sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

A psicoterapia pode desafiar o capitalismo?

Se eu lhe pedisse para fazer uma associação livre com o termo “psicoterapia”, você provavelmente não conseguiria ir além de uma névoa de jargões imaginários. Talvez, para alguns de vocês, o termo evoque imagens de filodendros pendurados em estantes repletas de títulos como Atomic Habits [Hábitos Atômicos]. Vocês podem imaginar tapetes de juta banhados por uma luz suave, sob uma mesa de centro, sobre a qual repousa uma caixa de lenços de papel, evocando a solenidade de uma oferenda.

Em suma, na concepção popular de psicoterapia, tudo se resume a uma sala privada. Pode-se afirmar que a psicoterapia é amplamente vista como um serviço privado para que os indivíduos exponham todo tipo de experiência e explorem seu turbilhão interior.

Contudo, analisando por outra perspectiva, podemos perceber que, na verdade, essas experiências são substancialmente de natureza social e que a psicoterapia, de certa forma, reduz essas experiências sociais a eventos pessoais na psique. Tudo isso serve para ilustrar a multiplicidade da forma de terapia — principalmente a posição individual e privada do cliente, mas também a perspectiva sociopolítica mais ampla que inevitavelmente influencia sua vida.

Se traçarmos uma linha que remonta ao Iluminismo, desde pensadores como Descartes até Freud, e através de vários paradigmas como o Behaviorismo e as abordagens relacionais modernas, podemos ver como o privado se tornou cada vez mais interligado com o social e o político nos modelos psicanalíticos. Descartes situou a experiência humana no vácuo da interioridade individual; penso, logo existo.  O filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard desenvolveu ideias sobre um estágio ético através de seus “estágios do devir”, nos quais o indivíduo progride para um modo de vida em sintonia com as expectativas da sociedade (e a luta existencial de adaptação a essas expectativas).

Embora a psicologia de Freud seja primordialmente focada em fatores constitucionais, como desejos e impulsos sexuais, já em 1908, em “A Moralidade Sexual ‘Civilizada’ e a Doença Nervosa Moderna”, ele considerou os fatores sociopolíticos das demandas sociais repressivas e seus efeitos psicológicos sobre o indivíduo. Enquanto Freud desenvolvia suas teorias, estruturalistas como Ferdinand de Saussure desafiavam as afirmações cartesianas sobre o indivíduo, propondo que não se pode simplesmente extrair o indivíduo de seu ambiente para compreendê-lo.

Trabalho na educação primária (não apenas com crianças pequenas, mas também com clientes particulares, cujas idades variam da adolescência aos cinquenta anos ou mais). Tendo me especializado em psicoterapia infantil, aprendi desde cedo sobre teorias do desenvolvimento, como a Teoria do Apego de Ainsworth e Bowlby e a Teoria da Aprendizagem de Bandura. Essas teorias se fundamentam nas interações entre biologia e ambiente — o intrínseco e o extrínseco —, no desenvolvimento como um processo social: um processo de tornar-se através de uma matriz de relacionamentos, com os outros e com o ambiente.

Na década de 1960, o psicanalista inglês Wilfred Bion desenvolveu suas ideias sobre contenção. Este é um processo imprescindível não só para o cuidador principal da criança, mas também para o terapeuta — e nos remete à contenção do consultório terapêutico individual, que, juntamente com o terapeuta, constitui um receptáculo para o paciente e seus sentimentos, pensamentos e emoções. O principal desafio que encontro no trabalho psicoterapêutico reside justamente nessa noção de contenção.

Embora eu possa me oferecer, juntamente com este espaço privado, como um receptáculo para o cliente, a fim de ajudar a “transformar” material psíquico intolerável (por assim dizer), o cliente, naturalmente, deixará esse espaço reservado assim que nossos cinquenta minutos terminarem e retornará aos muitos outros espaços que constituem a estrutura social da vida. Ou seja, eu posso muito bem sentar com um cliente em um espaço privado e receber suas projeções mais dolorosas — e, se tudo correr extremamente bem, posso ajudá-lo a reprocessar e integrar esses sentimentos e emoções. Mas ele ainda terá que voltar para casa depois, potencialmente para um lar onde o trauma e o abuso são prevalentes, ou, no mínimo, voltar para um mundo construído sobre as frias estruturas de aço e os registros contábeis do capitalismo.

