sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Talita Cury: Mercosul-UE e uma agenda positiva para o Brasil

O avanço do entendimento entre o Mercosul e a União Europeia inaugura 2026 com uma sinalização positiva para a economia brasileira e para o agronegócio. Após mais de duas décadas de negociações, o processo entra em sua fase final e reforça a inserção do Brasil em uma das maiores zonas de livre comércio do mundo.

A aproximação entre os dois blocos conecta mercados que somam cerca de 720 milhões de consumidores e uma parcela relevante do PIB global. Para o Brasil, isso representa acesso ampliado a mercados, maior previsibilidade regulatória e um ambiente mais favorável a investimentos de longo prazo, especialmente em cadeias produtivas intensivas em tecnologia, inovação e escala.

No agronegócio, os impactos vão além do curto prazo e influenciam a forma como o setor investe, produz e compete globalmente. A elevada competitividade do agro brasileiro foi, ao longo das negociações, um dos principais pontos de resistência por parte da Europa. O entendimento entre os blocos representa um avanço relevante, ao prever a calibração gradual de tarifas que historicamente limitaram as exportações brasileiras, ainda que alguns ajustes ocorram em prazos mais extensos.

Nesse contexto, setores nos quais o Brasil já é competitivo, como açúcar e etanol, este último especialmente associado à agenda de bioenergia e descarbonização, passam a contar com condições mais previsíveis de acesso. Sustentabilidade, rastreabilidade, eficiência produtiva e qualidade permanecem como exigências centrais e se consolidam como diferenciais estratégicos de competitividade.

Os efeitos econômicos tendem a se refletir no médio e longo prazo, com impacto positivo sobre o Produto Interno Bruto, fortalecimento das exportações e maior atração de investimentos. Mais do que ampliar volumes, o avanço do entendimento contribui para elevar o padrão de inserção do Brasil nas cadeias globais de valor, estimulando a geração de empregos qualificados e um crescimento mais consistente.

Ao avançar nessa agenda, o Brasil reforça sua posição como parceiro confiável e relevante no comércio global. O entendimento Mercosul–União Europeia não é uma solução isolada, mas representa um passo importante na construção de um modelo de desenvolvimento que combina produtividade, inovação e responsabilidade ambiental.

Boa notícia para o nosso agro. Resta saber se as ressalvas impostas serão também benéficas. Aguardemos!

•        A guinada geopolítica do acordo UE-Mercosul. Por Philipp Lichterbeck

A avaliação do acordo de livre-comércio entre a União Europeia e os países do Mercosul mudou profundamente na América do Sul nos últimos meses. Já não é a importância econômica que está no centro dos debates, mas sim a dimensão geopolítica. Os sul-americanos passaram a perceber o acordo, a ser assinado neste sábado na capital paraguaia, Assunção, sobretudo como uma oportunidade de reposicionamento em um mundo que muda rapidamente.

O principal responsável por isso é Donald Trump. O presidente dos Estados Unidos aumenta tarifas de forma arbitrária, retira os EUA de organizações internacionais, reivindica acesso aos recursos naturais de outras nações e interfere em suas políticas internas, como no caso do Brasil. Diante dessa situação, a União Europeia e Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai decidem seguir o caminho oposto: apostar na cooperação, em regras e na previsibilidade.

Que o acordo seja "histórico sobretudo por sua importância geopolítica" foi a conclusão do ministro da Fazenda, Fernando Haddad. O mundo não deveria se deixar arrastar para as tensões entre as grandes potências.

<><> Preocupação com o crescente intervencionismo dos EUA

O analista político Thomas Traumann acredita que o chauvinismo econômico de Trump acabou até mesmo acelerando a conclusão do acordo UE–Mercosul. Em ambos os lados do Atlântico, teria ficado claro o quão importante é encontrar novos parceiros e deixar de lado antigas preocupações.

Para o Mercosul, o acordo tem ainda uma clara dimensão de segurança. A intervenção militar dos EUA na Venezuela e as ameaças militares de Trump contra Cuba, Colômbia, México e outros países são interpretadas como um sinal de que Washington está pronto para dominar o hemisfério conforme sua vontade.

Especialmente para o Brasil, que tradicionalmente defende princípios como soberania e não intervenção, o acordo confere mais peso internacional ao bloco sul-americano, além de fortalecê-lo internamente. O ministro das Relações Exteriores do Uruguai, Mario Lubetkin, fala em um "salto de qualidade" para toda a região.

O cientista político Oliver Stuenkel entende o tratado como uma decisão visionária. "Europa e América do Sul ampliaram suas opções estratégicas", diz à DW, mostrando ainda ser possível firmar acordos baseados em regras. UE e Mercosul rejeitam a coerção, a arbitrariedade e a lei do mais forte.

