Brasil:
a Defesa necessária contra Trump
A
capacidade militar do Brasil, desde a Segunda Guerra Mundial, é concebida como
extensão do poderio do Pentágono. Uma nova conflagração generalizada se desenha
e, seja qual for o seu desenrolar, obedecendo ou contrariando Washington,
seremos afetados.
Se, na
melhor hipótese, forem usadas armas convencionais a carnificina se prolongará
por tempo indeterminável. Na pior, armas nucleares encurtarão a guerra e o
resultado será inimaginável.
Nas
últimas décadas, orientações de nossa Defesa Nacional (DN) foram reescritas sem
novidades substantivas. Consistem em generalidades e truísmos sobre o quadro
geopolítico acompanhadas de proposições rotineiras das Forças Armadas.
Esses
documentos mostram a DN como matéria da alçada militar. Revelam que as armas
mais complexas são importadas e o desenvolvimento de tecnologia própria não
acompanha o ritmo frenético dos grandes atores internacionais. Parcerias
tradicionais são preservadas. As fileiras estão prontas para preservar a Lei e
a Ordem e cumprir múltiplas funções. Finalmente, concluem que a DN estaria
melhor, não fosse a avareza do Estado.
Não
creio que essas orientações sejam compatíveis com a aspiração de soberania
nacional, nem que possamos dispor de DN convincente acatando conceitos e
formulações enraizadas na caserna.
Visando
o debate, apresento breves anotações.
A
guerra repugna e fascina. Faz parte da experiência humana. É indissociável da
construção civilizatória. Não há sociedade que a desconheça. Mas a DN está fora
da pauta brasileira, como pode ser constatado no documento “Pilares de um
Projeto de Nação”, recentemente lançado pelo Governo Federal. O Brasil
projetado nesse documento ignora os solavancos da ordem mundial.
Nos
confrontos sangrentos, desde sempre, os mais penalizados são os pobres e
desprotegidos. Os beneficiários são os mais ricos. Empresários espertalhões e
demagogos veem a guerra como oportunidade de se dar bem.
Mas a
guerra pode favorecer mudanças sociais: altera valores, comportamentos e
condições de vida; abre rachaduras no poder e açula a vontade de mundo melhor.
Guerra
não é simples medição de força bruta: é fenômeno essencialmente político. O
político deve conduzi-la, do contrário, será submetido por homens armados. Nos
confrontos, guerreiros cobrem-se de glórias e tendem a atravessar o Rubicão.
Lula precisa se preparar para exercer o comando supremo. Deve saber que o
ambiente guerreiro favorece o golpismo.
Assimetria
de forças militares é sempre relativa. Armas são manipuladas por pessoas que
podem estar mais ou menos mobilizadas. Exércitos dependem dos humores da
sociedade que lhes sustentam.
Os
brasileiros não podem se intimidar com o poderio dos Estados Unidos ou de
qualquer outra potência. Grandes potências foram derrotadas por países pobres.
Sociedade
fragmentada é presa fácil de agressores estrangeiros. A DN de que precisamos
deve contar, essencialmente, com a coesão dos brasileiros e com o que somos
capazes de produzir.
O
sentimento nacional, ou o “patriotismo”, constitui nossa principal garantia. O
“amor à pátria” é o sentimento coletivo mais poderoso, sublime e sangrento já
conhecido.
Os
inimigos mais temíveis são os nacionais que servem ao estrangeiro hostil. Esses
traidores ocupam espaço no aparelho estatal, inclusive nas fileiras.
A DN
deve travar combate político renhido aos prosélitos do agressor estrangeiro e
às atividades desagregadoras da comunidade nacional. Estímulos explícitos à
agressão estrangeira precisam ser alcançados pela lei, assim como incitações à
secessão.
Os
militares podem contribuir com a coesão nacional evitando atuar na ordem
interna. A revisão do Artigo 142 da Constituição é necessária para que o
militar firme credibilidade e se concentre no enfrentamento ao estrangeiro
hostil.
Pelo
bem da coesão nacional, fileiras não devem cultuar os que reprimiram rebeliões
populares. O Exército é do nobre que reprimiu os balaios ou do povo brasileiro?
A Marinha precisa reverenciar o Almirante Negro, que tanto fez por sua
modernização.
Uma DN
verossímil deve enfrentar o legado colonial de desigualdades, exclusão e
discriminações. A coesão social pede atendimento aos empobrecidos e redução das
desigualdades regionais.
A
dicotomia entre “questão nacional” e “questão social” é arbitrária e descabida.
Propicia à extrema direita o uso despudorado dos símbolos nacionais. Confunde o
povo.
