Paulo
Ghiraldelli: Os Estados Unidos estão às cegas
Quando
não sabemos direito o que dizer de um evento, nossa tendência é assimilá-lo ao
que já ocorreu. Andamos para frente, mas olhando demais para o retrovisor. Isso
provoca acidentes. A história só é mestra dos que não teimam em ser asnos com
cenouras amarradas em si mesmos e que pendem em frente de suas caras.
A
história nunca se repete, nem mesmo como farsa. A repetição dela, aos olhos de
alguém, se dá por conta da cenoura pendurada. Sob a égide da cenoura estão
querendo manter de toda maneira o termo “imperialismo” para as ações de Donald
Trump. Alguns já perceberam que essa é uma operação intelectual que não dá
certo. Então criam um remendo. Como não possuem tempo ou desejo de estudar o
caso, saem pela porta costumeira: “neo-imperialismo”. “Neo” é um pequeno termo
que ajeita tudo quando não se sabe nada.
Por
essa saída, tudo que Donald Trump fala é tomado como o que vai acontecer
segundo um plano americano. Assim, segundo esse modo de interpretar, que faz do
mundo o berço do tédio e dos sabichões em história, a tarefa é repor frases:
“volta da Doutrina Monroe”, “busca pelo Petróleo”, “nova onda colonialista”
etc. É uma maneira fácil de não querer olhar para aos menos duas mudanças no
mundo, e que se manifestam nos Estados Unidos de modo agudo, dado o tamanho e a
importância do país.
Primeira
mudança: hegemonia da lógica do capitalismo financeiro sobre todo o
capitalismo, com o dinheiro magnético arrastando as elites para longe das
empresas que, agora, nem mais são suas; essas elites tornam-se desinteressadas
a respeito de seus países de origem. Cria-se a burguesia sem burgo. Burguesia
sem burgo nem burguesia é!
Segunda
mudança, decorrente da primeira: na falta de um projeto das elites para seu
países, a política nacional se torna algo que se pode empurrar com a barriga, e
que então, não raro, cai nas mãos de pessoas que funcionam a partir de
interesses pessoais muito particulares, completamente mesquinhos. Nasce o
espaço para midiáticos sem vocação política, que compram partidos com dinheiro
de suas famílias.
Essas
mudanças se deram na esteira do pós-fordismo, na mudança da política para a
biopolítica, na hegemonia do neoliberalismo e seus contrastes e profundas
alterações no campo das subjetividades.
Uma boa
parte dos países está vivendo essa situação de amorfização. Todavia, temos de
notar que tudo que ocorre no mundo acontece nos Estados Unidos de modo
espalhafatoso. Karl Marx sabia desse protagonismo americano, embora não
pensasse que isso se daria pelo vazio de lideranças e pela falcatrua de ideais.
Donald
Trump é o espalhafato dessa condição de deterioração da atividade política. É a
consagração dos Estados Unidos como potência que, a partir do fim do mandato de
Bush I, já não tinha nenhuma pretensão imperialista. Não pode ter. Não tinha
mais como se manter no registro que põe o Estado-nação na frente do dinheiro
produzido pelo dinheiro.
Bush II
não percebeu essas mudanças. Conduziu uma guerra desastrosa contra o Iraque na
base de uma mentira. Diferentemente, Barack Obama sabia disso tudo. Sabia muito
a respeito dos limites americanos! E conhecia muito bem o neoliberalismo como
força hegemônica, que faz necessário o multilateralismo, este termo adotado por
Lula, mas que no passado recente chamávamos de globalização, e que fazia o PT e
todos nós torcer o nariz.
Fez
alianças e soltou bombas costumeiras no exterior, dentro do esperado na
tradição americana e segundo o necessário gasto militar anual. Capturou Bin
Laden e arrecadou gritos, diante da Casa Branca: “USA”, USA!”. Não eram gritos
imperialistas, como foram os que saldaram Bush I quando este mandou tropas para
o Kwait. Eram saudações para um réquiem das Torres Gêmeas, como foi prometido.
Mas
Barack Obama não conseguiu deixar boa herança para Joe Biden no Afeganistão. E
não se saiu melhor cortando créditos de Putin em bancos. Conseguiu bom acordo
com Irã. Mas, em relação a Israel, Barack Obama tinha asco – perdoável – de
conversar com Benjamin Netanyahu.
Donald
Trump não sabe nada disso. É um completo analfabeto político, um homem aquém da
inteligência média do americano. Donald Trump nunca foi político, e não tem uma
classe social interessada no país para lhe dar apoio efetivo, a partir de um
projeto nacional. Está relativamente sozinho em seu desejo de ser Nero.
Persegue os cristãos nas ruas. E estes não estão gostando nada disso e começam
a influenciar o que resta de opinião pública na América.
