Razão
dualista e universidade na América Latina
A
experiência histórica latino-americana impôs, desde cedo, um problema
recorrente à reflexão social: a coexistência persistente entre modernização
institucional e bloqueio estrutural da autonomia histórica. Ao longo do século
XX, esse problema foi enfrentado por diferentes vertentes críticas que
demonstraram que o subdesenvolvimento não constituía uma ausência de
desenvolvimento, mas o resultado histórico da inserção subordinada no
capitalismo mundial. Essa formulação permitiu romper com leituras evolucionistas
e denunciar a falsa universalidade das trajetórias centrais.
Contudo,
à medida que essa inserção subordinada deixou de ser instável e passou a se
consolidar como forma histórica relativamente estável, tornou-se insuficiente
tratar a dependência apenas como deformação econômica ou como etapa
transitória. A dependência passou a operar como princípio organizador durável
da vida social, estruturando não apenas a economia, mas o Estado, a
temporalidade social, as instituições e os regimes de produção do conhecimento.
É nesse
deslocamento que se afirma a noção de arquitetura da dependência. Ela não
designa um modelo econômico nem uma tipologia comparativa entre países, mas uma
chave interpretativa capaz de apreender a coerência interna entre diferentes
dimensões da vida social. Economia, política, cultura, universidade e saber não
aparecem como esferas autônomas que ocasionalmente se articulam, mas como
componentes de uma mesma forma histórica que produz sociedades modernas sem
autonomia histórica.
A
dependência, nesse sentido, não se apresenta como obstáculo externo a ser
removido por meio de reformas graduais ou políticas corretivas, mas como
princípio interno de organização que incorpora suas próprias contradições como
mecanismos de reprodução. A modernização deixa de ser promessa de superação e
passa a operar como técnica de estabilização da desigualdade.
No
interior dessa arquitetura, a razão dualista ocupou papel central. A oposição
entre moderno e arcaico, centro e periferia, atraso e progresso constituiu,
durante décadas, um instrumento crítico decisivo. Ela permitiu desmontar a
ideologia desenvolvimentista, revelar a heterogeneidade estrutural das
sociedades latino-americanas e demonstrar que o “arcaico” não era um resíduo
pré-capitalista, mas parte integrante do funcionamento do capitalismo
dependente.
A razão
dualista teve, portanto, força explicativa real ao denunciar a falsa
universalidade da modernidade capitalista e ao mostrar que a coexistência entre
formas avançadas e precárias não era transitória, mas estrutural.
Entretanto,
essa mesma razão encontrou seus limites históricos. À medida que a dependência
se consolidou como forma estável de organização social, o dualismo deixou de
operar prioritariamente como denúncia de uma transição inacabada. O arcaico
passou a desempenhar função estrutural na reprodução do moderno. A
informalidade, a precariedade, a desigualdade extrema e a fragmentação
institucional deixaram de sinalizar atraso a ser superado e passaram a integrar
o funcionamento normal do sistema.
Nesse
ponto, a razão dualista não desaparece nem perde relevância; ela se
ressignifica. De linguagem crítica orientada à superação histórica, converte-se
em racionalidade operacional da dependência, capaz de administrar a
coexistência entre excelência e precariedade como se esta fosse uma condição
natural e permanente.
A
ressignificação da razão dualista não deve ser compreendida como evento pontual
ou simples esgotamento teórico. Trata-se de um processo estrutural, lento e
cumulativo, que acompanha a estabilização da dependência como forma histórica.
Ela ocorre quando a crítica deixa de se articular a um horizonte efetivo de
transformação e passa a coexistir com a reprodução ampliada das mesmas
estruturas que denuncia.
O
dualismo permanece ativo, mas deslocado: deixa de apontar para a superação
histórica e passa a organizar cognitivamente a gestão da desigualdade, a
administração da precariedade e a normalização da fragmentação social.
Esse
processo está diretamente associado ao bloqueio do tempo histórico. A lucidez
crítica persiste, mas perde sua capacidade de se traduzir em projeto histórico.
O futuro deixa de operar como horizonte de transformação e passa a ser
permanentemente adiado, comprimido ou privatizado. O tempo social é capturado
por ciclos curtos, reformas sucessivas e expectativas interrompidas. O
resultado é uma sociedade altamente consciente de suas contradições, mas
estruturalmente incapaz de transformá-las.
A
incorporação das contribuições de Aníbal Quijano permite aprofundar esse
diagnóstico ao deslocar a análise da dependência para além da economia política
clássica. Ao formular a colonialidade do poder, Quijano demonstra que a
modernidade capitalista se organiza por uma estrutura de dominação que articula
exploração econômica, classificação racial, controle político e hierarquização
do saber.
A
dependência deixa, assim, de ser apenas relação entre economias nacionais e
passa a ser compreendida como forma civilizatória. A razão dualista ganha nova
inteligibilidade: a separação entre moderno e arcaico não é mero equívoco
analítico, mas produto histórico de uma matriz de poder que define quem pode
produzir conhecimento legítimo, quem pode governar e quem deve permanecer como
objeto de administração.
