“O
sequestro de Maduro é um espasmo do declínio imperial,” afirma pesquisador
A
invasão da Venezuela é um sintoma do pânico diante da dissolução do mundo
unipolar sem uma hegemonia clara. Seus alicerces estão ruindo — o petrodólar, o
monopólio da energia, a subserviência geopolítica — e Trump está optando por
demonstrar sua força. Este não é o alvorecer de um novo século americano. A
América Latina deixou de ser o “quintal” e se tornou o laboratório vivo.
Rodrigo
Martin-Iglesias é designer, pesquisador e professor universitário. Seu trabalho
situa-se na interseção entre design, estudos de futuros e geopolítica, com foco
em disputas contemporâneas sobre poder, território, tecnologia e a produção de
significado a partir de uma perspectiva latino-americana e do Cone Sul. Ele
investiga como imaginários do futuro, sistemas técnicos e narrativas culturais
operam como dispositivos geopolíticos, influenciando a configuração de
soberanias, dependências e modelos de desenvolvimento. Dirige programas
acadêmicos de pós-graduação entre a América Latina e a Europa e participa de
redes internacionais de pesquisa voltadas para o desenvolvimento de
alternativas à ordem global dominante a partir de abordagens críticas, decoloniais
e transdisciplinares.
<><><><>
Eis a entrevista.
·
O sequestro de Nicolás Maduro — que só se assemelha ao 11
de Setembro em Nova York em sua novidade e caráter espetacular — foi um
episódio disruptivo que está remodelando a geopolítica global. Em que medida?
Não se
tratou de uma invasão clássica, com divisões de tanques cruzando fronteiras.
Foi uma intervenção de alto risco, executada com precisão letal: a captura de
um presidente acusado de narcoterrorismo e, incidentalmente, uma tentativa de
assegurar as maiores reservas de petróleo do planeta. Esse ato de violência
brutal, justificado por uma Doutrina Monroe atualizada para a era da
desinformação, não demonstrou a força de um império, mas sim seu pânico. Foi o
sintoma revelador de uma potência que, sentindo os alicerces de sua hegemonia
global ruírem sob seus pés — o petrodólar, o monopólio da energia, a
obediência geopolítica — recorreu, pela última vez, a exibir sua força. O que
se seguiu não foi o alvorecer de um novo século americano, mas o primeiro
grande espasmo daquilo que aqui começamos a chamar, com uma mistura de medo e
fascínio, de “Nova Desordem Mundial”.
·
A tentação da citação de Gramsci é irresistível: “O velho
mundo está morrendo e o novo mundo luta para nascer: agora é a época dos
monstros”.
Essa Nova
Desordem não é um vácuo de poder, nem uma simples transição entre uma
hegemonia em declínio e uma em ascensão. É algo mais complexo, caótico e
potencialmente mais violento: a decomposição de um sistema operacional global
que funcionou por oito décadas. É a lenta agonia de um gigante, cujos reflexos
cada vez mais espasmódicos abalam o mundo inteiro. E em nenhum lugar esses
tremores são sentidos com mais intensidade, nem suas consequências vistas com
mais clareza, do que na América Latina. A região deixou de ser o “quintal”
e se tornou o laboratório vivo, o epicentro onde as linhas de fratura
geopolíticas de um planeta em transição colidem com força brutal.
·
O sequestro é a superfície, o produto de uma placa
tectônica sempre difícil de discernir, ainda mais no caso de Trump, que parece
cada vez mais livre de toda repressão interna, vomitando seus verdadeiros
desejos diante do mundo. O que são esses conflitos subterrâneos?
Para
entender a magnitude do terremoto, é preciso primeiro observar os alicerces em
ruínas. A hegemonia americana na segunda metade do século XX
repousava sobre um tripé de poder aparentemente inabalável. Hoje, as três
pernas rangem em uníssono, e seu colapso relativo gera instabilidade sistêmica.
A
primeira perna, a mais abstrata, porém vital, era financeira: o
petrodólar. Não foi uma invenção espontânea do mercado, mas o resultado de um
realinhamento geopolítico forjado na década de 1970, quando
os Estados Unidos selaram uma aliança estratégica com
a Arábia Saudita. Em troca de proteção militar e apoio político, o reino
concordou em fixar o preço de seu petróleo em dólares e reciclar seus
excedentes financeiros dentro do sistema americano. Com o tempo, o restante da OPEP adotou
o mesmo esquema. Assim, em poucos anos, qualquer país que precisasse de energia
para sustentar sua economia foi forçado a acumular dólares. Isso criou uma
demanda artificial e constante pela moeda americana, permitindo
que Washington financiasse déficits monumentais,
projetasse poder a baixo custo e transformasse as sanções financeiras em uma
arma de destruição em massa para economias inteiras, como as
de Cuba, Irã ou a própria Venezuela.
