A
disputa real por trás dos protestos no Irã
Os
protestos que voltaram a ocupar as ruas do Irã entre dezembro de 2025 e janeiro
de 2026 têm sido frequentemente descritos, sobretudo fora do país, como um novo
capítulo de uma suposta revolta popular contra a República Islâmica. Contudo,
uma análise mais cuidadosa revela um cenário mais complexo e menos alinhado às
leituras que buscam celebrar, de forma apressada, a possibilidade de uma
mudança de regime. Diferentemente das grandes mobilizações de 2022, marcadas
por reivindicações ligadas aos direitos das mulheres e às liberdades civis, os
protestos recentes têm origem na condição econômica da maior parte da população
iraniana. Os protestos surgiram de maneira espontânea, impulsionados por
comerciantes tradicionais dos bazaares e por trabalhadores
diretamente afetados pelo colapso da moeda local, pela inflação elevada e pela
deterioração da qualidade de vida. Mesmo diante deste panorama, no plano
interno, não há sinais claros de uma ruptura decisiva dentro do regime. A elite
política e militar iraniana permanece relativamente coesa, sem divisões capazes
de sustentar um processo de transição de poder. Não existe tampouco uma
liderança unificada dos protestos nem um programa político capaz de canalizar o
descontentamento social para uma mudança institucional.
O
cenário, entretanto, pode mudar com o agravamento da crise. Nos últimos dias, a
situação se intensificou e segundo a organização Iran Human Rights (IHRNGO),
pelo menos 734 manifestantes teriam morrido desde o início das manifestações.
Na segunda-feira (12), o presidente iraniano Masoud Pezeshkian afirmou à
emissora estatal IRIB que “as mesmas pessoas que atacaram este país” durante a
guerra de 12 dias em Israel, em junho passado, estavam agora “tentando
intensificar esses distúrbios em relação à discussão econômica”, conforme
matéria da Al Jazeera. “Eles treinaram
algumas pessoas dentro e fora do país; trouxeram alguns terroristas de fora”,
afirmou ele, alegando que eles atacaram
um bazaar na cidade de Rasht, no norte do país, e incendiaram
mesquitas. Israel não nega que opera em território iraniano. O
ministro israelense do Patrimônio, de
extrema-direita, Amichai Eliyahu, disse à Rádio
do Exército na semana passada: “Quando atacamos o Irã
durante a Operação Leão Ascendente [em
junho], estávamos em território israelense e sabíamos
como preparar o terreno para um ataque. Posso garantir que temos alguns de
nossos agentes operando lá neste momento”.
>>>>>
Confira os principais trechos da conversa abaixo.
·
Os protestos de agora são diferentes dos anteriores?
Tenho
visto duas narrativas em torno do que tem acontecido. Uma, que é meio wishful
thinking, celebrando o que poderia ser uma “revolução”, aos moldes do que
foram as manifestações nas revoltas árabes de 2011, para a queda do regime
iraniano. A outra parte tem narrado esses protestos em torno de uma ideia de
que se trata de uma influência direta imperial dos Estados Unidos e de Israel,
principalmente. As duas narrativas acabam apagando de fato o que os iranianos
que estão indo às ruas estão demandando, de forma multifacetada, que é
diferente em relação aos protestos anteriores. No caso desses protestos
recentes, as causas são fundamentalmente econômicas. Esses protestos não
começaram em 2026, mas em dezembro de 2025, quase espontaneamente e fruto das
movimentações de alguns trabalhadores, principalmente os comerciantes que
trabalham naqueles chamados bazaar, algo semelhante a mercados
tradicionais do Oriente Médio. Esses comerciantes têm sido muito leais ao
regime desde a Revolução de 79 e forjaram uma aliança que tem perdurado há um
certo tempo. Só que existe uma questão muito anterior, um pano de fundo
importante, estrutural, e acho que é isso que está faltando nas análises sobre
o que está acontecendo: as sanções econômicas ao Irã.