Das
políticas de Estado, nenhuma supera a DN em complexidade, abrangência e
capilaridade. Requer planejamento multidimensional e parcerias com
estrangeiros. Pressupõe envolvimento de toda a sociedade e de todo o aparelho
de Estado. Não isenta nenhum setor econômico.
Todos
precisam entender a ameaça que paira sobre o Brasil. Todos devem saber dos
sofrimentos que nos aguardam. Nossa soberania precisa ser debatida nas próximas
eleições e os aliados do imperialismo devem desmascarados e derrotados.
Campanhas
eleitorais baseadas em benefícios localizados, obtidos por emendas
orçamentárias, falseiam o escrutínio e alienam a sociedade. As casas
congressuais não contribuem com a soberania nacional quando acatam sem debater
demandas da caserna.
Políticas
públicas de comunicação, educação, cultura, ciência e tecnologia têm papel
crucial na união da sociedade. A sociedade precisa aprender a se defender de
operações psicológicas e choques cognitivos engendrados pelos agressores.
Escolas e universidades não podem formar alienados. Por que os pobres têm que
arcar com a formação de cientistas para trabalhar em empresas de nossos
opressores?
A
regulamentação das novas mídias e a contenção de danos provocados pela imprensa
favorável ao estrangeiro hostil é fundamental à uma DN credível.
“Operações psicológicas” são decisivas na guerra. Interferem ou condicionam o
comportamento das massas. Causam pânicos, descrenças, desânimos coletivos ou
excitações incontroláveis.
A
submissão pela fome, sede e doença é procedimento guerreiro elementar e nunca
desatualizado. Para atenuar consequências de bloqueio de transportes, o governo
precisa incentivar a produção local de alimentos e produtos de primeira
necessidade, com destaque para medicamentos e equipamentos médicos.
Por
obra de sabotadores da distribuição de energia elétrica, milhares de
brasileiros podem morrer sem que o inimigo dê um tiro. Cumpre a DN nacional
repensar o sistema de abastecimento de eletricidade.
O
cultivo da amizade com os vizinhos é a segunda grande âncora da DN. Não cabe
alimentar inimizades que favoreçam o cerco e a penetração em nosso território.
Desrespeitar a autonomia da Venezuela no seu processo eleitoral e o não
reconhecimento de Maduro foi um erro. Bases militares estadunidenses no sul do
Continente representam inadmissível ameaça ao Brasil, assim como a intervenção
na Venezuela.
Instituições
brasileiras precisam priorizar parcerias com os fronteiriços por meio de
empreendimentos estruturantes de setores produtivos, proteção ambiental,
segurança, desenvolvimento científico e tecnológico, controle de zoonoses e
atendimento em saúde pública. É injustificável a ausência de proposições nesse
sentido no mencionado “Pilares de um Projeto de Nação”.
Desconheço
diagnóstico preciso sobre a dependência das Forças Armadas quanto à importação
de material e serviços de guerra. Mas hoje estamos tecnicamente atrelados à
potência que ameaça a América Latina, com capacidade de paralisar, em um piscar
de olhos, a parafernália comprada com o suor do povo.
O
Presidente e o Congresso devem pedir explicações às Forças Armadas acerca da
efetiva capacidade militar brasileira. Apenas a análise realista da situação
permitirá entrever os passos para a formulação de uma DN que proteja os
brasileiros.
As
compras de material de guerra devem ser revistas. Corporações militares
equipadas com armas estrangeiras disseminam falsa sensação de segurança e
reforçam militarmente o vendedor. De que adianta gastar com um caça sueco que
não voará sem a aquiescência de Washington?
Cabe
suspender as compras de material de guerra de empresas estadunidenses, assim
como as de qualquer fabricante, em qualquer país, que produza sob licença de
empresas estadunidenses: as aquisições serão inúteis no enfrentamento de nosso
potencial agressor e reforçam sua capacidade de nos ofender. Os escritórios
militares brasileiros em Washington e Londres devem ser desativados.
A
substituição de fornecedores ocidentais por outros produtores de armas e
equipamentos representa saída falsa e perigosa: prolonga a dependência, não
garante soberania e acirra os ânimos dos atuais fornecedores contra o Brasil.
A
terceira âncora da DN é o desenvolvimento científico e tecnológico. Cientistas,
técnicos e empresas precisam ser mobilizados. Mas é impossível, sem
conhecimento exato de nossas vulnerabilidades, estabelecer projetos adequados
para nossos pesquisadores. Que ninguém brinque com o cientista brasileiro.
Motivado, sincronizado e amparado, em curto espaço de tempo deixará o mundo
embasbacado.
