Venezuela
e Groenlândia: o plano maior dos EUA
Nas
análises recorrentemente veiculadas sobre os fatores que influenciam as ações e
ameaças sobre outros países empreendidas pelo governo Donald Trump, a busca por
acesso a recursos naturais estratégicos vem sendo frequentemente abordada como
elemento central. Mesmo questões políticas internas vêm sendo pouco mencionadas
como fator motivador. Para além destes fatores e sem desprezar suas
contribuições, esta Nota chama atenção para a necessidade de reposicionamento
na disputa de poder global e para a relevância da posição geográfica de
determinados territórios na estratégia dos Estados Unidos.
A
centralidade atribuída ao petróleo nas ações dos EUA sobre a Venezuela tem
produzido uma proliferação de análises de viés predominantemente economicista,
inclusive no campo da geopolítica e da economia política internacional. Em
particular, interpretações derivadas de certas leituras da teoria do
imperialismo tendem a reduzir os conflitos interestatais à disputa por
territórios econômicos, recursos e mercados. De forma complementar e sinérgica,
este texto aponta para a importância da disputa entre Grandes Potências pelo
acúmulo e vantagem relativa de poder no âmbito global, bem como o papel
estruturante dos fatores geográficos — espaço e localização estratégica de
territórios ou áreas — na formulação das estratégias estatais, inclusive para a
segurança e sobrevivência dos Estados. Essa abordagem dialoga com o programa de
pesquisa do Poder Global, inaugurado por José Luís Fiori, que enfatiza a
dinâmica competitiva e expansiva pelo poder nas relações interestatais e na
geopolítica do capitalismo, especialmente olhando para os Estados em posição
superior. Ao mesmo tempo, dialoga e recupera elementos do pensamento
geopolítico clássico, em especial do próprio pensamento geoestratégico
estadunidense, no qual o valor estratégico de territórios e regiões não se limita
à presença de recursos naturais, mas envolve considerações fundamentais de
segurança e balança de poder.
Nessa
perspectiva, o argumento desenvolvido para o caso venezuelano é ampliado para o
chamado “Grande Caribe” ou “América Mediterrânea” — que abrange Venezuela,
Colômbia, países da América Central e Caribe, até o México — e para as ilhas
transoceânicas do Atlântico Norte e do Pacífico Norte, entre as quais se
destaca a Groenlândia. A maior parte das análises aqui apresentadas estão
presentes em textos como “O pensamento geoestratégico e os documentos
estratégicos dos Estados Unidos no pós Guerra Fria” e “Trump e a América Latina
no início de seu mandato”, publicados pelo autor em 2018 e 2025,
respectivamente*.
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A posição ou localização geográfica estratégica
Conforme
apontado em Padula (2025), no atual governo Trump, o foco no hemisférico
ocidental da política externa dos EUA teria especial atenção voltada ao “Grande
Caribe” (incluindo Colômbia e Venezuela), combinando-se ao estabelecimento de
linhas de defesa avançadas transatlânticas e transpacíficas. Esta política
seria instrumentalizada por meio da guerra comercial-tarifária e do uso da
percepção de “novas ameaças” do pós Guerra Fria, que seriam o narcotráfico, a
imigração, o crime transnacional, associados ao “terrorismo” e à criminalidade
no território dos EUA, podendo ser associados a grupos ou Estados hostis
externos ou dentro do hemisfério.
Uma
motivação estratégica fundamental para a ação dos EUA se encontra na
localização ou posição geográfica estratégica dos territórios da Venezuela e da
Groelândia, do ponto de vista da segurança do território estadunidense.
Conforme sistematizado em Padula (2018), na visão geoestratégica do EUA, o
“Grande Caribe” é composto pelo Mar do Caribe e Golfo do México, incluindo o
México, estados da América Central e Caribe (como Cuba), indo até a Colômbia e
Venezuela, no norte da América do Sul. O Grande Caribe é um ponto de passagem
marítimo fundamental (choque-point) não só do ponto de vista comercial,
mas também militar, visto que o controle da região permite à Marinha
estadunidense se articular para reunir em um único ponto ou costa a defesa de
seu território, e também negar passagem a rivais ou auferir influência sobre
potencias aliados que desejem utilizar esta rota. Ainda, a posição do
território da Venezuela é relevante na articulação do escudo guianense com a
área amazônica e o restante da América do Sul, e, juntamente com a Colômbia, na
articulação Atlântico-Pacífico do Grande Caribe e na área amazônica, sendo esta
uma área dotada de recursos naturais estratégicos.
