Pode
a esquerda se apropriar de Stranger Things?
A
estreia da segunda parte da última temporada de Stranger Things é um marco para
a cultura de massa do nosso tempo. Uma crítica radical à cultura de massa não
pode se confundir com a crítica estritamente moral, que olha para hegemonia do
Capital e vê apenas a capacidade material de imposição coercitiva de padrões de
consumo e menospreza quais são os mecanismos subjetivos mobilizados para a
manutenção da adesão a tais padrões. O materialismo vulgar ignora a
complexidade do psiquismo, destitui o humano de agência, colocando-o como
vitimado pelos determinantes aparentes e portanto eximindo-o de
responsabilidade sobre sua participação na manutenção das relações sociais que
mantém o sistema que o explora. Se não há possibilidade de qualquer
responsabilização, não há possibilidade de qualquer revolução. Principalmente
nesta era em que a confrontação militar como primeiro movimento revolucionário
na periferia ocidental está completamente fora de cogitação, o que nos impõe a
tarefa de centrar-nos na convocação e confrontação política.
Para
compreender como operar uma transformação estrutural no modo de produção das
nossas vidas é necessário não apenas compreender a força do Capital, mas também
compreender sob quais condições constitutivas do humano o Capital faz sua
história de dominação. Neste texto buscarei, reconhecendo a infraestrutura
produtiva que favorece a reprodução da ideologia, apontar como se dá a dinâmica
superestrutural para que ela seja efetiva em capturar e anular os ímpetos
transformativos.
<><>
Materialidade da notoriedade
Uma
parte nada ignorável do sucesso de qualquer produto da mídia de massa é a
distribuição. Um dos casos mais aberrantes foi a estreia de Vingadores Ultimato
em abril de 2019, quando mais de 80% das salas de cinema no Brasil estavam
reservadas para a apresentação do filme. É evidente que há demanda para a mídia
de massa. Esta demanda tem de ser vista desde o ponto de vista da sua
construção forçosa através da propaganda ostensiva, mas também do ponto de
vista das demandas imaginárias pré-existentes,
ao mesmo tempo alienantes e emancipatórias, às quais o produto apela.
A
crítica aos filmes-eventos é bastante conhecida e talvez tenha alcançado sua
maior notoriedade quando o diretor Martin Scorsese afirmou que os filmes da
Marvel não eram filmes, mas parques de diversões. Embora reconheça a
importância em diferenciar o que é um tipo de produto de mídia centralizado no
consumo de bilheteria de outros tipos de produtos de mídia que visam sobretudo
a criação de uma demanda por outros produtos derivados daquele primeiro através
de licenciamentos (camisetas, cadernos, brinquedos, etc.), dos quais extraem a
fatia sobejamente maior do seu lucro, a crítica que apresentarei neste texto
tem menos relação com a dimensão propriamente econômica-comercial e mais com
quais são as demandas subjetivas que certos produtos de mídia de massa atendem.
<><>
Manejo do narcisismo
Vingadores
Ultimato foi a culminação de uma série de demais filmes. A retomada do cinema
de herói buscou, diferentemente da ênfase demasiadamente infantil à
sobre-humanidade, aos poderes fantásticos dos heróis, trabalhar a falibilidade
de cada um apontando suas incertezas, seus limites e suas fraquezas: as
incertezas e inseguranças de Tchala sobre como, depois da morte do seu pai,
manter a salvaguarda do seu povo frente à voracidade do mundo quanto aos seus
recursos naturais ao mesmo tempo que responde às acusações de negligência
trazidas por Killmonger; a inicial prepotência ridícula de um filhinho de
papai, depois a impotência reconhecida de Thor frente à irmã muito mais
poderosa que o leva a compreender que o povo define muito mais uma nação do que
o território que esta ocupa; a falta de credibilidade de Peter Parker frente
aos adultos e a necessidade de abrir mão de vínculos para assumir as
consequências por seus erros; a perda de reconhecimento de Steve Rogers quando
escolhe o amor por um amigo acima da obediência ao país que representa e do
qual é símbolo e reserva moral, etc.
Ainda
assim, — e aqui aponto uma primeira demanda subjetiva — mesmo complexificando as narrativas e os
conflitos, toda a mídia de massa no capitalismo ocupa-se de reencenar a
fantasia do narcisismo primário de que, apesar de todas as dificuldades, cada
uma de nós guarda em si uma excepcionalidade transformadora e redentora de
todos os males e que precisa apenas ser despertada com a libertação das amarras
psíquicas que nos prendem. Por mais que essas potencialidades apareçam a partir
de uma dinâmica social e que seja tributária de vínculos afetivos, o que é
definidor para a ideologia sob o capitalismo é sempre o que há de radicalmente
individual na solução de um impasse.
