“Estilo
de vida dos super-ricos é estruturalmente incompatível com contenção do
aquecimento global”
O
último relatório da Oxfam, intitulado “Pilhagem Climática: como uma poderosa
minoria está aprisionando o mundo no desastre”, realça as desigualdades
envolvidas no problema das mudanças climáticas. Se, de um lado, o estilo de
vida dos pobres contribui menos para a emissão de gases de efeito estufa na
atmosfera, de outro lado, eles são os que mais sofrem com os efeitos dos
eventos climáticos extremos. A conclusão, segundo Viviana Santiago, é que a
crise climática não pode ser reduzida a um problema ambiental. Ela é “uma crise
moral, social e política”, afirma a diretora executiva da Oxfam Brasil na
entrevista a seguir, concedida ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU por
e-mail.
O
estudo associa o agravamento da crise climática ao estilo de vida e às
atividades comerciais dos super-ricos. A relação entre ambos, assegura, é
direta. “O estilo de vida dos super-ricos se baseia em padrões de consumo
extremamente intensivos em carbono: uso frequente de jatinhos, superiates,
mansões com alto gasto energético, deslocamentos constantes e consumo elevado
de bens e serviços poluentes. Esses hábitos fazem com que, em poucos dias,
essas pessoas emitam o que indivíduos pobres levariam uma vida inteira para
emitir. Ou seja, trata-se de um modo de vida estruturalmente incompatível com
qualquer meta realista de contenção do aquecimento global”, reitera. Nos
primeiros dias de 2026, informa, os super-ricos já emitiram a cota anual de
carbono considerada justa.
A
seguir, Viviana comenta como a influência política das pessoas mais ricas do
mundo tem impedido o enfrentamento da crise climática e apresenta as propostas
da Oxfam para a redução das emissões dos super-ricos em 97% até o fim da
década. Viviana Santiago atua na promoção dos direitos humanos, no
enfrentamento ao racismo, na igualdade de gênero e na justiça social. Ela
integra o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES), conhecido como
Conselhão.
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Confira a entrevista.
• IHU – Qual é a novidade do relatório
mais recente da Oxfam, intitulado “Pilhagem Climática: como uma poderosa
minoria está aprisionando o mundo no desastre”?
Viviana
Santiago – Um ponto central é que os mais pobres são os que menos emitem; mas
são os que mais sofrem com enchentes, secas, ondas de calor e insegurança
alimentar. Isso transforma a crise climática também em uma crise moral, social
e política, não apenas ambiental. O relatório deixa claro que não haverá
solução real para o aquecimento global sem enfrentar diretamente a desigualdade
extrema e os privilégios climáticos de uma minoria.
• Qual é a relação entre o estilo de vida
dos super-ricos e a intensificação das emissões de gases de efeito estufa e o
agravamento da crise climática?
Viviana
Santiago – A relação é direta. O estilo de vida dos super-ricos se baseia em
padrões de consumo extremamente intensivos em carbono: uso frequente de
jatinhos, superiates, mansões com alto gasto energético, deslocamentos
constantes e consumo elevado de bens e serviços poluentes. Esses hábitos fazem
com que, em poucos dias, essas pessoas emitam o que indivíduos pobres levariam
uma vida inteira para emitir. Ou seja, trata-se de um modo de vida
estruturalmente incompatível com qualquer meta realista de contenção do
aquecimento global.
• Quais as evidências de que os
super-ricos são desproporcionalmente responsáveis por impulsionar a crise
climática, como aponta o novo relatório da Oxfam?
Viviana
Santiago – As evidências aparecem tanto nos dados de emissões quanto nos
exemplos concretos: o 1% mais rico esgotou sua cota anual “justa” de carbono em
apenas 10 dias de 2026; o 0,1% mais rico fez o mesmo em apenas 3 dias. Uma
semana de uso de um superiate ou jatinho emite o mesmo volume de carbono que
uma pessoa do 1% mais pobre levaria a vida inteira para emitir. Além disso, os
super-ricos não impactam apenas pelo consumo pessoal: grande parte de sua renda
vem de investimentos em setores altamente poluentes, como mineração,
agronegócio e agricultura industrial.
• Como é feito o cálculo da “cota justa”
de emissões e das 75,1 toneladas por ano?
Viviana
Santiago – O cálculo parte da ideia de um orçamento global de carbono
compatível com a meta de limitar o aquecimento a 1,5°C. Esse orçamento é
dividido pela população mundial, gerando uma média anual “justa” de emissões
por pessoa.
A
pesquisa compara quanto cada faixa de renda emite por ano e quanto seria sua
parcela proporcional dentro desse orçamento climático. No caso do 1% mais rico,
suas emissões médias anuais chegam a 75,1 toneladas de CO₂ por pessoa, valor
muito acima da média global sustentável. Por isso, eles esgotam sua “cota
anual” logo nos primeiros dias do ano.
• Concentração de riqueza e emissões são
dois problemas diferentes ou duas faces do mesmo problema?
Viviana
Santiago – São duas faces do mesmo problema: a desigualdade. A concentração
extrema de riqueza dá acesso a padrões de consumo altamente poluentes, permite
investimentos em setores ambientalmente destrutivos e cria uma elite econômica
pouco alcançada por regulações, impostos e acordos globais. Portanto,
desigualdade econômica e crise climática não são fenômenos separados – são
processos interligados e reforçados mutuamente.
