sábado, 24 de janeiro de 2026

Religião, negócios e corrupção na eleição 2026

Pode espantar a você, caro leitor; a mim não surpreende a denúncia da senadora e pastora Damares Alves (Republicanos-DF). Em publicação nas redes sociais, ela listou uma série de pastores evangélicos e respectivas igrejas que estariam envolvidos nos desvios de recursos da Previdência Social. A senadora é filiada ao Republicanos, o braço político da Igreja Universal do Reino de Deus, de Edir Macedo. Tanto bastou para o pastor Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, reagir histericamente.

Silas acusou Damares de ser uma “linguaruda” a espalhar acusações a esmo – o que atingiria igrejas evangélicas indiscriminadamente. Malafaia vestiu a carapuça alheia.

A ex-ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos tem uma trajetória que a credencia a falar de eventuais desvios de conduta dos atuais pastores milionários. Nascida no Paraná, seu pai foi pastor da Igreja do Evangelho Quadrangular, uma dissidência da Assembleia de Deus (ainda a maior congregação evangélica do país, apesar de tantas dissidências como a de Malafaia), da qual saíram vários pastores e bispos (Edir Macedo transitou por lá). Depois, foi pastora da Igreja Batista da Lagoinha, em Belo Horizonte (MG).

Em 2024, a senadora chegou a acusar a Igreja do Evangelho Quadrangular de estar dominada por traficantes. Agora, com base em requerimentos apresentados no curso das investigações dos desvios do INSS, todos baseados, segundo ela, em indícios concretos identificados em documentos oficiais, como Relatórios de Inteligência Financeira (RIFs) e dados da Receita Federal, pediu a quebra de sigilo de pastores, à frente André Machado Valadão, da Igreja Batista Lagoinha (MG). Por coincidência, entre os implicados no caso do Banco Master, está o cunhado de Daniel Vorcaro, o pastor, advogado e empresário Fabiano Campos Zettel, casado com Daniela Vorcaro, irmã do banqueiro. Zettel atua na Igreja da Lagoinha em Belvedere, um dos bairros mais nobres da região de Belo Horizonte.

Na eleição de 2022, junto com André Valadão, Zettel foi um dos maiores doadores pessoas físicas das campanhas de Jair Bolsonaro a presidente e a de Tarcísio de Freitas a governador de São Paulo (Republicanos-SP). Em retribuição ao apoio dos evangélicos, o governo Bolsonaro fez sucessivas isenções de impostos não apenas das atividades pastorais das igrejas, mas dos negócios correlatos, e incluiu vários pastores na mala diplomática. Isso facilita as idas e vindas dos líderes das igrejas às filiais dos Estados Unidos (sem revista nas malas, o que possibilita levar dólares daqui para lá).

Entre os pastores que estão com pedidos de transferência de sigilo, destacam-se os líderes da Adoração Church e da Igreja Assembleia de Deus Ministério do Renovo, o pastor César Bellucci do Nascimento, do Ministério Deus é Fiel Church (Sete Church), e o pastor Péricles Albino Gonçalves, da Igreja Evangélica Campo de Anatote (SP).

A rápida urbanização do país na década de 80, tornou as igrejas evangélicas e batistas, que se instalam com desenvoltura nas periferias das grandes cidades, bem mais influentes que a Igreja Católica, mais incrustrada nos bairros tradicionais. Os pastores passaram a exercer o papel de lideranças políticas em fiéis currais eleitorais. Por tudo isso, toda a vez que se levantam véus que encobrem os meandros obscuros das relações entre a religião e a política, é saudável para a sociedade.
<><> Cai a máscara de Sóstenes

Vejam o caso exemplar do pastor Sóstenes Cavalcante, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, de Silas Malafaia. Eleito deputado federal em 2018 (PSL-RJ), foi um dos líderes na Câmara da bancada evangélica que apoiou Bolsonaro e conquistou várias vantagens fiscais. Reeleito em 2022 (esta vez pelo PL-RJ), se destacou em 2025 por liderar a oposição na campanha pela anistia ao ex-presidente e demais golpistas antes do julgamento do STF.

