“Se
quisermos promover a saúde, precisamos fazer algo em relação aos
ultraprocessados”, afirma Marion Nestle
É
improvável que quem acompanha estudos sobre alimentação nunca tenha cruzado com
o nome de Marion Nestle. Aos 89 anos, com 17 livros publicados – Uma Verdade
Indigesta é um deles – e o posto de professora emérita da Universidade de Nova
York, ela não quer nem ouvir falar em parar de trabalhar. Para Marion,
pesquisar alimentação é estar sempre em movimento e com os olhos bem abertos
para o que a indústria pode criar a seguir. Toda ida ao supermercado, então,
vira assunto para pesquisa. E foi daí que surgiu o tema de seu próximo livro,
sobre cereais matinais, que deve ser lançado neste ano.
Marion
esteve no Brasil para uma série de encontros em novembro de 2025, organizados
pelo Joio e pela ACT Promoção da Saúde. Ela é uma das autoras do segundo artigo
da série Lancet sobre ultraprocessados, publicada pouco antes de sua visita ao
Brasil. Tanto no artigo quanto nesta entrevista ao Joio, Marion ressalta a
importância da Classificação NOVA para os estudos sobre alimentação.
Longe
de ser um capricho da ciência brasileira e tampouco de estar circunscrita à
realidade do país, a NOVA mudou o jogo ao classificar os alimentos pelo
processamento. E se ainda é vítima de descrédito no Norte Global, talvez falte
a pesquisadores e formuladores de políticas um olhar mais atento para suas
próprias realidades. “A classificação NOVA se aplica a todos os lugares. Não
consigo pensar em nenhum lugar onde ela não se aplicaria”, defende Marion.
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A seguir, confira trechos da entrevista.
• Recentemente, tivemos o lançamento da
série da revista Lancet sobre ultraprocessados e saúde humana. Por que é
importante trazer essa discussão à tona na Lancet de novo?
A série
da Lancet faz algo que parece muito importante, que é analisar e definir
alimentos ultraprocessados de forma bastante clara, além de discutir as
evidências científicas que mostram que o consumo excessivo desses produtos não
é bom para a saúde. A série é muito clara sobre isso. E então fala sobre os
tipos de políticas necessárias para incentivar as pessoas a comerem menos
desses alimentos e a se alimentarem de forma mais saudável. Portanto, [recomenda] políticas em duas
frentes: diminuir o consumo de alimentos ultraprocessados e promover o consumo
de alimentos classificados nos grupos 1, 2 e 3 da NOVA, em vez do grupo 4. E
explica quais são as barreiras políticas e o que fazer em relação a elas.
Portanto, juntando tudo isso, fica muito claro que, se quisermos promover a
saúde, precisamos fazer algo em relação aos ultraprocessados.
• Você mencionou a Classificação NOVA.
Acha que ainda existe alguma controvérsia em torno da NOVA no Norte Global? E,
se existir, isso poderia estar relacionado ao fato de ela ter sido desenvolvida
no Sul Global?
Sim,
acho que, se a classificação NOVA tivesse sido desenvolvida nos Estados Unidos
ou na Grã-Bretanha, teria sido muito mais amplamente aceita e muito mais
rapidamente. Mas o fato de vir do Sul Global… nós, norte-americanos, não damos
atenção a nada que acontece fora do país, e certamente não na América Latina.
Então, sim, acho que isso existe. Mas talvez seja inconsciente. E, de qualquer
forma, sabe de uma coisa? Estamos prestando atenção nisso agora.
• Existe algo na NOVA que não seria
adequado para a população de países do Norte? Ou isso é só mais uma história
que a indústria conta?
Não.
Totalmente se aplica. A Classificação NOVA se aplica a todos os lugares. Não
consigo pensar em nenhum lugar onde ela não se aplicaria. Eu estava pensando no relatório EAT-Lancet,
que recomenda uma redução de 50% no consumo de carne. E isso não é apropriado
para países que não consomem carne. Porque nesses países, comer mais carne
provavelmente seria benéfico, proporcionando uma melhor nutrição. Mas a
Classificação NOVA? Não, todos deveriam estar comendo comida.
• Considerando o contexto dos Estados
Unidos, gostaria que você comentasse sobre como está a discussão sobre
alimentação adequada e saudável hoje em dia. E se houve alguma mudança com o
MAHA (Make America Healthy Again) de Robert Kennedy Jr., seja para melhor ou
para pior.
