A
psicoterapia pode desafiar o capitalismo?
Se eu
lhe pedisse para fazer uma associação livre com o termo “psicoterapia”, você
provavelmente não conseguiria ir além de uma névoa de jargões imaginários.
Talvez, para alguns de vocês, o termo evoque imagens de filodendros pendurados
em estantes repletas de títulos como Atomic Habits [Hábitos Atômicos]. Vocês
podem imaginar tapetes de juta banhados por uma luz suave, sob uma mesa de
centro, sobre a qual repousa uma caixa de lenços de papel, evocando a
solenidade de uma oferenda.
Em
suma, na concepção popular de psicoterapia, tudo se resume a uma sala privada.
Pode-se afirmar que a psicoterapia é amplamente vista como um serviço privado
para que os indivíduos exponham todo tipo de experiência e explorem seu
turbilhão interior.
Contudo,
analisando por outra perspectiva, podemos perceber que, na verdade, essas
experiências são substancialmente de natureza social e que a psicoterapia, de
certa forma, reduz essas experiências sociais a eventos pessoais na psique.
Tudo isso serve para ilustrar a multiplicidade da forma de terapia —
principalmente a posição individual e privada do cliente, mas também a
perspectiva sociopolítica mais ampla que inevitavelmente influencia sua vida.
Se
traçarmos uma linha que remonta ao Iluminismo, desde pensadores como Descartes
até Freud, e através de vários paradigmas como o Behaviorismo e as abordagens
relacionais modernas, podemos ver como o privado se tornou cada vez mais
interligado com o social e o político nos modelos psicanalíticos. Descartes
situou a experiência humana no vácuo da interioridade individual; penso, logo
existo. O filósofo dinamarquês Søren
Kierkegaard desenvolveu ideias sobre um estágio ético através de seus “estágios
do devir”, nos quais o indivíduo progride para um modo de vida em sintonia com
as expectativas da sociedade (e a luta existencial de adaptação a essas
expectativas).
Embora
a psicologia de Freud seja primordialmente focada em fatores constitucionais,
como desejos e impulsos sexuais, já em 1908, em “A Moralidade Sexual
‘Civilizada’ e a Doença Nervosa Moderna”, ele considerou os fatores
sociopolíticos das demandas sociais repressivas e seus efeitos psicológicos
sobre o indivíduo. Enquanto Freud desenvolvia suas teorias, estruturalistas
como Ferdinand de Saussure desafiavam as afirmações cartesianas sobre o
indivíduo, propondo que não se pode simplesmente extrair o indivíduo de seu
ambiente para compreendê-lo.
Trabalho
na educação primária (não apenas com crianças pequenas, mas também com clientes
particulares, cujas idades variam da adolescência aos cinquenta anos ou mais).
Tendo me especializado em psicoterapia infantil, aprendi desde cedo sobre
teorias do desenvolvimento, como a Teoria do Apego de Ainsworth e Bowlby e a
Teoria da Aprendizagem de Bandura. Essas teorias se fundamentam nas interações
entre biologia e ambiente — o intrínseco e o extrínseco —, no desenvolvimento
como um processo social: um processo de tornar-se através de uma matriz de
relacionamentos, com os outros e com o ambiente.
Na
década de 1960, o psicanalista inglês Wilfred Bion desenvolveu suas ideias
sobre contenção. Este é um processo imprescindível não só para o cuidador
principal da criança, mas também para o terapeuta — e nos remete à contenção do
consultório terapêutico individual, que, juntamente com o terapeuta, constitui
um receptáculo para o paciente e seus sentimentos, pensamentos e emoções. O
principal desafio que encontro no trabalho psicoterapêutico reside justamente
nessa noção de contenção.
Embora
eu possa me oferecer, juntamente com este espaço privado, como um receptáculo
para o cliente, a fim de ajudar a “transformar” material psíquico intolerável
(por assim dizer), o cliente, naturalmente, deixará esse espaço reservado assim
que nossos cinquenta minutos terminarem e retornará aos muitos outros espaços
que constituem a estrutura social da vida. Ou seja, eu posso muito bem sentar
com um cliente em um espaço privado e receber suas projeções mais dolorosas —
e, se tudo correr extremamente bem, posso ajudá-lo a reprocessar e integrar
esses sentimentos e emoções. Mas ele ainda terá que voltar para casa depois,
potencialmente para um lar onde o trauma e o abuso são prevalentes, ou, no
mínimo, voltar para um mundo construído sobre as frias estruturas de aço e os
registros contábeis do capitalismo.