No caso
das ilhas transoceânicas do Atlântico Norte, como a Groelândia, estas são
observadas como conexões e bases avançadas para defesa do território
estadunidense diante da possibilidade de projeções de poder de rivais
provenientes da extremidade ocidental da Eurásia. Com o degelo e possibilidade
de acesso a rotas marítimas comerciais e militares, além da exploração de
recursos estratégicos no Ártico, sua posição geográfica ganha ainda maior valor
estratégico. Vamos aos fundamentos no pensamento geoestratégico estadunidense.
Mesmo
antes da formação de um pensamento especificamente geopolítico, um dos
pais-fundadores dos EUA, Alexander Hamilton, apontou a união das treze colônias
deveria formar um Estado capaz de equilibrar as relações de poder no Atlântico
Norte e ditar os termos das relações entre o Velho e o Novo Mundo. A Doutrina
Monroe, anunciada pelo presidente estadunidense em 1823, explicitou a
preocupação com a projeção de potências externas no hemisfério ocidental, e
assim o perímetro de segurança dos EUA.
No
debate da geopolítica clássica, no fim do século XIX, o almirante estadunidense
Alfred Mahan (1890) destacou a importância do domínio de ilhas transoceânicas,
de passagens estratégicas e portos continentais para o controle de rotas
marítimas estratégicas. Este seria o pilar da supremacia britânica, que deveria
ser perseguido pelos EUA na sua projeção global. Mahan destacou a importância
da construção e controle de um canal no istmo do Panamá para que os EUA
assegurassem capacidade de articulação comercial e principalmente militar (de
segurança) entre os oceanos Atlântico e Pacífico. Ainda, ressaltou que tal
passagem despertaria o interesse e projeção de outras potências, e que os EUA
deveriam se preparar para assegurar seu controle. Assim, Mahan destacou o
Grande Caribe (Mar do Caribe e Golfo do México) como uma área estratégica para
a segurança dos EUA. De forma complementar, o autor destacou a importância do
domínio do triangulo Panamá-Havaí-Alasca, para a defesa dos EUA no Pacífico.
Nesta linha de ação estratégica, com o presidente William McKinley
(1897-1901), tão citado como inspiração por Trump, e no âmbito da Guerra
Hispano-Americana (1898), os EUA emergiram como uma potência global e
adquiriram vários territórios no Pacífico e no Caribe, incluindo Havaí, Guam,
Porto Rico e Filipinas. Mais adiante, com o Corolário Roosevelt da Doutrina
Monroe, os EUA promoveram a secessão do Panamá em relação à Colômbia, seguida
da construção e arrendamento do Canal do Panamá, e estabeleceram Cuba como um
protetorado e garantiram o arrendamento permanente da Baía de Guantánamo em
1903.
Mas foi
Nicholas Spykman (em America’s Strategy in World Politics, 1942)
que sintetizou a geoestratégia estadunidense, partindo de sua posição
geográfica, justificando a combinação entre o intervencionismo na Eurásia e a
supremacia no hemisfério ocidental. Para ele, os EUA seriam uma ilha bioceânica
cercada pela Eurásia. Assim, deveriam atuar permanentemente para que nenhuma
potência ou aliança dominasse a Eurásia, além avançar seu controle para as
ilhas transatlânticas – Groelândia e Islândia – e transpacíficas – Havaí,
Alasca e Ilhas Aleutas, – devido a sua posição de interconexão e proximidade
com as extremidades eurasiáticas. No hemisfério ocidental, a supremacia
estadunidense não poderia ser ameaçada. De forma similar o Grande Caribe de
Mahan, Spykman denomina “América Mediterrânea” como a área geopolítica formada
pelo Mar do Caribe e Golfo do México, incluindo Venezuela e Colômbia. Nesta
visão, Venezuela e Colômbia possuem uma dinâmica econômica, demográfica,
cultural e política voltada para o Norte, e estão apartadas geograficamente da
América do Sul pelos obstáculos da Amazônia e das cordilheiras andinas.
Reafirmando Mahan, Spykman aponta que esta é uma área onde seus Estados devem
ser sempre fracos e dependentes dos EUA, por razões estratégicas, e o controle
do Grande Caribe deve ser resguardado a sete chaves. Enquanto a “zona
equidistante meridional” (ou América do Sul) seria uma região geopolítica ao
sul do Amazonas, que merecia atenção permanente dos EUA.