Esses
comerciantes e a população iraniana como um todo tem sofrido com os efeitos das
sanções econômicas dos Estados Unidos e dos países europeus há muito tempo,
desde 1979, mas elas foram aumentando e se intensificando ao longo dos anos. Em
2006, sanções foram aprovadas pelo próprio Conselho de Segurança da ONU, que
também foram implementadas pela União Europeia. Na ocasião, as sanções foram
aplicadas visando pressionar o Irã a interromper o programa de enriquecimento
de urânio como parte do seu desenvolvimento nuclear. Cerca de dez anos depois,
houve um momento de resfriamento quando [Barack] Obama estava no poder, por
conta do acordo nuclear de 2015, mas quando o Trump assume seu primeiro
mandato, retoma e aumenta as sanções no que chama de campanha de pressão
máxima, política que foi continuada no governo Biden. Desde então, o Irã tem
sofrido muito com as sanções, mas ao mesmo tempo criou estratégias de
sobrevivência ou resiliência econômica.
Uma das
estratégias é justamente fortalecer a indústria e agricultura internas, tentar
produzir os seus próprios armamentos, e ao longo dos anos isso tem sido feito
gradativamente. O que tenho visto de críticas em relação a como o Irã tem
reagido a essas sanções do ponto de vista interno, é que, nos últimos anos, o
fortalecimento tem se voltado para a Guarda Revolucionária, e não
necessariamente para a classe média ou a classe mais baixa. As pessoas que
participam desses protestos pacíficos e legítimos não têm demandado uma mudança
de regime, mas soluções econômicas. Claro que, aqui e ali, houve gritos contra
o Ali Khamenei e descontentamentos com algumas escolhas políticas. Isso
acontece em todos os países, mas isso não necessariamente significa que vai haver
uma revolução ou uma revolta como foi, por exemplo, aquilo que alguns chamam de
Primavera Árabe, ou como aconteceu no Egito, na Tunísia e na Líbia. Mesmo
assim, estamos num momento em que não é possível termos tantas certezas e
prever qual vai ser o futuro, mas potências externas têm aproveitado a agitação
política para tentar avançar a sua própria agenda.
·
Protestos espontâneos e agendas externas
Vários
protestos em diferentes locais do mundo podem começar de demandas espontâneas e
se transformar em comandos organizados. Isso não tem acontecido no Irã, pelo
menos não por agora. Não existe uma liderança em torno desses protestos. Vimos
manifestações nesta segunda (12), inclusive, não a favor do regime exatamente,
mas em apoio à permanência do regime nas suas condições estruturais. Essa
oposição seria, na verdade, ao que os Estados Unidos e Israel têm tentado
avançar, que é na queda de Khamenei e de outras lideranças do governo iraniano,
em especial a elite militar. Grande parte da população iraniana que tem ido às
ruas também tem essa noção de que a interferência externa não vai resolver o
problema. O Irã tem um histórico de aversão a essas interferências externas,
desde o século XX, pelo menos, quando o país sofreu perda de territórios e
ocupação por forças estrangeiras, como Grã Bretanha e Rússia no final dos anos
1910. Em 1953, o Irã sofreu um golpe apoiado diretamente por Grã Bretanha e
Estados Unidos, que auxiliaram na instauração da ditadura do Sha Reza Pahvali.
Desde a Revolução de 79, que destronou Pahlavi, a grande estratégia iraniana,
politicamente falando, bem como em termos militares e de defesa, é justamente
garantir algum tipo de estabilidade interna para que essas questões domésticas
não sirvam de instrumento para fazer avançar intervenções externas, como
aconteceu em outros países da região, a exemplo do Iraque e do Afeganistão,
dentro desse marco maior da chamada guerra global ao terror. O Estado iraniano,
assim como todos os outros Estados do sistema internacional, busca a sua
própria sobrevivência. Então, diferentemente do que análises imprecisas e
sensacionalistas tentam ventilar, o Irã não age conforme uma “teocracia
islâmica”, mas buscando garantir sua própria independência e segurança em uma
região que abriga diversas bases militares dos Estados Unidos e que buscam
eliminar, direta ou indiretamente, o projeto político anti-imperialista e
contra-hegêmonico que o Irã tem levado a cabo desde 79.
