolas, sem criar espaços
privilegiados. Não posso, enquanto Estado, criar nichos e dizer: essa é boa,
essa é mais ou menos."
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'Programa traz resultados concretos, mas tem que ser bem pensado'
Como o
programa de escolas cívico-militares é recente, há poucos estudos sobre o tema.
Uma exceção é o Estado de Goiás, que tem um modelo próprio desde os anos 2000.
Uma
pesquisa publicada em 2023 concluiu que o programa goiano gerou impactos
positivos nos indicadores educacionais, reduziu a chamada distorção idade-série
(quando estudantes não estão na etapa esperada de ensino para a sua idade) e
melhorou o desempenho em provas de português e matemática.
Um dos
autores, o professor de Economia da Universidade Federal da Paraíba (UFPB)
Jevuks Matheus de Araújo, associa esses resultados à melhoria do ambiente
escolar. "Há uma tranquilidade no ambiente escolar que provavelmente está
gerando resultados no desempenho acadêmico."
Ele
reconhece que pode haver um viés de seleção no programa — estudantes com
desempenho pior já evitariam, de antemão, as escolas cívico-militares. "É
difícil isolar esse efeito. Deixamos isso claro no artigo. Pode existir um viés
de seleção: aquelas escolas podem estar atraindo os melhores alunos."
Ainda
assim, há um esforço do estudo de isolar esse fator por meio de outras
comparações, como a observação de que as taxas de aprovação e reprovação são
semelhantes entre escolas cívico-militares e escolas regulares. "Tentamos
isolar o máximo possível, [para demonstrar] que o efeito [de melhoria no
desempenho dos alunos] vem da gestão, do modelo adotado nas escolas. Pode haver
algum viés, sim, mas não anula o resultado que encontramos."
O
pesquisador diz que esse resultado é específico para a realidade de Goiás e que
aplicar a mesma fórmula em outros lugares não necessariamente levaria a um
desempenho semelhante.
Ele
avalia que falta, no debate que acontece no país sobre esse modelo de escola,
um acúmulo maior de evidências sobre o que pode ou não funcionar em cada
estado.
"Quando
o Estado do Paraná ou outro vai pensar no programa, deve levantar as evidências
daquele estado para identificar o perfil da escola e do estudante que vai ter
melhor desempenho. É necessária a construção de evidências nessas localidades
antes da implementação. Não é simplesmente uma consulta."
Para
ele, o programa não pode ser considerado como solução milagrosa. "É mais
um programa dentro de um escopo de programas possíveis em educação. Traz
resultados concretos, mas tem que ser bem pensado."
Olavo
Nogueira Filho, diretor-executivo do Todos Pela Educação, disse à BBC News
Brasil que é preciso cuidado para interpretar esse tipo de resultado da
pesquisa. "Não é possível isolar com precisão se os resultados decorrem
especificamente dos ritos e da disciplina militares — isto é, da
'militarização' em si — ou de um conjunto de outros fatores que costumam
acompanhar a mudança de modelo. É comum, por exemplo, que essas escolas passem
a receber maior atenção do Estado, reforço das equipes gestoras, melhorias de
processos administrativos, garantia de professores em todas as turmas, envio de
materiais e até mais oportunidades de formação docente."
Ele diz
também que há consenso de que a escola é um espaço para construção de
identidade, valorização das diferenças e relações baseadas em confiança,
pertencimento e autonomia, não no medo ou na coerção. "O modelo
cívico-militar tende a tensionar esses princípios. Ao privilegiar hierarquia
rígida, controle comportamental e padronização, o modelo entra em conflito
direto com objetivos educacionais mais amplos, especialmente no que se refere à
formação integral dos estudantes."
Fonte:
BBC News Brasil

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