Mas
toda arma usada em excesso gera seu antídoto. A própria eficácia das sanções
acelerou uma fuga silenciosa e massiva do sistema do dólar. Quando
a China, a maior importadora de energia do mundo, oferece
ao Brasil ou à Argentina pagamento por sua soja e minerais
em yuan digital, ela abre uma rota alternativa que contorna a
rodovia fortemente vigiada de Wall Street. Quando os bancos centrais das
potências médias, de Singapura à Arábia Saudita, aumentam
febrilmente suas reservas de ouro — o ativo por excelência fora do sistema —,
eles enviam um sinal claro: a confiança no monopólio monetário não é mais
absoluta. A transição energética, que visa precisamente reduzir a dependência
global do petróleo, mina ainda mais a base material desse edifício financeiro.
Se o mundo consumir menos petróleo bruto, precisará de menos dólares para
comprá-lo. O ciclo virtuoso para Washington se transforma em um ciclo vicioso.
·
Qual era o segundo pilar do tripé?
Poder
militar incontestável, o “guerreiro global”, cuja rede de 800 bases garantia
rotas comerciais e dissuadia qualquer rival. Mas esse guerreiro está
sobrecarregado e tecnologicamente defasado. Os custos de ser o policial do
mundo tornaram-se insustentáveis para uma sociedade americana dividida e com
infraestrutura decadente. Mais crucialmente, a própria natureza do
poder militar mudou. A era dos porta-aviões, o símbolo
máximo da projeção de poder do século
XX, está sendo desafiada por mísseis hipersônicos
e sistemas de negação de acesso/área (A2/AD), que transformam vastas áreas
marítimas em armadilhas mortais. A China aperfeiçoou essa estratégia
no Mar da China Meridional. A Rússia a aplicou
brutalmente na Ucrânia. A intervenção na Venezuela, com todo o seu
espetáculo, pode ser interpretada como um ato de impotência estratégica: a
incapacidade de controlar a região com os mecanismos de influência econômica e
política do passado, o que forçou os EUA a recorrer à opção mais primitiva e
custosa.
·
Imagino que o terceiro pilar seria o setor econômico e
energético.
Trata-se
do controle sobre o recurso estratégico por excelência, que está passando pela
transformação mais profunda. Durante um século, o poder foi medido em barris de
petróleo. Hoje, é medido em toneladas de lítio, cobalto e elementos
de terras raras. A ‘geopolítica do petróleo’, com suas guerras
no Golfo e alianças com xeiques, está dando lugar à ‘geopolítica do
lítio’. E aqui, os EUA se encontram em uma posição paradoxal e
frágil: são uma superpotência energética graças ao fraturamento hidráulico, mas
estrategicamente dependentes de outros minerais na nova corrida pela
eletrificação autônoma. Quem domina a cadeia de valor não é quem extrai a rocha
dos salares, mas quem a refina em pó ultrapuro e a utiliza para montar baterias
de alto desempenho. E esse domínio é exercido de forma esmagadora pela China.
·
Enquanto Donald Trump se vangloria, ameaça e humilha —
antes mesmo de negociar —, a astúcia chinesa se move prudentemente pelas mais
sutis intersecções da geopolítica. Mas avança implacavelmente, minando seu
adversário por todos os lados com uma lógica taoísta.
Pequim não
se apresentou como um rival militar direto no Hemisfério Ocidental.
Estabeleceu-se, de forma muito mais astuta, como a “nova OPEP da
transição verde”. Controla mais de 80% do processamento global de elementos de
terras raras, essenciais para turbinas eólicas e motores elétricos, e mais de
60% do refino de cobalto e lítio. Enquanto Washington ameaçava com
sanções, Pequim ofereceu aos países latino-americanos empréstimos sem
condições políticas, usinas de processamento e um mercado ávido. O império que
outrora controlou o recurso do passado (o petróleo) agora luta, muitas vezes na
defensiva, por um lugar na cadeia de suprimentos do futuro.
·
O colapso do tripé hegemônico não é apenas um problema de
Washington.
Em um
mundo hiperconectado, o impacto se espalha rapidamente. Uma crise bancária em
um país abala mercados a milhares de quilômetros de distância. Um conflito
regional faz os preços da energia dispararem. Uma sanção financeira deixa
estados inteiros sem acesso às suas próprias reservas. As cadeias de
suprimentos são interrompidas, a inflação cruza fronteiras e protestos irrompem
em cidades que, aparentemente, não tinham nada a ver com o conflito original.