Em
relação à participação de grupos que têm sido qualificados como infiltrados,
até mesmo como terroristas, não sabemos se isso é verdade ou não, mas o fato de
os próprios norte-americanos e israelenses utilizarem essa retórica tem como
objetivo inflar esse espírito contrário ao regime iraniano, que eu vejo muito
mais presente na diáspora iraniana e no Ocidente do que internamente no Irã.
Muitos iranianos que moram nos Estados Unidos e na Europa têm clamado por essa
queda do regime, alguns deles não pela via da interferência externa. Mas aí é
que está a questão: essas duas dimensões estão vinculadas, uma queda do regime
vai significar interferência externa. São escolhas que não são fáceis de serem
feitas. Por um lado, há uma demanda legítima por direitos humanos, direitos
políticos e liberdade, mas, ao mesmo tempo, o perigo está justamente na
instrumentalização dessa narrativa por meio do Ocidente. No caso da Primavera
Árabe, por exemplo, no caso do Egito, da Tunísia e de outros países, o início
do processo de revoltas também foi com demandas em torno de reformas econômicas
para acabar com a desigualdade, abrir mais empregos, tudo isso influenciado
pelas medidas de austeridade dos governos neoliberais daquela época, que
acabaram impactando muito fortemente as classes mais baixas e a classe média. A
instrumentalização desse discurso de abertura política e econômica acabou
gerando, por exemplo, as interferências externas na Líbia, uma intervenção da
OTAN no país, que hoje está completamente em frangalhos. O Egito teve ali um
momento de transição com a queda do governo do Hosni Mubarak, e depois entrou
Mohamed Morsi. Mas, por ser vinculado à Irmandade Muçulmana, e pela
incapacidade do Ocidente de compreender que a democracia no Oriente Médio não
necessariamente precisa ser laica ou liberal, houve uma arquitetura de golpe,
apoiado pelos EUA e Arábia Saudita, que depôs Mubarak e instaurou a ditadura do
Al Sisi.
Se
falarmos do ponto de vista mais estrutural e materialista, as forças em disputa
no Irã contrapõem o seu projeto revolucionário e contra-hegemônico no Oriente
Médio, desde 1979, sendo abertamente anti Israel e anti Estados Unidos, e de
outro lado, um projeto levado a cabo por Estados Unidos e Israel com pretensões
imperiais, que é de construir uma ordem regional no Oriente Médio baseada na
desordem e instabilidade. Existe uma lucratividade em torno dessas guerras
permanentes, ou forever wars, que o Trump, ironicamente, tem dito
que vai acabar com elas, mas sua retórica não reflete a realidade. Essa
instabilidade, do ponto de vista da acumulação de capital, por exemplo,
vinculada à indústria armamentista e à indústria do petróleo, é importante e
lucrativa. Embora Trump e Netanyahu tenham advogado por essa ordem regional e
estabilidade, na verdade o que eles querem é instabilidade.
E o Irã
tem sido, acredito, o único país na região que consegue hoje fazer frente a
essas pretensões imperiais em termos de Estado nacional, já que há outros
atores ali, não estatais, que compõem o chamado Eixo da Resistência e tem,
desde muito tempo, se colocado como anti Israel e anti Estados Unidos, mas
foram enfraquecidos desde o genocídio em Gaza e a expansão dessa guerra para a
Síria, Líbano e Iêmen. É como se o Irã fosse o último bastião para os
interesses imperiais dos Estados Unidos e por isso tem sofrido tantas pressões.
Ao mesmo tempo que tem resistido, em junho de 2025, com a Guerra dos Doze Dias,
o país demonstrou alguma fragilidade com o assassinato dos cientistas
nucleares, mas também mostrou capacidade de defesa, ainda que não no mesmo nível
de Israel, por exemplo. Trump disse que pode conduzir ataques militares, mas
postou na sua rede social que vai aplicar tarifas de 25% a países que
comercializam com o Irã. Isso faz parte do que os Estados Unidos utilizam como
sanções secundárias, que é sancionar países terceiros que têm relações com o
Estado iraniano. Não é novo, mas ele inova na intensidade. Quem seria mais
atingido nesse sentido seriam a China e a Rússia, mas os russos já estão
sancionados desde a Guerra da Ucrânia.
