Como
crise da Groenlândia faz Europa endurecer sua postura com Trump
Algo na
Europa se rompeu.
Na
segunda-feira (19/1) à noite, o presidente americano Donald Trump defendeu
novamente que os Estados Unidos "precisam ter" a Groenlândia, por
razões de segurança nacional.
Trump
previu que os líderes europeus não "irão reagir muito". Mas não era o
que eles tinham em mente para quando cruzassem com o presidente dos Estados
Unidos durante a reunião anual do Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça.
A
Groenlândia é um território semiautônomo da Dinamarca — que, por sua vez, é
membro da União Europeia e da Otan.
Donald
Trump vem exercendo forte pressão sobre os aliados da Dinamarca nas duas
organizações para que abandonem Copenhague e deixem que Washington assuma o
controle da Groenlândia. O presidente americano chegou a anunciar tarifas
punitivas sobre todas as suas exportações para os Estados Unidos, mas voltou
atrás após dizer ter alcançado "um possível acordo".
As
tarifas seriam um cenário de terror para as economias europeias, que já estão
estagnadas — especialmente as que dependem das exportações para os EUA, como a
indústria automobilística da Alemanha e o mercado de produtos de luxo da
Itália.
Na
segunda-feira, o ministro das Finanças da Alemanha, Lars Klingbeil, declarou
que não se deixaria chantagear, após uma reunião de emergência com seu homólogo
francês, em preparação para o Fórum Econômico Mundial.
As
ameaças de Trump foram recebidas como um tapa no rosto dos governos europeus,
que haviam acabado de firmar (separadamente, no caso da UE e do Reino Unido)
acordos de tarifas com o presidente americano no ano passado.
"Estamos
atravessando territórios não mapeados", declarou o ministro das Finanças
da França, Roland Lescure, após as ameaças sobre as tarifas.
"Nunca
vimos isso antes. Um aliado, um amigo de 250 anos, considerando usar tarifas...
como arma geopolítica."
Klingbeil
acrescentou que "foi cruzada uma linha".
"Você
irá compreender que, hoje, não estou dizendo exatamente o que irá ocorrer. Mas
um ponto precisa ficar claro: a Europa deve se preparar."
Subitamente,
a atitude complacente em relação a Donald Trump, claramente adotada pelos
líderes europeus desde que ele voltou para seu segundo mandato na Casa Branca,
parece ter passado da sua data de validade.
E
apesar da questão ter sido aparentemente resolvida com o anúncio do
cancelamento das tarifas, a crise não será facilmente esquecida pela Europa,
avalia Paul Adams, correspondente diplomático da BBC News.
"Não
demorará muito para que os detalhes do acordo venham à tona. Mas o fato de
Donald Trump ter desencadeado duas semanas de grande tensão e uma sensação de
crise existencial dentro da Otan para chegar a este ponto não será facilmente
esquecido", afirma.
<><>
'Policial bom, policial mau'
Na
quarta-feira (21/1), após um encontro com o secretário-geral da Otan, Mark
Rutte, realizado durante o Fórum Econômico Global, Trump anunciou que um acordo
sobre a Groenlândia está próximo e cancelou as tarifas de importação contra
países da União Europeia que entrariam em vigor em 1° de fevereiro.
Ainda
não é o momento da extrema-unção das relações transatlânticas.
Mas a
União Europeia, pelo menos, ainda espera abordar o presidente dos Estados
Unidos "falando suavemente, mas carregando um grande porrete",
parafraseando um ex-presidente americano.
Theodore
"Teddy" Roosevelt (1858-1919) acreditava que, para atingir seus
objetivos, é preciso ter diplomacia, respaldada por um poder respeitável. E a
Europa parece estar adotando agora a técnica do policial bom, policial mau.
Os
líderes europeus dizem ao presidente Trump que irão ajudá-lo a priorizar a
segurança do Ártico e que, por isso, não é preciso que ele se dirija sozinho à
Groenlândia.
Paralelamente,
diplomatas europeus divulgaram a possível imposição de 93 bilhões de euros
(cerca de R$ 586 bilhões) em tarifas de importação sobre produtos americanos ou
até mesmo a restrição de acesso de empresas dos Estados Unidos ao enorme
mercado comum do bloco, possivelmente incluindo bancos e empresas de
tecnologia.
Tudo
isso, se Trump tivesse mantido suas "tarifas da Groenlândia", como
ficaram conhecidas.
Estas
medidas retaliatórias, muito provavelmente, também causariam um efeito em
cadeia para os consumidores americanos.
Os
investidores da União Europeia mantêm presença massiva em quase todos os 50
Estados americanos. Calcula-se que eles sejam responsáveis por 3,4 milhões de
empregos nos Estados Unidos.
A voz
da União Europeia é fraca no cenário da diplomacia internacional. O bloco é
composto por 27 países que vivem discutindo com frequência.
Mas a
UE tem enorme influência sobre o comércio e a economia global, setores em que a
maior parte das decisões é tomada pela Comissão Europeia, em nome dos membros
isolados do bloco.
