A
vida sem certidão de nascimento: 'Você é invisível, você não existe'
Muitas
pessoas encaram a certidão de nascimento — ou qualquer outro documento oficial
semelhante — como algo garantido, guardado em uma gaveta e raramente usado.
Mas,
para quem não possui esse tipo de documento, isso pode significar uma vida nas
sombras ou uma existência marcada pela incerteza.
Esse é
um problema global. Estima-se que milhões de pessoas no mundo vivam sem
nacionalidade formal, classificadas como apátridas.
No
Brasil, por exemplo, dados recentes do IBGE indicam que cerca de 2,7 milhões de
pessoas não têm certidão de nascimento — um número que ajuda a dimensionar como
a falta de documentação básica ainda é uma realidade concreta, inclusive em
países com sistemas civis consolidados.
No
mundo, essas estatísticas ganham rosto e história. Arnold Ncube, um
sul-africano de 25 anos, é uma dessas pessoas.
Por não
ter nenhum documento oficial, lavar carros nas vielas do bairro de Thembisa,
perto de Joanesburgo, é uma das poucas formas que ele encontrou para ganhar a
vida.
Arnold
nasceu em Joanesburgo e seu pai é sul-africano, o que lhe daria direito à
cidadania do país. Mas, quando tentou se matricular no Ensino Médio, percebeu
que não tinha certidão de nascimento.
Abandonado
pelos pais — o pai foi embora antes de seu nascimento e a mãe quando ele tinha
14 anos —, Arnold não conseguiu comprovar sua condição legal.
"É
doloroso", diz ele. "A gente fica praticamente invisível. Não existe.
É como se estivesse vivendo nas sombras. Não temos conta bancária, não
conseguimos nos candidatar a um emprego digno que permita ganhar a vida."
Ele
acrescenta que tenta se manter positivo, mas que isso é difícil.
"Quando
vejo meus colegas, eles terminaram os estudos. Eu não pude continuar estudando.
É muito duro. A depressão já foi minha amiga."
Arnold
faz parte de um grupo estimado em cerca de 10 mil apátridas que vivem na África
do Sul e que, embora tenham nascido no país, enfrentam dificuldades para provar
sua nacionalidade e acessar serviços públicos.
Não há
estatísticas oficiais sobre pessoas apátridas no país, pois elas tendem a ficar
fora dos registros do Estado. Por isso, os números se baseiam em estimativas de
organizações como a agência da ONU para refugiados, o ACNUR, e entidades de
defesa dos direitos civis.
Sem
cidadania, pessoas apátridas não conseguem obter documentos e têm dificuldade
para acessar serviços básicos, como educação e atendimento de saúde.
A
apatridia resulta de diversos fatores, entre eles entraves administrativos e
falhas na manutenção de registros. Por isso, é difícil avaliar o número real de
apátridas em muitas regiões do mundo.
Christy
Chitengu, advogada e defensora dos direitos humanos, também foi apátrida.
Ela só
obteve a nacionalidade sul-africana há três anos, com a ajuda da organização
Lawyers for Human Rights, que atuou gratuitamente em seu caso.
"Descobri
que era apátrida aos 17 anos. A diretora do meu colégio me chamou à sala dela e
disse que não tinha nenhum documento meu e que não entendia como eu tinha sido
admitida na escola", contou ela à BBC, perto de sua casa, no norte de
Joanesburgo.
"Nasci
em Joanesburgo, filha de dois pais estrangeiros [ambos do Zimbábue], e ao
nascer me deram uma certidão de nascimento sul-africana escrita à mão."
Mas as
autoridades sul-africanas exigem um certificado impresso.
Christy
conta que, quando descobriu que era apátrida, tentou obter a nacionalidade de
seus pais, mas já era tarde demais.
"Eu
não podia reivindicar a cidadania zimbabuense porque, na época, eu tinha 16
anos e não teria permissão para registrar meu nascimento de forma retroativa.
Além disso, eu teria que sair fisicamente da África do Sul para obter um
passaporte do Zimbábue e, sem nenhum documento para deixar o país, não me
deixariam voltar", explica.
A
África do Sul abriga um grande número de migrantes sem documentos, e
autoridades e grupos locais de autodefesa vêm tentando há anos combater a
imigração irregular.
Questionada
se conceder cidadania a crianças apátridas poderia ser visto como uma forma de
"recompensar" migrantes sem documentos que têm filhos na África do
Sul, Christy discorda.
"Acho
que cidadania não é uma recompensa. É um direito, para que alguém possa levar
uma vida digna e seja reconhecido como um ser humano", afirma.
"Se
olharmos por esse ângulo, percebemos que não temos nada a perder ao reconhecer
uma criança que, sem isso, não poderia frequentar a escola primária nem ter
acesso a cuidados de saúde."
Em
várias ocasiões, a BBC entrou em contato com o Ministério do Interior,
responsável pelas questões de imigração na África do Sul, para saber como o
governo lida com a apatridia, mas não obteve resposta.
A
apatridia não é apenas um problema local — é um enorme problema global.
Estima-se
que cerca de 4,5 milhões de pessoas no mundo sejam apátridas. Alguns
especialistas afirmam que esse número pode chegar a 15 milhões.
Segundo
especialistas, para enfrentar o problema, é necessário mudar políticas
públicas, incluindo permitir que refugiados registrem seus filhos no país onde
eles nascem e garantir às mães o direito de transmitir sua nacionalidade aos
filhos.
"Para
nós, a apatridia não é apenas uma questão jurídica, é uma questão ligada ao
direito ao desenvolvimento", afirma Jesus Perez Sanchez, que trabalha para
a agência da ONU para refugiados, o ACNUR.
"Uma
pessoa apátrida não consegue contribuir plenamente para o desenvolvimento do
país que a acolhe. Por isso, acreditamos que é importante, em nome da inclusão,
tratar todas as questões relacionadas à apatridia, para que essas pessoas à
margem da sociedade possam contribuir de forma plena para a sociedade e para a
economia."
De
volta a Thembisa, Arnold joga futebol com as crianças do bairro.
Após
anos de luta, ele agora conta com um advogado que o ajuda a obter os documentos
que comprovam que ele tem direito de estar ali.
Arnold
quer retomar os estudos e se formar em informática. Ele espera que esses
documentos abram as portas para um futuro melhor.
Fonte:
Por Mayeni Jones, correspondente para a África, reportando de Joanesburgo

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