Portanto,
do ponto de vista geoestratégico estadunidense, tanto o “Grande Caribe” quanto
as ilhas transatlânticas do Atlântico Norte (incluindo a Groelândia) devem ser
objeto de controle, influência e intervenção permanente dos EUA.
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A disputa de poder global
Do
ponto de vista sistêmico, a conjuntura atual de intensificação da competição
pelo poder interestatal e de tendência à multipolaridade impõe aos EUA como
questão central a necessidade de buscar seu reposicionamento estratégico diante
das potências rivais. No seu retorno ao poder, Trump anunciou o deslocamento do
foco da política externa e de segurança dos EUA para a reafirmação de sua
supremacia no Hemisfério Ocidental, articulada ao seu posicionamento global.
Essa estratégia combina o esforço de contenção da influência de potências
externas no hemisfério — com destaque para a China — com a redução seletiva do
engajamento direto dos EUA na Eurásia, preservando ações e intervenções
pontuais consideradas estratégicas.
Nesse
contexto, a China se afirmou como principal desafiante à supremacia global dos
EUA no século XXI, utilizando instrumentos econômicos com claros efeitos
geopolíticos, como a Iniciativa Cinturão e Rota. A crescente presença chinesa
na América do Sul e no Grande Caribe, particularmente em áreas sensíveis como a
região do Canal do Panamá e na Venezuela, reforça a percepção de ameaça
estratégica por parte de Washington. Paralelamente, o desfecho da guerra na
Ucrânia, interpretado como uma vitória da Rússia e uma derrota estratégica dos
EUA e da Europa, intensificou a necessidade, do ponto de vista estadunidense,
de redefinir prioridades, concentrando esforços no fortalecimento de seu
perímetro imediato de segurança, expandindo-se para uma zona tampão de segurança
nas ilhas transoceânicas do Pacífico e Atlântico Norte.
A
América do Sul passou a ocupar um lugar de maior relevância nesse cenário em
razão da combinação entre a perda de protagonismo regional do Brasil na segunda
década do século XXI e a expansão da presença econômica e política da China. A
região tornou-se, assim, um espaço de projeção de poder e de disputa entre
potências externas. A Venezuela emerge como caso emblemático, ao articular e
intensificar relações estratégicas com China e Rússia em uma área de elevada
importância geográfica, situada no Grande Caribe e na interface com a Amazônia,
além de concentrar vastos recursos naturais. A intensificação das sanções
econômicas impostas pelos EUA, sobretudo a partir do primeiro governo Trump,
aprofundou esse movimento, levando Caracas a buscar e aprofundar alternativas
financeiras e comerciais fora do circuito dominado pelo dólar, em especial nas
exportações de petróleo para a China. Ainda que essas iniciativas tenham
caráter defensivo, elas se inserem em um contexto mais amplo de contestação à
supremacia monetário-financeira dos EUA. Historicamente, a exclusão da
influência dos EUA na Venezuela e no seu petróleo, combinada à crescente
presença sino-russa, a atuação e influência da Exxon e dos EUA na Guiana a
partir de 2015, além da presença de petroleiras americanas na Colômbia e
Suriname, faziam da Venezuela um enclave estratégico no norte da América do
Sul. A recente reversão na política externa colombiana, tradicionalmente
alinhada aos EUA, colocaram também o país em foco, para que os EUA possam
completar o domínio do arco norte da América do Sul. Cabe lembrar que, embora a
redução da produção de petróleo decorrente das sanções tenha impossibilitado a
Venezuela de utilizar seu petróleo como instrumento de projeção externa, e
mesmo a levou a anunciar o fim das exportações para países da Petrocaribe, o
abastecimento de Cuba foi mantido.
No caso
da Groelândia, deve-se considerar a conjuntura atual de fraqueza política e
militar da Europa e de sua dependência militar da OTAN, organização cujo
controle permite aos EUA manter sua influência na região (chegando ao Leste),
em um contexto de vitória russa na Ucrânia. Diante desse quadro, a anexação da
Groenlândia pode ser avaliada pelos estrategistas estadunidenses a partir de um
cálculo custo-benefício favorável, por ser tanto uma demonstração de capacidade
expansionista quanto como afirmação de poder em uma área de elevado valor
geoestratégico. O degelo progressivo do Ártico, ao ampliar o acesso a novas
rotas marítimas e a recursos estratégicos, tende a reforçar esse cálculo. Além
disso, na prioridade atribuída ao hemisfério ocidental, a consolidação de uma
base estratégica avançada pode representar uma opção racional do ponto de vista
geopolítico, em favor do fortalecimento da posição dos EUA na disputa pelo
poder global.
