Religião,
negócios e corrupção na eleição 2026
Pode
espantar a você, caro leitor; a mim não surpreende a denúncia da senadora e
pastora Damares Alves (Republicanos-DF). Em publicação nas redes sociais, ela
listou uma série de pastores evangélicos e respectivas igrejas que estariam
envolvidos nos desvios de recursos da Previdência Social. A senadora é filiada
ao Republicanos, o braço político da Igreja Universal do Reino de Deus, de Edir
Macedo. Tanto bastou para o pastor Silas Malafaia, da Assembleia de Deus
Vitória em Cristo, reagir histericamente.
Silas
acusou Damares de ser uma “linguaruda” a espalhar acusações a esmo – o que
atingiria igrejas evangélicas indiscriminadamente. Malafaia vestiu a carapuça
alheia.
A
ex-ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos tem uma trajetória que
a credencia a falar de eventuais desvios de conduta dos atuais pastores
milionários. Nascida no Paraná, seu pai foi pastor da Igreja do Evangelho
Quadrangular, uma dissidência da Assembleia de Deus (ainda a maior congregação
evangélica do país, apesar de tantas dissidências como a de Malafaia), da qual
saíram vários pastores e bispos (Edir Macedo transitou por lá). Depois, foi
pastora da Igreja Batista da Lagoinha, em Belo Horizonte (MG).
Em
2024, a senadora chegou a acusar a Igreja do Evangelho Quadrangular de estar
dominada por traficantes. Agora, com base em requerimentos apresentados no
curso das investigações dos desvios do INSS, todos baseados, segundo ela, em
indícios concretos identificados em documentos oficiais, como Relatórios de
Inteligência Financeira (RIFs) e dados da Receita Federal, pediu a quebra de
sigilo de pastores, à frente André Machado Valadão, da Igreja Batista Lagoinha
(MG). Por coincidência, entre os implicados no caso do Banco Master, está o
cunhado de Daniel Vorcaro, o pastor, advogado e empresário Fabiano Campos
Zettel, casado com Daniela Vorcaro, irmã do banqueiro. Zettel atua na Igreja da
Lagoinha em Belvedere, um dos bairros mais nobres da região de Belo Horizonte.
Na
eleição de 2022, junto com André Valadão, Zettel foi um dos maiores doadores
pessoas físicas das campanhas de Jair Bolsonaro a presidente e a de Tarcísio de
Freitas a governador de São Paulo (Republicanos-SP). Em retribuição ao apoio
dos evangélicos, o governo Bolsonaro fez sucessivas isenções de impostos não
apenas das atividades pastorais das igrejas, mas dos negócios correlatos, e
incluiu vários pastores na mala diplomática. Isso facilita as idas e vindas dos
líderes das igrejas às filiais dos Estados Unidos (sem revista nas malas, o que
possibilita levar dólares daqui para lá).
Entre
os pastores que estão com pedidos de transferência de sigilo, destacam-se os
líderes da Adoração Church e da Igreja Assembleia de Deus Ministério do Renovo,
o pastor César Bellucci do Nascimento, do Ministério Deus é Fiel Church (Sete
Church), e o pastor Péricles Albino Gonçalves, da Igreja Evangélica Campo de
Anatote (SP).
A
rápida urbanização do país na década de 80, tornou as igrejas evangélicas e
batistas, que se instalam com desenvoltura nas periferias das grandes cidades,
bem mais influentes que a Igreja Católica, mais incrustrada nos bairros
tradicionais. Os pastores passaram a exercer o papel de lideranças políticas em
fiéis currais eleitorais. Por tudo isso, toda a vez que se levantam véus que
encobrem os meandros obscuros das relações entre a religião e a política, é
saudável para a sociedade.
<><> Cai a máscara de Sóstenes
Vejam o
caso exemplar do pastor Sóstenes Cavalcante, da Assembleia de Deus Vitória em
Cristo, de Silas Malafaia. Eleito deputado federal em 2018 (PSL-RJ), foi um dos
líderes na Câmara da bancada evangélica que apoiou Bolsonaro e conquistou
várias vantagens fiscais. Reeleito em 2022 (esta vez pelo PL-RJ), se destacou
em 2025 por liderar a oposição na campanha pela anistia ao ex-presidente e
demais golpistas antes do julgamento do STF.