O
movimento MAHA ainda não fez muita coisa nos Estados Unidos. Eles ainda não
divulgaram o novo Guia Alimentar. Será muito importante ver o que acontece. Mas
até que ele seja divulgado, a gente não sabe ao certo o que eles pretendem
fazer. Eu certamente não tenho informações privilegiadas. Os aspectos da dieta
em que se concentraram até agora parecem não ser muito importantes. Eles
focaram nos corantes e, em certa medida, nos produtos químicos presentes nos
alimentos, e na restrição de refrigerantes para pessoas cadastradas em
programas de assistência alimentar. Essa
medida poderia ajudar, trazer benefícios. Mas, de alguma forma, as coisas que
eles começaram a discutir, como restringir ultraprocessados e restringir a comercialização
desses produtos, acabaram sendo deixadas de lado. Provavelmente, sob pressão de
lobistas da indústria alimentícia. Que surpresa. Mas até vermos o Guia
Alimentar, realmente não sabemos o que eles vão fazer. Deve sair em breve.
• Essa é sua terceira visita ao Brasil e
você vem desenvolvendo um relacionamento com o país ao longo dos anos. Acredita
que alguma das iniciativas adotadas pelo Brasil em relação aos ultraprocessados
poderia ser útil aos Estados Unidos, ou a situação é completamente diferente?
Não, o
contexto é bem parecido. Eles poderiam replicar, se tivéssemos vontade política
para isso, mas não temos. E mesmo no Brasil, acho que os avisos nos rótulos
sobre gordura, açúcar e sal não são muito bons. São quase invisíveis e não vêm
acompanhados de outras políticas. Mas nem isso conseguimos nos Estados Unidos.
O FDA propôs isso, mas foi na administração anterior. Não sei o que eles vão
fazer a respeito disso agora. Até o momento, nem isso temos. Então, sim, ainda
temos um longo caminho a percorrer.
• Nós tivemos uma grande discussão no
Brasil sobre maneiras de incluir os ultraprocessados na reforma tributária.
Você vê o aumento da tributação como uma forma viável de desencorajar a
produção e o consumo de ultraprocessados?
E isso
poderia ser feito sem atingir as famílias de baixa renda que recorrem a esses
produtos por causa dos preços? Se você vai implementar uma política tributária,
é importante acompanhá-la com subsídios que compensem a diferença para as
pessoas que não têm recursos. Os impostos são muito eficazes na redução do
consumo de produtos tributados. É por isso que a indústria alimentícia luta
tanto contra eles. E eles são regressivos. Não há dúvida de que são
regressivos. Eles prejudicam os pobres muito mais do que os ricos. Mas se você
quer desencorajar os pobres de consumir ultraprocessados e incentivá-los a
consumir alimentos menos processados, então você precisa subsidiar alimentos
menos processados em vez de incentivar o que quer que esteja sendo subsidiado
agora.
• Seu próximo livro será sobre cereais
matinais, que são muito associados ao público infantil. Pode nos contar um
pouco sobre a relação entre esses produtos e a formação do nosso paladar na
infância?
As
corporações descobriram há muito tempo que, se conseguissem fazer as crianças
acreditarem que seus produtos eram o que elas deveriam comer, essas crianças
cresceriam e desejariam esses produtos para o resto da vida. Mas o que isso faz
é acostumar as crianças a comer alimentos doces. Geralmente, os alimentos
destinados a crianças são doces, porque as crianças gostam de açúcar. E quando
as crianças começam a comer alimentos feitos especificamente para elas, como
essas papinhas industrializadas e as bebidas adoçadas, elas acabam achando que
toda comida deve ser doce. E não só isso, mas que esses alimentos
industrializados são o que elas supostamente deveriam estar comendo. E não o
arroz com feijão sem graça que os pais preparam. Isso mina a autoridade dos pais em relação à
alimentação e, na minha opinião, deveria acabar. Isso torna as coisas muito
difíceis para os pais, e eles já têm problemas suficientes.
Em
relação ao marketing desses produtos, que geralmente têm desenhos e personagens
por toda a embalagem, como podemos resolver isso? Há países que são bons
exemplos nessa questão?
Sim, no
Chile e no México, se você tem um aviso na embalagem, não pode ter um desenho
animado nela. Isso é uma questão de política pública. Se eles querem produzir
ultraprocessados para crianças, não pode ter um desenho animado na embalagem.
Não pode ter nenhuma alegação de saúde. Não pode ter nada que venda esse
produto para pais que só querem comprar algo bom para seus filhos.
Fonte:
O Joio e O Trigo

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