sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Francisco Guerreiro: Da reconstrução à consolidação  o novo ciclo da política cultural brasileira e os desafios para 2026

A recriação do Ministério da Cultura, em 2023, representou mais do que o retorno de uma pasta administrativa: simbolizou a retomada de um projeto estruturante de Estado para a cultura brasileira. Sob a gestão da ministra Margareth Menezes, o MinC reassumiu sua função histórica de organizar marcos legais, garantir fluxo contínuo de recursos e estruturar um sistema público capaz de sustentar a cultura para além dos governos.

A trajetória de Margareth Menezes ajuda a compreender a dimensão dessa mudança. Nascida em Salvador e formada na cultura popular e afro-brasileira, a ministra construiu sua carreira artística e política em diálogo direto com territórios, trabalhadores da cultura e experiências comunitárias. Antes de chegar ao comando do ministério, já atuava na formulação e na execução de políticas culturais, o que conferiu à sua gestão legitimidade técnica e política.

Desde sua criação, o Ministério da Cultura teve como missão transformar a cultura em política pública estruturada. Em gestões anteriores, foram lançadas bases fundamentais: marcos legais, programas nacionais, mecanismos de financiamento e o Sistema Nacional de Cultura, o SNC, com foco na cooperação federativa e na participação social.

Nos três anos de gestão de Margareth Menezes, o MinC concentrou esforços na reconstrução e na consolidação da política cultural brasileira. No eixo normativo, fortaleceu marcos legais, atualizou diretrizes e avançou na elaboração do novo Plano Nacional de Cultura, que define metas, prioridades e instrumentos de avaliação. Também implementou o novo marco regulatório do fomento, garantindo previsibilidade e segurança jurídica para gestores, artistas e coletivos.

No campo do financiamento, a execução das Leis Paulo Gustavo e Aldir Blanc restabeleceu o fluxo público de recursos, descentralizou investimentos e fortaleceu estados e municípios como executores diretos da política cultural. A Lei Rouanet passou por um processo de nacionalização dos recursos, ampliando seu alcance para todas as regiões do país, reduzindo concentrações históricas e garantindo acesso mais equitativo a projetos culturais em todo o território nacional. Esse movimento resultou em números inéditos, com recordes de projetos aprovados, de captação e de impactos concretos na cadeia produtiva da cultura.

No eixo sistêmico, foi aprovado o marco regulatório que instituiu o novo Sistema Nacional de Cultura, frequentemente denominado SUS da Cultura. A gestão passou a ser pautada pelo diálogo permanente com secretarias estaduais e municipais de Cultura, que assumiram maior protagonismo, e com o setor cultural, incluindo artistas, coletivos e instituições de todo o país.

Esse processo participativo fortalece o pacto federativo, amplia a transparência, estimula a participação social e reafirma a cultura como política de Estado e instrumento estratégico de fortalecimento da democracia.

Acompanhando esse ciclo de retomada, o audiovisual brasileiro voltou ao lugar de destaque que nunca deveria ter perdido. Após um período marcado por queda de investimentos e retração de público, o setor entrou em nova rota de expansão nos últimos três anos. Impulsionado pelo aumento dos investimentos públicos, pela valorização das produções nacionais e pela crescente repercussão internacional de filmes brasileiros, o audiovisual recuperou dinamismo econômico e recolocou o país no radar global da indústria criativa.

Cumpre ainda destacar, como pilares dessa gestão, o fortalecimento sem precedentes das políticas afirmativas, ampliando o acesso de comunidades afro-brasileiras, indígenas e periféricas a programas e recursos culturais. Soma-se a isso a valorização dos servidores da cultura, por meio da reestruturação administrativa, da presença efetiva do ministério em todos os estados, da recuperação da autoestima institucional e do reconhecimento do trabalho de quem faz a cultura acontecer. O novo plano de carreira, encaminhado ao Congresso após mais de 20 anos de espera, simboliza esse compromisso. Sem essa força humana, nenhuma das conquistas normativas, financeiras ou sistêmicas teria sido possível. Trata-se, portanto, de uma gestão humanizada, acima de tudo.