A instabilidade emergente é diferente da do passado: é mais rápida,
mais difusa, mais difícil de conter e assume formas novas e perigosas.
A
primeira é a proliferação de “guerras quentes fragmentadas”. A competição
entre grandes potências não se desenrola mais em um duelo bipolar ordenado
como na Guerra Fria. Ela é terceirizada e descentralizada em uma
infinidade de conflitos locais, alimentados por dinheiro, armas e grupos
paramilitares. A Ucrânia é o exemplo mais claro, mas não o único. Na
região do Sahel africano, a competição por recursos entre as antigas
potências coloniais, Rússia e Turquia, alimenta insurgências e
golpes de Estado. No Mar da China Meridional, os confrontos recorrentes
entre as guardas costeiras chinesas e filipinas e a transformação de recifes em
bases militares solidificaram um conflito naval de baixa intensidade. Não há
batalhas abertas, mas sim uma guerra fria no mar, sempre à beira da escalada. A
ordem unipolar, com todos os seus abusos, ainda impunha limites. Uma
multipolaridade estável, baseada em equilíbrios e regras compartilhadas,
poderia ter sido outra solução. Mas o que domina hoje é algo diferente: uma desordem
que fomenta conflitos periféricos, guerras por procuração e escaladas
calculadas para desgastar o adversário sem chegar a um confronto direto. O
resultado é um planeta repleto de focos de tensão latente.
·
O termômetro de tudo isso é sempre a economia, o mercado
global.
De
fato, a segunda forma de instabilidade é financeira e econômica: a
montanha-russa dos mercados especulativos. Os fluxos ágeis e implacáveis do capital global
atuam como amplificadores das tensões geopolíticas. Um
fundo de hedge em Manhattan, apostando que os preços da gasolina subirão
devido à guerra na Ucrânia, pode acabar causando apagões e
desindustrialização na Alemanha. Um fundo negociado em bolsa (ETF) que decide
que o lítio é a “nova corrida do ouro” pode inundar um ecossistema frágil
nos Andes com capital e inflar bolhas de projetos de mineração que,
quando estouram, deixam apenas crateras sociais e ecológicas.
Essa financeirização da geopolítica e da transição
energética significa que as decisões de alguns gestores de fundos, obcecados
com lucros trimestrais, podem determinar o destino de nações inteiras. Eles
desvinculam o bem-estar econômico da produtividade real e o vinculam à
psicologia volátil dos mercados.
Esses
dois fenômenos transformam o mundo em um sistema de vasos interconectados onde
a pressão em um determinado ponto desequilibra todos os outros. Uma sanção aqui
pode causar fome ali. Um avanço tecnológico em um laboratório
da Califórnia pode arruinar a economia de um estado produtor de
petróleo no Golfo Pérsico. E no centro desse sistema interconectado, onde
os fluxos de capital, recursos e violência se cruzam, está a América
Latina.
·
A América Latina sempre foi bastante caótica e instável,
mesmo sem guerras entre países. Os danos da desordem global podem ser ainda
maiores aqui. Como resultado da ascensão da China, os EUA reviveram a Doutrina
Monroe.
Se
a Nova Desordem Mundial tivesse um campo de testes, seria entre o Rio
Grande e a Terra do Fogo. A América Latina é onde todas as falhas tectônicas
desta nova era — a transição energética, a competição entre sistemas, a crise
do capital especulativo — convergem e produzem seus experimentos mais extremos
e reveladores. O exemplo emblemático é a “armadilha do lítio”, ou o que alguns
acadêmicos chamam de “dependência 2.0”. No chamado “Triângulo do Lítio”, que
abrange o Salar de Uyuni na Bolívia, o Salar de Atacama no Chile e
os salares da Puna na Argentina, uma batalha silenciosa está
sendo travada, que encapsula os tempos de mudança. Ali, as comunidades
indígenas e os governos locais estão no olho do furacão.
