sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Paulo Ghiraldelli: Os Estados Unidos estão às cegas

Quando não sabemos direito o que dizer de um evento, nossa tendência é assimilá-lo ao que já ocorreu. Andamos para frente, mas olhando demais para o retrovisor. Isso provoca acidentes. A história só é mestra dos que não teimam em ser asnos com cenouras amarradas em si mesmos e que pendem em frente de suas caras.

A história nunca se repete, nem mesmo como farsa. A repetição dela, aos olhos de alguém, se dá por conta da cenoura pendurada. Sob a égide da cenoura estão querendo manter de toda maneira o termo “imperialismo” para as ações de Donald Trump. Alguns já perceberam que essa é uma operação intelectual que não dá certo. Então criam um remendo. Como não possuem tempo ou desejo de estudar o caso, saem pela porta costumeira: “neo-imperialismo”. “Neo” é um pequeno termo que ajeita tudo quando não se sabe nada.

Por essa saída, tudo que Donald Trump fala é tomado como o que vai acontecer segundo um plano americano. Assim, segundo esse modo de interpretar, que faz do mundo o berço do tédio e dos sabichões em história, a tarefa é repor frases: “volta da Doutrina Monroe”, “busca pelo Petróleo”, “nova onda colonialista” etc. É uma maneira fácil de não querer olhar para aos menos duas mudanças no mundo, e que se manifestam nos Estados Unidos de modo agudo, dado o tamanho e a importância do país.

Primeira mudança: hegemonia da lógica do capitalismo financeiro sobre todo o capitalismo, com o dinheiro magnético arrastando as elites para longe das empresas que, agora, nem mais são suas; essas elites tornam-se desinteressadas a respeito de seus países de origem. Cria-se a burguesia sem burgo. Burguesia sem burgo nem burguesia é!

Segunda mudança, decorrente da primeira: na falta de um projeto das elites para seu países, a política nacional se torna algo que se pode empurrar com a barriga, e que então, não raro, cai nas mãos de pessoas que funcionam a partir de interesses pessoais muito particulares, completamente mesquinhos. Nasce o espaço para midiáticos sem vocação política, que compram partidos com dinheiro de suas famílias.

Essas mudanças se deram na esteira do pós-fordismo, na mudança da política para a biopolítica, na hegemonia do neoliberalismo e seus contrastes e profundas alterações no campo das subjetividades.

Uma boa parte dos países está vivendo essa situação de amorfização. Todavia, temos de notar que tudo que ocorre no mundo acontece nos Estados Unidos de modo espalhafatoso. Karl Marx sabia desse protagonismo americano, embora não pensasse que isso se daria pelo vazio de lideranças e pela falcatrua de ideais.

Donald Trump é o espalhafato dessa condição de deterioração da atividade política. É a consagração dos Estados Unidos como potência que, a partir do fim do mandato de Bush I, já não tinha nenhuma pretensão imperialista. Não pode ter. Não tinha mais como se manter no registro que põe o Estado-nação na frente do dinheiro produzido pelo dinheiro.

Bush II não percebeu essas mudanças. Conduziu uma guerra desastrosa contra o Iraque na base de uma mentira. Diferentemente, Barack Obama sabia disso tudo. Sabia muito a respeito dos limites americanos! E conhecia muito bem o neoliberalismo como força hegemônica, que faz necessário o multilateralismo, este termo adotado por Lula, mas que no passado recente chamávamos de globalização, e que fazia o PT e todos nós torcer o nariz.

Fez alianças e soltou bombas costumeiras no exterior, dentro do esperado na tradição americana e segundo o necessário gasto militar anual. Capturou Bin Laden e arrecadou gritos, diante da Casa Branca: “USA”, USA!”. Não eram gritos imperialistas, como foram os que saldaram Bush I quando este mandou tropas para o Kwait. Eram saudações para um réquiem das Torres Gêmeas, como foi prometido.

Mas Barack Obama não conseguiu deixar boa herança para Joe Biden no Afeganistão. E não se saiu melhor cortando créditos de Putin em bancos. Conseguiu bom acordo com Irã. Mas, em relação a Israel, Barack Obama tinha asco – perdoável – de conversar com Benjamin Netanyahu.

Donald Trump não sabe nada disso. É um completo analfabeto político, um homem aquém da inteligência média do americano. Donald Trump nunca foi político, e não tem uma classe social interessada no país para lhe dar apoio efetivo, a partir de um projeto nacional. Está relativamente sozinho em seu desejo de ser Nero. Persegue os cristãos nas ruas. E estes não estão gostando nada disso e começam a influenciar o que resta de opinião pública na América.