Recorrendo
ao debate geoestratégico estadunidense, as visões e ações engendradas por
Donald Trump podem ser interpretadas à luz do realismo de John Mearsheimer e
Stephen Walt, bem como das formulações de Robert Kaplan, este autor fortemente
influenciado por Samuel Huntington. Mearsheimer e Walt, ao desenvolverem a
noção de offshore balancing, argumentam que os EUA deveriam
concentrar seus recursos militares, políticos e econômicos na consolidação do
domínio hemisférico, reduzindo seu envolvimento direto em conflitos na Eurásia.
Essa estratégia permitiria poupar recursos e vidas, ao mesmo tempo em que
fortaleceria a posição dos EUA para a disputa de poder global. Nesse
enquadramento, insere-se a defesa da redução dos gastos com a segurança
europeia e a revisão da participação na OTAN. A atuação estadunidense no
balanço de poder eurasiático deveria ocorrer prioritariamente por meio de
aliados, com intervenções diretas apenas em situações pontuais consideradas
estratégicas, especialmente na área da Ásia-Pacífico, onde a ascensão da China
inevitavelmente colidiria de forma direta com os interesses dos EUA. Já Robert
Kaplan sustenta a necessidade de os EUA concentrarem esforços no hemisfério
ocidental, buscando integrá-lo sob sua esfera de influência e priorizando temas
como migração e narcotráfico. Em sua interpretação, a estabilidade do espaço
hemisférico é condição essencial para a preservação da identidade histórica e
da coesão interna dos EUA, o que tornaria inviável a convivência com Estados
falidos ou narcoestados em sua vizinhança. Ademais, a política de Trump também
pode ser interpretada à luz da visão estratégica de Henry Kissinger,
fundamentada na lógica da geopolítica triangular. Nessa abordagem, Kissinger
defende que, na conjuntura atual, os EUA deveriam buscar uma negociação
estratégica com a Rússia, reconhecendo seu status de grande potência nuclear,
com o objetivo de afastá-la da China (explorando rivalidades históricas) e,
assim, isolar o terceiro vértice do triângulo. Tal movimento teria ainda como efeito
colateral desejado o enfraquecimento do BRICS. Para Kissinger, profundas
diferenças políticas, estratégicas e culturais entre Washington e Pequim
limitariam a possibilidade de uma negociação mutuamente vantajosa, e, assim,
tornariam improvável a possibilidade de conciliação de interesses no âmbito da
disputa pelo poder global.
Fazendo
menção aos recursos estratégicos, mas de forma associada à disputa de poder
global, faz-se importante lembrar a Doutrina Carter, anunciada em 1979, focada
no Oriente Próximo, como uma reação à invasão soviética ao Afeganistão e à
Revolução Islâmica no Irã, ambos países localizados em áreas energéticas
estratégicas na disputa bipolar e especialmente pela Eurásia. A doutrina
formulada por Zbigniew Brzezinski pode ser interpretada de forma mais ampla,
não só como a busca pelo controle de recursos estratégicos (vitais) para
aproveitamento dos EUA, mas também pela busca por negar acesso a rivais e, ao
mesmo tempo, pela manutenção do poder de barganha dos EUA sobre outros países,
atuando como garantidor do acesso ou funcionamento do “mercado” destes recursos.
Para o cientista político Michael Klare, os EUA praticam a Doutrina Carter
desde 1943 e esta não se resume a recursos energéticos, mas envolve qualquer
recurso considerado estratégico. A Declaração de Emergência de Energia Nacional
dos EUA, firmada pelo Presidente Trump no seu primeiro dia de governo, menciona
a exploração e uso de bens energéticos como um instrumento de política externa,
argumentando a necessidade de aproveitá-los em países parceiros e antagonizar a
atuação de Estados rivais no tema. Assim, a questão do petróleo na Venezuela
deve ser observada do ponto de vista da disputa de poder global, e não somente
como um negócio lucrativo para empresas e a economia estadunidenses.
Diante
deste cenário, a busca por autonomia, segurança e desenvolvimento nos países da
América do Sul passa inevitavelmente por arranjos de integração entre países da
região e pela articulação Sul-Sul frente à estratégia hemisférica dos EUA, mas
reconhecendo o Grande Caribe como uma área de sensibilidade estratégica. A
articulação de um bloco de integração passa inevitavelmente pela atuação do
Brasil e de sua diplomacia, e sua capacidade para atrair os demais países da
região.
Fonte: Por
Raphael Padula, em Outras Palavras

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