Apanhado
em 19 de dezembro, numa busca da Receita Federal, com R$ 430 mil em espécie
escondidos em um saco de lixo preto no fundo de um armário, disse que o
dinheiro era fruto da "venda de imóvel". e que,”na correria do fim de
ano" (para tentar aprovar a anistia?), "não teve tempo de
depositar/aplicar o dinheiro”.
Ante à
cobrança da imprensa, demorou quase 48 horas para dar essa desculpa, sem
apresentar a escritura; que o imóvel é de Minas Gerais (embora reparta o seu
tempo entre o domicílio no Rio de Janeiro e Brasília, onde atua na Câmara dos
Deputados).
Pois
nesta sexta-feira, 16 de janeiro, o jornal “Folha de S. Paulo”, que foi atrás
do registro do imóvel (uma casa na cidade de Ituiutaba, no Triângulo Mineiro),
revelou (e “O Globo” confirmou) o que já se desconfiava. O tal imóvel foi
comprado por um advogado (?), mas só teve o registro em cartório efetuado dia
30 de dezembro, 11 dias depois da busca da PF encontrar o dinheiro. Ou seja,
depois do crime. E o valor total da operação foi R$ 500 mil.
Nunca
se soube de comprador relapso que tenha esperado 30 dias para fazer uma
escritura. O que torna o negócio mais estranho ainda: um advogado que paga ao
vendedor sem fazer o registro; e um vendedor que não tem pressa para aplicar R$
430 mil (pois toda movimentação financeira acima de R$ 10 mil é registrada pelo
Coaf e comunicada automaticamente à Receita Federal).
<><>
Dino demarca o terreno para eleições
Em
sequência ao veto profilático do presidente Lula, que cortou emendas no valor
de R$ 400 milhões que deputados e senadores tentaram embarcar fora do prazo e
das normas no Orçamento Geral da União 2026, que já contempla o absurdo quinhão
de R$ 50 bilhões para emendas parlamentares (o intento era de R$ 61 bilhões,
mas o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, já anunciou que contingenciará R$
11 bilhões), o ministro do Supremo Tribunal Federal, Flávio Dino, que comanda o
inquérito sobre desvios e fraudes no encaminhamento pelos parlamentares de
verbas do OGU para seus redutos eleitorais, traçou uma premissa saudável para o
envio de verbas do OGU-2026: estão proibidos os envios de verbas para
Organizações Não Governamentais (ONGs) de parentes de parlamentares.
Entretanto, ainda não foi fechada a porta do envio de verbas para prefeituras
ou estados comandados por familiares.
Essa intromissão dos políticos na gestão das verbas federais sempre foi o
método mais fácil de perpetuação dos clãs das dinastias políticas no interior
do Brasil. A velha prática – desde o Brasil Colonial, que persistiu no Império
e atravessou a República em suas diversas fases, até o século 21 – impede a
renovação da política brasileira. Mas, mais do que isso, marca a velha
apropriação do Estado brasileiro por uma elite que se associa a ele. Tanto no
patrimonialismo empresarial (o Estado privatiza lucros e socializa prejuízos),
quanto na troca de favores (e nepotismo) entre as diversas instâncias dos Três
Poderes.
O
ministro Dino merece todo o apoio contra os ataques de baixo nível dos
políticos fraudadores já identificados. Estima-se que um terço do Congresso
(513 deputados e 81 senadores) esteja sob suspeita.
¨ Damares Alves, Flávio
Dino e a crise do orçamento no Brasil. Por Sara York
A
recente declaração de Damares Alves - ex-ministra da Família no governo Bolsonaro - elogiando
publicamente Flávio Dino na questão da transparência das emendas parlamentares
é uma dessas falas. Não porque sinalize uma aproximação ideológica entre campos
opostos, mas justamente porque expõe, de forma quase involuntária, uma crise
estrutural da democracia brasileira.