Cada
herói atravessa um calvário ao longo da sua jornada. Se vê isolado,
enfraquecido, machucado, etc. O enredo sempre nos coloca em um percurso no qual
testemunhar a penúria nos transfere da admiração idealizada para a
identificação comiserada. O sacrifício físico e subjetivo dos herois, ao mesmo
tempo que nos toca, também evoca e produz uma identificação com a nossa própria
fragilidade. A satisfação que temos ao acompanhar a trajetória desses
semideuses, que carregam simultaneamente o mito narcísico da revelação da força
interna reprimida do indivíduo e a fragilidade constitutiva da condição humana,
é em parte produzida pelo relançamento da promessa de que o sacrifício fará com
que, no final, nossa verdade e nossa força prevaleçam.
<><>
Cansaço do Eu
Por
mais que seja compreensível que toda obra de arte, para que possa construir um
momento catártico, não pode prescindir de um protagonista a quem a audiência
acompanhe a história, na sua pessoalidade, necessidades e anseios, percebemos
paulatinamente um espalhamento mais
equânime da carga dramática em diferentes personagens. Os capítulos contados em
primeira pessoa por diversas personagens nas Crônicas de Gelo e Fogo (que deram
origem à série Game of Thrones) talvez sejam o exemplo mais evidente disto na
literatura de massa.
Não que
isso se trate de uma novidade completa. Guerra e Paz de Tolstoi já apresentava
no século XIX uma narrativa com uma infinidade de personagens. Cem Anos de
Solidão de García Márquez na década de 80 trazia repetições de personalidades,
nomes, e a presença mais constante de Úrsula, mas ainda assim não se pode
destacar um protagonista. No cinema, os oscarizados 21 gramas (2003) e Crash:
No Limite (2005) partiam de histórias distintas que se encontravam em
determinado ponto da trama sem privilegiar uma em especial. Isso sem contar, é
claro, com as telenovelas, que apresentam dezenas de narrativas simultâneas.
Podemos
identificar não apenas uma variação de estilos narrativos mas uma tendência
progressiva em construir narrativas que não se restringissem à pessoalidade
intransitiva do Eu pelo seu ponto de extrapolação. Assim foi a série Sense8,
das irmãs Wachowski (também criadoras da trilogia Matrix), onde um grupo de 8
pessoas partilhava uma conexão psíquica tão íntima que cada uma sentia
exatamente o que as demais sentiam, mesmo estando a continentes de distância.
Nesta narrativa o limite da pessoalidade mesma é colocado em questão. Afinal,
como seria o mundo se não apenas pudéssemos pensar através dos argumentos do
outro, mas também de fato sentir o que o outro sente? O que seria o Eu em um
mundo assim?
Conhecer
histórias diversas, reconhecer a legitimidade de diferentes lados envolvidos em
conflitos e vislumbrar que vivências singulares coexistem em um mesmo universo
produzindo contradições que não podem ser equalizadas de maneira simples, pode
ser experienciado como algo que empolga e alivia.
Acompanhar
uma narrativa na qual apenas uma vida é apresentada de maneira central pode ser
enfadonho. Por mais que o triunfalismo do dar a volta por cima siga sendo a
base do manejo liberal do narcisismo constitutivo, há um cansaço com a repetição de arcos
narrativos de apenas um ponto de vista. Para o espectador, poder estruturar,
hierarquizar, avaliar, julgar e repensar a legitimidade das atitudes de
diferentes personagens – e não apenas ruminar soluções de mistérios ou prever
acontecimentos – é um estímulo psíquico e afetivo muito mais rico.
As
obras sobre as quais seguimos pensando mesmo depois de as consumir, tentando
encontrar uma posição o menos moralmente desconfortável possível, são aquelas sobre as quais mais falamos. Não
é de se ignorar ainda a importância comercial deste seguir falando sobre para a
repercussão e portanto para as visualizações, operando a necessidade subjetiva
em favor do interesse econômico. Podemos até mesmo nos perguntar o quanto
produções artisticamente ricas, mesmo que sejam limitadas nas suas críticas e
tenham mercantilizado o seu reconhecimento, serão sempre uma necessidade da
indústria cultural sob o capitalismo.