A gestão da ministra Margareth Menezes também se destaca pela consolidação de dados e evidências sobre a cultura como força econômica. Estudos e levantamentos recentes demonstram seu impacto na geração de empregos, renda e desenvolvimento territorial, subsidiando decisões estratégicas e orientando investimentos mais eficientes.

O legado que essa gestão já sinaliza deixar se sustenta, portanto, em um tripé estruturante: normas, recursos e sistema. Ao consolidar instrumentos normativos, assegurar fluxo contínuo de financiamento e fortalecer uma estrutura institucional segura e transparente, o Ministério da Cultura reafirma que a cultura é direito, política pública permanente, vetor de inclusão social e força econômica.

Mais do que reconstruir estruturas, esta gestão reafirma uma visão: não há democracia sólida sem cultura forte, diversa, afirmativa, economicamente valorizada e institucionalmente protegida. É a partir dessa compreensão, forjada na experiência, na escuta e no diálogo, que o Ministério da Cultura volta a cumprir plenamente seu papel estratégico no Brasil.

Para 2026, o principal desafio da política cultural é consolidar, nos territórios, os avanços institucionais já conquistados, transformando marcos legais, recursos e sistemas em capacidade efetiva de execução por estados e municípios, ainda marcados por desigualdades estruturais. Soma-se a isso a necessidade de garantir previsibilidade orçamentária, fortalecer mecanismos de monitoramento e avaliação e aprofundar o Sistema Nacional de Cultura como política de Estado, assegurando participação social contínua e sustentabilidade para além dos ciclos eleitorais. Essa é a condição indispensável para afirmar definitivamente a cultura como direito, vetor de desenvolvimento e pilar da democracia brasileira.

•        Plano Nacional de Cultura vai orientar políticas nos próximos 10 anos

Está em discussão no Congresso Nacional  o projeto de lei do novo Plano Nacional de Cultura (PNC). O plano vai orientar as políticas culturais do país pelos próximos dez anos.

Segundo o governo, o texto reafirma a cultura como política de Estado e pilar estratégico da democracia, da soberania e de um desenvolvimento socialmente justo.

"Hoje é um dia especial porque é a realização de um sonho que eu tenho há muito tempo de transformar cultura em um movimento efetivamente de base, uma coisa popular, para que a gente, ao invés de ter aquelas coisas muito encalacradas, fechadas, a gente ter uma espécie de guerrilha democrática cultural nesse país, onde as pessoas precisam ter a liberdade de fazer e provocar que os outros façam a acontecer a cultura nesse país", afirmou Lula.

O presidente também assinou o decreto que cria a Comissão Intergestores Tripartite (CIT), espaço de diálogo entre a União, estados e municípios para a implementação das políticas públicas de cultura.

O Plano Nacional de Cultura agrupa princípios, objetivos, diretrizes, estratégias, ações e metas que orientam o poder público na formulação de políticas culturais.

O plano foi instituído em 2010, assinado pelo então presidente Lula, com duração prevista de 10 anos. A vigência das regras terminaria em dezembro de 2020, mas passou por duas prorrogações e estava válido até dezembro de 2024.

O atual PNC é composto por 36 estratégias, 274 ações e 53 metas e baseia-se em três dimensões de cultura que se complementam:

•        a cultura como expressão simbólica;

•        a cultura como direito de cidadania;

•        a cultura como potencial para o desenvolvimento econômico.

O novo plano prevê oito eixos que organizam as políticas culturais em temas estruturantes para a formulação de planos e políticas estaduais, municipais e setoriais.

Além disso, possui processo de participação social ampliado e integrado, com participação territorial e digital, e também define os direitos culturais. Entre elas estão:

•        o acesso universal à produção e fruição cultural; a liberdade de

•        expressão, criação e imaginação; a preservação da memória, do patrimônio e dos saberes

•        tradicionais; a participação e o controle social; a acessibilidade cultural; e a proteção dos direitos autorais com justa remuneração aos criadores.