IHU –
Por que não tem sido possível romper o ciclo de aumento da concentração de
riqueza?
Viviana
Santiago – Porque os super-ricos têm enorme influência política e econômica,
conseguem evitar regulações ambientais mais rígidas, se beneficiam de sistemas
tributários que não taxam adequadamente lucros e dividendos, continuam lucrando
com setores altamente poluentes sem sofrer penalizações proporcionais. Além
disso, muitos Estados têm baixa capacidade política ou institucional de impor
regras duras a esses grupos.
• Que medidas poderiam ser aplicadas ao 1%
mais rico para reduzir 97% das emissões até 2030?
Viviana
Santiago – Algumas medidas possíveis são a restrição ou forte taxação do uso de
jatinhos privados e superiates, impostos elevados sobre bens e serviços de
altíssima emissão, regulação de investimentos em setores poluentes, metas
obrigatórias de redução de emissões individuais e corporativas, tributação
progressiva sobre grandes fortunas e lucros ambientais e restrições a
atividades econômicas de alto impacto climático.
• Como um imposto sobre os lucros dos
poluidores ricos ajudaria?
Viviana
Santiago – Esse imposto atuaria em dois níveis. O primeiro é a justiça
climática: quem mais polui, mais contribui financeiramente para enfrentar os
danos. O segundo é o financiamento da transição: os recursos poderiam ser
usados para adaptação climática, mitigação de impactos, transição energética,
apoio a países do Sul Global, que sofrem mais os efeitos da crise apesar de
poluir menos. Além disso, o imposto ajudaria a desestimular investimentos em
setores altamente poluentes.
• Oxfam denuncia que 1% mais rico já
queimou a sua cota anual de carbono
A ONG
Oxfam o batizou de Dia do Plutocrata. Este é o dia em que 1% dos que mais
acumulam riqueza no planeta atinge a sua cota anual de gases do efeito estufa,
se quisermos que as alterações climáticas não ultrapassem os 1,5ºC. E este ano
não demorou muito: caiu no dia 10 de janeiro.
Os
dados, divulgados pela filial britânica da organização, são um marco, pois
deixam claro que aquele 1%, ou seja, os 77 milhões de pessoas com mais riqueza
acumulada, só precisou de dez dias para ultrapassar sua cota. São bilionários,
milionários e qualquer pessoa que ganhe mais de 140 mil dólares por ano, um
grupo cujo poder econômico aumenta com o sistema econômico atual, que
representa um aumento constante da desigualdade global.
A Oxfam
vem alertando há anos sobre como o colapso climático é desproporcionalmente
impulsionado pelos chamados super-ricos, cujo estilo de vida envolve o dobro
das emissões anuais de nada menos que a metade da população mais pobre do
planeta. No extremo oposto aos dez dias dos mais ricos, alguém da metade mais
pobre da população precisaria de 1.022 dias – quase três anos – para esgotar a
sua cota do orçamento global anual de carbono.
Especificamente,
embora 1% seja, com 76 toneladas de CO2 per capita por ano, responsável por
15,9% das emissões globais, segundo dados de 2019, a existência de 3,9 bilhões
de pessoas implica 7,7% das emissões, como indicam os números do Estocolmo
Instituto do Meio Ambiente (SEI) em sua pesquisa Igualdade climática: um
planeta para os 99%.
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Oxfam pede aumento de impostos sobre bens de luxo poluentes
“O
futuro do nosso planeta está em jogo, mas os super-ricos podem continuar a
desperdiçar as oportunidades da humanidade com os seus estilos de vida luxuosos
e investimentos poluentes”, lamentou Chiara Liguori, conselheira política
sênior para a justiça climática da ONG. Liguori, altamente crítica da falta de
ação climática, salienta que “os líderes que não agem são os culpados por uma
crise que ameaça a vida de milhares de milhões de pessoas”.
Para
ajudar a aliviar esta situação, a especialista defende – em linha com múltiplas
organizações do movimento climático – o aumento dos impostos sobre bens de luxo
poluentes, como jatos privados ou super iates. Estes fundos, observa, poderiam
ajudar a angariar os fundos necessários para enfrentar a crise climática de uma
forma que se concentrasse nos mais responsáveis e naqueles que mais podem
pagar. “Os governos devem parar de favorecer os poluidores mais ricos e, em vez
disso, fazê-los pagar a sua parte justa pela destruição que estão a causar no
nosso planeta”, acrescenta.
Para a
ONG, impostos justos sobre jatos privados e super iates no Reino Unido poderiam
ter arrecadado até 2 bilhões de libras até 2023 para ajudar a gerar fundos
vitais para a ação climática.
Estima-se
que entre 2015 e 2030 os 77 milhões de pessoas com maior riqueza material
reduzirão as suas emissões em cerca de 5% anualmente, algo muito longe dos 97%
necessários para cumprir a meta do Acordo de Paris de não ultrapassar 1,5ºC de
aquecimento global.
Tal
como relata a Oxfam, 50 dos maiores multimilionários produzem, em média, mais
carbono através dos seus investimentos, aviões privados e super iates em menos
de três horas do que o britânico médio produz ao longo da vida.
Fonte:
Entrevista especial com Viviana Santiago, para IHU/El Salto

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