Bets
escancaram empobrecimento e invisibilização da população negra
A
explosão das apostas esportivas no Brasil, iniciada pela legalização do setor
em 2018, durante o governo Michel Temer, vem deixando um rastro crescente de
empobrecimento. Desde a abertura do mercado, plataformas de jogos on-line se
multiplicaram e o país vive o que especialistas vêm chamando de “epidemia de
bets”. Mais de 20 milhões de brasileiros apostam mensalmente, com estímulos por
todos os lados: camisas de futebol de jogadores, outdoors em vias de alto
tráfego, anúncios publicitários na TV e influenciadores digitais nas redes
sociais.
O Banco
Central estima que entre R$ 20 bilhões e R$ 30 bilhões são movimentados por mês
em apostas on-line. Em 2024, os brasileiros destinaram cerca de R$ 240 bilhões
às bets, de acordo com a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e
Turismo (CNC). Enquanto cifras bilionárias migram para empresas, famílias
brasileiras estão empobrecendo: 40% dos apostadores já se endividaram, 45%
relataram piora na qualidade de vida própria ou da família e 37% tiveram de
reduzir até mesmo gastos com alimentação, mostra pesquisa da Federação
Brasileira de Bancos. No último ano, cerca de 1,8 milhão de brasileiros
entraram em inadimplência por conta das apostas, uma grande parte deles
pertencentes às classes mais empobrecidas, de acordo com a CNC.
As
apostas feitas por usuários considerados de “baixa renda” entraram no centro do
debate público em setembro do ano passado, quando uma nota técnica do Banco
Central revelou que beneficiários do Bolsa Família haviam gastado R$ 3 bilhões
em usuários de plataformas digitais de apostas apresentam a maior prevalência
de comportamento de risco: 66,8% são classificados como apostadores
problemáticos, percentual 40% superior ao observado em outras modalidades. As
bets já são o segundo tipo de aposta mais comum no Brasil, atrás apenas das
loterias.
Promessas
ilusórias de ganhos rápidos têm sido apontadas pelas pesquisas como um dos
principais motivos para as apostas. “A maior parte da população brasileira
atualmente se endivida para sobreviver, com alimentação, moradia. Por que as
pessoas têm buscado apostar? O que leva as pessoas a pegar um recurso,
inclusive, às vezes, advindo do Bolsa Família e apostar? É o empobrecimento, é
a falta de oportunidade”, afirma Carolina Gonçalves, coordenadora de Justiça
Social e Econômica da Oxfam Brasil.
Roberta
Uchôa, professora da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), aponta a
expansão das apostas online como um sintoma do contexto atual, marcado pelo
agravamento das desigualdades e pela redução do acesso a direitos,
oportunidades e mobilidade social. Nesse cenário, soluções de retorno rápido e
fácil, como as oferecidas pelas bets, acabam capturando os sonhos de quem busca
uma saída para a precarização crescente.
“O
capitalismo se apropria de todas as nossas necessidades materiais e imateriais,
inclusive dos nossos sonhos, do nosso desejo de melhorar de vida. E o
capitalismo ainda faz um outro movimento muito cruel, que você tem que realizar
seu sonho aqui e agora. Esse imediatismo é também individual. A solução não é coletiva. Então,
o jogo se torna uma possibilidade”, explica.
Nayara
Melo, analista de pesquisa no Observatório da Branquitude, explica que, a
partir dos anos 2000, a dinâmica da concentração de renda e do empobrecimento
mudou, impulsionada pela expansão das grandes empresas de tecnologia. ”É um
tipo de riqueza, que se acumula muito rápido, e é pouco distribuída para os
participantes. Então, a desigualdade nos últimos anos aumentou muito, não
porque o mundo se tornou mais pobre, mas porque os ricos se tornaram muito mais
ricos.”
Pesquisadores
usam diferentes termos para descrever os grupos situados entre a pobreza e a
classe média tradicional, como “precariado”, “nova classe C” ou “batalhadores”.
Apesar das variações, esses estratos têm em comum a crescente dependência de
trabalho mediado por plataformas, marcada por empregos instáveis e altos níveis
de endividamento. Vivem sob pressão constante, com medo de perder o que
conquistaram e, ao mesmo tempo, alimentando expectativas de autonomia e
ascensão social. É a esse público que têm se dirigido as empresas de jogos de
apostas como as bets, com sua rede midiática de divulgação.