Donald
Trump age como uma criança mal-criada que ele de fato é. O moleque que se
acostumou a comprar programas de TV para aparecer. A cada minuto tem nova
ideia. Ou abandona logo a ideia ou a segue e, então, provoca um desastre. O
erro atinge o povo, mas não tira o sono das elites, que já estão dormindo
em bunkers secretos ou simplesmente posam de inteligentes por
breves cinco minutos, permanecendo o resto do tempo atordoadas pelo consumo
pessoal de drogas. Quando acordam para a política é para ver se saíram bem na
foto, de modo literal, as que estão no Epstein Files.
Para
tentar driblar seus eleitores com nova mentira, Donald Trump disse que estava
perseguindo não os latinos, mas os traficantes. Então, enganou a si mesmo
fazendo de Nicolás Maduro um chefe de tráfico. Donald Trump pegou Nicolás
Maduro. Não poderia pegar alguém forte. Pegou o fracote da dancinha. Nem mesmo
conseguiu derrubar o governo da Venezuela. Trouxe Nicolás Maduro para julgá-lo
por narcotráfico. O tiro saiu pela culatra.
Nicolás
Maduro não pertence ao Cartel do Sol. Na verdade, este Cartel nem existe. Aí
Donald Trump recorreu ao lucro com o petróleo. Vociferou como se estivesse
pilhando a Venezuela. Mas as companhias de petróleo disseram que não querem ir
para a Venezuela, pois não possuem o interesse em fazer investimentos. O
petróleo está na beira de não ser mais um bom negócio.
Donald
Trump passou para nova falação: vai caçar narcotraficantes no México, vai
responder à Colômbia, quer a Groenlândia etc. Tudo do mesmo modo que iria
ajudar Jair Bolsonaro, antes de ser seduzido pelo Lula. A gritaria de Donald
Trump na imprensa indica que ele faria um pix gordo para quem, vendo tudo isso,
o chamasse de imperialista. Poderia tentar Cuba, mas a Baia do Porcos é um
fantasma que faz até mesmo Donald Trump saber história. Mas, que ele vai
começar a falar de Cuba, ele vai. Terá a ajuda de Marco Rúbio, que nada é senão
um ressentido cubano.
Como o
mundo não gritou para Donald Trump que ele é um imperialista, do modo que ele
desejava, ou seja, em alto e bom som, então ele mesmo disse: os meus limites
não são a lei internacional, mas sim “a minha moralidade”. No passado
poderíamos dizer que é cinismo. Não é. Nenhum presidente americano com real
poder imperialista falou isso, não falaria.
Donald
Trump fala, porque não há qualquer plano classista com projeto imperialista. Há
só ele, Donald Trump, gesticulando na Casa Branca, enquanto Melania gesticula
os quadris e mais coisas em outros lugares. Seu governo não tem staff
preparado. É um governo de amadores. E o que faz na rua é matar cidadão
americano. Todas as cidades grandes americanas estão fervendo de protestos
contra ele. O mundo assiste com esperança e ceticismo os protestos americanos
nas ruas.
Não é
difícil ver que Donald Trump caminha sem projetos. Ele mesmo nunca teve algum
projeto para os Estados Unidos. Fez um acordo com Steve Bannon para chegar ao
poder, mas os anarcocapitalistas sabem gemer e soltar flatos, não governar.
Mas, o fato é que ele não tem como ter projeto. Os Estados Unidos estão
caminhando às cegas internamente.
A
burguesia sem burgo, volto a dizer, nem burguesia é. E a população do mundo
todo, por sua vez, após quarenta anos de neoliberalismo, não se vê como “classe
trabalhadora”. A luta de classes ganhou outros contornos. Os que vão às ruas
nos Estados Unidos imaginam que poderão, pelo voto, achar alguém que volte a
trazer um Barack Obama, algum governante que realmente governe. Mas não havendo
projeto classista, é difícil achar líderes.
Barack
Obama foi uma sorte americana, como Lula é uma sorte brasileira. Quase sorte,
pois, na verdade, trata-se de uma construção do passado, mas que vieram não
mais por programas positivos, e sim a partir de crises: Obama veio na crise do
subprime, Lula veio na crise da sindemia. Agora, há uma crise interna, mas o
que se teme é que os americanos não encontrem um Barack Obama, uma vez que não
há elites para ajudar a procurar.
¨ A suposta nova
riqueza do imperador. Por Paul Krugman
Quando
George W. Bush invadiu o Iraque em 2003, ele afirmou que o objetivo era
estabelecer um regime democrático. Membros de sua administração podem até ter
acreditado nisso, mas muitos críticos de esquerda insistiam que tudo girava em
torno de tomar o petróleo do Iraque.
Embora
eu fosse um opositor declarado daquela guerra e profundamente cético em relação
às motivações do governo de George W. Bush, nunca acreditei na história de que
aquela “guerra era pelo petróleo”. A principal motivação para aquela guerra,
ainda acredito, foi sacudir o imaginário popular – usar uma vitória militar
vistosa para garantir a reeleição do então presidente dos Estados Unidos.
Segundo alguns
cientistas políticos,
esse foi um objetivo que a guerra, de fato, alcançou.
A
investida de Donald Trump na Venezuela é uma história bem diferente. Durante
sua coletiva de imprensa
triunfalista após
o sequestro de Nicolás Maduro, Donald Trump nunca usou a palavra “democracia”.