O que
há de potencial alívio nas narrativas onde o Eu está descentrado é a ausência
da necessidade do esforço psíquico que fazemos ao tentar adequar a realidade do
protagonista com a nossa realidade. Por mais que a moral das histórias possam
ser argumentos genéricos aplicáveis a quaisquer vivências, as histórias
específicas da vida de cada protagonista requerem um certo esforço mental para
fazermos vínculos entre as situações pelas quais passam e nossa experiência de
vida.
Tendo
várias linhas narrativas, cada uma com sua carga dramática, a sensação é menos
de que se está assistindo uma história e mais que se está presenciando uma
história. A dinamicidade de fatos, relações e emoções, apesar de em certo
sentido aumentar o conteúdo, espalha as tensões e permite que o momento de
condensação de todos os núcleos tenha um caráter catártico distinto.
<><>
O homem coletivo sente a necessidade de lutar
Retornamos
então para Stranger Things. Temos ali todos os elementos elencados neste texto
até este ponto. Trata-se de um produto que teve e tem uma divulgação ostensiva,
sendo o principal produto da Netflix, a segunda maior empresa de streaming do
mundo, perdendo apenas para o Youtube. Sua personagem principal é uma super
humana, que passa por muitos sofrimentos, tem sua infância roubada, é
perseguida e aparentemente depende dela e do seu super poder ainda não
totalmente expresso a derrota do grande inimigo. Os personagens que participam
da história têm seus pontos de vista fundamentados e cada um carrega uma devida
carga dramática.
Ainda
assim, principalmente para nós, comunistas atuantes, há mais um ponto a
atentar, a fim de compreendermos como a
mídia de massa atende a necessidades não só alienantes, mas também
emancipatórias. Isso mostra, aliás, que o sucesso da série é uma notícia sobre
a necessidade da luta como uma necessidade humana, tal como nos ensinou Chico
Science em Monólogo ao Pé do Ouvido:
O homem
coletivo sente a necessidade de lutar
o
orgulho, a arrogância, a glória
Enche a
imaginação de domínio
São
demônios, os que destroem o poder bravio da humanidade
Tendo
apresentado de que modo a série se coloca como um novo momento de uma sequência
da indústria cultural, agora elenco o que há de específico em Stranger Things
para que ela seja capaz de mobilizar o interesse da nossa classe de maneira
especialmente intensa.
<><>
Nostalgia emancipatória
A
nostalgia não é em si a recusa do presente e a falta de perspectiva de futuro.
Sentir saudade do passado é lembrar daquilo que em um dado presente foi
positivamente significativo. O que se faz dessa lembrança é o que precisa ser
criticado.
O
mercado da nostalgia cresceu enormemente nos últimos anos. É importante notar
que antes o apelo ao passado também era um elemento presente. Ferros de passar
a carvão, máquinas de costura antigas, filmes antigos, isso e muito mais eram
produtos à venda. O passado sempre se coloca para o sujeito do presente como um
momento de menor complexidade e de mais simples satisfação. O filme Meia-Noite
em Paris (2011) mostra de maneira fantástica que a nostalgia tem menos relação
com a realidade específica dos períodos e mais com a idealização das pessoas.
Essa
idealização, ainda assim, não pode ser tomada como alienação. Nicolás Gonçalves
nos lembra que Walter Benjamin tomava a nostalgia como “[..] um indicador de
que algo de valioso foi roubado e que seu resgate é uma questão de justiça[…]”.
O que há na nostalgia como recusa do presente pode ser tomado não como
regressismo, mas como recusa daquilo que compõe o agora e que degrada a vida.
Ou ainda uma recusa da instauração de um modo de viver que destrói de maneira
desnecessária aquilo que trazia felicidade. Ter um ideal de mundo referenciado
em experiências anteriores não implica recusar integralmente o presente.
<><>
Uni-vos como der!
As
referências à cultura de massa dos anos 80 são a base da estética de Stranger
Things. Enquanto os filmes de terror como It: Uma Obra Prima do Medo (1990)e A
Hora do Pesadelo (1984) são referência para o tom de mistério e terror, Os
Goonies (1985) e O Clube dos Otários de It são referências importantes para o
núcleo principal.
Os
criadores da série revelaram que na parte 1 da quinta temporada a entrada em
cena de Vecna é uma tentativa de reconstruir a entrada em cena de Darth Vader
no Filme Rogue One (2016). Mas a série, mais do que trazer referências
pontuais, intensifica uma dinâmica narrativa muito semelhante com a trilogia
original de Star Wars (1977-1980). Assim como nos filmes de Guerra nas
Estrelas, temos um grupo de pessoas, que estão em menor número e dispondo de
uma quantidade bastante inferior de recursos, lutando contra forças muito mais
fortes.