Apanhado em 19 de dezembro, numa busca da Receita Federal, com R$ 430 mil em espécie escondidos em um saco de lixo preto no fundo de um armário, disse que o dinheiro era fruto da "venda de imóvel". e que,”na correria do fim de ano" (para tentar aprovar a anistia?), "não teve tempo de depositar/aplicar o dinheiro”.

Ante à cobrança da imprensa, demorou quase 48 horas para dar essa desculpa, sem apresentar a escritura; que o imóvel é de Minas Gerais (embora reparta o seu tempo entre o domicílio no Rio de Janeiro e Brasília, onde atua na Câmara dos Deputados).

Pois nesta sexta-feira, 16 de janeiro, o jornal “Folha de S. Paulo”, que foi atrás do registro do imóvel (uma casa na cidade de Ituiutaba, no Triângulo Mineiro), revelou (e “O Globo” confirmou) o que já se desconfiava. O tal imóvel foi comprado por um advogado (?), mas só teve o registro em cartório efetuado dia 30 de dezembro, 11 dias depois da busca da PF encontrar o dinheiro. Ou seja, depois do crime. E o valor total da operação foi R$ 500 mil.

Nunca se soube de comprador relapso que tenha esperado 30 dias para fazer uma escritura. O que torna o negócio mais estranho ainda: um advogado que paga ao vendedor sem fazer o registro; e um vendedor que não tem pressa para aplicar R$ 430 mil (pois toda movimentação financeira acima de R$ 10 mil é registrada pelo Coaf e comunicada automaticamente à Receita Federal).

<><> Dino demarca o terreno para eleições

Em sequência ao veto profilático do presidente Lula, que cortou emendas no valor de R$ 400 milhões que deputados e senadores tentaram embarcar fora do prazo e das normas no Orçamento Geral da União 2026, que já contempla o absurdo quinhão de R$ 50 bilhões para emendas parlamentares (o intento era de R$ 61 bilhões, mas o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, já anunciou que contingenciará R$ 11 bilhões), o ministro do Supremo Tribunal Federal, Flávio Dino, que comanda o inquérito sobre desvios e fraudes no encaminhamento pelos parlamentares de verbas do OGU para seus redutos eleitorais, traçou uma premissa saudável para o envio de verbas do OGU-2026: estão proibidos os envios de verbas para Organizações Não Governamentais (ONGs) de parentes de parlamentares. Entretanto, ainda não foi fechada a porta do envio de verbas para prefeituras ou estados comandados por familiares.
Essa intromissão dos políticos na gestão das verbas federais sempre foi o método mais fácil de perpetuação dos clãs das dinastias políticas no interior do Brasil. A velha prática – desde o Brasil Colonial, que persistiu no Império e atravessou a República em suas diversas fases, até o século 21 – impede a renovação da política brasileira. Mas, mais do que isso, marca a velha apropriação do Estado brasileiro por uma elite que se associa a ele. Tanto no patrimonialismo empresarial (o Estado privatiza lucros e socializa prejuízos), quanto na troca de favores (e nepotismo) entre as diversas instâncias dos Três Poderes.

O ministro Dino merece todo o apoio contra os ataques de baixo nível dos políticos fraudadores já identificados. Estima-se que um terço do Congresso (513 deputados e 81 senadores) esteja sob suspeita.

¨      Damares Alves, Flávio Dino e a crise do orçamento no Brasil. Por Sara York

A recente declaração de Damares Alves-ex-ministra da Família no governo Bolsonaro-elogiando publicamente Flávio Dino na questão da transparência das emendas parlamentares é uma dessas falas. Não porque sinalize uma aproximação ideológica entre campos opostos, mas justamente porque expõe, de forma quase involuntária, uma crise estrutural da democracia brasileira.