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Encobrimento dos dados raciais
Estudos
recentes tentam traçar o perfil dos apostadores. Os resultados convergem:
homens jovens, ensino médio completo e pertencentes às classes mais
empobrecidas. Mas há uma “coincidência” ainda mais reveladora: a quase completa
ausência de dados raciais. Nas poucas pesquisas publicadas que incluem o
quesito “raça/cor”, pessoas pretas e pardas aparecem como maioria entre os
apostadores. Na pesquisa Futuro das Apostas Esportivas Online: onde estamos e
para onde vamos, 40% dos apostadores se declararam pretos ou pardos, enquanto
33% se identificaram como brancos – um retrato que, embora parcial, aponta para
um padrão compatível com a estrutura das desigualdades brasileiras. A falta
desse dado na maioria das pesquisas é um dado.
“No
Brasil nós temos esta dificuldade de acompanhar, sobre a perspectiva racial, a
concentração de renda. Quando a gente fala de desigualdade, estamos falando de
pobreza e de concentração de renda, de riqueza”, explica Gonçalves.
A falta
de informações raciais prejudica a compreensão sobre quem está sendo mais afetado pela perda de
renda, pelo endividamento e pelo adoecimento associados às bets. E reforça um
fenômeno histórico: a invisibilização da população negra no centro das
dinâmicas de empobrecimento. “A população negra do Brasil, por fenômenos
históricos e estruturais, é, de fato, mais empobrecida. Mas a gente tem
dificuldade de verificar essa concentração de renda. Quem são os mais ricos?
Quem são os mais pobres?”, complementa Gonçalves.
Melo
lembra que no Brasil a pobreza é facilmente associada à população negra; já a
riqueza, embora também tenha cor, permanece invisível. O impasse em torno da
taxação das grandes fortunas, de acordo com Melo, evidencia essa assimetria. “A
atual discussão do Imposto de Renda, da taxação das grandes riquezas no Brasil,
é um grupo mínimo de famílias. Não chegam a ser 200 famílias que vão ser
taxadas nas grandes fortunas e é um grupo que consegue se organizar muito bem
para fazer com que essa discussão seja levada lentamente dentro do Congresso,
para que esse processo da taxação seja demorado a ser realizado. Então, esse
processo de autoproteção é um comportamento muito da branquitude, é um
comportamento racializado de indivíduos brancos em se proteger dentro dos seus
privilégios de raça escondendo-se a partir da classe”, explica.
Incluir
questões sobre raça e cor nos dados econômicos não significa apenas identificar
quem perde renda, mas também quem acumula privilégios: quem recebe mais
isenções, quem sonega mais, quem circula com facilidade nos espaços de poder. A
falta de registro desse tipo de dado
reforça a branquitude como norma invisível. Quando não se revela quem
ganha mais, quem acumula, quem lucra e quem decide, a desigualdade racial
permanece oculta e, portanto, intocada. A diferença fica clara quando o Estado
restringe o acesso de beneficiários do Bolsa Família às plataformas de apostas,
mas não exerce controle similar sobre os mais ricos.
Gonçalves
ressalta que essa dinâmica é reforçada por uma perspectiva moralizadora do
empobrecimento no Brasil que pressupõe que pessoas negras e pobres seriam
incapazes de ascender ou acumular recursos. “A pobreza não é um problema do
indivíduo. A pobreza é resultado das escolhas políticas da nossa sociedade”,
destaca.
As
desigualdades raciais são reproduzidas ao longo das gerações e o empobrecimento
funciona como um mecanismo que as renova continuamente – um terreno em que cada
crise, cada dificuldade e cada ausência de proteção social aprofunda a
distância entre grupos. Nesse cenário, o impacto das bets tende a reforçar essa
engrenagem histórica, alimentando a transmissão intergeracional da desigualdade
racial.
“Imagina
que você caiu num buraco, mas você não
consegue ter calço suficiente para sair e andar novamente. Essa é a alegoria da
armadilha da pobreza. Se uma pessoa já tem uma situação econômica muito mais
vulnerável, o buraco dela é muito mais fundo. Quando uma pessoa tem uma
condição mínima, por exemplo, uma classe média baixa, sair desse buraco da
dívida consegue ser traçado de outra maneira. Por exemplo, se a pessoa
frequentou uma escola particular que vai lhe trazer network de trabalho ou se
conseguiu frequentar uma universidade”, explica Melo.
A falta
de dados formais raciais também dificulta dimensionar o problema, a medir o
impacto real sobre quem já enfrenta desigualdades estruturais e a elaborar
políticas públicas mais efetivas. “Não ter esse dado é uma questão séria, a
gente não consegue nem mensurar. E quando a gente não tem essa capacidade de
mensurar, a gente não tem a capacidade também de formular respostas, de
formular políticas públicas adequadas”, alerta Alexandre Nogueira, sociólogo e
pesquisador do Núcleo de Pesquisas Afro do Centro Brasileiro de Análise e
Planejamento (Afro-Cebrap).