A luta
da Aliança Rebelde contra o Império evoca a mesma perspectiva da luta das
crianças contra os monstros do mundo invertido e contra o governo dos EUA. Como
dito antes, uma das diferenças fundamentais de Stranger Things é que os
personagens coadjuvantes não são secundários. Mesmo não dispondo dos mesmos
poderes que Eleven, cada um participa da solução de problemas com os recursos e
a experiência que tem.
Em
entrevista para o também cineasta James Cameron (que dirigiu Titanic e Avatar),
o criador de Star Wars, Jorge Lucas, afirmou categoricamente que a Aliança
Rebelde foi inspirada na luta dos comunistas do Vietnã contra a invasão
colonial dos Estados Unidos. Tanto na luta real quanto na fantasia espacial, se
tratava de uma luta desigual ao extremo, onde um lado detinha recursos
virtualmente infinitos enquanto o outro contava com sua inteligência e
determinação motivada pela justiça e verdade.
<><>
Diagnóstico final
Não
raro a efusividade catártica toma conta de nossos irmãos e irmãs de classe
vinculados a algum ideário crítico. A notoriedade que alcançaram filmes como
Bacurau (2019) e outras obras raramente se traduz como referência para a
manutenção do ânimo do árduo trabalho de politização no capitalismo tardio.
Modelos catárticos são também um método de desmobilização. O trabalho
constante, consistente e inglório de empreender uma luta revolucionária é
totalmente distinto de uma contra-violência episódica.
Daquilo
que foi produzido pela indústria cultural estadunidense nos últimos anos,
talvez a série Andor (2022) seja a que melhor conseguiu capturar o que é o
trabalho revolucionário. O que mais existe na série são revéses, desespero,
tristeza, solidão e uma constante vontade de desistir frente ao grau de risco,
o estresse quase enlouquecedor, a escassez de recursos e as sempre diminutas
chances de uma vitória final. Ser um comunista atuante no capitalismo é
escolher um adoecimento transformador.
Não se
trata de afirmar que a convocação a um trabalho coletivo de enfrentamento a um
sistema cruel a partir do vínculo emancipatório entre pessoas que dispõe de
recursos substancialmente menores que seus algozes seja o único elemento que
cativa a audiência. Também o fato de as personagens mais poderosas serem duas
mulheres e um jovem gay são importantes. Cabe ainda lembrar, como dito
anteriormente, que a notoriedade da série é construída sobre uma avalanche de
dinheiro em propaganda.
O que
busquei fazer com este texto foi apresentar a quais anseios uma narrativa como
a de Stranger Things responde, destacando que mesmo a poderosíssima indústria
cultural capitalista tem de se adaptar àquilo que o espírito humano produz,
mesmo inconscientemente (ou nem tão inconscientemente assim), a partir das
condições experienciadas sob o capitalismo para que possa manter sua hegemonia.
Reconhecer
esta dinâmica entre o espírito da classe e as forças do Capital é fundamental
não apenas para que possamos pensar as nossas formas de construir perspectivas
revolucionárias no laborioso, invisível e extenuante trabalho revolucionário.
Estar advertido desta disposição latente dos nossos irmãos e irmãs pode e deve
servir para nos ajudar a suportar e seguir lutando pela revolução comunista,
mesmo que aos olhos opacos da maioria isso pareça um delírio.
A
ideologia que opera o narcisismo reforçará a indisposição em confrontar os mais
fortes como se fazê-lo fosse uma ofensa à verdade latente e poderosa do mítico
sujeito auto-realizado. O sofrimento previsto pelo capitalismo é de padecer
individualmente para conquistar um bom emprego, dinheiro e estabilidade. Este
sofrimento é rentável ao capital, seja na dedicação silente ao trabalho, seja
na venda de remédios psiquiátricos.
Reunir-se
com os fracos como nós, dedicar tempo e recursos a uma luta anticapitalista é
tido até como uma irresponsabilidade. Não será outra coisa que não a
perseverança e a demonstração da possibilidade de ferir a besta, mesmo que num
primeiro momento se trate de um pequeno arranhão, que trará nossos irmãos e
irmãs para a luta.
Fonte:
Por Leojorge Panegalli, em Outras Palavras

Nenhum comentário:
Postar um comentário