<><> Matérias-primas estratégicas

Para o Brasil, o acordo é histórico, enfatiza Stuenkel. Ele permite a integração da indústria brasileira às cadeias globais de valor e traz as terras raras do país para o centro das atenções.

O Brasil detém cerca de 20% das reservas mundiais de minerais críticos, necessários para a produção de baterias, semicondutores, tecnologias energéticas e armamentos modernos. Em um momento de crescente dependência da China, que até hoje concentra quase um monopólio desses minerais, o tratado posiciona o Brasil como um ator relevante neste mercado.

Além disso, o acordo tornaria a América do Sul como um todo mais atrativa e lhe daria mais peso em futuros acordos comerciais, acredita Stuenkel.

Do ponto de vista puramente econômico, porém, o texto assinado revela o quão assimétricos são os interesses entre a UE e o Mercosul. Enquanto os sul-americanos ganham espaço para escoar produtos agrícolas, a Europa sai beneficiada com a redução de impostos para bens industriais, como máquinas, automóveis, produtos químicos e farmacêuticos.

Um estudo do braço europeu da Fundação Getulio Vargas (FGV) indicou que há o risco do acordo ser interpretado como um motor de crescimento para a América do Sul. "Existe o perigo de que os países do Mercosul fiquem presos ao papel de fornecedores de bens pouco processados", afirma Mariana Fleischhauer, uma das autoras do estudo.

"Ao mesmo tempo, as indústrias locais sofrem pressão devido à forte concorrência europeia." Segundo ela, os governos do Mercosul só poderiam enfrentar isso por meio de uma política industrial ativa.

<><> Baixos efeitos econômicos

O acordo UE-Mercosul também não deveria ser superestimado do ponto de vista econômico, afirma Fleischhauer à DW.

Os efeitos positivos estariam mais na estabilização de preços e em melhores margens do que no aumento de fato dos volumes de exportação. A FGV calcula aumentos de longo prazo do PIB do Mercosul de apenas 0,3% a 0,5%, que deve ser puxado pelos países menores, Uruguai e Paraguai.

Por outro lado, o comércio com a UE oferece maior previsibilidade política do que o comércio com os EUA e menos volatilidade do que os negócios com a China, mas seus efeitos macroeconômicos gerais permanecem, por enquanto, limitados.

Por isso, é natural que os aspectos geopolíticos dominem a discussão atual sobre o acordo. A nova Estratégia de Segurança Nacional dos EUA, que define a América Latina como zona de influência de Washington, assim como o livro branco da China sobre a América Latina, no qual Pequim formula pela primeira vez ambições de poder na região, aumentaram o temor de que os países sul-americanos fiquem presos entre as duas grandes potências. Com o acordo UE–Mercosul, a América do Sul passa a ter uma alternativa.

<><> Expectativas excessivas?

José Augusto Fontoura Costa, chefe do departamento de Direito Internacional da Universidade de São Paulo (USP), questiona as expectativas sobre o acordo. "Trata-se de uma tentativa de conter a desintegração das normas internacionais e das bases institucionais do comércio", afirmou Fontoura Costa à DW. "Mas, por si só, ele não é capaz de reverter a erosão geral das instituições nem de restaurar o antigo papel da Europa nas relações com a América do Sul."

No caso do Brasil, o tratado dificilmente será suficiente para romper as estruturas de desenvolvimento baseadas na exportação de commodities e reduzir a dependência da China e dos Estados Unidos, diz.

A secretária de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio do Brasil, Tatiana Prazeres, por outro lado, destaca um aspecto diferente. Para ela, a estratégia mais ampla do país é expandir globalmente a rede de acordos comerciais do Mercosul.

Nos últimos anos, foram estabelecidas parcerias com Singapura e com a EFTA, composta por Noruega, Suíça, Islândia e Liechtenstein, por exemplo. "Atualmente, estamos trabalhando em um acordo com os Emirados Árabes Unidos e ampliando o acordo com a Índia. Também mantemos negociações intensas com Vietnã, Indonésia e Canadá", diz à DW.

Fica claro que o acordo UE-Mercosul é, para a América do Sul, muito mais do que um simples tratado de livre-comércio. O cientista político Stuenkel o descreve como um "instrumento para a ampliação da autonomia estratégica" em um mundo no qual as grandes potências buscam hegemonia. Manter opções em aberto é, segundo ele, a melhor coisa que a América do Sul pode fazer no momento.

•        Quando o acordo UE-Mercosul começará a valer na prática?

Depois de se arrastar por mais de um quarto de século, a novela que poderá criar a maior zona de livre comércio do mundo chegou à reta final, ao menos em partes. Neste sábado (17/01), a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, desembarca em Assunção, capital paraguaia, para enfim assinar, ao lado dos representantes de Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, o acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia (UE).