"Você
sabe que eu nunca achei que eu fosse concordar com Flávio Dino", diz
Damares, antes de aplaudi-lo "de pé". O enunciado funciona como um
aviso ao seu público. Não se trata de conversão e tornarmos amigos, mas um
apelo de exceção sobre aquele que para ela está a léguas de proximidade.
Estamos falando de duas pessoas públicas que se declaram cristãs, uma de
esquerda e progressista e a outra de direita e conservadora. Anacronico pensar
uma senadora, conservadora, anti-feminista de direita que usa conquistas
feministas para promoção de suas pautas. Mas vamos seguindo…
Do
ponto de vista da análise do discurso político, esse movimento é conhecido como
disclaimer identitário - um recurso para
preservar a própria base enquanto se admite, pontualmente, uma crítica
incontornável. Um exemplo de disclaimer é a nota ao final deste artigo dizendo
"Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete
a opinião do Brasil 247."
Ou
seja, estou aqui, mas o pensamento expresso nem sempre é do site, assim como
posições do site que por vezes não corresponde a minha, mas um leitor
despreparado pode achar que falo em nome de "deus"quando ando com uma
Bíblia debaixo do braço.
Não é o
caso. Voltemos porque a crítica piora e de fato, é contundente!
Ao
afirmar que o orçamento "é do Legislativo" e que o Executivo
"fica de joelho", Damares toca em um ponto central da atual disfunção
institucional brasileira, o esvaziamento da função legislativa em favor da
gestão de emendas parlamentares. Segundo ela mesma, gabinetes inteiros deixam
de legislar, fiscalizar e propor políticas públicas para se dedicar quase
exclusivamente à execução orçamentária.
Esse
diagnóstico não é novo entre pesquisadoras da democracia, tribunais de controle
ou setores progressistas. O que chama atenção é ele vir de alguém que integrou - e ainda integra - um campo político que
se beneficiou amplamente desse modelo.
A frase
mais reveladora, contudo, vem ao final: "Tenho certeza que mais de 40% dos
parlamentares, se não tivessem emendas parlamentares, não se
candidatariam."
Aqui, a
política aparece despida de seus mitos. Não se trata de vocação pública,
projeto coletivo ou representação de ideias, mas de incentivos materiais. O
mandato se converte em meio; o orçamento, enfim. A democracia representativa
passa a operar como engrenagem de sobrevivência política, não como espaço de
deliberação pública.
Do
ponto de vista da educação feminista e da ciência política, esse modelo é
particularmente perverso. Ele:
#
empobrece o debate público;
#
fragmenta políticas sociais;
#
afasta agendas estruturais como educação, cuidado, igualdade de gênero e
justiça social - temas que não geram
capital político imediato, mas sustentam a vida coletiva.
Há,
portanto, um paradoxo evidente na fala de Damares. Sua crítica ao sistema de
emendas é estruturalmente correta, mas eticamente incompleta. Ela denuncia o
mecanismo, mas não revisa os fundamentos morais e políticos que ajudaram a
consolidá-lo. Não questiona a instrumentalização religiosa da política, nem as
exclusões produzidas por esse mesmo Estado capturado por interesses
particulares.
Ainda
assim, a fala importa. Porque revela que certos problemas já ultrapassaram as
fronteiras ideológicas e se tornaram insustentáveis até para quem se beneficiou
deles. A concordância pontual com Flávio Dino não dissolve antagonismos - e nem deveria. Mas
expõe uma verdade muito incômoda, o atual modelo orçamentário deseduca a
democracia, reduz o Parlamento a balcão de negócios e enfraquece o pacto
republicano inscrito na Constituição Federal.
Como
jornalista e educadora, interessa menos aplaudir a personagem política e mais
compreender o que sua fala deixa escapar. Às vezes, a verdade aparece por
compromisso com a transformação, noutras, como é o caso, porque a realidade
institucional já não permite silêncio.
O
desafio que se coloca agora pode até ser retórico, mas é intrinsecamente
político e pedagógico, revisar profundamente o papel do orçamento público,
recolocar o Legislativo no lugar da deliberação e da fiscalização, e
reconstruir a política como espaço de projeto coletivo - palavra difícil de se
manter em um mundo alagado pela performance - e não de mera administração de emendas.