Donald Trump age como uma criança mal-criada que ele de fato é. O moleque que se acostumou a comprar programas de TV para aparecer. A cada minuto tem nova ideia. Ou abandona logo a ideia ou a segue e, então, provoca um desastre. O erro atinge o povo, mas não tira o sono das elites, que já estão dormindo em bunkers secretos ou simplesmente posam de inteligentes por breves cinco minutos, permanecendo o resto do tempo atordoadas pelo consumo pessoal de drogas. Quando acordam para a política é para ver se saíram bem na foto, de modo literal, as que estão no Epstein Files.

Para tentar driblar seus eleitores com nova mentira, Donald Trump disse que estava perseguindo não os latinos, mas os traficantes. Então, enganou a si mesmo fazendo de Nicolás Maduro um chefe de tráfico. Donald Trump pegou Nicolás Maduro. Não poderia pegar alguém forte. Pegou o fracote da dancinha. Nem mesmo conseguiu derrubar o governo da Venezuela. Trouxe Nicolás Maduro para julgá-lo por narcotráfico. O tiro saiu pela culatra.

Nicolás Maduro não pertence ao Cartel do Sol. Na verdade, este Cartel nem existe. Aí Donald Trump recorreu ao lucro com o petróleo. Vociferou como se estivesse pilhando a Venezuela. Mas as companhias de petróleo disseram que não querem ir para a Venezuela, pois não possuem o interesse em fazer investimentos. O petróleo está na beira de não ser mais um bom negócio.

Donald Trump passou para nova falação: vai caçar narcotraficantes no México, vai responder à Colômbia, quer a Groenlândia etc. Tudo do mesmo modo que iria ajudar Jair Bolsonaro, antes de ser seduzido pelo Lula. A gritaria de Donald Trump na imprensa indica que ele faria um pix gordo para quem, vendo tudo isso, o chamasse de imperialista. Poderia tentar Cuba, mas a Baia do Porcos é um fantasma que faz até mesmo Donald Trump saber história. Mas, que ele vai começar a falar de Cuba, ele vai. Terá a ajuda de Marco Rúbio, que nada é senão um ressentido cubano.

Como o mundo não gritou para Donald Trump que ele é um imperialista, do modo que ele desejava, ou seja, em alto e bom som, então ele mesmo disse: os meus limites não são a lei internacional, mas sim “a minha moralidade”. No passado poderíamos dizer que é cinismo. Não é. Nenhum presidente americano com real poder imperialista falou isso, não falaria.

Donald Trump fala, porque não há qualquer plano classista com projeto imperialista. Há só ele, Donald Trump, gesticulando na Casa Branca, enquanto Melania gesticula os quadris e mais coisas em outros lugares. Seu governo não tem staff preparado. É um governo de amadores. E o que faz na rua é matar cidadão americano. Todas as cidades grandes americanas estão fervendo de protestos contra ele. O mundo assiste com esperança e ceticismo os protestos americanos nas ruas.

Não é difícil ver que Donald Trump caminha sem projetos. Ele mesmo nunca teve algum projeto para os Estados Unidos. Fez um acordo com Steve Bannon para chegar ao poder, mas os anarcocapitalistas sabem gemer e soltar flatos, não governar. Mas, o fato é que ele não tem como ter projeto. Os Estados Unidos estão caminhando às cegas internamente.

A burguesia sem burgo, volto a dizer, nem burguesia é. E a população do mundo todo, por sua vez, após quarenta anos de neoliberalismo, não se vê como “classe trabalhadora”. A luta de classes ganhou outros contornos. Os que vão às ruas nos Estados Unidos imaginam que poderão, pelo voto, achar alguém que volte a trazer um Barack Obama, algum governante que realmente governe. Mas não havendo projeto classista, é difícil achar líderes.

Barack Obama foi uma sorte americana, como Lula é uma sorte brasileira. Quase sorte, pois, na verdade, trata-se de uma construção do passado, mas que vieram não mais por programas positivos, e sim a partir de crises: Obama veio na crise do subprime, Lula veio na crise da sindemia. Agora, há uma crise interna, mas o que se teme é que os americanos não encontrem um Barack Obama, uma vez que não há elites para ajudar a procurar.

¨      A suposta nova riqueza do imperador. Por Paul Krugman

Quando George W. Bush invadiu o Iraque em 2003, ele afirmou que o objetivo era estabelecer um regime democrático. Membros de sua administração podem até ter acreditado nisso, mas muitos críticos de esquerda insistiam que tudo girava em torno de tomar o petróleo do Iraque.

Embora eu fosse um opositor declarado daquela guerra e profundamente cético em relação às motivações do governo de George W. Bush, nunca acreditei na história de que aquela “guerra era pelo petróleo”. A principal motivação para aquela guerra, ainda acredito, foi sacudir o imaginário popular – usar uma vitória militar vistosa para garantir a reeleição do então presidente dos Estados Unidos. Segundo alguns cientistas políticos, esse foi um objetivo que a guerra, de fato, alcançou.