·
Unidade contra o caos
Acredito
que a elite política iraniana não está fragmentada, nem a elite política, nem a
militar ou político-militar. O Irã tem demonstrado uma unidade nesse sentido,
as alternativas que vêm a uma possível queda de Khamenei são alternativas
externas. Ressurgiu a figura de Reza Pahlavi, que seria o herdeiro da
monarquia, uma monarquia que não existe desde 1979, além de algumas outras
lideranças que estão na diáspora mas não são vistas como legítimas internamente
no país. Pahlavi tem aparecido em algumas notícias e entrevistas, sempre no
Ocidente, e também nas redes sociais. Mas sua figura representa uma monarquia,
ele é herdeiro dessa ditadura que existiu entre 1953 e 1979 e não tem qualquer
possibilidade de se colocar e se tornar de fato a nova liderança do país. Se
isso acontecesse, acredito que haveria uma resistência interna muito forte por
conta da falta de legitimidade política. Há críticas legítimas em torno das
escolhas políticas e econômicas do Irã, mas essas críticas não têm se
transformado em demandas para a queda do regime, para a queda do Khamenei ou de
Masoud Pezeshkian, um presidente considerado da ala moderada, que tem
sinalizado uma abertura para renegociar a questão nuclear com os Estados
Unidos. Como disse, existe essa ideia muito bem consolidada de que a
instabilidade doméstica abre margem para essas interferências externas. Se
voltarmos para a Guerra dos Doze Dias, que foi um ponto de inflexão, a vontade
dos Estados Unidos e de Israel era de que os protestos fossem inflados, mas
aconteceu o contrário. Teve gente que foi às ruas pedindo para o país, de fato,
desenvolver sua bomba nuclear, porque existe a ideia de que o inimigo central é
externo. Por enquanto, a elite política e militar iraniana parece bem
consolidada. Pode haver algumas fraturas aqui e ali, como em todo e qualquer
país, mas não o suficiente para acabar com o regime.
·
Elemento desestabilizador
Desde a
guerra em Gaza, houve uma tentativa, uma vontade muito grande de Israel de
aproveitar esse genocídio, expandir as suas pretensões regionais e enfraquecer
o Eixo da Resistência, com a ofensiva contra o Hezbollah; o ataque dos pagers e
o assassinato de lideranças como [Hassan] Nasrallah no Líbano, uma liderança
muito forte, histórica; os ataques aos Houthis no Iêmen; o assassinato de
lideranças do Hamas não apenas em Gaza, mas também no Irã e no Catar. No caso
do Eixo da Resistência, o Irã é o ator mais forte militar e estrategicamente
falando. Tudo isso são tentativas de diminuir a capacidade de resistência
desses grupos ou atores não estatais, que militarmente são menos fortes do que
o Irã. Em 2024, Israel já havia atacado a embaixada iraniana na Síria. O ataque
direto chegou ao país, de fato, em junho de 2025, com a justificativa de guerra
preventiva para atingir o programa nuclear iraniano. Não à toa vários
cientistas nucleares foram assassinados. Nessa época, houve uma preocupação por
parte do Conselho de Cooperação do Golfo, basicamente formado por monarquias
árabes, algumas delas próximas a Israel, como os Emirados Árabes Unidos e o
Bahrein. Emirados Árabes Unidos que protagonizam, desde 2020, a normalização
das relações desse grupo de países com o Estado israelense, aprofundando um
processo anterior de aproximação comercial e estabelecendo formalmente relações
diplomáticas, de turismo e troca de tecnologia, inclusive armada. Foi o
primeiro governo Trump que organizou e mediou esses acordos principalmente com
seu genro e então conselheiro sênior da Casa Branca, Jared Kushner.
