Cotas
sociais ou raciais? O que há em torno do dilema
Em
18/12 do ano passado, o Supremo Tribunal Federal reconheceu oficialmente a
existência do racismo estrutural no Brasil. Ainda que o gesto tenha um caráter
sobretudo simbólico, ele representa uma esperança de ajuste de contas
institucional do Estado brasileiro com um passado escravocrata cujos efeitos
seguem moldando as desigualdades do presente.
Esse
reconhecimento remete a um debate que ganhou força no início dos anos 2000,
quando o país passou a enfrentar de maneira mais direta uma de suas heranças
mais profundas e persistentes: a desigualdade racial construída ao longo de
séculos de escravidão e consolidada por uma abolição excludente. Foi nesse
contexto que emergiram as políticas de cotas raciais como instrumentos de ação
afirmativa, sustentadas por evidências históricas, sociológicas e estatísticas,
além da pressão de movimentos sociais — especialmente o movimento negro — e de
setores da elite política.
A
reação conservadora não tardou. Ela se apresentou sob a forma de um argumento
aparentemente racional e moderado: a defesa das chamadas “cotas sociais”.
À
primeira vista, a proposta soava técnica e moralmente justa. Afinal, quem
poderia ser contra o investimento em educação básica ou contra políticas que
levassem em conta a renda? O problema é que, na prática, essa formulação
operava como um clássico exemplo da falácia do Arenque Vermelho (uma metáfora)
— que na prática, é uma estratégia argumentativa, que desloca o foco do
problema central para um tema secundário, evitando o enfrentamento real da
questão em debate.
O ponto
central nunca foi apenas a histórica desigualdade de classe ou a concentração
de renda. O cerne da discussão era — e continua sendo — o racismo estrutural,
responsável por organizar oportunidades, trajetórias educacionais e
possibilidades de mobilidade social no Brasil. Ao deslocar o debate
exclusivamente para a renda, setores da direita brasileira evitaram reconhecer
que pessoas negras, independentemente da classe social, enfrentam obstáculos
adicionais que não recaem da mesma forma sobre pessoas brancas.
Defender
cotas sociais como substitutas das cotas raciais foi, portanto, menos uma
proposta alternativa e mais uma estratégia de esvaziamento político. Ao
sustentar que “o problema é social, não racial”, o discurso conservador
ignorava dados amplamente documentados: negros são maioria entre os mais
pobres, têm menor acesso ao ensino superior, ocupam piores postos de trabalho e
recebem salários mais baixos mesmo quando possuem a mesma escolaridade —
realidade reconhecida inclusive por setores conservadores da imprensa, como
apontou Reinaldo Azevedo em reportagem publicada na Veja em 02/06/2007, sob o
título “Raça não existe!”.
Trata-se
de um movimento retórico sofisticado, mas profundamente desonesto. Ao negar a
dimensão racial da desigualdade, a direita brasileira dos anos 2000 buscou
preservar uma noção abstrata de meritocracia que só se sustenta quando se
ignora o ponto de partida desigual entre grupos sociais. Não se tratava de
aperfeiçoar políticas públicas, mas de impedir que o país reconhecesse o
racismo como um problema estrutural e institucional.
Essa
lógica encontra respaldo na crítica de Pierre Bourdieu à ideia abstrata de
meritocracia. Para o autor, a escola e outras instituições não são neutras:
elas reproduzem desigualdades por meio do capital cultural, do habitus e das
condições objetivas de existência (BOURDIEU, 1998). No Brasil, essas
desigualdades são racializadas. Ao ignorar esse fato, o discurso das cotas
sociais reforça a crença de que o fracasso escolar e social decorre
exclusivamente do esforço individual, ocultando os mecanismos estruturais que
produzem exclusão.
Com o
passar dos anos, a própria realidade empírica desmontou essa narrativa. Estudos
demonstraram que as cotas raciais ampliaram o acesso ao ensino superior sem
reduzir a qualidade acadêmica, beneficiaram majoritariamente estudantes pobres
e contribuíram para maior diversidade social e intelectual nas universidades. A
suposta oposição entre cotas sociais e cotas raciais revelou-se falsa:
políticas eficazes são justamente aquelas que articulam ambas.
Como
demonstrou Florestan Fernandes, a sociedade brasileira jamais rompeu de fato
com as estruturas herdadas da escravidão. A integração do negro no mercado de
trabalho e nas instituições sociais ocorreu de maneira subordinada, precária e
excludente, produzindo uma desigualdade que não se explica apenas por classe
social, mas por raça (FERNANDES, 2008). Ignorar essa herança é sustentar a
ilusão de que todos partem do mesmo ponto — uma premissa empiricamente falsa.
Kabengele
Munanga aprofunda essa análise ao afirmar que negar a centralidade da raça no
debate sobre desigualdade no Brasil constitui uma forma sofisticada de racismo
à brasileira: não explícito, mas altamente eficaz. Segundo o autor, a recusa em
admitir políticas específicas para a população negra expressa o medo de romper
com a falsa ideia de democracia racial e de enfrentar privilégios
historicamente naturalizados (MUNANGA, 2003). As cotas sociais, quando
utilizadas como substitutas das raciais, cumprem exatamente esse papel:
aparentam inclusão, mas mantêm intacta a estrutura racial da desigualdade.
A
oposição entre cotas sociais e cotas raciais revela-se, assim, uma falsa
dicotomia. Políticas públicas eficazes são aquelas que articulam classe e raça,
reconhecendo que, no Brasil, a pobreza tem cor e que o racismo opera
independentemente da renda. Persistir na separação artificial dessas dimensões
é insistir em uma leitura ideológica da realidade.
Revisitar
esse debate é fundamental — não apenas por memória histórica, mas porque a
falácia do Arenque Vermelho continua sendo acionada sempre que avanços sociais
ameaçam privilégios consolidados. Compreender como esse desvio argumentativo
operou no passado é condição essencial para que ele não continue moldando o
futuro.
Fonte:
Por Valter de Abreu Junior, em Outras Palavras

Nenhum comentário:
Postar um comentário