Meu trabalho nas escolas torna a política muito tangível e deixa claro que a psicoterapia está intrinsecamente ligada ao contexto sociopolítico. Em 2017, foi publicada uma política nacional intitulada “Transformando o Atendimento à Saúde Mental de Crianças e Jovens”. O documento abordava algo com que estou muito familiarizada: a falta de acesso a serviços de saúde mental para crianças e jovens; as desigualdades que contribuem para a criação de problemas de saúde mental, que por sua vez são perpetuados por outros problemas de saúde mental; as listas de espera incrivelmente longas para serviços como o CAMHS (Serviço de Saúde Mental para Crianças e Adolescentes); e, como no caso da minha escola, funcionários sobrecarregados e frequentemente desvalorizados.

Griffin et al. (2022) analisam e consideram como as políticas muitas vezes equivalem a “intervenções políticas”, servindo para justificar e consolidar certos “caminhos” de saúde como um meio para um fim: justificar uma agenda política. Por exemplo, a intervenção precoce parece quase óbvia quando se pensa nela como um conjunto de programas para ajudar as crianças a melhorar suas vidas em um momento crucial de seu desenvolvimento físico, cognitivo e emocional. No entanto, argumenta-se que tais políticas atribuem a culpa aos pais, em vez de às forças sociais que contribuem para a desigualdade. “Em vez de minar a filosofia neoliberal, as abordagens de investimento social a sustentaram e intensificaram”, como afirmam Gillies et al. (2017).

Neste ponto, será útil revisitar a história moderna da psicoterapia. Talvez não existissem exatamente as mesmas preocupações na década de 1950, quando Eric Berne — o fundador do método de psicoterapia Análise Transacional (AT) e uma influência fundamental na minha própria prática — escrevia. Mas Berne era movido por um princípio de igualdade e pelo desejo de tornar a terapia acessível a todos.

Então, por que Berne distanciou seu método da política, pelo menos aparentemente? Claude Steiner, um psicólogo francês, era amigo de Berne e colaborou com ele no desenvolvimento de suas teorias. Em 2010, Steiner escreveu sobre sua crença de longa data de que Berne era declaradamente apolítico (o próprio Steiner havia estudado física em Berkeley, mas decidiu “não fabricar bombas” e transferiu-se para o estudo do desenvolvimento infantil). Berne faleceu em 1970, mas foi somente em 2004 que Steiner soube, por meio do filho de Berne, Terry, que Berne havia sido investigado pelo Comitê Seleto de Atividades Antiestadunidenses da Câmara dos Representantes. Steiner menciona a “severa perseguição” a que Berne foi submetido durante o interrogatório, e como ele perdeu seu emprego no governo e teve seu passaporte cassado. O que Berne havia feito? Em 1952, ele assinou uma petição que questionava o tratamento dado aos cientistas de esquerda no governo.

As nuances da narrativa de Berne projetam uma longa sombra. Enquanto vozes culturais influentes persistem em atribuir o fardo ao indivíduo, passo boa parte do meu tempo preocupado em estar contribuindo para a perpetuação do status quo ao ajudar meus clientes a simplesmente suportarem seu destino. O capitalismo induz ansiedade em nós e depois exige que façamos algo a respeito, como se a saúde não fosse minimamente determinada socialmente. Isso é “induzido deliberadamente para bloquear a ação política” (Frosh, 2017).

Então me lembro dos princípios da Análise Transacional. Que Berne buscava desmantelar as hierarquias de poder, começando no nível interpessoal. Berne defendia uma terapia acessível a todos, livre de jargões isolantes e da dinâmica de poder do terapeuta/curador todo-poderoso. Berne era antielitista e propôs que todos nós temos a capacidade, por meio da análise da nossa comunicação, de abrir caminho através de jogos de poder para a intimidade e para uma “reavaliação” sobre quem somos e como nos relacionamos com o mundo. Através dos Estados do Ego, ele revelou como não apenas internalizamos mensagens parentais, mas também como as forças dominantes no mundo exercem sua influência parental sobre nós. A Análise Transacional nos mostra que temos o potencial pessoal para mudar a forma como interagimos com este mundo e a partir de qual posição privada o fazemos (como somos afetados pelo mundo e como desejamos afetá-lo).

É compreensível que Berne tenha se distanciado da política durante o Macartismo, mas há muito a aprender com seu compromisso em continuar seu trabalho, independentemente das circunstâncias, e em desenvolver uma teoria sociopolítica enraizada em princípios democráticos — tudo isso apesar do medo muito real de represálias por parte de vozes opressoras e autoritárias que buscavam desconsiderar sua própria existência. Ao buscarmos compreender a complexa interação entre o indivíduo e o social na psicoterapia contemporânea, faríamos bem em seguir seu exemplo.

 

Fonte: Por Mark Hammond - Tradução Pedro Silva, em Jacobin Brasil

 

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