Nesse
sentido, a ressignificação da razão dualista ocorre também no plano
epistemológico. A contribuição de Boaventura de Sousa Santos demonstra que a
modernidade produz exclusões cognitivas estruturais. A monocultura do saber
científico e o epistemicídio revelam que a hierarquização do conhecimento é
parte constitutiva da arquitetura da dependência.
Saberes
que não se enquadram nos cânones da racionalidade moderna são desqualificados
antes mesmo de disputar legitimidade. A dependência atualiza-se, assim, como
dependência cognitiva, reforçando o bloqueio do tempo histórico por meio da
naturalização das hierarquias epistêmicas.
Embora
a arquitetura da dependência opere como forma histórica comum, sua
estabilização e a ressignificação da razão dualista não se dão de modo idêntico
em todas as formações latino-americanas. No México, a dependência se estabiliza
precocemente como forma funcional integrada ao capitalismo central, sobretudo
pela articulação orgânica com os Estados Unidos.
A razão
dualista se ressignifica cedo como racionalidade administrativa: a coexistência
entre modernização avançada e precariedade extrema deixa de ser pensada como
contradição histórica e passa a ser tratada como condição estrutural
permanente. O tempo bloqueado assume a forma de continuidade controlada, na
qual a mudança ocorre sem ruptura.
No
Chile, a ressignificação da razão dualista ocorre de maneira abrupta, associada
à reorganização neoliberal profunda do Estado e da sociedade. A dualidade
converte-se em racionalidade técnica explícita, utilizada para gerir a
coexistência entre excelência institucional e precarização generalizada. O
bloqueio do tempo histórico se expressa como fechamento radical do horizonte de
transformação: a crítica sobrevive, mas deslocada para fora da estrutura
decisória.
No
Brasil, a dependência assume forma particularmente instável. A razão dualista
permanece ativa por mais tempo como linguagem crítica, reaparecendo
ciclicamente em momentos de crise. Contudo, essa recorrência não se traduz em
ruptura estrutural durável. A ressignificação ocorre de modo difuso: a
dualidade é denunciada, mas também continuamente reabsorvida, naturalizando a
coexistência entre excelência e precariedade. O tempo bloqueado se manifesta
como repetição histórica.
Na
Argentina, a dependência se expressa por ciclos agudos de expansão e colapso. A
razão dualista reaparece de forma recorrente como denúncia, mas sem se
estabilizar como superação histórica. O bloqueio do tempo histórico assume a
forma da interrupção permanente: projetos são formulados, mobilizações ocorrem,
mas são sistematicamente interrompidos antes de se consolidarem como
transformação estrutural.
Em
todas essas formações, a universidade emerge como espaço sensível privilegiado
da ressignificação da razão dualista. Instituída como promessa de modernidade e
autonomia intelectual, ela se organiza segundo padrões eurocentrados de
validação do saber e avaliação acadêmica. Ao fazê-lo, incorpora a colonialidade
como racionalidade interna. A coexistência entre centros de excelência e
sistemas massificados e precarizados não constitui desvio, mas forma normal de
funcionamento da universidade dependente. A crítica persiste, mas encontra
limites objetivos para se traduzir em transformação histórica durável.
A
universidade permanece, assim, como um dos últimos espaços da crítica – ainda
que profundamente tensionada pela própria arquitetura que a constitui. Nela, a
lucidez sobre a dependência alcança níveis elevados, mas sob a forma de um
tempo histórico bloqueado, no qual a crítica resiste sem conseguir romper a
estrutura que a produz.
A
universidade latino-americana aparece, assim, não como exceção virtuosa nem
como instância redentora, mas como forma histórica sensível da própria
arquitetura da dependência. Nela se condensam, de modo exemplar, os efeitos da
ressignificação da razão dualista: a coexistência institucionalizada entre
excelência e precariedade, a dissociação entre lucidez crítica e capacidade de
transformação, a naturalização de hierarquias cognitivas sob a aparência de
neutralidade acadêmica. A universidade não falha apesar da dependência; ela
funciona precisamente segundo a racionalidade que a dependência estabilizou.
Nesse
sentido, sua condição não pode ser explicada por déficits de gestão,
insuficiências normativas ou desvios conjunturais. O que nela se manifesta é o
bloqueio do tempo histórico em sua forma mais acabada: elevada capacidade
reflexiva combinada com baixa potência de ruptura. A crítica persiste, circula,
se sofistica, mas encontra limites estruturais para se traduzir em projeto
histórico efetivo. A razão dualista, outrora linguagem de denúncia, opera agora
como princípio de organização da desigualdade institucional.
A
arquitetura da dependência se confirma, portanto, não apenas na economia ou no
Estado, mas no próprio modo como o conhecimento é produzido, validado e
hierarquizado. Ao transformar a crítica em componente funcional de sua
reprodução, a dependência converte a lucidez em limite histórico.
A
universidade permanece como um dos últimos espaços da crítica – não porque
esteja fora da arquitetura que a constitui, mas porque nela essa contradição se
torna irredutivelmente visível. É nesse ponto, e apenas nesse ponto, que se
revela a força histórica do diagnóstico aqui formulado: não há déficit de
consciência, mas um tempo bloqueado que impede a crítica de se tornar
superação.
Quando
a crítica sobrevive sem horizonte histórico, a dependência já venceu.
Fonte:
Por João dos Reis Silva Júnior, em A Terra é Redonda

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