Meu
trabalho nas escolas torna a política muito tangível e deixa claro que a
psicoterapia está intrinsecamente ligada ao contexto sociopolítico. Em 2017,
foi publicada uma política nacional intitulada “Transformando o Atendimento à
Saúde Mental de Crianças e Jovens”. O documento abordava algo com que estou
muito familiarizada: a falta de acesso a serviços de saúde mental para crianças
e jovens; as desigualdades que contribuem para a criação de problemas de saúde
mental, que por sua vez são perpetuados por outros problemas de saúde mental;
as listas de espera incrivelmente longas para serviços como o CAMHS (Serviço de
Saúde Mental para Crianças e Adolescentes); e, como no caso da minha escola,
funcionários sobrecarregados e frequentemente desvalorizados.
Griffin
et al. (2022) analisam e consideram como as políticas muitas vezes equivalem a
“intervenções políticas”, servindo para justificar e consolidar certos
“caminhos” de saúde como um meio para um fim: justificar uma agenda política.
Por exemplo, a intervenção precoce parece quase óbvia quando se pensa nela como
um conjunto de programas para ajudar as crianças a melhorar suas vidas em um
momento crucial de seu desenvolvimento físico, cognitivo e emocional. No
entanto, argumenta-se que tais políticas atribuem a culpa aos pais, em vez de
às forças sociais que contribuem para a desigualdade. “Em vez de minar a
filosofia neoliberal, as abordagens de investimento social a sustentaram e
intensificaram”, como afirmam Gillies et al. (2017).
Neste
ponto, será útil revisitar a história moderna da psicoterapia. Talvez não
existissem exatamente as mesmas preocupações na década de 1950, quando Eric
Berne — o fundador do método de psicoterapia Análise Transacional (AT) e uma
influência fundamental na minha própria prática — escrevia. Mas Berne era
movido por um princípio de igualdade e pelo desejo de tornar a terapia
acessível a todos.
Então,
por que Berne distanciou seu método da política, pelo menos aparentemente?
Claude Steiner, um psicólogo francês, era amigo de Berne e colaborou com ele no
desenvolvimento de suas teorias. Em 2010, Steiner escreveu sobre sua crença de
longa data de que Berne era declaradamente apolítico (o próprio Steiner havia
estudado física em Berkeley, mas decidiu “não fabricar bombas” e transferiu-se
para o estudo do desenvolvimento infantil). Berne faleceu em 1970, mas foi
somente em 2004 que Steiner soube, por meio do filho de Berne, Terry, que Berne
havia sido investigado pelo Comitê Seleto de Atividades Antiestadunidenses da
Câmara dos Representantes. Steiner menciona a “severa perseguição” a que Berne
foi submetido durante o interrogatório, e como ele perdeu seu emprego no
governo e teve seu passaporte cassado. O que Berne havia feito? Em 1952, ele
assinou uma petição que questionava o tratamento dado aos cientistas de
esquerda no governo.
As
nuances da narrativa de Berne projetam uma longa sombra. Enquanto vozes
culturais influentes persistem em atribuir o fardo ao indivíduo, passo boa
parte do meu tempo preocupado em estar contribuindo para a perpetuação do
status quo ao ajudar meus clientes a simplesmente suportarem seu destino. O
capitalismo induz ansiedade em nós e depois exige que façamos algo a respeito,
como se a saúde não fosse minimamente determinada socialmente. Isso é “induzido
deliberadamente para bloquear a ação política” (Frosh, 2017).
Então
me lembro dos princípios da Análise Transacional. Que Berne buscava desmantelar
as hierarquias de poder, começando no nível interpessoal. Berne defendia uma
terapia acessível a todos, livre de jargões isolantes e da dinâmica de poder do
terapeuta/curador todo-poderoso. Berne era antielitista e propôs que todos nós
temos a capacidade, por meio da análise da nossa comunicação, de abrir caminho
através de jogos de poder para a intimidade e para uma “reavaliação” sobre quem
somos e como nos relacionamos com o mundo. Através dos Estados do Ego, ele
revelou como não apenas internalizamos mensagens parentais, mas também como as
forças dominantes no mundo exercem sua influência parental sobre nós. A Análise
Transacional nos mostra que temos o potencial pessoal para mudar a forma como
interagimos com este mundo e a partir de qual posição privada o fazemos (como
somos afetados pelo mundo e como desejamos afetá-lo).
É
compreensível que Berne tenha se distanciado da política durante o Macartismo,
mas há muito a aprender com seu compromisso em continuar seu trabalho,
independentemente das circunstâncias, e em desenvolver uma teoria sociopolítica
enraizada em princípios democráticos — tudo isso apesar do medo muito real de
represálias por parte de vozes opressoras e autoritárias que buscavam
desconsiderar sua própria existência. Ao buscarmos compreender a complexa
interação entre o indivíduo e o social na psicoterapia contemporânea, faríamos
bem em seguir seu exemplo.
Fonte:
Por Mark Hammond - Tradução Pedro Silva, em Jacobin Brasil

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