“Hoje é, possivelmente, o meu dia mais feliz como Presidente da República. Eu faço um trabalho imenso todo santo dia para não decepcionar vocês. Por favor, não decepcionem o Brasil. Façam a revolução cultural que precisa ser feita, para que nunca mais alguém tenha coragem de dizer que a cultura não vale nada, que a cultura atrapalha e que os artistas são criadores de câncer", finalizou Lula durante a cerimônia.

•        Margareth Menezes: ‘A meta é implementar as políticas em 2026’

Um artista sem mestres não sabe caminhar. Um país sem a memória de seus griôs desconhece a própria identidade. Para Margareth Menezes, ministra da Cultura desde o início do governo Lula 3, em 2023, essas são dimensões fundamentais do passado e do presente da cultura brasileira. A artista e cantora soteropolitana teve sua trajetória influenciada por inúmeros mestres, entre eles Mateus Aleluia, Clementina de Jesus e Jackson do Pandeiro. Em entrevista exclusiva ao Nonada, durante o Mercado das Indústrias Criativas do Brasil (MICBR), no início de dezembro, ela defendeu que só é possível visualizar um futuro do campo cultural se compreendermos um passado.

Um passado das políticas culturais brasileiras, pois menciona o legado decisivo de Gilberto Gil ao implementar o Do-in antropológico no Ministério, proposta que deslocou os entendimentos de cultura e artes que vigoravam até então, direcionando atenção às culturas populares e tradicionais.  Um passado político recente, em que o Ministério da Cultura foi extinto e desmontado, entregue a atual gestão “sem dados nenhum sobre nada”. Um passado em que a cultura sempre foi sinônimo de democracia. “O uso [pejorativo] da arte e do artista está muito relacionado à desconstrução do ambiente democrático, porque a arte contempla a nossa vocação para a democracia. Você não tem como produzir cultura com o pensamento cerceado”, reflete.

Como legado de sua atuação no Ministério da Cultura, ela menciona as políticas de “nacionalização” dos fomentos, em oposição ao conceito de descentralização utilizado na área. “Se você fala em descentralização, parece que está tirando do centro. Nós não estamos fazendo isso. Nós estamos fortalecendo a cultura no âmbito nacional, olhando o país do tamanho que ele é”, explica. Ela também citou a política do setor digital e o incentivo aos games como uma novidade da sua gestão, uma vez que os jogos digitais e os vídeos sob demanda foram reconhecidos como categorias de apoio via instrução normativa.

Sobre a crítica de trabalhadores da cultura quanto ao modelo de editais como ferramenta principal de fomento — tema que apareceu, inclusive, no MICBR —, a ministra admitiu que este ainda não é uma questão trabalhada pelo MinC. “Isso é um tema de uma provocação, que a gente pode começar a analisar também. Podemos escutar para ver qual é a possibilidade de criar outros formatos. Mas, ainda assim, é muito importante que o artista, o gestor, procure conhecer os mecanismos que dependem dele para que ele também possa acessar”, disse. A ministra cita ações desenvolvidas durante sua gestão como a Escola Solano Trindade de Formação e Qualificação Artística, Técnica e Cultural (ESCULT), que oferece cursos preparatórios gratuitos para a qualificação dos agentes culturais, incluindo a escrita de projetos.

Para Margareth, o legado principal de sua gestão está relacionado à federalização de recursos, à exemplo dos programas Rouanet Norte e Rouanet Favelas e também à consolidação de uma estrutura ampliada do Ministério da Cultura no território nacional. “Estamos deixando o Ministério da Cultura com outra robustez, com representatividade em todas as capitais do Brasil, para que as políticas culturais sejam compreendidas como um valor que acrescenta positivamente à nação brasileira”, enfatiza.

Ela diz, ainda, que o valor da cultura deve ser apreendido desde a infância. Ela mesma, antes de ser artista, relembra a importância que um professor de teatro teve ao lhe ajudar a enxergar sua vocação para o campo. “O ensino da arte nas escolas é muito importante, porque ensina a a materializar nossas ideias. Seja lá para qual direção de profissão você vá, a arte dá uma arrumada nesse processo  — entre o imaginar, o maquinar e o materializar.”

 

Fonte: Brasil 247/g1/Nexo

 

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