"Você sabe que eu nunca achei que eu fosse concordar com Flávio Dino", diz Damares, antes de aplaudi-lo "de pé". O enunciado funciona como um aviso ao seu público. Não se trata de conversão e tornarmos amigos, mas um apelo de exceção sobre aquele que para ela está a léguas de proximidade. Estamos falando de duas pessoas públicas que se declaram cristãs, uma de esquerda e progressista e a outra de direita e conservadora. Anacronico pensar uma senadora, conservadora, anti-feminista de direita que usa conquistas feministas para promoção de suas pautas. Mas vamos seguindo…

Do ponto de vista da análise do discurso político, esse movimento é conhecido como disclaimer identitário-um recurso para preservar a própria base enquanto se admite, pontualmente, uma crítica incontornável. Um exemplo de disclaimer é a nota ao final deste artigo dizendo "Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247."

Ou seja, estou aqui, mas o pensamento expresso nem sempre é do site, assim como posições do site que por vezes não corresponde a minha, mas um leitor despreparado pode achar que falo em nome de "deus"quando ando com uma Bíblia debaixo do braço.

Não é o caso. Voltemos porque a crítica piora e de fato, é contundente!

Ao afirmar que o orçamento "é do Legislativo" e que o Executivo "fica de joelho", Damares toca em um ponto central da atual disfunção institucional brasileira, o esvaziamento da função legislativa em favor da gestão de emendas parlamentares. Segundo ela mesma, gabinetes inteiros deixam de legislar, fiscalizar e propor políticas públicas para se dedicar quase exclusivamente à execução orçamentária.

Esse diagnóstico não é novo entre pesquisadoras da democracia, tribunais de controle ou setores progressistas. O que chama atenção é ele vir de alguém que integrou-e ainda integra-um campo político que se beneficiou amplamente desse modelo.

A frase mais reveladora, contudo, vem ao final: "Tenho certeza que mais de 40% dos parlamentares, se não tivessem emendas parlamentares, não se candidatariam."

Aqui, a política aparece despida de seus mitos. Não se trata de vocação pública, projeto coletivo ou representação de ideias, mas de incentivos materiais. O mandato se converte em meio; o orçamento, enfim. A democracia representativa passa a operar como engrenagem de sobrevivência política, não como espaço de deliberação pública.

Do ponto de vista da educação feminista e da ciência política, esse modelo é particularmente perverso. Ele:

# empobrece o debate público;

# fragmenta políticas sociais;

# afasta agendas estruturais como educação, cuidado, igualdade de gênero e justiça social-temas que não geram capital político imediato, mas sustentam a vida coletiva.

Há, portanto, um paradoxo evidente na fala de Damares. Sua crítica ao sistema de emendas é estruturalmente correta, mas eticamente incompleta. Ela denuncia o mecanismo, mas não revisa os fundamentos morais e políticos que ajudaram a consolidá-lo. Não questiona a instrumentalização religiosa da política, nem as exclusões produzidas por esse mesmo Estado capturado por interesses particulares.

Ainda assim, a fala importa. Porque revela que certos problemas já ultrapassaram as fronteiras ideológicas e se tornaram insustentáveis até para quem se beneficiou deles. A concordância pontual com Flávio Dino não dissolve antagonismos-e nem deveria. Mas expõe uma verdade muito incômoda, o atual modelo orçamentário deseduca a democracia, reduz o Parlamento a balcão de negócios e enfraquece o pacto republicano inscrito na Constituição Federal.

Como jornalista e educadora, interessa menos aplaudir a personagem política e mais compreender o que sua fala deixa escapar. Às vezes, a verdade aparece por compromisso com a transformação, noutras, como é o caso, porque a realidade institucional já não permite silêncio.

O desafio que se coloca agora pode até ser retórico, mas é intrinsecamente político e pedagógico, revisar profundamente o papel do orçamento público, recolocar o Legislativo no lugar da deliberação e da fiscalização, e reconstruir a política como espaço de projeto coletivo-palavra difícil de se manter em um mundo alagado pela performance-e não de mera administração de emendas.