No
governo Biden, havia uma tentativa de trazer a Arábia Saudita para esses
acordos. Ela é a grande joia da coroa dos Acordos de Abraão. Mas o 7 de outubro
mudou tudo, imediatamente a Arábia Saudita falou que ia paralisar e suspendeu
de fato as negociações para normalizar suas relações com Israel porque isso
significaria um abandono total da questão palestina. A Arábia Saudita
imediatamente falou que não ia voltar às negociações enquanto não houvesse uma
solução factível para o estabelecimento de um Estado palestino. Outro grande
ponto-chave diz respeito aos ataques que Israel fez no Catar, em setembro de
2025. Como Israel ataca outro aliado dos Estados Unidos? O Catar sedia a maior
base militar americana no Golfo. Então é nesse momento que alguns países do
Golfo começam a perceber que na verdade o centro da desestabilização regional
não é o Irã. O Conselho de Cooperação do Golfo foi criado em 1981, no contexto
da Guerra Irã-Iraque (1980-1988), para ser um contraponto às pretensões de
expansão da revolução do Irã, que as monarquias do Golfo viam como uma ameaça
política, de segurança e energética. Essas preocupações estavam alinhadas à
política externa norte-americana da época, com a chamada Doutrina Carter. Mas
esses ataques de junho e setembro de 2025 mostraram que o centro da
desestabilização regional não é o Irã, é Israel. E sempre foi, mas os
palestinos não são levados em consideração. Desde 1948 há essa tentativa de
desestabilizar a ordem regional e os palestinos que pagam esse preço há muito
tempo. Em setembro de 2025, Israel atacou seis países em menos de 72 horas. Ainda
é muito cedo para pensarmos o que os países do Golfo vão fazer nesse sentido,
porque o próprio Conselho de Cooperação do Golfo tem algumas divisões. O Catar
se coloca como esse país mais mediador, a Arábia Saudita se afastando mais de
Israel e os Emirados Árabes Unidos se aproximando cada vez mais do Estado
israelense, inclusive abandonando totalmente a causa palestina. De qualquer
maneira, há sim uma discussão em torno dos custos dessa aliança com os Estados
Unidos, pois o ataque ao Catar deixou claro que Israel pode fazer o que bem
entender que os EUA não vão impedir, inclusive contra seus próprios aliados
regionais árabes.
·
O Irã e a busca pela saída do isolamento
Desde
2021, com o início da presidência do Raisi (2021-2014), o Irã busca o que
alguns autores chamam de política externa de “olhar para o Leste”. Não é uma
nova política externa, ela vigora desde 2005 com Mahmoud Ahmadinejad
(2005-2013), com a orientação de se afastar um pouco dessa crença de que é
possível dialogar com o Ocidente. É em 2006 que o país deixa evidente que está
enriquecendo urânio e por conta disso vai receber as sanções formais aprovadas
pelo Conselho de Segurança da ONU. Entre 2013 e 2015, já na presidência de
Rouhani (2013-2021), houve uma mudança no “olhar para o Leste”, com a adoção de
uma política externa mais aberta à aproximação e diálogo com os
norte-americanos e com Barack Obama para se chegar a uma solução e reduzir as
sanções. Isso de fato deu frutos, sobretudo a assinatura do JCPOA, o acordo
nuclear, e a retirada de boa parte das sanções. Mas tudo vai por água abaixo
quando Trump chega ao poder e, em 2018, adota a política de pressão máxima ao
Irã. Desde 2021, pelo menos, o Irã renova essa política de olhar para o Leste,
buscando aumentar as parcerias comerciais, energéticas e estratégicas com China
e Rússia, o que representa um alívio econômico para o Irã, uma forma de
conseguir estabelecer alguns pontos de resiliência. Mas não são só as grandes
potências que estão dentro do marco da política externa de olhar para o Leste.