A União
Europeia é o maior comerciante de bens e serviços do mundo. Ela representou
cerca de 16% do comércio mundial em 2024. Por isso, Bruxelas manteve os dedos
cruzados para que o presidente Trump descesse da sua posição maximalista para
negociar uma solução intermediária.
Afinal,
ele poderia ganhar uma ilha (a Groenlândia), mas provavelmente à custa de
aliados próximos (a Europa). E ainda poderia ser considerado responsável pelo
aumento dos custos para o consumidor nos Estados Unidos, se fossem efetivadas
as tarifas retaliatórias da UE.
"Nossa
prioridade é atrair, não intensificar", declarou na segunda-feira (19/1) o
vice-porta-voz da Comissão Europeia, Olof Gill.
"Trump
está forçando os europeus a criar coragem", afirma o economista Niclas
Poitiers, especialista em comércio internacional do centro de estudos Bruegel,
com sede em Bruxelas, na Bélgica.
"Os
danos causados pelas tarifas de Trump seriam bem administráveis para a
Europa... mas a questão maior aqui não é sobre economia, mas sobre segurança e
política externa."
"A
União Europeia não pode deixar de reagir", destaca ele.
<><>
Confiança nas garantias de segurança dos EUA
Na
segunda-feira (19/1), o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott
Bessent, pareceu pouco impressionado. Falando em Davos, ele pintou o quadro de
um presidente americano decidido.
"O
presidente considera a Groenlândia um ativo estratégico para os Estados
Unidos", segundo Bessent. "Não iremos terceirizar a segurança do
nosso hemisfério para ninguém."
Ele
alertou que eventuais tarifas retaliatórias europeias seriam
"insensatas".
E,
aqui, a Europa se sentiu travada. Condenada se tomar medidas. Condenada se não
fizer nada.
Alguns
na Europa temiam que, se confrontassem Trump, correriam o risco de alienar os
Estados Unidos ainda mais.
E a
verdade brutal é que a Europa precisa de Washington para garantir um acordo de
paz sustentável para a Ucrânia e para a própria segurança do continente. Isso
porque, mesmo prometendo gastar mais com a defesa, a Europa ainda depende muito
dos Estados Unidos.
Ao
mesmo tempo em que reiterava seu apoio à soberania da Dinamarca e da
Groenlândia, o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, enfrentou
dificuldades para deixar claro este ponto na segunda-feira.
Ele
afirmou que, no "interesse nacional do Reino Unido, continuamos a
trabalhar com os americanos em assuntos de defesa, segurança e
inteligência".
"Nossa
dissuasão nuclear é a nossa principal arma. Essa dissuasão, para garantir a
segurança de todos no Reino Unido, é minha tarefa fundamental e exige um bom
relacionamento com os Estados Unidos."
Mas, se
a Europa continuar a tentar "administrar" Trump, em vez de
confrontá-lo em um momento em que ele ameaça a soberania de um dos seus aliados
na Otan (a Dinamarca), o continente correrá o risco de parecer seriamente
enfraquecido.
No X
(antigo Twitter), a principal diplomata da União Europeia, Kaja Kallas,
escreveu: "Não temos interesse em comprar uma briga, mas iremos nos
defender."
Como
ex-primeira-ministra da Estônia (um país que teme a sombra iminente da Rússia
expansionista), ela se empenha para demonstrar a Moscou que a Europa pode e irá
mostrar os dentes, se for necessário.
"Os
europeus não podem mais se esconder", segundo Tara Varma, especialista em
segurança e geopolítica do centro de estudos Fundo Marshall Alemão dos Estados
Unidos.
"Eles
tentaram apenas a diplomacia pessoal com Donald Trump no ano passado, para
vincular o presidente americano à defesa coletiva da Europa e garantir a
segurança da Ucrânia após um cessar-fogo com a Rússia", explica ela.
Mas, se
ele virar as costas novamente, mencionando razões econômicas e de segurança e
ameaçando a Otan se não conseguir o que quer sobre uma questão específica,
Varma pergunta: "Em última análise, qual confiança a Europa pode depositar
nas garantias de segurança dos Estados Unidos com base neste governo?"
<><>
Putin e o Conselho de Paz
Quem
assiste a tudo isso de camarote, além da Rússia, é a China.
Aos
olhos dos dois países, o Ocidente (tradicionalmente, com os Estados Unidos e a
Europa coesos no seu núcleo e dominando a política global há décadas) está,
agora, se desfazendo.
O mundo
é cada vez mais dominado por uma série de grandes potências. Elas incluem a
Rússia e a China, mas também a Índia, a Arábia Saudita e, até certo ponto, o
Brasil.
A China
espera que a aparente inconstância de Donald Trump junto aos seus aliados possa
fazer Pequim parecer um parceiro mais estável e confiável, atraindo uma parcela
maior do comércio internacional.
O
Canadá — que o presidente Trump ameaçou transformar no 51° Estado americano —
acaba de firmar um acordo comercial limitado com Pequim. Ottawa está tentando
reduzir sua exposição a Washington.