O tratado que vai facilitar o trânsito de mercadorias e serviços entre os 27 Estados-membros da UE e os países do bloco econômico sul-americano começou a ser negociado em 1999, mas só alcançou um entendimento entre as partes em 2019. Desde então, a parceria formal vem sendo costurada política e juridicamente, apesar das resistências principalmente por parte de agricultores franceses, que temem perder mercado para os produtos do Mercosul.

O acordo vai criar um mercado comum que abrange cerca de 720 milhões de pessoas e representará um Produto Interno Bruto (PIB) de mais de 22,4 trilhões de dólares (cerca de R$ 118 trilhões). De acordo com o Ministério das Relações Exteriores (MRE), o tratado deverá injetar, em cerca de dez anos, R$ 37 bilhões na economia brasileira.

<><> Quais são os próximos passos?

Depois da assinatura no Paraguai, o acordo deverá ser aprovado pelo Parlamento Europeu e pelos congressos dos quatro países sul-americanos.

O processo, no entanto, é mais complicado do que parece. Isso porque os envolvidos vão assinar, na verdade, dois documentos em vez de um: o Acordo Comercial Provisório (ITA, na sigla em inglês), que abrange apenas o comércio, e o Acordo de Parceria UE-Mercosul (EMPA), que engloba a cooperação política e setorial, além de comércio e investimentos.

Para o ITA, esse processo deverá ser mera formalidade, ao menos para os deputados de Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai; mas precisará de tempo. Em Brasília, por exemplo, o Planalto deverá enviar um projeto de lei, que será submetido a comissões específicas antes de ir ao plenário da Câmara e do Senado para receber a aprovação final e ser ratificado pelo presidente da República. De acordo com o vice-presidente, Geraldo Alckmin, isso deverá acontecer no segundo semestre de 2026.

Na Europa, no entanto, o trâmite poderá enfrentar obstáculos, principalmente por parte dos eurodeputados de países como França, Hungria e Polônia, mesmo que seja necessário apenas votos de uma maioria simples dos parlamentares. Esse instrumento não precisa passar pelos parlamentos nacionais de cada um dos países da União Europeia e já proporciona uma redução nas tarifas entre ambos os blocos.

Mas as discussões podem ainda durar meses até que haja um consenso. De acordo com a agência de notícias Reuters, a votação final deverá ocorrer até maio. Se o ITA for aprovado, o acordo Mercosul-UE começa a vigorar na prática.

<><> Caminho bem mais longo

No entanto, para que o tratado completo previsto no EMPA seja concretizado, a rota será bem mais longa. Esse instrumento só será efetivado permanentemente após a aprovação por todos os parlamentos nacionais dos 27 Estados-membros da União Europeia, além das quatro nações do Mercosul. Em alguns países, como a Bélgica, o acordo também terá que ser votado por parlamentos regionais.

Nesse caso, as dúvidas sobre quando e se o EMPA entrará em vigor aumentam. Para se ter uma ideia, um acordo de livre-comércio entre União Europeia e Canadá, assinado em 2016 e que entrou em vigor com um instrumento provisório similar no ano seguinte, ainda espera a aprovação pelos parlamentares nacionais de dez membros do bloco europeu.

Mas o acordo provisório ainda poderá enfrentar outros obstáculos, mais especificamente no território legal. Um grupo de 145 deputados afirma que os termos do ITA precisam ser submetidos a um parecer do Tribunal de Justiça da União Europeia antes de o projeto ir a plenário. O Parlamento Europeu votará na próxima semana a resolução para que esse pedido de análise do tratado seja enviado ao tribunal. Se aprovado, o processo pode atrasar até mesmo a efetivação do instrumento provisório do acordo.

Os opositores criticam o chamado "mecanismo de compensação", que permitiria, por exemplo, que países do Mercosul exigissem alterações ao acordo caso políticas da UE afetem suas exportações e pedem que o acordo comercial não entre em vigor antes da ratificação completa por todos os países da UE.

<><> Apoio da maior economia da Europa

Por outro lado, na Alemanha, terceira maior economia do mundo e o país mais rico da Europa, o acordo vem sendo defendido praticamente sem ressalvas pelo governo do chanceler federal Friedrich Merz. Segundo ele, o tratado é um "marco na política comercial europeia e um importante sinal da nosssa soberania estratégica e capacidade de ação".

Já o ministro das Finanças alemão, Lars Klingbeil, utilizou os avanços no acordo com o Mercosul para criticar a política de sobretaxas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. "Enquanto outros se fecham e seguem uma política comercial cada vez mais agressiva, nós apostamos em novas parcerias".

Segundo um estudo do instituto Ifo, encomendado pela Iniciativa Nova Economia Social de Mercado (Initiative Neue Soziale Marktwirtschaft), o tratado econômico com os países sul-americanos deve gerar um incremento de 4,1% nas exportações alemãs e um aumento de até 0,5% do PIB na Alemanha.

 

Fonte: Brasil 247/DW Brasil

 

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