Sem isso, continuaremos assistindo a aplausos ocasionais, vindos dos lugares mais improváveis, enquanto a democracia segue funcionando no modo automático-caótico de sua própria exaustão.

¨      Mais dores de cabeça

Sobram razões para o Brasil, não apenas o governo, mas o país inteiro, alimentar preocupações com o desenrolar da crise que prospera na Venezuela. Talvez nós mais que outros latino-americanos, porque somos os vizinhos próximos, de fronteiras longas e vulneráveis, afora consequências das relações políticas com o regime de Caracas, que o Planalto cuidou de estreitar perigosamente nos últimos três anos. Não temos como escapar das complicações, que apenas começaram com o sequestro cinematográfico de Nicolás Maduro. Por que? Porque, se caiu o ditador, mantém-se de pé a ditadura, que não se abalou, dadas as limitações da oposição, lideranças contrárias amordaçadas ou presas, a imprensa silenciada; mas ainda, e principalmente, porque os dominadores que acabam de chegar sinalizam disposição de tolerar e conviver com a boa vontade dos dominados submissos, que oferecem belos presentes: de imediato, 50 milhões de barris de petróleo, restrições aos mercados hostis a Washington e garantia de que os dólares que vão entrar retornarão logo aos Estados Unidos na compra de itens indispensáveis. Nesse particular, os americanos, à sua maneira, fazem um “negócio da China”, em contraposição aos chineses, sacrificados na sua melhor fonte abastecedora de óleo... Tudo isso sob o olhar de mansidão dos generais bolivarianos, de que tanto se orgulhava o ditador. Também lá eles preferem a passividade e olhar de paisagem, quando chegam crises mais agudas.

Quanto às preocupações nossas, a primeira é a possibilidade de novas fugas de multidões descontentes, problema que já estamos enfrentando há algum tempo. Não há como acreditar que milhares de refugiados venezuelanos, concentrados principalmente em Roraima, tenham disposição de já afivelar as malas e voltar, porque as Incertezas do outro lado da fronteira continuam enormes. Em meio ao duvidoso, melhor não arriscar. E o custo social para o Brasil crescendo.

Um pedaço das angústias também se justifica para o ano eleitoral, pois a crise venezuelana vem trazendo sua contribuição para o quadro da polarização política que estamos vivendo, e cada vez mais acentuada. Esquerda e direita são chamadas a explicar os posicionamentos que adotaram diante de um fato tão relevante na história do continente. Os governistas, para aproveitar a oportunidade, querem mostrar que a América Latina – o Brasil em particular – tem o dever de apoiar, com a força do voto livre, um vizinho violentado pelo mais forte do Norte. Até porque, a fratura que dói na Venezuela é um risco que pode se estender por todo o corpo latino-americano. Que o digam colombianos e cubanos, claramente ameaçados. Nesse sentido, Brasília já deu um tom claro no discurso contra futuras incursões da Casa Branca.

A oposição a Lula adota o mesmo figurino, mas com costura diferente. Vai trabalhar para manter viva a imagem fraternal do presidente com o ditador, além de a ele atribuir responsabilidades numa tragédia que pode se prolongar por muitos anos na região; prolongar longamente, porque Trump e seus porta-vozes insistem em que não há prazos na execução das etapas programadas para a normalização da política na Venezuela.

( A intenção é manter viva, quase siamesa, a amizade com o ditador, para que isso não caia no esquecimento do eleitor. Mas Lula, precavido, já não se refere a Maduro, morto politicamente. Nem vai mais falar nesse nome. Veteranos companheiros do Nordeste acham que ele está certo, e lembram a velha sabedoria dos coronéis do Centrão e do sertão: defunto político a gente leva até a beira da cova. Não entra nela..)

 

Fonte: Por Gilberto Menezes Côrtes, no JB/Brasil 247

 

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