Pensando
em capacidade militar, creio ser prioritário o desenvolvimento rigorosamente
autônomo de nossa capacidade aeronaval, não apenas em decorrência das dimensões
de nosso território mas das mudanças no jeito de guerrear. Não há justificativa
para não dispormos de satélites próprios e capacidade de lançá-los ao espaço.
Apenas a mentalidade colonizada das elites brasileiras explica a dependência
estrutural de nossa DN.
A
reconfiguração da DN demanda vultosos recursos. Não pode ser limitada por
políticas fiscais. Cabe buscar fontes inusuais de financiamento. O fechamento
de unidades militares inúteis à defesa contra o agressor estrangeiro precisa
ser estudado, assim como a alienação de imóveis em posse das corporações
militares em centros urbanos. Finalmente, é inevitável examinar possíveis
gastos perdulários das fileiras.
¨
Defesa só se tornará prioridade quando sair do Orçamento,
diz Mucio
Na
visão do ministro, os altos valores para a compra de aviões e submarinos, por
exemplo, se tornam alvos de questionamentos em um país no qual pessoas ainda
passam fome.
O
ministro da Defesa, José Mucio, disse nesta sexta-feira (16) em
entrevista publicada pelo O Globo,
que defende a retirada do orçamento das Forças Armadas do Orçamento da União.
Para ele, os investimentos em defesa só se tornarão prioridade quando isso
acontecer.
Como
exemplo, o ministro destacou que um avião custa US$ 100 milhões (R$
536 milhões), enquanto um submarino chega a valer
até oito vezes mais.
"O
que eu defendo muito é que defesa não faça parte do Orçamento. Porque se nós
formos comparar prioridade, nós temos outras prioridades para investir, fome,
educação e outras coisas."
Uma das
saídas para isto, defende o ministro, seria a previsibilidade orçamentária.
Repetidamente Mucio defendeu publicamente a tramitação e aprovação da PEC
55/2023, que fixa um piso de 2% do produto interno bruto (PIB) para as Forças
Armadas.
O
ministro destacou também que os R$ 30 bilhões que a Defesa receberá ao longo dos
próximos seis anos fora do Orçamento serão investidos em "sistemas
estratégicos" e não com gastos com pessoal, que hoje tomam quase 80%
do orçamento da pasta.
Durante
a entrevista, o chefe da pasta admitiu que o Brasil não tem como gastar em
Defesa o mesmo que China e Estados Unidos, que investem centenas de bilhões
anualmente e, embora não tenha como fazer frente a estas forças
armadas, nunca se sabe quem pode ser o inimigo.
"A
gente precisa [de investimento] para defender as nossas fronteiras, defender o
que é nosso, a gente não pode se entregar. Primeiro, eu não sei quem vai me
invadir, qual é o interesse que tem aqui? Evidentemente que a política do
[presidente dos EUA, Donald] Trump é uma política diferente das outras que nós
assistimos. Mas não é por isso que nós vamos cruzar o braço."
Em sua
opinião, o recente ataque dos Estados Unidos à Venezuela foi uma mudança de
paradigma dentro das relações internacionais, e serve de alerta para o Brasil
investir mais em suas Forças Armadas para se manter soberano.
"Nós
achávamos que se nós estivéssemos dentro dos nossos direitos, estávamos
protegidos. Os Estados Unidos, com o que fez na Venezuela, mostrou que 'você
está nos seus direitos, se eu quiser, eu entro, eu tenho mais força que
você,'"
Mucio
cita como recursos a serem protegidos no Brasil o petróleo, o gás, os minerais
(incluindo terras raras) e a água doce, itens que estão no centro de
disputas ao redor do mundo. O ministro pontua também a questão dos quase 17 mil km de
fronteiras secas e
8.500 km de fronteiras marítimas no território continental brasileiro.
"Temos
16.700, quase 17 mil km de fronteira seca aqui com os nossos vizinhos, 8.500 km
de fronteira marítima. Lembra que o americano, por conta de 4.600 km de
fronteira com o México, só falta enlouquecer. Nós temos 17 mil km."
Para
Mucio, a relação da sociedade civil com os militares após a ditadura é um dos
motivos que explicam que a falta de investimentos em defesa não seja sequer
alvo de discussões. "A relação do mundo civil, dos políticos, com os
militares, nunca foi uma relação fácil de conversar, de sentar na mesa, a não
ser que fosse por obrigação. Então, o tema de defesa saiu dos projetos de
governo."
"É
como se você contratasse para sua casa um vigia e como não confiasse no vigia,
você não permitisse que ele trabalhasse armado. Você ficava desguarnecido,
tinha despesas de vigia e o vigia ainda ficava magoado com você porque você não
tinha confiança nele. Nós estamos desguarnecidos."
Fonte: Por
Manuel Domingos Neto, em Outras Palavras/Sputnik Brasil

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