O
presidente americano também manifesta pouco interesse pelas instituições
multilaterais, como a Otan e a ONU, criadas pelas potências ocidentais após a
Segunda Guerra Mundial, (1939-1945) para gerenciar a ordem global.
Alguns
fazem referência ao Conselho de Paz sendo formado por Donald Trump e à
cerimônia de assinatura, que ele supostamente deseja realizar na quinta-feira
(22/1), em Davos. Muitos líderes mundiais e figuras importantes do mundo dos
negócios estarão presentes à conferência.
O
Conselho é ostensivamente projetado para administrar a reconstrução da Faixa de
Gaza, após a devastadora ofensiva israelense dos últimos dois anos, com o
objetivo de destruir o Hamas depois do seu ataque a Israel, em 7 de outubro de
2023.
Mas o
estatuto do Conselho convoca "um organismo internacional de construção da
paz mais ágil e eficaz", o que sugere que sua missão será muito mais
ampla, possivelmente competindo com a ONU.
É assim
que o presidente da França vê o Conselho.
Uma
fonte próxima a Emmanuel Macron emitiu uma declaração na segunda-feira,
afirmando que a França não pretende aceitar o convite recebido, "ao lado
de muitos países", para fazer parte do Conselho de Paz.
"O
estatuto do Conselho levanta questões importantes, principalmente em relação ao
respeito aos princípios e à estrutura das Nações Unidas, o que não pode ser
colocado em questão sob nenhuma circunstância", diz a declaração.
O
Kremlin afirmou na segunda-feira que o presidente da Rússia, Vladimir Putin,
também foi convidado a fazer parte do Conselho.
O
convite indica que Trump está disposto a manter suas relações com o presidente
russo, mesmo com a invasão da Ucrânia por Moscou, que já dura quatro anos, e
com a sua recusa, até o momento, em aceitar um plano de paz apoiado pelos
Estados Unidos.
Também
foram levantadas questões sobre o papel dominante de Trump no Conselho e sua
exigência de que os líderes mundiais paguem US$ 1 bilhão (cerca de R$ 5,4
bilhões) por sua participação permanente.
Mas
Tara Varma defende que o Conselho de Paz não trata da paz. "Como poderia
tratar, se líderes como Putin foram convidados a fazer parte dele?"
"Trump
quer ser visto como um pacificador", explica ela.
"Ele
quer as manchetes, mas sem desenvolver o árduo trabalho de estabelecer as bases
necessárias para que a paz seja duradoura. Sua estratégia é mais de bater e
correr."
Para
Varma, "ele não pode substituir instituições multilaterais, como as Nações
Unidas, que existem há 80 anos."
<><>
Relações tensas, mas não rompidas
Mas o
presidente Trump, com seu desprezo às normas internacionais existentes há
décadas, talvez agite um pouco essas instituições multilaterais, impulsionando
ou até forçando para que elas se modernizem e se tornem mais relevantes.
A
participação no Conselho de Segurança da ONU, por exemplo, deveria ser menos
centralizada no Ocidente e representar melhor as mudanças ocorridas na
estrutura global de poder.
Os
membros europeus da Otan também reconheceram que devem pagar mais pela sua
própria defesa. Trump não é o primeiro presidente americano a afirmar isso, mas
ele é muito mais incisivo.
Foi
depois que ele ameaçou fazer com que os Estados Unidos deixem de defender
nações que não pagam a sua parte que todos os membros da Otan, exceto a
Espanha, concordaram em aumentar drasticamente seus gastos com segurança.
Voltando
à Groenlândia, as pesquisas indicam que 55% dos americanos não querem comprar a
ilha e 86% se opõem à sua tomada militar pelos Estados Unidos.
A
Dinamarca e outras potências europeias vêm fazendo lobby junto aos legisladores
no Capitólio, para convencê-los a proteger a soberania dinamarquesa.
As
relações transatlânticas não foram rompidas, mas ficaram abaladas.
Donald
Trump continua pegando o telefone para falar com sua parceira, a
primeira-ministra italiana Giorgia Meloni, com Starmer e com o secretário-geral
da Otan, Mark Rutte. Ou seja, as linhas de comunicação ainda estão abertas.
Mas, em
última análise, se os europeus quiserem enfrentar Trump, precisarão se manter
coesos. E não apenas os Estados membros da UE isoladamente, nem só a Otan: mas
todos os países, juntos.
E o
Reino Unido, que mantém relacionamento mais próximo com os EUA, será
fundamental neste ponto.
Ocorre
que os líderes europeus estão divididos entre fazer o que eles acreditam ser o
certo no cenário internacional e suas próprias preocupações domésticas. Afinal,
se for deflagrada uma guerra comercial transatlântica, seus eleitores serão
prejudicados.
Será
difícil manter todos cantando no mesmo tom em relação à Groenlândia por muito
tempo.
Fonte:
BBC News Mundo

Nenhum comentário:
Postar um comentário