No entanto, ele usou o termo “petróleo” por 27 vezes, declarando: “vamos
recuperar o petróleo que, francamente, deveríamos ter recuperado há muito
tempo.”
Mesmo
assim, seja lá o que os EUA estão fazendo na Venezuela, não se trata
verdadeiramente de uma guerra por petróleo real. É, em vez disso, uma guerra
por fantasias petrolíferas. A vasta riqueza que Donald Trump imagina estar lá
esperando para ser tomada não existe verdadeiramente.
Pode-se
ter ouvido dizer que a Venezuela possui as maiores reservas de petróleo do
mundo – 300 bilhões de barris. Tais ouvintes provavelmente não sabem que as
reservas de petróleo reportadas da Venezuela triplicaram durante o período em
que Hugo Chávez se manteve como presidente. Esse aumento, de cerca de 100
bilhões para 300 bilhões de barris, não refletiu grandes descobertas ou
explorações.
Em vez
disso, ele veio de uma decisão do governo Chávez de reclassificar o petróleo
pesado do Cinturão do Orinoco como “comprovado” – petróleo que pode ser
recuperado com razoável certeza sob as condições econômicas e operacionais
existentes.
Como
observou recentemente Torsten Slok, da Apollo, “grande parte do
petróleo é extra-pesada, com baixa recuperação e alto custo de produção”. Isso
sugere que as alegações da Venezuela de que possui imensas reservas de petróleo
utilizáveis são um exagero criado com um fim político.
Essa
visão é apoiada pelo fato de que o enorme aumento nas reservas de petróleo da
Venezuela relatadas não foi seguido por um aumento na produção. Pelo contrário,
a produção venezuelana de petróleo logo despencou.
A queda
da produção ocorreu também devido a uma degradação constante da infraestrutura
petrolífera da Venezuela; sabe-se que ela requer agora, por vários anos, muitos
bilhões de dólares em investimentos para ser restaurada. Diante desses custos,
além da instabilidade política, é bem evidente que as grandes petrolíferas não
estão entusiasmadas com a ideia de investir na Venezuela.
No
início da semana passada, Donald Trump sugeriu que poderia
reembolsar as empresas petrolíferas por investimentos no país que afirma – sem
base real – controlar, reembolsando-as pelos gastos que viessem a ter para
extrair petróleo no Cinturão do Orinoco. Ou seja, ao invés do discurso versar
sobre as grandes oportunidades de lucro, passou a propor na prática que é
preciso subsidiar os investimentos na indústria do petróleo na Venezuela às
custas dos contribuintes dos EUA.
O que
não quer dizer que ninguém tenha lucrado com o sequestro de Nicolás Maduro.
Alguns meses atrás, o bilionário trumpista Paul Singer comprou a
Citgo, a antiga filial americana da empresa estatal de petróleo venezuelana. A
Citgo possui três refinarias na Costa do Golfo construídas sob medida para
processar petróleo venezuelano, refinarias estas que sofreram com o embargo dos
EUA à importação desse petróleo. Se Donald Trump levantar esse embargo, Paul
Singer terá um grande ganho. Mas esse ganho inesperado não terá nada a ver com
a retomada da produção venezuelana.
Paul
Singer fez enormes doações políticas para Donald Trump, levantando questões
sobre o quanto ele próprio teria influenciado as políticas do atual mandatário.
A compra de Citgo parece agora como um bom investimento. O que que será que ele
sabia sobre o que iria acontecer?
Em um
nível mais profundo, a aparente crença de Donald Trump de que o petróleo no
subsolo é um ativo precioso está desatualizada há décadas. Hoje em dia, o
petróleo está barato pelos padrões históricos.
Os
preços do petróleo estão baixos principalmente devido ao aumento da oferta
devido ao uso do método de fracionamento que é utilizado principalmente nos
EUA. Como há ainda potencial de extração por esse método, os preços se manterão
provavelmente em níveis baixos no futuro próximo.
O preço de equilíbrio
do petróleo fractado – o preço pelo qual é lucrativo apenas perfurar um novo
poço – é cerca de 62 dólares por barril nas regiões produtoras mais importantes
dos EUA. Embora os preços globais do petróleo flutuem, eles tendem a voltar ao
preço de equilíbrio, mesmo quando dele se afastam por alguns anos.
Ora, 62
dólares por barril não seria alto o suficiente para tornar lucrativo investir
no Cinturão do Orinoco, onde o ponto de equilíbrio estimado é superior a 80
dólares por barril, mesmo sem riscos políticos.
Em
resumo, a crença de Donald Trump de que conquistou um prêmio em lucros futuros
nos campos petrolíferos da Venezuela parece uma fantasia irrealista. Ora, ela
seria uma fantasia mesmo se os Estados Unidos realmente estivesse no controle
de uma nação; contudo, como se sabe, na prática, este país latino-americano
ainda é controlado pelos mesmos grupos que a controlaram antes do sequestro de
Nicolás Maduro.
Fonte:
A Terra é Redonda

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