Acordo
UE-Mercosul pode agravar a crise climática
A chefe
da União Europeia (UE), Ursula von der Leyen, assinou formalmente o acordo com
o Mercosul, sob prolongados protestos de milhares de agricultores do bloco
europeu.
A
maioria dos líderes da UE deu sinal verde, na semana passada, ao acordo de
livre comércio, que levou 25 anos para ser concluído. Segundo a Comissão
Europeia, as empresas europeias terão mais oportunidades de negócios e acesso a
matérias-primas essenciais.
Além
disso, o braço executivo da UE, que negociou o texto, argumenta que o acordo
promove "valores compartilhados e o desenvolvimento sustentável",
ajudando a combater as mudanças climáticas e a proteger o planeta. Mas
analistas ambientais destacam que a realidade está longe do ideal.
"Esse
acordo basicamente vai contra os compromissos [climáticos] da UE", disse
Audrey Changoe, coordenadora de política comercial da Climate Action Network
Europe, à DW. A preocupações incluem o desmatamento acelerado, o aumento das
emissões de carbono, o comércio de pesticidas nocivos e a erosão da
biodiversidade.
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"Vacas por carros"
Uma vez
aprovado pelo Parlamento Europeu e ratificado tanto pela UE quanto pelo
Mercosul, o amplo acordo — frequentemente apelidado de um pacto "vacas por
carros" — abrirá novos mercados em ambos os continentes para quase todos
os produtos, incluindo automóveis, máquinas e produtos químicos da Europa. E,
da América do Sul, produtos agrícolas e matérias primas, incluindo metais raros
que impulsionam a transição energética na forma de baterias e eletrônicos.
Segundo
Changoe, o aumento do comércio de produtos agrícolas ligados ao desmatamento na
América do Sul — especialmente carne bovina, aves, açúcar e soja — degradará
ainda mais as florestas do continente.
O
desmatamento vem diminuindo no Brasil, o maior membro do Mercosul, apontam
dados oficiais. Na Amazônia, o desmatamento total registrado entre agosto de
2024 e julho de 2025 teveredução de 11% em comparação com o período anterior.
Foi a terceira menor área anual desmatada desde o início da série histórica, em
1988, e a mais baixa registrada desde 2014.
Entretanto,
o país ainda foi responsável por quase metade da perda de florestas tropicais
do mundo em 2024, segundo o World Resources Institute, devido à agricultura, à
extração ilegal de madeira, à mineração e a incêndios florestais.
Além do
bioma amazônico, o Cerrado e o Gran Chaco, cuja maior parte é dividida entre
Argentina, Paraguai e Bolívia, estão ameaçados por um possível aumento da
pecuária e da produção de soja. Todos eles atuam como grandes sumidouros de
carbono, ou seja, capazes de absorver mais dióxido de carbono (CO₂) da
atmosfera do que emitem.
"A
UE, globalmente, é um dos maiores contribuintes para o desmatamento. Portanto,
ela tem a responsabilidade de garantir que não perpetue o avanço do
desmatamento no exterior", prossegue Changoe.
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Problemas para o clima
O bloco
europeu tem pressionado pela inclusão de disposições que obriguem ambas as
partes a "implementar efetivamente o Acordo de Paris" e assumir
"compromissos concretos e mensuráveis para preservar a biodiversidade dos
ecossistemas e combater o desmatamento".
Mas
Changoe afirma que, embora a inclusão do Acordo de Paris seja uma "adição
bem-vinda", ela não vai longe o suficiente. "A redação não acrescenta
nada de novo ao que já foi acordado em tratados internacionais."
Patrizia
Heidegger, vice secretária geral do European Environmental Bureau, a maior rede
europeia de organizações ambientais da sociedade civil, destaca que o fato de
que esses produtos são transportados pela metade do planeta já os torna
insustentáveis.
"Não
estou dizendo que não devemos importar nada, mas o foco deve ser garantir que
nossa própria produção de alimentos seja sustentável, saudável, acessível, em
vez de aumentar nossas dependências e continuar dependendo de recursos que
exploramos em outros lugares," afirma.
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UE enfraquece próprias regras
A UE
tem diluído políticas chave do seu emblemático acordo climático, o European
Green Deal, introduzido durante uma onda de apoio à causa ambiental em 2019.
Sob pressão da direita e da indústria, a simplificação da política climática e
a redução da burocracia têm justificado o afrouxamento de regulamentações.
Embora
a UE tenha usado com sucesso o peso de seu grande mercado para estabelecer
padrões globais de sustentabilidade, a forte influência do acordo UE–Mercosul
poderia enfraquecer ainda mais esses regulamentos, à medida que empresas
europeias lutam para permanecer competitivas diante de concorrentes sul
americanos.
"No
momento, o clima político é de uma narrativa muito forte contra
regulamentação", continua Heidegger. Ela destaca a "erosão de padrões
e salvaguardas ambientais" na precificação de carbono, metas de emissões,
desmatamento e eliminação progressiva de veículos movidos a combustíveis
fósseis.
"Se
concluirmos acordos comerciais que exponham nossos produtores a concorrentes
que não precisam seguir os mesmos padrões, eles continuarão pressionando por
padrões mais baixos."
No fim
das contas, segundo especialistas, o cumprimento das promessas de
sustentabilidade e clima dependerá da capacidade de fiscalização. "Esse é
o problema habitual dos acordos comerciais: cláusulas de sustentabilidade
geralmente não são juridicamente vinculativas. É bonito no papel, mas, na
prática, não significa que irão nos proteger de todos esses efeitos
negativos." Ou seja: é mais uma promessa ou intenção, e não uma regra com
força de lei.
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Impulso para a bioeconomia?
Alguns
analistas afirmam que a influência das medidas de sustentabilidade da UE pode
ter impacto positivo na América do Sul, com o acordo possivelmente apoiando o
desenvolvimento de economias circulares em setores como silvicultura, mineração
e agricultura regenerativa. Argentina e Uruguai, por exemplo, desenvolveram
estratégias de bioeconomia em resposta à pressão europeia por sustentabilidade.
O
capítulo de Comércio e Desenvolvimento Sustentável do acordo inclui uma breve
menção ao objetivo de que a UE e os Estados do Mercosul "trabalhem juntos
nos aspectos comerciais do […] consumo sustentável e (…) da economia
circular".
Mas o
texto final não contém disposições sobre como apoiar a economia circular,
critica o Instituto para Política Ambiental Europeia, limitando-se a listar um
conjunto de princípios gerais com base na vontade das partes.
Além
disso, diz o think tank de sustentabilidade, os esforços da UE para regular o
acesso ao mercado com padrões mais rigorosos relacionados ao tema poderiam
criar barreiras para pequenos atores em países de baixa e média renda.
Fonte:
DW Brasil

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