Quando
a política tem o que dizer ao cuidado
O
artigo “Estratégia de Saúde da Família aos 30 anos: quando o cuidado tem o que
dizer à política”, de autoria do professor Jairnilson Paim, foi recentemente
divulgado pela revista Ciência e Saúde Coletiva. Ele integra discussão
referente à Atenção Primária em Saúde1. Uma síntese possível do texto – já
incorporando manifestações do autor no 14º Congresso de Saúde Coletiva – é a
convocação à repolitização do campo da saúde. Esperamos contribuir com essa
perspectiva.
O ano
de 2026 será especial para o SUS: entramos no período das eleições mais
importante do período democrático em um cenário internacional ameaçador. Ao
mesmo tempo, experimentamos importantes avanços na execução das políticas
públicas, nelas incluídas a atenção básica/primária e novos marcos para o
desenvolvimento das redes de cuidado com vistas à ampliação da capacidade para
o cuidado integral.
A
análise da implementação e a avaliação das estratégias de cuidado não devem se
restringir aos seus aspectos normativos; os desafios do tempo que nos toca
viver exigem revisitar conceitos que sustentaram o movimento sanitário
brasileiro. A 8ª Conferência Nacional de Saúde, que completa 40 anos, foi
marcada pela presença do pensamento e do planejamento estratégico na análise da
correlação de forças e desenho de ações com vistas à ampliação da viabilidade
da ação.
Mário
Testa e Carlos Matus foram fundamentais para a construção da viabilidade do SUS
e, em alguma medida, seus conceitos seguem sustentando o desenvolvimento do
campo. A oficina da Rede APS, que aconteceu no 14º Congresso Brasileiro de
Saúde Coletiva da ABRASCO, criou espaços para a análise situacional do Censo da
APS, com incorporação de diferentes atores sociais, que foram convocados a
dizer o que pensam a respeito do tema, mas especialmente o que pensam sobre a
atuação e como avaliam o poder de outros atores no cenário de produção da APS2.
Contudo,
no campo da saúde, houve incorporação menos crítica de vários conceitos, o que
determinou perda de seu potencial. O próprio conceito de análise situacional,
por exemplo, se desagregado do componente poder, perde sua força e fica
resumido ao aspecto normativo.
Disputa-se
sempre, e atualmente disputa-se tudo e disputa-se mais. À confrontação de
paradigmas da medicina científica e da determinação social acrescenta-se o fim
do consenso sobre vacinas, por exemplo, uma das bases que definiu desenhos de
redes e movimentos reduzidos, mas embrionários, de processos de regionalização
do SUS. Propostas para criação ou contratação de serviços, construção de
unidades de saúde ou produção de fluxos trazem consigo – de forma explícita ou
não – uma determinada concepção de Estado3, o que determina fortalecimento ou
descarte de teorias e métodos. É a política, a proposta de distribuição de
poder que informa, portanto, o desenho institucional. Assim, evidências
científicas expressas em protocolos e recomendações exigem análise do poder e
da viabilidade do plano, bem como análise da composição entre poder técnico,
político e administrativo (TESTA, 2021).
Em
processos de regionalização e desenho de redes em territórios, a utilização da
palavra governança parece incluir os conceitos do planejamento estratégico e
situacional; esse processo, contudo, vai determinando o esquecimento das
palavras e reduzindo a capacidade de análise e, por consequência, de
intervenção.
É
constitutivo do pensamento e planejamento estratégicos a análise e participação
dos atores sociais nas políticas públicas. Ainda que em contextos de
desigualdade e iniquidade, a formulação e implementação de políticas públicas,
como o SUS, e suas práticas nos territórios, são decisivas para a construção de
sujeitos. A experiência brasileira da Política Nacional de Humanização (PNH) e
a elaboração do prof. Gastão Campos (que também integra o debate já citado)
sobre o apoio institucional indicam bases teóricas e metodológicas importantes
para que equipes assistenciais e gestoras agreguem o poder e a política às
análises do território em que atuam.
Isso
pode ser ainda mais importante para as equipes formadas por trabalhadores mais
jovens, com grande chance de acumular derrotas em seus melhores projetos.
Encontra-se aqui uma possibilidade interessante: o apoio como metodologia para
análise da viabilidade dos planos, como uma tecnologia importante para aprender
com a prática e para lidar com o poder.
A
repolitização da análise dos cenários e das estratégias de cuidado se
beneficiaria de uma maior incorporação das contribuições de Mário Testa. O
complexo processo da produção – histórica – de organizações poderia incorporar,
de forma mais explicita, a relação entre Papel do Estado, propósitos de
governo, teoria e métodos expostos com tanta beleza na sua proposta denominada
Postulado de Coerência. Reconhecer a realidade como complexa, conflitiva e
contraditória ofertaria mais fios para tessitura da análise dos limites e das
viabilidades construídas.
Iniciar
2026 com uma revista que propõe análise do desenvolvimento da APS e se sustenta
em um diagnóstico competente e abrangente é motivo de orgulho para a saúde
coletiva brasileira; um marco que precisa ser valorizado, sendo importante
tanto pelo resultado do que apresenta como pelas pistas para o fortalecimento
da APS e sua participação na produção de redes de cuidado. Além disso, é
importante porque nos convoca a pensar; porque, sendo a produção da APS um tema
complexo e tendo sido tratado como complexo, o debate abriu espaço para sua
relação com poder na sociedade e o poder no setor saúde. Em 2026,
repolitizemo-nos!
Fonte:
Por Por Liane Beatriz Righi e Sandra Maria Sales Fagundes, em Outra Saúde

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