Por um
lado, empresas chinesas, com vantagens tecnológicas e capital paciente,
oferecem-se para construir não só a mina, mas também a planta de processamento,
prometendo assim um salto na cadeia de valor. Por outro, chegam consórcios
americanos e europeus, muitas vezes aliados a capital australiano ou canadense,
com ofertas que prometem padrões ambientais mais rigorosos — exigidos por seus
acionistas — e acesso a mercados premium. O governo argentino, ávido por
dólares, pode inclinar-se para a oferta chinesa ou canadense. O governo
chileno, tradicionalmente mais alinhado com o Ocidente, pode preferir a
americana. O governo boliviano, com seu modelo estatista, poderia ter tentado
seu próprio caminho. O resultado imediato não é o desenvolvimento, mas a fragmentação
e uma nova versão da “maldição dos recursos”. As comunidades dos salares
assistem a caminhões transportarem a “rocha branca” que, depois de milhares de
quilômetros, alimentará baterias em Xangai ou Stuttgart, enquanto suas aldeias
carecem de água potável ou estradas pavimentadas. A riqueza é extraída, mas não
permanece. A geopolítica, em sua forma mais crua, torna-se um fator de divisão
social e ecológica local.
·
O outro fator desestabilizador — e, ao mesmo tempo, um
recurso econômico significativo — é o narcotráfico.
É por
isso que digo que o segundo experimento é a “insegurança exportada” e
o crime como ator geopolítico. Os cartéis de
drogas no México e na Colômbia deixaram de ser meras
organizações criminosas e se tornaram conglomerados transnacionais com
poder militar, capacidade de corromper Estados e sofisticação financeira. Seu
produto é consumido em massa no mercado americano, gerando um fluxo lavado de
bilhões de dólares em capital ilegal. Mas sua utilidade vai ainda mais longe.
Para potências extra-hemisféricas, esses grupos podem ser instrumentos baratos
de desestabilização, difíceis de rastrear e capazes de negar qualquer vínculo
direto. Será que o fluxo de fentanil que está devastando
os Estados Unidos pode ser interrompido sem uma cooperação real
com Pequim, onde os precursores químicos são produzidos? A resposta é não.
O crime organizado deixa de ser um problema policial e se torna parte da
rivalidade estratégica global. O México ou
o Equador tornam-se cenários de conflitos indiretos, onde a luta
contra as drogas coexiste com disputas de poder e influência que ultrapassam em
muito os limites dos próprios Estados.
·
Os EUA estão tentando conduzir os governos
latino-americanos à fragmentação por meio de acordos bilaterais de livre
comércio apresentados como solução para o subdesenvolvimento, que, na
realidade, geram desindustrialização.
Estamos
sob o domínio de uma diplomacia do “cada um por si”. A unidade
latino-americana, um projeto inerentemente frágil, está se desfazendo sob a
pressão da Nova Desordem. Quando cada ministério das Relações Exteriores
calcula que seu interesse nacional imediato reside na assinatura de um acordo
de livre comércio com a China, um acordo de segurança com os EUA ou um
pacote de investimentos em tecnologia verde com a UE, o projeto coletivo se
dissolve. O Mercosul, outrora concebido como uma ambiciosa união aduaneira,
agora opera de forma fragmentada. Seus membros negociam bilateralmente com
atores como Bruxelas ou Pequim, enfraquecendo qualquer
estratégia comum. Essa fragmentação é funcional para as grandes potências:
uma América Latina dividida é mais suscetível à pressão externa e
menos capaz de coordenar posições sobre questões-chave, como preços de
commodities ou alívio conjunto da dívida. O antigo “quintal” não responde mais
a um único centro de poder, mas também não age como um bloco: transita entre
múltiplas influências, sem capacidade real de impor condições.
·
Parece que estamos entrando em uma era de grande
incerteza, sem uma hegemonia clara — e é por isso que a fera interior de Trump
está despertando —, enquanto o continente sul-americano cambaleia
politicamente.
Em
última análise, o que emerge é um cenário de realinhamento tático e profunda
incerteza. A América Latina não opera mais sob a órbita exclusiva de uma
hegemonia, mas a promessa de uma multipolaridade estável e benéfica está se
desvanecendo diante de uma realidade fragmentada de competição. A região
enfrenta um dilema estratégico: gerenciar a atração de capital e tecnologia
para a transição energética sem reproduzir antigos modelos de dependência e
navegar pelas rivalidades entre potências sem se enredar em seus conflitos
indiretos. O futuro próximo não será decidido em uma única grande batalha, mas
sim na soma de decisões nacionais — muitas vezes descoordenadas — referentes a
contratos de lítio, alianças de segurança e acordos comerciais. O resultado será
um mapa regional mais diversificado em suas lealdades, mas também mais volátil
e desigual, onde a capacidade de cada Estado de negociar e reter valor será a
verdadeira medida de sua soberania nesta Nova Desordem.
Fonte: Entrevista
com Rodrigo Martin-Iglesias, para Julián Varsavsky, no Pagina|12

Nenhum comentário:
Postar um comentário