Sem
isso, continuaremos assistindo a aplausos ocasionais, vindos dos lugares mais
improváveis, enquanto a democracia segue funcionando no modo automático-caótico
de sua própria exaustão.
¨ Mais dores de cabeça
Sobram
razões para o Brasil, não apenas o governo, mas o país inteiro, alimentar
preocupações com o desenrolar da crise que prospera na Venezuela. Talvez nós
mais que outros latino-americanos, porque somos os vizinhos próximos, de
fronteiras longas e vulneráveis, afora consequências das relações políticas com
o regime de Caracas, que o Planalto cuidou de estreitar perigosamente nos
últimos três anos. Não temos como escapar das complicações, que apenas
começaram com o sequestro cinematográfico de Nicolás Maduro. Por que? Porque,
se caiu o ditador, mantém-se de pé a ditadura, que não se abalou, dadas as
limitações da oposição, lideranças contrárias amordaçadas ou presas, a imprensa
silenciada; mas ainda, e principalmente, porque os dominadores que acabam de chegar
sinalizam disposição de tolerar e conviver com a boa vontade dos dominados
submissos, que oferecem belos presentes: de imediato, 50 milhões de barris de
petróleo, restrições aos mercados hostis a Washington e garantia de que os
dólares que vão entrar retornarão logo aos Estados Unidos na compra de itens
indispensáveis. Nesse particular, os americanos, à sua maneira, fazem um
“negócio da China”, em contraposição aos chineses, sacrificados na sua melhor
fonte abastecedora de óleo... Tudo isso sob o olhar de mansidão dos generais
bolivarianos, de que tanto se orgulhava o ditador. Também lá eles preferem a
passividade e olhar de paisagem, quando chegam crises mais agudas.
Quanto
às preocupações nossas, a primeira é a possibilidade de novas fugas de
multidões descontentes, problema que já estamos enfrentando há algum tempo. Não
há como acreditar que milhares de refugiados venezuelanos, concentrados
principalmente em Roraima, tenham disposição de já afivelar as malas e voltar,
porque as Incertezas do outro lado da fronteira continuam enormes. Em meio ao
duvidoso, melhor não arriscar. E o custo social para o Brasil crescendo.
Um
pedaço das angústias também se justifica para o ano eleitoral, pois a crise
venezuelana vem trazendo sua contribuição para o quadro da polarização política
que estamos vivendo, e cada vez mais acentuada. Esquerda e direita são chamadas
a explicar os posicionamentos que adotaram diante de um fato tão relevante na
história do continente. Os governistas, para aproveitar a oportunidade, querem
mostrar que a América Latina – o Brasil em particular – tem o dever de apoiar,
com a força do voto livre, um vizinho violentado pelo mais forte do Norte. Até
porque, a fratura que dói na Venezuela é um risco que pode se estender por todo
o corpo latino-americano. Que o digam colombianos e cubanos, claramente
ameaçados. Nesse sentido, Brasília já deu um tom claro no discurso contra
futuras incursões da Casa Branca.
A
oposição a Lula adota o mesmo figurino, mas com costura diferente. Vai
trabalhar para manter viva a imagem fraternal do presidente com o ditador, além
de a ele atribuir responsabilidades numa tragédia que pode se prolongar por
muitos anos na região; prolongar longamente, porque Trump e seus porta-vozes
insistem em que não há prazos na execução das etapas programadas para a
normalização da política na Venezuela.
( A
intenção é manter viva, quase siamesa, a amizade com o ditador, para que isso
não caia no esquecimento do eleitor. Mas Lula, precavido, já não se refere a
Maduro, morto politicamente. Nem vai mais falar nesse nome. Veteranos
companheiros do Nordeste acham que ele está certo, e lembram a velha sabedoria
dos coronéis do Centrão e do sertão: defunto político a gente leva até a beira
da cova. Não entra nela..)
Fonte:
Por Gilberto Menezes Côrtes, no JB/Brasil 247

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