A
ausência de dados raciais não é um detalhe metodológico. Trata-se de um padrão
que acompanha as áreas em que a desigualdade brasileira se torna mais evidente:
renda, violência, escolarização, mortalidade. Quando o Estado e as empresas
deixam de coletar informações sobre raça e cor, não é apenas uma omissão, é um
mecanismo que impede que se nomeie quem perde e quem ganha com essas políticas.
A
ausência dos dados de raça-cor não é algo recente, nem exclusivo das pesquisas
sobre bets. “É uma questão histórica e, ainda em 2025, nós temos uma miopia
para a questão racial. A gente tem aí uma dificuldade, tanto de pesquisas como
do próprio governo, de olhar para os dados econômicos, de olhar para essa
questão como um aspecto de fato racial, de um recorte racial e de gênero”,
destaca Gonçalves.
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Um problema histórico
Um
exemplo dessa invisibilidade racial é o Censo Agropecuário, que existe há um
século. Ao longo desse tempo, inúmeras edições foram realizadas sem qualquer
registro racial. “A gente tem várias edições dentro desses cem anos e a
primeira a coletar raça é a de 2017. Como vamos observar as desigualdades de
posse de terra, que a gente sabe que tem um agravante de raça muito forte, da
forma como a concessão de terra aconteceu no Brasil, se a raça não é
observada?”, questiona Melo.
Até o
ano de 2019, a Relação Anual de Informações Sociais (Rais), fonte quase
censitária de dados sobre o mercado de trabalho formal no Brasil, possuía
graves lacunas em relação à raça/cor. Coletada desde 1975, a Rais serve como
base de controle e gestão de políticas públicas e como fonte de dados para
estudos sobre o emprego e o salário públicos.
“Você
tinha 100% dos funcionários públicos sem informação racial, num momento em que
a gente já está discutindo como aumentar o número de pessoas negras no setor
público, principalmente em cargos de liderança, discutindo sobre cotas. E,
neste momento, não temos sequer um dado para conseguir fazer esse monitoramento
de maneira adequada”, afirma Nogueira.
Nos
últimos anos, a partir de ações do movimento negro, o cenário tem melhorado. Em
2023, houve a implementação da obrigatoriedade de autodeclaração de cor ou raça
para servidores e empregadores, tanto no âmbito público quanto privado, com
base na Lei 14.553. Especialistas também afirmam que áreas como saúde e
educação avançaram na identificação racial.
“Há um
processo recente sobre a conscientização da importância de colocar variável
raça-cor dentro dos bancos públicos, em decorrência da luta do movimento negro
para que essas variáveis sejam inclusas e para que categoria negra seja vista
como uma variável de pardos e pretos somados – que era a recomendação da
Conferência Estadual de Promoção da Igualdade Racial (Cepir)”, explica Melo.
A pesquisadora afirma que, no entanto, na área
da economia essas mudanças são mais difíceis de serem incorporadas. “A formação
das pessoas que trabalham na economia é muito elitizada e termina sendo uma
área muito embranquecida também”, contextualiza.
Em
julho deste ano, a deputada federal
Benedita da Silva (PT-RJ) propôs um projeto de lei que inclui o campo de
autodeclaração racial na Declaração de Imposto de Renda da Pessoa Física
(DIRPF). A proposta tenta romper justamente com décadas de apagamento racial e
pretende tornar visível as estruturas raciais das desigualdades de renda e de
tributação no país.
“A
gente tem, de uma maneira geral, uma dificuldade de ver as questões econômicas
com esse olhar no Brasil. Agora, na reforma da renda, o estudo da consultoria
legislativa da Câmara dos Deputados e um estudo da Secretaria de Políticas
Econômicas, do Ministério da Fazenda, se debruçam sobre a promoção e o impacto
positivo do projeto de reforma da renda na diminuição da desigualdade. E no
documento falando de desigualdade, a palavra “negra” não aparece. Ambos os
documentos têm ali cerca de 40, 50 páginas”, completa Gonçalves.
A
invisibilidade racial funciona como proteção para os grupos que concentram
renda no país. Sem dados, não há debate público, nem responsabilização, nem
políticas direcionadas. No caso das bets, a falta de informação também protege
a imagem das empresas de apostas, que lucram majoritariamente sobre grupos
marcados pela vulnerabilidade social. A omissão impede que o país enxergue um
padrão que se repete: são as populações negras que arcam com os custos sociais
dos novos mercados desregulados.
Fonte:
O Joio e O Trigo

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