A investida de Donald Trump na Venezuela é uma história bem diferente. Durante sua coletiva de imprensa triunfalista após o sequestro de Nicolás Maduro, Donald Trump nunca usou a palavra “democracia”. No entanto, ele usou o termo “petróleo” por 27 vezes, declarando: “vamos recuperar o petróleo que, francamente, deveríamos ter recuperado há muito tempo.”

Mesmo assim, seja lá o que os EUA estão fazendo na Venezuela, não se trata verdadeiramente de uma guerra por petróleo real. É, em vez disso, uma guerra por fantasias petrolíferas. A vasta riqueza que Donald Trump imagina estar lá esperando para ser tomada não existe verdadeiramente.

Pode-se ter ouvido dizer que a Venezuela possui as maiores reservas de petróleo do mundo – 300 bilhões de barris. Tais ouvintes provavelmente não sabem que as reservas de petróleo reportadas da Venezuela triplicaram durante o período em que Hugo Chávez se manteve como presidente. Esse aumento, de cerca de 100 bilhões para 300 bilhões de barris, não refletiu grandes descobertas ou explorações.

Em vez disso, ele veio de uma decisão do governo Chávez de reclassificar o petróleo pesado do Cinturão do Orinoco como “comprovado” – petróleo que pode ser recuperado com razoável certeza sob as condições econômicas e operacionais existentes.

Como observou recentemente Torsten Slok, da Apollo, “grande parte do petróleo é extra-pesada, com baixa recuperação e alto custo de produção”. Isso sugere que as alegações da Venezuela de que possui imensas reservas de petróleo utilizáveis são um exagero criado com um fim político.

Essa visão é apoiada pelo fato de que o enorme aumento nas reservas de petróleo da Venezuela relatadas não foi seguido por um aumento na produção. Pelo contrário, a produção venezuelana de petróleo logo despencou.

A queda da produção ocorreu também devido a uma degradação constante da infraestrutura petrolífera da Venezuela; sabe-se que ela requer agora, por vários anos, muitos bilhões de dólares em investimentos para ser restaurada. Diante desses custos, além da instabilidade política, é bem evidente que as grandes petrolíferas não estão entusiasmadas com a ideia de investir na Venezuela.

No início da semana passada, Donald Trump sugeriu que poderia reembolsar as empresas petrolíferas por investimentos no país que afirma – sem base real – controlar, reembolsando-as pelos gastos que viessem a ter para extrair petróleo no Cinturão do Orinoco. Ou seja, ao invés do discurso versar sobre as grandes oportunidades de lucro, passou a propor na prática que é preciso subsidiar os investimentos na indústria do petróleo na Venezuela às custas dos contribuintes dos EUA.

O que não quer dizer que ninguém tenha lucrado com o sequestro de Nicolás Maduro. Alguns meses atrás, o bilionário trumpista Paul Singer comprou a Citgo, a antiga filial americana da empresa estatal de petróleo venezuelana. A Citgo possui três refinarias na Costa do Golfo construídas sob medida para processar petróleo venezuelano, refinarias estas que sofreram com o embargo dos EUA à importação desse petróleo. Se Donald Trump levantar esse embargo, Paul Singer terá um grande ganho. Mas esse ganho inesperado não terá nada a ver com a retomada da produção venezuelana.

Paul Singer fez enormes doações políticas para Donald Trump, levantando questões sobre o quanto ele próprio teria influenciado as políticas do atual mandatário. A compra de Citgo parece agora como um bom investimento. O que que será que ele sabia sobre o que iria acontecer?

Em um nível mais profundo, a aparente crença de Donald Trump de que o petróleo no subsolo é um ativo precioso está desatualizada há décadas. Hoje em dia, o petróleo está barato pelos padrões históricos.

Os preços do petróleo estão baixos principalmente devido ao aumento da oferta devido ao uso do método de fracionamento que é utilizado principalmente nos EUA. Como há ainda potencial de extração por esse método, os preços se manterão provavelmente em níveis baixos no futuro próximo.

preço de equilíbrio do petróleo fractado – o preço pelo qual é lucrativo apenas perfurar um novo poço – é cerca de 62 dólares por barril nas regiões produtoras mais importantes dos EUA. Embora os preços globais do petróleo flutuem, eles tendem a voltar ao preço de equilíbrio, mesmo quando dele se afastam por alguns anos.

Ora, 62 dólares por barril não seria alto o suficiente para tornar lucrativo investir no Cinturão do Orinoco, onde o ponto de equilíbrio estimado é superior a 80 dólares por barril, mesmo sem riscos políticos.

Em resumo, a crença de Donald Trump de que conquistou um prêmio em lucros futuros nos campos petrolíferos da Venezuela parece uma fantasia irrealista. Ora, ela seria uma fantasia mesmo se os Estados Unidos realmente estivesse no controle de uma nação; contudo, como se sabe, na prática, este país latino-americano ainda é controlado pelos mesmos grupos que a controlaram antes do sequestro de Nicolás Maduro.

 

Fonte: A Terra é Redonda

 

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