Há alguns estudos interessantes sobre as relações que o país tem estabelecido
com Cuba e Venezuela, por exemplo. No caso da Venezuela, no setor petrolífero,
e no caso de Cuba, no setor farmacêutico. O desenvolvimento e distribuição de
vacinas contra a covid-19, por exemplo, durante a pandemia, foram bem
importantes. Então, são pequenas estratégias de investimento em desenvolvimento
interno que os iranianos têm buscado desde a Revolução de 1979.
Do
ponto de vista das relações externas, essas duas grandes potências, Rússia e
China, têm sido alternativas para o Irã se posicionar nessas mudanças mais
estruturais da ordem internacional, que tem caminhado para o que alguns chamam
de multipolaridade, com outros polos de poder estratégico ao redor do mundo. As
monarquias do Golfo também buscam essa diversificação de parcerias, não
necessariamente se alinhando política e militarmente. Isso vai explicar o
porquê de a China ter conseguido, por exemplo, mediar o acordo de normalização
das relações entre Irã e Arábia Saudita em 2023, que eram dois grandes inimigos
regionais. O Iêmen se tornou um território de disputa muito importante, com o
apoio do Irã aos Houthis e a intervenção da Arábia Saudita na região. Na época,
alguns autores chamavam aquilo de Nova Guerra Fria no Oriente Médio, que não
era entre árabes do bloco “moderado” (as monarquias) e os árabes do movimento
nacionalista encabeçado por Nasser do Egito. No contexto das revoltas árabes,
essa nova Guerra Fria se deu entre a Arábia Saudita e o Irã, sobretudo na Síria
e no Iêmen. Isso deixou de ser uma realidade desde os anos 2020. Foi possível
também a partir de uma visão da Arábia Saudita de que não era estratégico se
vincular apenas aos Estados Unidos, porque agora a China é o grande parceiro
comercial de vários países da região. Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e
outros países do entorno têm tentado navegar nessa disputa entre as grandes
potências e tirar benefícios próprios. A Rússia também busca se beneficiar. O
país está sofrendo sanções econômicas dos Estados Unidos e da União Europeia e
houve uma pressão para que a Arábia Saudita e os países do Golfo aderissem a
essa campanha de sanções, mas eles não aderiram porque têm boas parcerias comerciais
com os russos, inclusive no campo energético. Foi por conta das sanções que
esses países conseguiram diversificar essas parcerias. Assim como o Irã, que se
aproximou da China não apesar das sanções, mas por causa delas.
·
Direitos e democracia
Algumas
narrativas em torno do que tem acontecido no Irã têm adotado a chave da
democracia liberal, da democracia de mercado, o que aconteceu na Primavera
Árabe também. Não posso afirmar, com certeza, se tem algum elemento geracional
ou não, mas as narrativas que vejo por parte do Ocidente, principalmente de
algumas feministas liberais, têm trazido um pouco essa questão dos direitos das
mulheres, que supostamente só seriam garantidos numa democracia. Só que a
democracia que se pretende instalar no Irã, por parte do Ocidente, não é uma
democracia verdadeira. Seriam soluções trazidas de fora, como no caso do Egito,
que hoje é uma ditadura. Não tem ninguém conversando com essas mulheres
iranianas in loco, perguntando quais são as suas demandas. E há um
silêncio em relação aos direitos das mulheres palestinas, por exemplo, mães
palestinas que têm sido assassinadas constantemente, as que não conseguem ter
filhos em meio à guerra, os bebês que morrem de fome… Enfim, é uma comoção
seletiva que de novo faz parte dessa mentalidade orientalista que temos muito
aqui no Ocidente. As mulheres iranianas não precisam de uma salvação que venha
do Ocidente, elas mesmas podem criar as suas organizações e têm criado essas
organizações de direitos das mulheres, os protestos de 2022 são um pouco
reflexo disso. Acho que é nossa função ficar atenta ao que essas narrativas
podem gerar, mesmo que essa não seja a intenção, mas o resultado pode ser
outro.
Fonte: Isabela
Agostinelli em entrevista a Glauco Faria, em Outras Palavras

Nenhum comentário:
Postar um comentário